UMA CONFERÊNCIA SOBRE ALIMENTAÇÃO1
Requer antes um curso de palestras do que uma palestra para tratar adequadamente, e em todos os seus aspectos, o assunto sobre o qual me convidastes a dirigir-me a vós. Pois é um tema que, sendo apropriadamente de natureza vegetal, possui muitas fibras radiculares, que penetram em vários estratos de conhecimento e experiência, e a sombra que projeta estende-se por uma vasta área do pensamento, relacionada tanto com o…
Requer antes um curso de palestras do que uma palestra para tratar adequadamente, e em todos os seus aspectos, o assunto sobre o qual me convidastes a dirigir-me a vós. Pois é um tema que, sendo apropriadamente de natureza vegetal, possui muitas fibras radiculares, que penetram em vários estratos de conhecimento e experiência, e a sombra que projeta estende-se por uma vasta área do pensamento, relacionada tanto com o futuro quanto com o passado.
Eu poderia, por exemplo, convidar a vossa atenção para a consideração da dietética humana à luz da história. Poderia apontar para a abertura do Livro cabalístico do Gênesis, cuja origem é indubitavelmente indo-egípcia, como evidência do ensinamento dos mistérios sagrados a respeito da natureza do alimento próprio ao homem em um estado não decaído; ou poderia citar-vos as célebres passagens nas quais Ovídio descreve a Idade de Ouro ou Arcádica, quando,
“contentes com o alimento que a natureza livremente dava, os homens eram felizes com o fruto das árvores e as ervas da terra, e não manchavam seus lábios com sangue.” E poderia ainda indicar-vos, como também Ovídio bem mostra no discurso que põe na boca do sábio samiano, como, com a odiosa prática de comer carne, vieram igualmente a do sacrifício sangrento e a da guerra agressiva,—uma tríade sombria, cujas relações mútuas em parte alguma são tão vigorosa e graficamente retratadas quanto na Ilíada de Homero. Mas, para não desejar cansar-vos com citações e referências, eu poderia lembrar-vos dos ensinamentos daquela mais pura e nobre escola da filosofia grega à qual Pitágoras deu seu nome, e que, por meio da influência de seus discípulos de uma época posterior, Porfírio e Jâmblico, tornou-se a mãe do neoplatonismo; eu poderia citar as cartas de Sêneca a Lucílio; o célebre Ensaio de Plutarco sobre o consumo de carne, e certas passagens da República de Platão, cujo principal expositor nesse diálogo é Sócrates; eu poderia falar do tratado de Tertuliano sobre a abstinência de carnes animais, no qual ele critica as observações de Paulo sobre o assunto; e de obras de significado semelhante das penas de Clemente de Alexandria e de Crisóstomo, o Boca de Ouro. Poderia recordar à vossa mente o inumerável exército de profetas, heróis, santos, eremitas e padres tanto do Oriente quanto do Ocidente, cuja prática, fosse como Magos, Terapeutas, Brâmanes, Budistas, Nazireus, Essênios, Ebionitas ou Gnósticos, era idêntica à da escola moderna dos Acreofagistas. Ou, deixando a Antiguidade, eu poderia falar-vos de Gassendi, Ray, Cheyne, Antonio Cocchi, Rousseau, Wesley, Nicholson, Lambe, Swedenborg, Gleizes, Graham, Lamartine, Struve, Shelley o rei dos poetas, e muitos outros nomes ilustres ou bem lembrados.
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1 Esta palestra foi proferida por Anna Kingsford em 24 de abril de 1882, perante os estudantes do Girton College, Cambridge; “E a eles dedicada com sincera consideração.” Foi impressa como um panfleto, cuja segunda edição foi publicada em 1884, pela Sociedade Vegetariana (Manchester).
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Mas, como meu tempo é breve e meu tema longo, devo contentar-me com apenas uma escassa indicação do testemunho prestado às doutrinas de nossa Escola pelos grandes e talentosos de tempos passados e presentes, e passar a abordar alguns pontos de interesse mais prático e imediato.
Direi primeiro algumas palavras em relação aos aspectos anatômicos, fisiológicos e químicos da dietética humana; em seguida, falarei das implicações econômicas, sanitárias e estéticas da questão; por fim, apresentarei algumas sugestões que podem ajudar-vos a formular um código mais completo e satisfatório de ética social e pessoal do que aquele comumente enunciado dos púlpitos e tribunas modernas.
Quer adotemos a teoria dos evolucionistas ou a dos criacionistas — e posso desde já dizer que sustento a primeira, por conter a única explicação inteligível e científica da ordem e dos fenômenos naturais — devemos igualmente admitir a classificação lineana dos animais, pela qual o homem é colocado na mesma série que a família dos símios. Todas as características da criatura humana são igualmente as dos primatas superiores, e em particular do orangotango, do gorila e do chimpanzé. Seu crânio, suas convoluções cerebrais, seus dentes e morfologia dentária, a ação de suas mandíbulas e seus apêndices glandulares, seu estômago, fígado e canal alimentar, suas mãos adaptadas para colher frutos e escalar árvores — tudo isso, refinado e desenvolvido, é distintamente humano em caráter, e difere em todos os aspectos dos atributos carnívoros dos animais predadores, por um lado, e, por outro, dos dos herbívoros ruminantes.
Ora, a família dos símios, incluindo o homem, é naturalmente frugívora. O alimento dos antropoides provém de produtos de árvores e grãos, e embora alguns da tribo sejam grandes consumidores de ovos e caçadores de insetos, essas práticas são apenas incidentais, e devem-se claramente, especialmente no que se refere a estas últimas, à curiosidade e ao gosto pela travessura que caracterizam tanto o macaco quanto o homem selvagem. Em nenhuma coleção zoológica de que eu tenha notícia o macaco ou o símio recebe alimento de carne, ou mesmo produtos de origem animal. As rações servidas diariamente a essas criaturas no Jardin des Plantes, em Paris, e nos jardins da Sociedade Zoológica de Londres, consistem em arroz, batatas, maçãs, pão e salada. Pouchet, Owen, Cuvier, Lineu, Lawrence, Bell, Gassendi e Flourens concordam todos em atribuir ao homem uma natureza frugívora. Flourens afirma:
“O homem não é nem carnívoro nem herbívoro. Ele não possui nem os dentes dos ruminantes, nem seus múltiplos estômagos, nem seus intestinos. Se considerarmos esses órgãos no homem, devemos concluir que ele é por natureza frugívoro, como o macaco.”
Ora, o aparelho digestivo da família à qual o homem pertence pode, de modo geral, ser dividido em três receptáculos e laboratórios distintos, a cada um dos quais corresponde uma função específica. Esses três departamentos são o estômago, os intestinos e o fígado, e a cada um corresponde uma divisão química particular das substâncias alimentares, conhecidas pela ciência moderna, respectivamente, como alimentos nitrogenados, gordurosos e amiláceos. O primeiro grupo, os alimentos nitrogenados, é quádruplo em constituição, contendo carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio, com traços de enxofre e fósforo. Compostos nitrogenados podem ser obtidos tanto de fontes vegetais quanto animais, e suas formas são conhecidas como albumina, fibrina, caseína, gelatina e condina. Nos vegetais, encontram-se principalmente nas sementes; nos animais, no tecido muscular.
As três primeiras substâncias — albumina, fibrina e caseína — aparecem primariamente no reino vegetal, e são conhecidas pelos químicos como substâncias proteicas. Por esse termo entende-se que, pela ação do calor e de um álcali, essas três formas de matéria nitrogenada fornecem uma nova substância chamada proteína, produzida no processo apenas por transformação, e esse fato serve para distingui-las da gelatina e da condina, produtos de origem animal que, embora nitrogenados, não são capazes de produzir proteína. Albumina, fibrina e caseína, idênticas em ambos os reinos orgânicos quanto à natureza e propriedades, diferem ligeiramente entre si.
A albumina contém uma proporção considerável de enxofre e fósforo, e existe tanto no estado solúvel quanto no coagulado, sendo este último devido à aplicação de calor acima da temperatura ordinária. Ela constitui a substância conhecida como “clara de ovo”, que quando crua é fluida e se torna sólida ao ser submetida ao cozimento. Está presente em todos os cereais, em todas as sementes e nos sucos da maioria dos vegetais herbáceos. A fibrina difere da albumina por sua característica tenacidade e pelo fato de coagular sem calor. Mais enxofre está presente na fibrina do que na albumina. No sistema animal, a fibrina é o material que forma a base do tecido muscular e a substância espessante do sangue. Nos vegetais, constitui a base do glúten — a parte firme das sementes e grãos. A caseína não coagula espontaneamente, como a fibrina, nem pelo calor, como a albumina. Contém enxofre, mas não fósforo. Pode ser obtida do leite, e portanto de todos os compostos lácteos, bem como de ervilhas, feijões e outras sementes leguminosas.
Não há muito tempo, a visão adotada pelos cientistas sobre o uso dos alimentos proteicos era muito diferente daquela que observações e investigações recentes parecem ter estabelecido como correta. De acordo com a hipótese de Liebig, a matéria nitrogenada (ou produtora de proteína) era considerada a única e exclusiva fonte de força muscular e nervosa. Sustentava-se que a matéria nitrogenada, após ser incorporada ao tecido muscular e passar por essa condição, se desintegrava no organismo em duas partes constituintes, uma das quais era eliminada como resíduo, e a outra retida para a produção de calor e energia. Assim, acreditava-se que todo alimento devia tornar-se tecido organizado antes de poder contribuir para a produção de força; e, sendo os tecidos do corpo consumidos na manifestação da atividade funcional e esgotados por sua metamorfose em força, a matéria nitrogenada deveria ser constantemente ingerida para repor essa dupla perda e gasto.
Embora parcialmente verdadeira, essa hipótese errou ao atribuir aos alimentos nitrogenados tanto a função de fornecer energia quanto a de reparar os tecidos. Na realidade, a força produzida pela ação muscular não procede, como supunha Liebig, da destruição do tecido muscular; essa suposição foi amplamente refutada pela análise das matérias residuais eliminadas pelo organismo durante o esforço muscular, bem como por cuidadosas pesquisas realizadas por numerosos investigadores, baseadas tanto em experimentos quanto em cálculos aritméticos.
A verdade parece ser que a propriedade dos alimentos proteicos é, eminentemente, servir como material para o desenvolvimento e renovação dos diversos tecidos e secreções do organismo. Como há desgaste contínuo nos tecidos muscular, nervoso e glandular, e como uma grande quantidade de secreções é constantemente despendida nos processos vitais, é de grande importância que se ingira diariamente alimento nitrogenado suficiente para compensar essas perdas e reparar os elementos substanciais do organismo.
Todos os vários grupos de alimentos nitrogenados são digeridos no estômago por meio do suco gástrico, uma secreção de reação ácida, cujos elementos ativos são um fermento solúvel chamado pepsina — pelo qual os alimentos albuminosos são convertidos em peptonas — e um ácido, muito semelhante em natureza e características ao produto mineral conhecido como ácido clorídrico ou muriático. Os efeitos do suco gástrico sobre os três principais grupos de alimentos nitrogenados, a saber, albumina, fibrina e caseína, diferem ligeiramente em detalhes, mas sob sua influência todos são liquefeitos, dissolvidos, transformados e tornados aptos para a assimilação. Esse processo digestivo é grandemente auxiliado pelo calor animal e pela ação mecânica estabelecida durante a operação nas próprias paredes musculares do órgão, que, como todo outro órgão do corpo vivo, é inteligente em suas funções e toma parte ativa nas atividades da vida. Do estômago, o alimento liquefeito, ou quimo, passa para o próximo departamento digestivo, onde, se necessário, é ulteriormente elaborado, e no qual se inicia o processo de absorção.
Os alimentos nitrogenados de uso comum neste país são mais frequentemente derivados do reino animal do que do vegetal. Eles compreendem leite e queijo, ovos, carnes magras, aves, caça e peixe; feijões, haricots, ervilhas, lentilhas, todos os cereais, nozes e algumas ervas. Desses diversos materiais, a proporção de nitrogênio fornecida pela carne, aves, caça e peixe é muito menor do que a fornecida por igual quantidade de queijo e matéria vegetal. A carne bovina e ovina, por exemplo, fornecem em média 18 por cento de nitrogênio; o porco e o presunto, 8 por cento; o peixe branco, 17 por cento; enquanto os queijos variam em valor nitrogenado de 25 a 44 por cento, e a família dos feijões de 25 a 30 por cento. Há, portanto, a priori, uma vantagem maior em valor nitrogenado a ser obtida de uma determinada quantidade de alimento vegetal e lácteo do que da mesma quantidade de carne.
Mas há outra consideração, importante para o ser humano que deseja não apenas que seu alimento seja nutritivo, mas também que seja puro. Os comestíveis de todo tipo, e em particular os alimentos nitrogenados, contêm, além da matéria nutritiva, elementos impróprios à assimilação, destinados a serem rejeitados pelo organismo como resíduos ou “cinzas”. Esses elementos podem ser divididos em duas categorias: substâncias não nutritivas por sua natureza, mas não impuras nem viciadas em constituição, como a celulose e a fibra lenhosa das plantas e de todos os produtos vegetais; e substâncias ao mesmo tempo não nutritivas e viciadas, como as contidas nos sucos das carnes.
O tecido animal mais fino e saudável é sempre permeado de sangue, pois é impossível, a não ser por processos que o arruinariam completamente como alimento, separar o sangue do material sólido em toda parte atravessado pelos vasos circulantes. Carne e sangue são, portanto, virtualmente inseparáveis, e seus elementos constituintes estão continuamente se interpenetrando. Ora, como o sangue é o veículo dos resíduos do corpo, assim como o meio de sua reconstituição, ele contém sempre dois tipos de materiais, dos quais uma parte representa nutrição e outra impureza e decomposição. Ao comer carne animal, consumimos, portanto, além da matéria saudável e nutritiva momentaneamente fixada no tecido, certas substâncias em processo de expulsão, produtos em decomposição retornando ao sangue e destinados à eliminação do corpo do animal pelos diversos canais apropriados aos resíduos. Essas matérias, em processo de “metamorfose retrógrada”, são conhecidas pelos químicos por nomes como creatina, creatinina, xantina, protagon, tirosina, sarcosina, ácidos inosico, fórmico e butírico, e assim por diante.
Não falo agora dos inúmeros perigos e associações repugnantes ligados ao consumo de carne doente. Esses serão abordados quando tratarmos das considerações sanitárias de nosso tema. Desejo aqui apontar quais impurezas e produtos degenerados são inevitavelmente consumidos por todo creófago, por mais exigente, cuidadoso ou delicadamente servido que seja.
Assim como o estômago está fisiologicamente relacionado à digestão dos compostos nitrogenados, também o intestino e o fígado o estão em relação aos alimentos gordurosos e amiláceos. Esses alimentos diferem dos nitrogenados em sua constituição, que, em vez de quádrupla, compreende apenas três elementos — carbono, hidrogênio e oxigênio. As substâncias gordurosas são chamadas pelos químicos de hidrocarbonetos; e os amidos e açúcares, de carboidratos. O primeiro grupo contém carbono, hidrogênio e uma pequena quantidade de oxigênio; o segundo compreende carbono, com hidrogênio e oxigênio na proporção exata de dois volumes de hidrogênio para um de oxigênio, H₂O — a fórmula da água. Aos hidrocarbonetos pertencem todos os óleos vegetais, obtidos de sementes, nozes, caules etc., e todas as gorduras animais — manteiga, banha, sebo e gordura de assado. Aos carboidratos pertencem substâncias obtidas — com uma única exceção — apenas do reino vegetal: amido, açúcar, goma, geleia de frutas e celulose.
A experimentação moderna em física, auxiliada pela aplicação da análise química, demonstrou que, assim como os alimentos nitrogenados correspondem ao desenvolvimento e renovação da matéria viva, os alimentos carbonáceos, de ambos os grupos acima mencionados, correspondem à produção, no organismo vivo, de calor e, consequentemente, de força — sendo o calor e a força mutuamente convertíveis. E embora, do ponto de vista químico, seja necessário distinguir entre hidrocarbonetos e carboidratos — sendo a proporção de oxigênio uniformemente maior nestes últimos do que nos primeiros — os usos fisiológicos e o caráter dos dois grupos podem ser considerados idênticos. Ambos passam pelo estômago sem alteração, ambos são digeridos no intestino delgado, ambos parecem ser finalmente assimilados sob a mesma forma, e ambos estão encarregados da função de produção de calor e força.
As substâncias gordurosas — hidrocarbonetos — consistem, quimicamente, de um princípio que possui propriedades ácidas, chamado ácido graxo, em combinação com um radical. Um “radical”, na linguagem química, é um corpo composto que forma um grupo molecular capaz de agir como um corpo simples em combinação, e transferível de uma combinação para outra em troca de um ou mais átomos de hidrogênio ou de seus equivalentes.
As gorduras, sob as quais, naturalmente, se incluem os óleos, são decompostas por álcalis e por certos fermentos contidos nos sucos do intestino delgado. Esses sucos são três — o intestinal, secretado pelas pequenas glândulas do próprio intestino; o pancreático, secretado pelo pâncreas; e a bile, secretada pelo fígado. Esta última secreção, contudo, parece não tomar parte ativa na digestão; e, embora os fisiologistas tenham por muito tempo discutido sua função, a tendência geral agora é considerá-la destinada a desempenhar antes o papel de ajudante de cozinha do que de cozinheiro no departamento culinário em que atua. Isto é, enquanto o processo de digestão está em curso no intestino, a bile não entra em ação; mas quando o trabalho dos outros sucos está quase terminado — quando o endotélio ou as células superficiais que revestem o intestino e participam do ato de absorção começam a se desprender e descamar — então a bile aflui, remove essas células deterioradas, limpa todo o laboratório, renova sua superfície e põe tudo em ordem para novo trabalho. Assim, ela impede a fermentação pútrida do conteúdo intestinal e repara o revestimento mucoso do canal alimentar.
Mas à secreção glandular intestinal, e especialmente ao suco pancreático, é confiada a operação do processo digestivo. A principal parte desse processo, a emulsificação de todas as gorduras e óleos, é realizada quase exclusivamente pelo suco pancreático, uma secreção alcalina que flui para o intestino imediatamente após a chegada do alimento, e cujo princípio ativo é uma mistura de três fermentos particulares. A gordura é assim desintegrada e dividida em glóbulos muito minúsculos, como os contidos no leite, e nessa condição é absorvida pelos pequenos tubos celulares projetantes que revestem o intestino.
Sobre o amido e outras matérias amiloides, compreendidas sob o termo carboidratos, e pertencentes, portanto, ao segundo grupo de alimentos sólidos não nitrogenados, a ação dos sucos intestinais é igualmente intensa. Embora estejam destinadas a sofrer sua transformação final em outro local, é no intestino que se convertem em açúcar, o qual, passando em virtude de sua difusibilidade para a corrente circulatória dos vasos sanguíneos, é assim conduzido pelo sistema porta ao fígado. Não está precisamente determinado por qual processo fisiológico essa matéria sacarina se torna, por fim, assimilável pelo organismo, mas que o processo, quaisquer que sejam seus detalhes, ocorre no fígado, e que, em última instância, é sob a forma de matéria gordurosa que todo material açucarado é utilizado no corpo humano, parecem, segundo os autores modernos, fatos indubitáveis.
Dos hidrocarbonetos ou gorduras, os mais valiosos, mas infelizmente os menos conhecidos e utilizados neste país, são derivados de fontes vegetais. Estes são muito mais digestíveis e mais apropriados como alimento do que as gorduras animais, em parte por causa da pureza assegurada e da ausência de doenças em sua origem, e em parte por sua natureza mais sã e saudável, menos sujeita à decomposição e alteração do que as gorduras obtidas de animais. O óleo vegetal mais conhecido é o de oliva, obtido do fruto por pressão. Na França, esse óleo é amplamente substituído pelo huile d’oléette, extraído das sementes de papoula, e que, sendo insípido, é muito valioso para fins culinários.
As sementes do girassol produzem 40 por cento de óleo, e óleos de qualidade muito fina também são obtidos em grandes quantidades de linhaça, sementes de algodão, mostarda, colza, gergelim, das sementes do pepino comum e de outros grãos. Óleos de sementes são amplamente utilizados no Oriente, onde os costumes religiosos nacionais impedem o uso de gorduras animais. O óleo de palma é, como o de oliva, um produto do fruto, sendo obtido do pericarpo de uma palmeira que cresce na África tropical. Todas as nozes, de qualquer espécie, contêm óleo em grandes quantidades, e algumas, como a amêndoa e o coco, são amplamente utilizadas no comércio por causa de sua riqueza nesse aspecto. Óleos vegetais sólidos, ou manteiga, podem ser obtidos de várias espécies de plantas indianas e africanas. As sementes da “árvore da manteiga” indiana contêm uma substância que, no estado fresco, se assemelha à manteiga animal, mas que endurece gradualmente e adquire consistência semelhante à do sebo. “Essa manteiga”, diz Mungo Park em suas Viagens à África, “além da vantagem de conservar-se doce durante todo o ano sem sal, é mais branca, mais firme e, ao meu gosto, de sabor mais rico do que a melhor manteiga feita de leite de vaca.” O Dr. Pavy nos diz que o cultivo e a preparação desse produto parecem estar entre os primeiros objetivos da indústria africana, constituindo um importante artigo do comércio nacional.
Os carboidratos, com uma única exceção, vêm até nós do reino vegetal. A exceção é a lactina, ou açúcar do leite. É verdade que uma substância análoga ao amido é encontrada no fígado, e sob certas condições patológicas no tecido da carne, mas, para fins alimentares, essas fontes não estão disponíveis. O açúcar é de três tipos: açúcar do leite (já mencionado), açúcar de cana — a variedade cristalizada de uso comum, extraída de caules e raízes — e açúcar de uva, obtido de todos os tipos de frutas. O mel também é um produto vegetal, sendo recolhido das flores pelos insetos cujo alimento ele constitui.
Parece que, no organismo humano vivo, o açúcar é mais prontamente assimilável do que a maioria das substâncias; e, se as conclusões dos fisiologistas são confiáveis, ele desempenha um papel tão necessário nos processos vitais que, como observa o Dr. Edward Smith, “pode-se duvidar que a perda de qualquer elemento alimentar fosse sentida de forma tão aguda quanto a do açúcar. Ele entra universalmente nas dietas de todas as classes da humanidade em todos os lugares.” De fato, a fisiologia demonstrou que o açúcar de uva, sob cuja forma o açúcar de cana e todos os compostos sacarinos são assimilados, desempenha no corpo vivo certas funções indispensáveis além da produção de calor e força. Ele estimula e auxilia os processos digestivos, fornece abundante quilo e provavelmente estimula a secreção das glândulas salivares, sempre mais abundante e necessária nos animais que se alimentam de frutas e grãos do que nos mamíferos predadores. O Dr. Playfair, em suas dietas, ao atribuir à matéria nitrogenada apenas quatro onças e às substâncias gordurosas duas onças, considera os carboidratos — amido e açúcar — necessários na proporção de dezessete ou dezoito onças diárias.
As substâncias amiláceas são geralmente descritas como alimentos farináceos. Os artigos dessa natureza principalmente em uso entre nós são sagu, tapioca, mandioca, araruta, batata, sêmola, arroz, vermicelli, macarrão e todas as farinhas e feijões em geral. Deve-se ter em mente que esses alimentos, especialmente as farinhas de grãos e de feijões, representam também as principais fontes de alimento nitrogenado. O trigo comum seco contém, em média, 77 por cento de carboidratos e de 15 a 20 por cento de matéria nitrogenada. Farinha de cevada, farinha de centeio, farinha de quinoa, trigo-sarraceno, milho e aveia fornecem uma média de cerca de 70 por cento de carboidratos e 12 de nitrogênio, sendo o restante constituído de matéria oleosa e sais.
O tipo de todos os alimentos humanos — o pão — vem até nós do reino vegetal, e o fato de que esse alimento é popularmente considerado o “sustento da vida”, e o equivalente poético de todas as formas possíveis de matéria nutritiva, está em perfeita concordância com a avaliação da ciência; pois, assim como o fruto, ou grão — que botanicamente são idênticos — é o produto mais altamente vitalizado, solarizado, puro e essencial da vida orgânica, também o alimento que é composto de grão é o mais precioso para o organismo humano. No grão de trigo estão contidos todos os elementos necessários para o cumprimento da dupla função da alimentação da qual já falei. As células da parte central do grão contêm amido, pelo qual se produzem força e calor; as células sob a casca contêm substância nitrogenada, pela qual os tecidos são construídos; e nas camadas externas encontram-se os fosfatos e outros materiais minerais que entram na constituição do organismo animal. O grão de trigo é, assim, um resumo microcósmico das várias classes de alimento com as quais a química fisiológica nos familiarizou.
Assim, é evidente que do reino vegetal derivam as melhores e mais puras formas de alimentação humana. Esse reino não apenas nos fornece abundantemente os agentes de calor e trabalho, cujas fontes animais são totalmente inadequadas para suprir nossas necessidades, mas também nos oferece alimento de caráter nitrogenado, infinitamente mais saudável, mais limpo e mais rico em valor do que a carne de qualquer animal ou ave. Por essas razões, entre muitas outras, parece evidente que, nas operações da evolução normal, a vida vegetal deve em toda parte preceder a vida animal; e que os grupos carnívoros desta última devem ser considerados antes como resultado de uma degradação ou retrogressão no processo de desenvolvimento natural — devido a acidentes ocasionais — do que como o resultado de seu progresso ordenado.
Não tenho tempo, diante dos muitos assuntos importantes que exigem consideração, de entrar na questão da relação do alimento com os recursos nacionais. É uma questão de profundo interesse e importância para o economista político, o agricultor, o proprietário, o arrendatário camponês e o reformador filantrópico, e requer um tratado para expor suas múltiplas implicações. Mas, deixando esse tema momentoso de lado, a questão da economia alimentar é interessante do ponto de vista social e doméstico, assim como do nacional. Grande parte do peso da pobreza, que nos maiores centros pressiona tão severamente as classes trabalhadoras, seria removida se um sistema mais barato de alimentação fosse introduzido em seus lares.
Acaba de ser demonstrado que muitos tipos baratos de alimentos vegetais contêm uma percentagem de matéria nutritiva, tanto nitrogenada quanto carbonácea, muito superior àquela que pode ser obtida de cortes caros de carne, cujo desperdício no preparo culinário varia de um terço a metade do peso original. Um gasto de um xelim em aveia, ervilhas, lentilhas ou feijões compra tanta nutrição quanto cinco xelins gastos em carne de açougue. Uma ideia da imensa economia que poderia ser realizada por um uso e distribuição mais criteriosos dos alimentos do que os atualmente em vigor pode ser obtida a partir do cálculo do Sr. Hoyle, de que, se as seis milhões de famílias do Reino Unido reduzissem seu consumo de carne de açougue em apenas meio quilo por semana, isso representaria uma economia de dez ou mais milhões de libras esterlinas por ano.
Se há uma lição moral a ser extraída das estatísticas relativas às despesas domésticas, ela é uma que diz respeito de modo eminente aos conselhos escolares nacionais. Que as autoridades que têm em suas mãos a orientação da geração nascente, e portanto o futuro imediato do país, assumam a questão do abastecimento alimentar e da economia doméstica de forma prática, e ensinem aos meninos e meninas sob seus cuidados como tirar o melhor proveito dos salários que ganharão quando se tornarem homens e mulheres. Que as crianças do povo sejam ensinadas sobre os valores dos alimentos e os elementos da química orgânica — um tipo de aprendizado que lhes seria de muito mais utilidade prática do que muito daquilo que os “padrões” atualmente exigem, e cujos resultados seriam, no melhor sentido, produtores de civilização e prosperidade.
E que se dê, além disso, atenção à instrução das meninas na ciência e nos recursos da economia doméstica, com especial referência à arte negligenciada da culinária vegetal e à preparação de pratos saborosos e apetitosos a partir de materiais baratos. Em geral, os pobres, e mesmo as classes médias, na Inglaterra, não têm ideia de culinária aplicada a qualquer outro material que não seja a carne animal. Batatas cozidas e repolho, ou batatas “assadas sob o assado”, expressam o limite das noções populares a respeito dos alimentos vegetais. E, na proporção dessa limitação de recursos nesse aspecto, a saúde e os bolsos do povo sofrem.
Há muito mais perspicácia e economia demonstradas quanto à escolha dos alimentos entre as classes camponesas do continente. Na Suíça, Alemanha, Noruega, Itália, Espanha, Holanda, Bélgica e França, a carne raramente é vista nas mesas dos trabalhadores agrícolas, e a omelete, o queijo caseiro, o ensopado de macarrão, a olla podrida, o pot-au-feu, tomam o lugar do indigesto pedaço de carne de porco, da torta de carne ou da impura dobradinha, que neste país consomem os rendimentos da família e impedem gastos com necessidades reais. Por falta da instrução adequada, que poderia ser dada nas escolas nacionais, mas da qual, infelizmente, os próprios instrutores carecem, os pobres são universalmente levados a acreditar que a principal fonte de todo alimento digno desse nome se encontra na carne de açougue, e, para obter esse desiderato, sacrificarão em um único dia uma quantia que, se gasta com conhecimento, bastaria para o conforto de uma semana.
Não é tomando, ano após ano, mais de nossas terras agrícolas e de trabalho, e convertendo-as em pastagens para criação de gado, que aumentaremos a prosperidade nacional ou o bem-estar material das famílias. Tais meios trazem consigo três tendências inevitáveis e diretas ao mal, das quais a primeira é aumentar as chances de epidemias no gado, pelo excesso de animais e pela alimentação e criação artificiais dos animais de fazenda para o mercado — ambas fontes fecundas de perigo, especialmente no que diz respeito à produção de entozoários, ou afecções verminosas, cujas variedades entre os animais confinados são muito numerosas. A segunda tendência maléfica é lançar no desemprego um grande número de trabalhadores agrícolas e despovoar o campo pela diminuição da quantidade de alimento disponível produzido, fomentando assim a miséria e provocando emigração forçada. E o terceiro mal consiste na multiplicação de matadouros, mercados de carne, depósitos de vísceras e peles, curtumes e muitas ocupações ofensivas e insalubres ligadas ao ofício do açougueiro nas proximidades das grandes cidades, diminuindo enormemente as belezas e os prazeres da vida civilizada e aumentando proporcionalmente seus desconfortos e os riscos de febres infecciosas, contágios zimóticos e doenças decorrentes da decomposição da matéria animal.
Chegamos, assim, à consideração de alguns fatos relacionados ao aspecto sanitário da creofagia.
O Dr. Creighton, dirigindo-se ao Congresso Médico de 1881 sobre o tema “Doenças comunicadas ao homem pelo fornecimento de carne e leite”, disse:
“Um dos motivos de nossa apreensão neste assunto é que o tubérculo, ou como é chamado, doença perolada, é bastante comum nas espécies de animais nas quais confiamos tão implicitamente — poder-se-ia quase dizer, tão cegamente — para grande parte de nosso alimento. ... A doença é hereditária e crônica, e pode estar presente durante anos no corpo de um animal sem produzir sintomas. As formações características da doença são às vezes encontradas em animais que foram abatidos em condição aparentemente perfeita. Mas a doença, em sua forma mais grave ... é encontrada principalmente em vacas leiteiras. ... Diz-se que os estábulos nas grandes cidades ou em suas proximidades contêm a maior proporção de animais doentes; o confinamento durante todo o ano, a alimentação artificial, a falta de ar fresco e de luz solar, tudo contribuindo para o desenvolvimento da doença. As vacas são ordenhadas enquanto for lucrativo fazê-lo, e então são vendidas fora do rebanho, provavelmente para o açougueiro. ... Sem adotar estimativas alarmistas ... não há hesitação em concluir que o leite de vacas em estado mais ou menos avançado de doença tuberculosa está constantemente sendo consumido tanto por crianças quanto por adultos. ... Quanto à carne, há os gânglios linfáticos e as vísceras, e partes inferiores da carcaça, como o diafragma, ou ‘aba’, que são especialmente suscetíveis de ter nódulos tuberculosos aderidos a eles ou mais ou menos intimamente misturados com eles. Essas partes inferiores do animal são vendidas a baixo preço aos pobres, e não há preconceito popular nem legislação que impeça a venda de carne tuberculosa. ... Há dois dias enviei uma pessoa de confiança a certos matadouros em Londres, com instruções para me trazer amostras de nódulos perolados de tantos animais quantos pudesse encontrar. Ele trouxe amostras de quatro vacas velhas que foram abatidas em sua presença. Os pulmões estavam cheios de cavidades purulentas; a carne seria vendida a cerca de quatro pence por libra para ser transformada em salsichas. Não há, portanto, dúvida alguma de que a espécie de animais domésticos em que tanto confiamos — a ponto de bebermos uma de suas secreções, comermos sua carne e até suas vísceras — é uma espécie amplamente contaminada com doença tuberculosa. Isso por si só já é suficiente para causar inquietação... Em 22 de julho de 1881, tive a oportunidade de assistir a uma reunião do Congresso Veterinário Nacional, e ouvi de um cirurgião veterinário de Peterborough um relato que evidenciava o valor das provas atuais. Uma vaca, que ele sabia profissionalmente estar em estado avançado de tuberculose, foi vendida por £5; o comprador manteve a vaca para fornecer exclusivamente leite e manteiga à sua família. Desde então, a esposa do homem e um de seus filhos morreram de tuberculose rápida, e o próprio homem...”
No decorrer da discussão que se seguiu ao artigo do Dr. Creighton, o Dr. A. Carpenter observou que havia sido demonstrado por evidências apresentadas em um tribunal que noventa por cento dos animais abatidos para o Mercado Metropolitano de Carne estavam mais ou menos infectados com tubérculo. Mostrou-se também que isso era quase universal no caso de vacas que haviam se tornado estéreis. ... Carne e leite de animais doentes não poderiam ser saudáveis; e, enquanto os animais fossem mantidos em estábulos fechados e mal ventilados, a doença proliferaria entre eles. Chegará o tempo, pensava ele, em que serão mantidos da maneira que a natureza designou para eles, isto é, ao ar livre.
Essa última observação do Dr. A. Carpenter é certamente perspicaz, mas implica necessariamente uma vasta redução na quantidade de carne e leite consumidos. Pois os “pastos abertos” deste país não sustentariam gado suficiente, nas condições naturais de que ele fala, para atender a um quinto da demanda atual por alimento animal.
Na mesma seção do Congresso, o Sr. F. Vacher apresentou uma comunicação sobre “A influência de vários artigos de alimentação na propagação de doenças parasitárias, zimóticas, tuberculares e outras.” Corroborando o Dr. Creighton, ele disse:
“Os alimentos que, por si só, podem transmitir suas próprias doenças aos indivíduos que os ingerem são necessariamente a carne e o leite, ou seus derivados. Há abundantes evidências em apoio à opinião de que a febre aftosa pode ser transmitida ao homem por meio do leite, assim como a tuberculose; e, quanto à carne, há evidência de que uma doença específica pode ser comunicada ao homem pela ingestão de carne contaminada com febre esplênica ou doença antracóide, e que a erisipela, sintoma comum em muitas doenças animais, pode ser transmitida ao homem por meio da carne... Outras doenças podem ser transmitidas por meio de carne infectada por entozoários.” 1
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¹ “...A evidência que se acumula rapidamente não deixa dúvida quanto à natureza da enfermidade. A ocorrência de um caso desse tipo em uma casa pequena, e onde nenhuma precaução foi tomada, torna fácil a propagação da doença da maneira sugerida pelo Dr. Robertson. O número de casos na vizinhança continuou a aumentar, apesar de todas as precauções adotadas, além do fechamento das escolas. A carne é o único meio pelo qual o Dr. Robertson pode supor que a doença foi transmitida em vários dos casos; em outros, a negligência deliberada do público, mesmo após ter sido plenamente advertido do perigo de reuniões públicas e encontros privados, foi uma causa fecunda de sua propagação. Em outra aldeia, ocorreu um grande número de casos de escarlatina, e o responsável pela saúde tem fortes razões para suspeitar da carne de açougue como meio pelo qual a infecção foi disseminada. As circunstâncias aqui foram quase idênticas às do primeiro surto. O primeiro caso ocorreu na casa de um açougueiro; foi leve e, a princípio, não reconhecido pelos pais; ocorreu intensa descamação, e a criança foi autorizada a circular livremente por toda a propriedade.” — British Medical Journal, 15 de abril de 1882.
“Surto de febre tifóide em um hospital. — Nos últimos dias, o Hospital de Leicester foi palco de um surto de febre tifóide, pelo qual não menos de dez assistentes, enfermeiras e empregados foram prostrados, e dois outros morreram. O Dr. Buck, oficial de saúde, iniciou uma investigação, da qual se concluiu que todas as vítimas haviam bebido leite cru. Como os esgotos da casa pareciam estar em boas condições, foi realizada uma investigação. Descobriu-se então que a pessoa que fornecia o leite apresentava sintomas semelhantes, e que o proprietário da fazenda de onde ele provinha também havia sofrido. As instalações da fazenda foram então inspecionadas. Constatou-se que o poço estava situado próximo a uma fossa transbordante e com vazamentos, e que ficava perto da extremidade do esgoto da casa. Foram analisadas três amostras, e demonstrou-se que a água usada para fins domésticos, e com a qual os recipientes de leite eram lavados, era totalmente imprópria para uso, estando contaminada com esgoto. Concluiu-se, portanto, que o surto havia se originado do uso de leite contaminado. Os pacientes, no último relatório, estavam evoluindo favoravelmente.”
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O Sr. Ernest Hart, em um longo e cuidadoso estudo, apoiado por abundantes estatísticas, demonstrou que a febre tifóide, a escarlatina e a difteria foram amplamente propagadas pelo uso do leite.
“Não há nada”, disse ele, “na analogia das epidemias que limite a lista a essas três doenças, e já estamos vendo indícios de outras enfermidades semelhantes sendo disseminadas pelo mesmo agente. O número de epidemias de febre tifóide registradas como decorrentes do leite é cinquenta; de escarlatina, quinze; e de difteria, sete. O número total de casos durante epidemias atribuídas ao uso de leite infectado pode ser estimado, em números redondos, em 3500 de febre tifóide, 800 de escarlatina e 500 de difteria. Quando se lembra que, há apenas dez anos, éramos completamente ignorantes de que o leite pudesse ser um veículo de infecção, e que todas essas observações foram feitas dentro de uma única década, torna-se evidente quão vitalmente importante é proteger nosso abastecimento de leite contra contaminação. Que um artigo de alimento tão comum como o leite seja tão prontamente capaz de absorver infecção é uma questão da maior importância. As casas atingidas durante essas epidemias eram, em geral, de melhor classe e situadas em locais saudáveis. Os pobres, que consomem muito pouco leite, e apenas em chá ou café, geralmente escaparam.”
As doenças entozoárias, devidas à presença, em várias partes do corpo, de pequenos parasitas — alguns dos quais microscópicos — são em grande parte transmissíveis ao homem, e a consequência de comer a carne de animais assim afetados é frequentemente fatal, especialmente no caso da enfermidade comum do porco conhecida como triquinose. A grande tênia, ou verme solitário, que na cavidade intestinal do homem frequentemente atinge muitos metros de comprimento, provém do boi, do bezerro e do porco; a fascíola, ou verme do fígado, é comum nas ovelhas. Em geral, nos distritos densamente povoados, os fígados de todas as ovelhas destinadas aos mercados estão infestados desses pequenos vermes.
Em conexão com essa parte do meu tema, gostaria de oferecer algumas observações a respeito do novo método de “inoculação” como preservativo contra certas formas de doenças do gado e das ovelhas. Como sabeis, esse método, ao qual Pasteur associou seu nome, consiste na introdução, no sangue de animais saudáveis, do vírus “atenuado” ou “cultivado” do antraz, uma doença maligna que, há algum tempo, tem ocasionalmente atacado regiões dedicadas à criação de rebanhos. Ora, o pasteurismo é o meio pelo qual a ciência moderna procura combater a determinação da Natureza de reduzir números excessivos e manter um equilíbrio justo. O homem, por fins ao mesmo tempo antinaturais e imorais, multiplicou artificialmente em enorme escala certas espécies de animais e destinou ao seu sustento vastas áreas de terra que poderiam ter outra utilidade. Sempre que qualquer espécie, não excetuando o próprio homem, aumenta além de certa proporção em uma área limitada, a Natureza providencia meios de conter esse aumento e restaurar o equilíbrio das espécies.
As tendências carnívoras de todas as classes da humanidade têm crescido continuamente nas últimas décadas, e, para atender a essas tendências, animais domésticos comestíveis têm sido criados em números incríveis em toda a metade ocidental do mundo. A causa produziu o efeito; o superpovoamento, a vida artificial, a impossibilidade de manter condições sanitárias invariáveis e outros inconvenientes ligados à criação produziram sua inevitável nêmesis. Pasteur propõe vencer a Natureza antecipando sua ação e infectando o gado e as ovelhas ainda não atingidos com uma forma branda da doença, que os impedirá de sucumbir à sua forma mais mortal.
Isso significa simplesmente que, enquanto os animais estiverem sob a influência da doença, seja leve ou grave, não estarão sujeitos a contrair um novo ataque dela. Se uma pessoa tem varíola em seu organismo, não estará sujeita a um novo contágio proveniente de fontes externas. Mas chega um momento — talvez em sete anos ou menos, talvez em dez ou mais, em algumas pessoas muito antes — em que a influência da doença desaparece completamente do organismo, e então o corpo volta a tornar-se suscetível ao contágio. Assim ocorre com o antraz no gado. Pasteur e seus seguidores sabem disso e, por isso, recomendam reinoculações em intervalos determinados. Tudo isso significa que, para manter nossos rebanhos sem diminuição e satisfazer a demanda antinatural por abundância de carne, e poder comer bois e ovelhas sem restrição, devemos mantê-los em um estado constante de infecção esplênica. Pois, com certeza, enquanto estiverem “protegidos”, como se diz, o bacilo mortal do antraz estará presente em algum lugar nos tecidos e nos “humores” do animal inoculado. Se não estivesse, a “proteção” cessaria. O sistema baseia-se no princípio de colocar um ladrão dentro da casa para impedir a entrada de outros ladrões. Mas, quando esse ladrão doméstico parte e deixa a casa limpa de sua presença, o bando de fora pode invadi-la.
Nem o bacilo do antraz, mesmo quando plenamente instalado no organismo, é capaz de impedir outras doenças. Pelo contrário, um relatório oficial recentemente apresentado ao Departamento de Saúde Pública da Hungria sobre a inoculação de Pasteur declara que “as mortes por outras enfermidades, como catarro, pneumonia, pericardite etc., ocorreram exclusivamente entre os animais inoculados. Segue-se disso que um desfecho fatal de outras doenças graves é acelerado pela inoculação protetora.” Esse fato também é conhecido por Pasteur e sua escola, pois agora recomendam, como nos informa o Sr. Fleming na revista Nineteenth Century, a aplicação do método “protetor” a todas as formas infecciosas de doença! Acredita-se que todas as doenças zimóticas sejam inoculáveis por meio de seus bacilos específicos, e argumenta-se seriamente — e até se defende com toda a pompa da autoridade científica — que, doravante, o sangue tanto do homem quanto do animal deve ser infectado por cada um desses germes, sendo assim mantido em um estado contínuo de fermentação e impureza. “A doença é rei”, clamam os cientistas; “vida longa à Doença!” Verdadeiramente, podemos desesperar de erradicar com sucesso, por meio da higiene e da sanitação, as miríades de formas de sujeira viva, enquanto a “medicina profilática”, como é ironicamente chamada, multiplica, preserva, circula, transmite e semeia esses germes fatais por toda a terra.
Há, além disso, outra consideração grave ligada ao pasteurismo, e uma que se relaciona especialmente com nosso tema. Vimos quão transmissíveis do gado ao homem, por meio do leite e da carne, são a tuberculose, a febre aftosa e outras doenças. Por que não também a doença esplênica do mesmo modo? O antraz é comunicável a classificadores de lã e curtidores pelo simples contato com peles infectadas; que garantia temos de que a secreção e a carne de animais sob a influência de vírus atenuado serão inofensivas para consumo? Tais ingestões podem talvez não produzir verdadeiro antraz, mas poderiam desenvolver sintomas desagradáveis do sangue e predispor a doenças como erisipela, septicemia, erupções cutâneas, tendências inflamatórias ou condições mórbidas gerais mal definidas. Sobre esse assunto, o Relatório Húngaro afirma:
“Quando consideramos que o material de inoculação contém microzimas do antraz em quantidades colossais, embora de virulência diminuída, e que esses microzimas se multiplicam enormemente no organismo dos animais inoculados, vemos que o uso generalizado de inoculações protetoras espalharia esses germes em quantidades inconcebíveis por todo o país. Mortes ocorrerão a todo momento, mesmo entre os animais inoculados, e não está excluída a possibilidade de que os microzimas liberados dos corpos mortos, ao se dispersarem, recuperem sua virulência original e, assim, apesar de todo o esforço e custo, ataquem tanto homens quanto animais. Isso é tanto mais temível quanto o descuido com que já hoje se tratam os corpos de animais que morreram de antraz aumentaria com a crença na onipotência da inoculação protetora.”
Até aqui apresentei brevemente alguns argumentos extraídos da anatomia comparada, da química, da fisiologia, da economia doméstica e da higiene. Todas essas considerações pertencem aos aspectos utilitários do tema e nos afetam mais como seres físicos do que espirituais. Mas a causa da acreofagia pode ser defendida de modo ainda mais forte a partir de um ponto de vista mais elevado e distintamente humano, intimamente relacionado às artes que embelezam a vida e civilizam nossa raça e, melhor e mais digno ainda, àqueles instintos justos, compassivos e gentis do homem, em virtude dos quais somente ele é homem, distinguindo-se e superando todas as outras criaturas. 1
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Ouida, a romancista, que contribuiu para a Gentleman’s Magazine com um artigo muito bom contra a vivissecção, escreve assim a respeito da prática de comer carne.
[A conferencista leu aqui a passagem citada por ela na primeira de suas Cartas sobre a Dieta Pura na revista The Food Reform Magazine.²]
Para aqueles de nós que levantaram o véu que a sociedade polida em geral acha conveniente traçar entre a elegante sala de jantar e o matadouro, já não é possível sentar-se com espírito tranquilo e semblante complacente diante de uma mesa carregada de carcaças, e inclinar-se devotamente enquanto a estereotipada “graça” é murmurada, e o Senhor é agradecido pelas misericórdias graciosamente concedidas à companhia carnívora! “As misericórdias!” Que o céu nos livre de tal expressão! Mas o anfitrião vegetariano e seus convidados não têm motivo para vergonha. Suas lentilhas, seu arroz, seus frutos, seus pratos saborosos não foram adquiridos ao custo de sofrimento, terror, desespero ou degradação para homem ou animal.
O jardineiro, o agricultor, o ceifador, o colhedor de frutos, todos eles exercem atividades saudáveis, revigorantes e enobrecedoras. Nenhum odor de sangue ou de morte polui o ar que respiram diariamente, nem espetáculos horrendos de dor e carnificina ocupam sua visão da manhã à noite, apagando para eles toda a múltipla beleza e doçura da vida. O aroma dos campos, dos vinhedos, dos pomares acompanha o belo repasto do homem cuja alimentação é aquela que a Natureza sugere; mas sobre o banquete do comedor de carne morta paira o fétido cheiro do açougue.
Dizem-nos que grandes coisas, no interesse do progresso, da iluminação e de outros nomes sagrados, estão sendo realizadas para a geração presente por meio da educação obrigatória e das facilidades amplamente oferecidas para o ensino de ciência e literatura. Dizem-nos que, em todas as classes do povo, o conhecimento deve aumentar, o intelecto ser cultivado e a civilização difundida. Mas, se, como parece demasiado provável, o carro da educação popular vier a tornar-se um veículo de propaganda do consumo de carne e da vivissecção, ele não passará de um carro de Juggernaut, cujas rodas certamente esmagarão o coração do povo.
Um sistema de educação meramente intelectual não tende a civilizar, mas a confundir e endurecer. É inútil falar em “civilizar” as crianças da nova geração por meios como os fornecidos pelos Paul Bert de hoje e por outros da escola moderna de biologia materialista. A educação, se deve realmente humanizar, refinar e elevar em seus resultados, precisa ser moral e espiritual, além de intelectual. E uma educação assim jamais será dada por homens que inculcam nos seres humanos a dieta do tigre e que ensinam ciência pelo método da Inquisição Espanhola. O consumo de carne e a vivissecção estão, em princípio, intimamente relacionados, e ambos são defendidos por seus partidários com base em premissas comuns, cujos lemas são a Utilidade e a Lei da Natureza.
Quanto ao consumo de carne, demonstrou-se que, sendo inadequado à estrutura e aos órgãos do homem, relativamente pouco nutritivo, amplamente impuro e inseguro, e extremamente caro, certamente não pode ser recomendado com base em argumentos utilitários. E, no que se refere à vivissecção, embora fosse estranho que uma prática exercida em toda a Europa durante os últimos dois mil anos nada tivesse produzido, seus escassos resultados foram comprados a um preço altíssimo, ao custo da agonia envolvida e do grande desperdício de tempo, talento, trabalho e intelecto em um método geralmente vago e ineficaz em seus resultados, enquanto outros meios de investigação infinitamente mais exatos e valiosos foram negligenciados.
E, se utilidades tão baixas são verdadeiramente de importância suprema na evolução da raça, por que os vivisseccionistas não têm a coragem de suas opiniões, e por que não reivindicam — o que seus argumentos legitimamente implicam — o direito de vivissecar seres humanos? Por que, ao admitir o princípio do sacrifício vicário, recuam diante de sua consequência lógica? Será por causa da noção popular, considerada tola, de que somente o homem possui uma “alma”, enquanto os outros animais não a possuem? Tanto mais razão, então, para poupar estes, em sua breve vida, do sofrimento que a Natureza não lhes impõe. O homem, com a eternidade diante de si, poderia bem suportar, pelo bem de sua espécie, algumas horas ou mesmo dias de sofrimento.
É, contudo, um fato estranho que as mais atrozes torturas de laboratório sejam infligidas por homens que professam acreditar que a natureza e o destino do animal e do homem são idênticos, e que sustentam que, para ambos, a morte é o fim irrevogável da existência. Do ponto de vista dessa doutrina — uma doutrina que rapidamente ganha força, adeptos e importância na Europa — não é menos difícil compreender por que o cérebro do macaco deveria ser considerado objeto adequado para experimentação, enquanto o de uma criança ou de um selvagem humano deveria ser poupado; por que o cavalo ou o cão inocente e útil deveria ser entregue aos torturadores, e o criminoso, o louco, o idiota ou o indigente deveria ser respeitado.
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¹ Aqui segue uma passagem, começando com as palavras “The Perfectionist” e terminando com as palavras “once explicable”, semelhante àquela presente na primeira das Cartas sobre a Dieta Pura de Anna Kingsford na The Food Reform Magazine (ver pp. 65–66, acima).
² Ver pp. 66–67, acima.
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Quanto à segunda alegação, de que a lei da Natureza é a lei da presa, e que, portanto, o homem tem a priori o direito natural de dilacerar e atormentar, deve-se responder que o termo “Natureza” não implica nem individualidade nem responsabilidade, mas simplesmente condição. Tudo o que a Natureza faz é permitir a manifestação, nos indivíduos, de qualidades adquiridas. Nesse sentido devemos entender a expressão “o hábito é Natureza”. Esse fato não justifica a humanidade responsável na manifestação de crueldades que envergonham até mesmo os piores carnívoros. Foi seguindo aquilo que o Sr. Matthew Arnold chama de “a corrente de tendência que conduz à justiça” que o homem se elevou acima dos elementos mais baixos de sua natureza até o reconhecimento do padrão conhecido como a “regra de ouro”.
E é precisamente na medida em que ele se empenhou, em todos os planos de sua atividade, em
“Mover-se para cima, superando o animal,
E deixar que o lobo e o tigre morram”
dentro de si, que se tornou mais elevado, mais nobre — em uma palavra, mais humano. Os modernos defensores do consumo de carne e da vivissecção, ao contrário, inverteriam o sentido desses versos e nos fariam
“Descer, retornando ao animal,
E deixando morrer o coração e a consciência”,
fazendo assim da prática do mais baixo na escala da Natureza a regra do mais alto, e rebaixando o padrão moral da humanidade ao nível dos hábitos das ordens mais perigosas ou nocivas de animais.
Nossos oponentes gostam de chamar argumentos como estes de “sentimentais”, e parecem imaginar que a palavra elimina completamente seu valor. Mas o fato de assim procederem apenas revela mais claramente sua própria posição. Pois mostra ou que ignoram o significado da palavra “sentimento” — ignoram que a honra é um sentimento, que a coragem, a veracidade, o amor, a simpatia, a amizade e toda qualidade moral que constitui a superioridade do homem civilizado sobre o selvagem e o bruto são sentimentos — ou então que pretendem deliberadamente eliminar essas qualidades do currículo das futuras gerações humanas e excluí-las de sua definição de humanidade.
A pretensão da civilização moderna é visar apenas à aquisição de conhecimento intelectual e de gratificação física, com pouca ou nenhuma consideração pelos limites morais. No credo do século XIX, o homem é homem não porque possui em si a capacidade de amar a justiça e de abster-se do mal, mas porque, sendo um animal eminentemente inteligente, é o mais forte e bem-sucedido de todos os animais.
Mas o discípulo de Buda e de Pitágoras, o pregador da Vida Pura e do Caminho Perfeito, clama à humanidade: “Sede homens, não apenas na forma física — pois a forma nada vale — mas em espírito, em virtude daquelas qualidades que vos elevam acima de tigres, porcos ou chacais! Sob toda a vossa pseudocivilização jaz uma chaga fétida e supurante, uma mancha moral que contamina vossas vidas e torna odiosas as amenidades sociais. Para satisfazer vossos apetites depravados e antinaturais, existe toda uma classe de homens privada de direitos humanos, cujo trabalho diário é matar, e que passam toda a sua vida derramando sangue e supervisionando a morte violenta. Fora, então, com os matadouros! Formai para vós um ideal mais nobre de vida e de destino humano!”
Para apreciar e compreender plenamente o espírito do vegetarianismo, para explicar o entusiasmo com que ele inspira seus adeptos, é preciso que o homem seja, no coração, um poeta. Por essa palavra “poeta” indico aquela ordem de mente que vê intuitivamente; que busca a Beleza e a Perfeição como fim de todo estudo e organização; que formula um Ideal claro e o toma como critério e guia em toda parte, assim como os hebreus seguiam a Coluna de Fogo no deserto. Somente alguém com tal disposição, capaz de conhecer o Ideal e de sacrificar todas as atrações inferiores ao amor do mais elevado, pode compreender plenamente o entusiasmo do pitagórico, do budista, do abstêmio de carne; a satisfação de ser inocente de culpa de sangue — de saber que nenhum cadáver pavimenta o caminho para o Paraíso; e de que, quando a voz ou a pena se ergue contra a crueldade, contra a opressão, contra qualquer uma das muitas formas de injustiça que grassam entre os homens sob o império da Força Física, nenhum adversário mortal, nenhuma consciência interior pode reprovar o reformador por sacrificar diariamente vítimas inocentes aos falsos deuses do apetite corporal.
Há muito tempo, aquele que foi chamado o rei dos poetas, Percy Bysshe Shelley — o mais doce, porque o mais terno dos cantores — em um poema¹ que a maioria de nós conhece como o protesto sustentado e fervoroso de uma alma justa contra todas as formas de tirania, escreveu estas palavras, tão plenas de poder e de sábio amor que parecem quase a expressão de um espírito profético, contemplando em visão a luz distante do Dia Perfeito que há de vir quando o Reino de Deus se manifestar:
“Meus irmãos, somos livres! Os frutos brilham
Sob as estrelas, e os ventos noturnos sopram
Sobre o trigo maduro, enquanto aves e animais sonham.
Nunca mais o sangue de ave ou de besta
Manchará com sua corrente venenosa o banquete humano,
Erguendo-se em acusação aos céus puros.
Os venenos vingadores terão cessado
De alimentar doença, medo e loucura;
Os habitantes da terra e do ar
Se reunirão ao redor de nossos passos em alegria,
Buscando ali seu alimento ou refúgio.
Nosso labor, tirado do pensamento, colherá formas gloriosas
Para tornar esta Terra, nosso lar, mais bela;
E a Ciência, e sua irmã a Poesia,
Revestirão de luz os campos e as cidades dos livres!”
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¹ The Revolt of Islam, Canto V (linhas 5).
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