PREFÁCIO BIOGRÁFICO1
Mas, desde a infância, acreditava ter vindo a este mundo para realizar “alguma grande e necessária obra, tanto em benefício de si mesma quanto dos outros, que somente ela poderia executar.”¹ “Toda a terra está cheia de trevas e de moradas cruéis.” — Salmo lxxiv. 21. “Sei que em algum dia distante, agora, de fato, talvez muito remoto, a mensagem que pregamos em um canto tornar-se-á a religião de grandes nações.”(A.…
Mas, desde a infância, acreditava ter vindo a este mundo para realizar “alguma grande e necessária obra, tanto em benefício de si mesma quanto dos outros, que somente ela poderia executar.”¹
“Toda a terra está cheia de trevas e de moradas cruéis.” — Salmo lxxiv. 21.
“Sei que em algum dia distante, agora, de fato, talvez muito remoto, a mensagem que pregamos em um canto tornar-se-á a religião de grandes nações.”
(A. K.)
“As ideias e hábitos de vida do homem tornaram-se tão completamente incompatíveis com toda possibilidade da perfeição de que sua existência é capaz, que somente por meio de denúncias incessantes e implacáveis ele pode ser, em alguma medida, impressionado quanto à sua enormidade.” — (E. M.)
Anna Kingsford nasceu em 16 de setembro de 1846, em Stratford, Essex. Era filha de John Bonus, sendo a mais nova de doze filhos. Desde o nascimento até a morte sofreu de problemas de saúde, que atribuía à alimentação inadequada de seus antepassados2, “sua doença, fraqueza e sofrimento ultrapassando tudo o que se pode conceber, exceto por aqueles que tinham íntimo conhecimento de sua vida.”
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- Neste Prefácio contei a história de Anna Kingsford e Edward Maitland como reformadores da alimentação e abstêmios de carne, limitando-me às questões que lançam luz sobre eles e seu trabalho nesse contexto.
Meu material, como será visto pelas referências, foi extraído quase inteiramente de The Life of Anna Kingsford, escrito por Edward Maitland e publicado em 1896. Esse livro oferece um relato muito completo e interessante sobre Anna Kingsford, Edward Maitland e sua obra.
Ao citar o máximo possível — dentro dos limites acima mencionados — dessa obra, permiti que eles próprios contassem sua história. Remeto aqueles que desejarem conhecer mais sobre esses dois grandes mestres e reformadores — aqueles que quiserem conhecer toda a história de Anna Kingsford como estudante de medicina, e de Anna Kingsford e Edward Maitland como humanitários — à biografia acima mencionada.
Há também outra biografia. Em 1893, enquanto escrevia e antecipando a publicação de The Life of Anna Kingsford, Edward Maitland escreveu The Story of the New Gospel of Interpretation, na qual apresentou um breve relato de Anna Kingsford, dele próprio e de sua obra. Em 1905, uma terceira edição ampliada desse livro foi publicada sob o título The Story of Anna Kingsford and Edward Maitland, and of the New Gospel of Interpretation. Também sou devedor dessa obra. — S. H. H.
- Light, 10 de março de 1888.
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Privada, por sua saúde frágil, dos meios habituais de expressão, dedicou-se cedo à escrita; sua primeira produção publicada, um poema em uma revista religiosa, apareceu quando tinha apenas nove anos de idade; e seu primeiro livro foi escrito aos treze anos.² Tão aguçadas eram suas percepções do ideal, que sua decepção com o real, sentida durante toda a vida, tornava-se ainda mais amarga. Edward Maitland diz: “O ódio à injustiça e à sua correlata crueldade, especialmente para com os animais, alcançou nela a força e a dignidade de uma paixão”, e sua sensibilidade nesse aspecto foi a causa da “principal miséria mental de sua vida.”³ A morte de seu pai, em 1865, colocou-a imediatamente na posse de cerca de 700 libras anuais, tornando-a independente no que dizia respeito a dinheiro.⁴
Ao relatar a Edward Maitland alguns episódios de “sua vida inicial”, ela disse:
“Entre o tempo em que deixei a escola e me casei, fui por algum tempo apaixonadamente afeita à caça e, quando não estava incapacitada pela doença, passava o dia montada a cavalo. . . . Mas, de repente, certo dia, enquanto voltava para casa depois de uma ‘magnífica perseguição e captura’, como se diz, algo em mim perguntou como eu gostaria de ser tratada da mesma forma, e fez-me olhar a questão do ponto de vista da criatura perseguida, levando-me a perceber vividamente seu terror selvagem e sua aflição ofegante durante todo o tempo em que era caçada, e o horror medonho de sua captura e morte. Creio que foi menos meu sentimento de piedade do que meu senso de justiça que me repreendeu e transformou. Que direito tenho eu, perguntei a mim mesma, de maltratar assim uma criatura simplesmente porque ela possui uma forma diferente da minha? Ao contrário, se sou superior, sua fraqueza e impotência lhe dão direito à minha piedade e proteção, em vez de me justificarem em buscar minha própria satisfação às suas custas. E quanto à sua posição inferior na escala da evolução, se há evolução em uma coisa, deve haver em outra — se no físico, também no moral — de modo que o homem que age assim renuncia às suas conquistas morais e abdica de sua superioridade moral. Naturalmente, esse foi o fim de minha caça, e daí em diante eu e meu cavalo fazíamos nossos passeios sozinhos; pois, por mais que eu goste de algo, jamais consigo levar-me a fazê-lo enquanto sentir que é errado. Na verdade, tal sentimento impediria que eu gostasse disso.”¹
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1 Life ofA. 7Ct
vol. i. pp. I, 2
; Story ofA. K. andE. M., pp. 2, 5, 6.
2 Life ofA. K., vol. i. pp. 4, 29 ; Story ofA. K. andE. M.
t pp. 3, 5.
3 Story ofA. K. andE. M., p. 4.
4 Life ofA.K., vol. i. pp. 8, 9.
5 Life oj A. K.t vol. i. pp. 9, 10.
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Perceber-se-á, por esta passagem e, na verdade, por todos os seus escritos, quão forte era seu senso de justiça. Assim:
“Ela não reconhecia nenhuma linha rígida entre masculino e feminino, humano e animal, nem mesmo entre animal e planta. Aos seus olhos, tudo o que vivia era humanidade, apenas em diferentes estágios de desenvolvimento.”² Foi esse senso de justiça — “cuja essência”, dizia ela, “é um senso de solidariedade” — que também a levou a abandonar o uso de peles. Pouco antes de sua morte, escrevendo sobre “os horrores da caça às focas”, disse:
“Já faz alguns anos que me convenci de que o comércio de peles, e o de pele de foca em particular, eram incompatíveis com a vida gentil que deveria ser o objetivo dos seres civilizados; e, desde então, não houve peles em meu guarda-roupa.”³
No último dia de 1867, casou-se com seu primo, Algernon Godfrey Kingsford, que então trabalhava no serviço civil, mas que pouco depois tornou-se clérigo da Igreja da Inglaterra; e, estando “plena das ideias que possuía acerca de uma obra reservada [para ela], fez condição especial de seu casamento que este não a limitasse em relação a qualquer carreira para a qual pudesse sentir-se chamada.”⁴ Desse casamento houve apenas um filho — uma filha — que lhe sobreviveu.
Dois ou três anos após o casamento, ela empreendeu...
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- The Story of A. K. and E. M., p. 6.
- Life of A. K., vol. ii, p. 326; Light, 1888, p. 97. Ver também Health Beauty and the Toilet (Segunda Edição), p. 17?, e The Perfect Way in Diet, p. 109.
Embora ela se recusasse a usar peles, não desaprovava o uso de certas penas que podiam ser obtidas sem abate e (segundo lhe asseguravam) sem crueldade. Ao que parece, usava essas penas no lugar das peles (Life of A. K., vol. ii, pp. 326-351); embora tenha sido dito que ela não usava “nem pele nem penas” (Pall Mall Gazette, citado em Light, 1888, p. 97).
Ela usava luvas de seda em todas as estações e algum material vegetal para seus sapatos (Life of A. K., vol. ii, p. 351; ver também Health Beauty and the Toilet [Segunda Edição], p. 83; e o discurso de A. K., The Physiology of Vegetarianism, p. 113 adiante).
- Life of A. K., vol. i, p. 13; The Story of A. K. and E. M., p. 6.
- The Story of A. K. and E. M., p. 6.
- Life of A. K., vol. ii, p. 326; Light, 1888, p. 97. Ver também Health Beauty and the Toilet (Segunda Edição), p. 17?, e The Perfect Way in Diet, p. 109.
Embora ela se recusasse a usar peles, não desaprovava o uso de certas penas que podiam ser obtidas sem abate e (segundo lhe asseguravam) sem crueldade. Ao que parece, usava essas penas no lugar das peles (Life of A. K., vol. ii, pp. 326-351); embora tenha sido dito que ela não usava “nem pele nem penas” (Pall Mall Gazette, citado em Light, 1888, p. 97).
Ela usava luvas de seda em todas as estações e algum material vegetal para seus sapatos (Life of A. K., vol. ii, p. 351; ver também Health Beauty and the Toilet [Segunda Edição], p. 83; e o discurso de A. K., The Physiology of Vegetarianism, p. 113 adiante).
- Life of A. K., vol. i, p. 13; The Story of A. K. and E. M., p. 6.
- The Story of A. K. and E. M., p. 6.
- Life of A. K., vol. ii, p. 326; Light, 1888, p. 97. Ver também Health Beauty and the Toilet (Segunda Edição), p. 17?, e The Perfect Way in Diet, p. 109.
- Life of A. K., vol. i, p. 13; The Story of A. K. and E. M., p. 6.
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assumiu os riscos e a direção do empreendimento, tornando-se proprietária de The Lady’s Own Paper, uma revista semanal londrina.¹ Seu objetivo ao dirigir essa revista não era ganhar dinheiro, mas tornar conhecidos seus princípios, que eram tudo para ela; mas como esses princípios a compeliam, entre outras coisas, a excluir das colunas de publicidade anúncios de quaisquer mercadorias que não correspondessem à sua aprovação, tais como preparados de carne etc., “na verdade, tudo aquilo que envolvesse morte na obtenção ou ministrasse à morte no uso” — ela foi, “após dois anos de tentativa e uma perda de várias centenas de libras”, forçada a abandonar seu empreendimento.²
Quando renunciou à sua revista, estando “sob a impressão de que tal passo estava de algum modo relacionado com a missão da qual recebera tantas e tão misteriosas intimações”,³ ela já havia decidido dedicar-se ao estudo da medicina, com o objetivo direto de capacitar-se para realizar: primeiro, a abolição da vivissecção — cuja existência ela, como editora de The Lady’s Own Paper, havia tomado conhecimento; e, em segundo lugar, a abolição da alimentação carnívora, tendo ela, sob a orientação de seu irmão, Dr. John Bonus, “adotado o regime pitagórico de abstinência de alimentos cárneos, com vantagens tão manifestas para si mesma, física e mentalmente, que passou a ver nele o único meio eficaz para a redenção do mundo, tanto no que diz respeito aos próprios homens quanto aos animais.”⁴
Escrevendo, em 1879, para a Princesa Marie-Christina da Áustria, ela disse: “Estou estudando medicina para alcançar a abolição do massacre e da tortura dos animais, seja para alimentação, seja para a ciência.”⁵
Ela deve ter abandonado a alimentação carnívora em 1871, ou antes disso, pois em seu livro The Perfect Way in Diet, publicado em 1881, apresentou-se como exemplo “dos efeitos benéficos do sistema pitagórico de alimentação”, o qual, dizia ela, “durante um período de dez anos”, havia “mantido ininterruptamente”;⁶ e, em 1886, ao escrever sobre fatos e circunstâncias ligados à sua maravilhosa “faculdade e experiências oníricas”, disse: “Durante os últimos...”
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- Life of A. K., vol. i, p. 16; Story of A. K. and E. M., p. 7.
- Life of A. K., vol. i, p. 20.
- Story of A. K. and E. M., pp. 9, 10.
- Life of A. K., vol. i, p. 21; Story of A. K. and E. M., pp. 7, 8.
- Life of A. K., vol. i, p. 333; Story of A. K. and E. M., p. 8.
- Pp. 90, 91.
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“quinze anos tenho sido abstêmia de carnes. Não vegetariana, porque durante todo esse período utilizei produtos de origem animal como manteiga, queijo, ovos e leite.”¹
Na primavera de 1873 ela começou a estudar medicina. Mal havia iniciado seus estudos quando teve uma experiência muito notável. Recebeu uma carta de uma senhora (que assinava “Anna Wilkes”), que morava longe dela e lhe era completamente desconhecida. A autora declarava ter lido com profundo interesse e admiração In My Lady’s Chamber² — uma história escrita por Anna Kingsford — e que, após lê-la, recebera do Espírito Santo uma mensagem para ela (Anna Kingsford), a qual deveria ser entregue pessoalmente; perguntava, então, se a Sra. Kingsford a receberia, e quando.
Após alguma hesitação, Anna Kingsford pediu à sua correspondente que viesse vê-la, e posteriormente deu a Edward Maitland o seguinte relato do encontro. Ela disse:
“Na hora marcada fui encontrá-la no caminho, enquanto ela vinha da estação, e fui imediatamente impressionada por seus modos e aparência, e posteriormente por sua conversa, tanto quanto já havia sido por sua comunicação anterior. Ela era alta, ereta, de aparência distinta, com cabelos grisalhos cor de ferro e olhos estranhamente brilhantes. Disse-me que havia recebido uma mensagem distinta do Espírito Santo e que se sentira tão fortemente compelida a vir entregá-la pessoalmente a mim que não pudera abster-se disso.
Sua mensagem era no sentido de que, pelos cinco anos seguintes, eu deveria permanecer em retiro, continuando os estudos nos quais estava engajada, quaisquer que fossem, e o modo de vida no qual havia ingressado, sem permitir que nada nem ninguém me desviasse deles. E quando esses cinco anos probatórios e preparatórios terminassem, o Espírito Santo me expulsaria de meu recolhimento para ensinar e pregar, e uma grande obra me seria dada para realizar.
Tudo isso ela pronunciou com uma expressão arrebatada e inspirada, como se fosse alguma sibila pronunciando um oráculo. E quando terminou, percebendo sem dúvida minha expressão de surpresa, perguntou-me se eu a considerava louca — pergunta à qual fiquei um tanto sem saber responder, pois jamais encontrara algo semelhante antes e estava inclinada a compartilhar a impressão que todas as pessoas comuns e mundanas...”
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- Dreams and Dream Stories (Terceira Edição), Prefácio, pp. 22-23. Ver também The Perfect Way, or the Finding of Christ, Prefácio, p. xli.
- Essa história apareceu em The Lady’s Own Paper, e posteriormente foi publicada separadamente sob o pseudônimo “Colossa” (Life of A. K., vol. i, p. 21).
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pessoas sempre tiveram a respeito daqueles que professam ser profetas. Tendo entregue sua mensagem, minha profetisa beijou-me em ambas as faces e partiu.”¹
No verão do mesmo ano apareceu no Examiner, juntamente com uma resenha de um conto de Anna Kingsford, uma resenha de um livro, By and By: An Historical Romance of the Future, de Edward Maitland. Isso levou-a a ler o livro, com o qual sentiu tanta afinidade que escreveu a Edward Maitland — com quem então não tinha absolutamente nenhum conhecimento pessoal — propondo uma troca de ideias.²
Seguiu-se alguma correspondência e, mais tarde, Edward Maitland recebeu um convite para visitá-la e a seu marido em sua casa em Atcham, perto de Shrewsbury, tendo seu marido sido nomeado Vigário de Atcham. Esse convite ele não pôde aceitar naquele momento, devido à extrema idade e enfermidade de sua mãe, com quem então vivia em Brighton, e à necessidade de sua assistência quase constante a ela.
Escrevendo em 4 de agosto de 1873 para Edward Maitland, ela disse:
“Fui editora de um jornal feminino e falei em reuniões públicas a partir de tribunas. Por adoção e profissão sou membro da mais conservadora das igrejas, a Igreja Católica Romana,³ mas por convicção sou mais panteísta do que qualquer outra coisa; e meu modo de vida é o de uma frugívora. Em outras palavras, tenho horror à carne como alimento e pertenço à Sociedade Vegetariana. No presente estou estudando medicina com a intenção de, futuramente, ingressar na profissão, não em vista da prática médica, mas para fins científicos.”⁴
Em uma carta posterior (datada de 14 de agosto de 1873) a Edward Maitland, referindo-se às suas “ideias peculiares a respeito da alimentação”, ela disse:
“Estou muito persuadida de que essas ideias são o credo futuro de uma raça mais nobre e mais gentil. Rio quando ouço as pessoas falarem esperançosamente da era vindoura, que decidirá todas as disputas do mundo por meio da arbitragem internacional; e eu mesma já fui convidada dezenas de vezes a participar de ‘Convenções Femininas da Paz’ e coisas semelhantes. Essas...”
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- Life of A. K., vol. i, pp. 22, 23; Story of A. K. and E. M., pp. 10, 11. “Cerca de quatro anos mais tarde, numa época em que a Sra. Kingsford se encontrava em grande dificuldade por falta de um lar adequado em Londres para prosseguir seus estudos, a mesma senhora recebeu espiritualmente uma incumbência em favor dela, estando totalmente ignorante tanto de seu paradeiro quanto de sua necessidade, e com resultados inteiramente satisfatórios” (ibid., p. 11).
- Life of A. K., vol. i, p. 27; Story of A. K. and E. M., pp. 1, 2.
- Ela ingressou na Igreja Católica Romana em 1870 (Life of A. K., vol. i, p. 15).
- Life of A. K., vol. i, pp. 27-28.
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“A nota fundamental de seu ensinamento era a palavra Pureza. Ela sustentava que o homem, como todas as demais coisas, está em sua melhor condição apenas quando puro. E sua insistência em uma dieta vegetal — que ela justificava ao mesmo tempo por fundamentos fisiológicos, químicos, higiênicos, econômicos, morais e espirituais — baseava-se na necessidade, para a perfeição humana, de uma pureza do sangue e dos tecidos alcançável somente por meio de um regime extraído diretamente dos frutos da terra e excluindo os produtos do abate de criaturas inocentes.”¹
No outono ela passou em seu exame preliminar no Apothecary’s Hall, “com um sucesso tão grande que a encheu de altas esperanças de atravessar triunfantemente o curso de sua vida estudantil.”²
Em uma carta (datada de 24 de novembro) a Edward Maitland, ela disse:
“Vejo em toda parte no universo uma Lei inflexível e imutável; mas o Amor não consigo ver, a menos que a Lei o envolva em seu curso. Vejo em toda parte prevalecer a Regra do Forte. Nas profundezas do mar, nas regiões selvagens mais remotas, no ar aberto do céu, o veloz e o poderoso vencem a batalha da vida. A pomba é despedaçada pelo falcão, o cervo é assassinado pelo tigre, o pequeno peixe dourado é vitimado por algum voraz canibal das águas. Vejo em toda parte massacre, sofrimento e terror; e concedo um ponto aos teólogos. Pois em toda a Natureza a Vida é continuada por meio da Morte. Não seria o Deus que fez tudo isso precisamente o mesmo Deus que se deleitaria com a morte de uma vítima inocente? Não seria o Deus que voluntariamente se cerca de carnificina e miséria precisamente o Deus a quem agradaria a visão da Cruz do Calvário?
Há alguns anos escrevi estas palavras em um ensaio para uma revista: ‘A verdadeira religião é o sentimento interior de harmonia com o universo.’ ... Devo confessar que recentemente me afastei desse ponto de vista. Não me encontro, quando em meu mais elevado estado de sentimento, em harmonia com o sentimento predominante da Natureza. Se estivesse, não seria vegetariana. Eu mataria e comeria, como o restante de minha espécie. Mas, apesar disso, sei muito bem que a gentileza e o horror ao derramamento de sangue caracterizam todas as disposições nobres e grandes, embora nem todas levem suas ideias a uma consequência lógica e prática como eu faço. Como, então, reconciliar essa ternura da alma com uma admiração pelas dispensações da Natureza? Não é a moralidade do homem civilizado a única moralidade de...”
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- Life of A. K., vol. ii, p. 347.
- Life of A. K., vol. i, p. 30; Story of A. K. and E. M., pp. 11, 12.
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Natureza? Contudo, que horrível inconsistência! Que anomalia ridícula! Pois não é a Natureza a manifestação de Deus? E como, então, é possível que o homem, que é parte de Deus, seja mais moral do que o todo do qual ele é uma fração? Como, em linguagem cristã, pode o homem ser mais justo do que seu Criador?”¹
“Em resposta, Edward Maitland disse:
‘Sugiro que, supondo a Causa Suprema inteligente e sensível em nosso sentido da palavra, não é inconcebível que Ela possa considerar a dor física e a morte como totalmente sem importância em si mesmas, olhando apenas para a evolução, através delas, da natureza moral. Se a consciência humana é o resultado supremo do universo e o único fim digno de ser alcançado, não poderia ser que tal disciplina, inseparável da ideia de dor, fosse essencial para a produção desse fim?’”²
“A isso, Anna Kingsford respondeu:
‘Uma ou duas vezes imaginei que a chave do segredo do Universo talvez pudesse ser encontrada na teoria da Transmigração do sábio e antigo Pitágoras. Há muito tempo é minha convicção séria e profunda que, se os homens possuem espíritos imortais, também todas as criaturas vivas os possuem. Não podemos, logicamente, arrogar perpetuidade de ser apenas à nossa própria espécie. E é perfeitamente possível que o germe da alma, existindo talvez rudimentarmente nas formas mais inferiores de vegetação, possa reunir forças para si mesmo ao ascender através de inumeráveis modos de existência, até culminar no homem . . . e finalmente elevar-se a atmosferas mais altas, partindo para habitar as “muitas moradas” do Pai entre as esferas estreladas. Mas isto, naturalmente, é mera conjectura, apresentada declaradamente para explicar o fato do sofrimento terreno entre os homens e outras criaturas vivas. . . .
Como seu filho tem gosto pelos estudos médicos, seria interessante e útil para ele investigar as influências da alimentação sobre o organismo e a relação dos órgãos digestivos humanos com o alimento. Este é um dos itens mais importantes da “ciência sublime”. Pretendo estudá-lo especialmente eu mesma, e irei a Paris para esse propósito em março próximo. As mulheres são admitidas nas escolas de medicina de lá. Estou desapontada ao pensar que há tão pouca chance de nos encontrarmos em breve. Consola-me, contudo, saber que certamente nos encontraremos algum dia.’”³
No janeiro seguinte, Edward Maitland encontrou Anna...
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- Life of A. K., vol. i, pp. 30, 31.
- Ibid., p. 31.
- Ibid., pp. 31-32.
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Anna Kingsford por um curto período numa tarde em Londres.¹ Em The Life of Anna Kingsford, Edward Maitland oferece um relato interessante desse primeiro encontro entre ambos. Ela então lhe disse que “a justiça entre homens e mulheres, entre humanos e animais, eram seus objetivos principais. Pois toda injustiça era crueldade, e a crueldade era, para ela, o único pecado imperdoável. Era a crueldade deles que, mais do que qualquer outra coisa, tornava sua própria espécie odiosa para ela. Pois ela não era amante da humanidade, se por essa palavra se entendem homens e mulheres; seu amor era inteiramente pelos princípios, não pelas pessoas.”²
O encontro foi suficiente para convencê-lo do “caráter incomum da personalidade” com a qual entrara em contato e, ao se despedirem, viu-se comprometido a visitar Anna Kingsford e seu marido na primeira oportunidade. Isso, como se verá, ocorreu no fevereiro seguinte, e a importância dessa visita não pode ser exagerada, pois foi a partir desse momento que a colaboração entre Anna Kingsford e Edward Maitland — que tanto significou para o mundo — pode ser considerada iniciada.³
Edward Maitland nasceu em 27 de outubro de 1824, em Ipswich. Era filho do Rev. Charles David Maitland, Cura Perpétuo da Capela de St. James, em Brighton. Quando conheceu Anna Kingsford, sua posição era a seguinte: ele também tivera consciência, desde cedo, de possuir “uma missão” na vida;⁴ ideia que permanecera com ele, ganhando força e consistência, até tornar-se claro para si que “não apenas destruição, mas construção; não apenas a exposição do erro, mas a demonstração da verdade, estavam compreendidas nela.”⁵
Estava decidido a penetrar o segredo das coisas diretamente e por meio de um pensamento absolutamente livre. Fora criado na mais estrita das seitas evangélicas e, ainda rapaz, começara a revoltar-se contra o credo no qual fora educado — especialmente contra os dogmas da depravação total do homem e da expiação vicária, que considerava “uma calúnia nada menos que blasfema contra Deus e contra o homem”; e cedo passou a sentir que “nenhuma bênção maior poderia ser concedida ao mundo do que sua emancipação da escravidão de uma crença tão degradante e tão destrutiva de qualquer ideal elevado”; e que somente na medida em que pudesse tornar-se instrumento de...
- Life of A. K., vol. i, pp. 29, 32, 33.
- Ibid., p. 33.
- Ver Story of A. K. and E. M., p. 37.
- Life of A. K., vol. i, p. 36; Story of A. K. and E. M., p. 13.
- Life of A. K., vol. i, p. 38; Story of A. K. and E. M., pp. 15-16.
Anna Kingsford por um curto período numa tarde em Londres.¹ Em The Life of Anna Kingsford, Edward Maitland oferece um relato interessante desse primeiro encontro entre ambos. Ela então lhe disse que “a justiça entre homens e mulheres, entre humanos e animais, eram seus objetivos principais. Pois toda injustiça era crueldade, e a crueldade era, para ela, o único pecado imperdoável. Era a crueldade deles que, mais do que qualquer outra coisa, tornava sua própria espécie odiosa para ela. Pois ela não era amante da humanidade, se por essa palavra se entendem homens e mulheres; seu amor era inteiramente pelos princípios, não pelas pessoas.”²
O encontro foi suficiente para convencê-lo do “caráter incomum da personalidade” com a qual entrara em contato e, ao se despedirem, viu-se comprometido a visitar Anna Kingsford e seu marido na primeira oportunidade. Isso, como se verá, ocorreu no fevereiro seguinte, e a importância dessa visita não pode ser exagerada, pois foi a partir desse momento que a colaboração entre Anna Kingsford e Edward Maitland — que tanto significou para o mundo — pode ser considerada iniciada.³
Edward Maitland nasceu em 27 de outubro de 1824, em Ipswich. Era filho do Rev. Charles David Maitland, Cura Perpétuo da Capela de St. James, em Brighton. Quando conheceu Anna Kingsford, sua posição era a seguinte: ele também tivera consciência, desde cedo, de possuir “uma missão” na vida;⁴ ideia que permanecera com ele, ganhando força e consistência, até tornar-se claro para si que “não apenas destruição, mas construção; não apenas a exposição do erro, mas a demonstração da verdade, estavam compreendidas nela.”⁵
Estava decidido a penetrar o segredo das coisas diretamente e por meio de um pensamento absolutamente livre. Fora criado na mais estrita das seitas evangélicas e, ainda rapaz, começara a revoltar-se contra o credo no qual fora educado — especialmente contra os dogmas da depravação total do homem e da expiação vicária, que considerava “uma calúnia nada menos que blasfema contra Deus e contra o homem”; e cedo passou a sentir que “nenhuma bênção maior poderia ser concedida ao mundo do que sua emancipação da escravidão de uma crença tão degradante e tão destrutiva de qualquer ideal elevado”; e que somente na medida em que pudesse tornar-se instrumento de...
- Life of A. K., vol. i, pp. 29, 32, 33.
- Ibid., p. 33.
- Ver Story of A. K. and E. M., p. 37.
- Life of A. K., vol. i, p. 36; Story of A. K. and E. M., p. 13.
- Life of A. K., vol. i, p. 38; Story of A. K. and E. M., pp. 15-16.
Anna Kingsford por um curto período numa tarde em Londres.¹ Em The Life of Anna Kingsford, Edward Maitland oferece um relato interessante desse primeiro encontro entre ambos. Ela então lhe disse que “a justiça entre homens e mulheres, entre humanos e animais, eram seus objetivos principais. Pois toda injustiça era crueldade, e a crueldade era, para ela, o único pecado imperdoável. Era a crueldade deles que, mais do que qualquer outra coisa, tornava sua própria espécie odiosa para ela. Pois ela não era amante da humanidade, se por essa palavra se entendem homens e mulheres; seu amor era inteiramente pelos princípios, não pelas pessoas.”²
O encontro foi suficiente para convencê-lo do “caráter incomum da personalidade” com a qual entrara em contato e, ao se despedirem, viu-se comprometido a visitar Anna Kingsford e seu marido na primeira oportunidade. Isso, como se verá, ocorreu no fevereiro seguinte, e a importância dessa visita não pode ser exagerada, pois foi a partir desse momento que a colaboração entre Anna Kingsford e Edward Maitland — que tanto significou para o mundo — pode ser considerada iniciada.³
Edward Maitland nasceu em 27 de outubro de 1824, em Ipswich. Era filho do Rev. Charles David Maitland, Cura Perpétuo da Capela de St. James, em Brighton. Quando conheceu Anna Kingsford, sua posição era a seguinte: ele também tivera consciência, desde cedo, de possuir “uma missão” na vida;⁴ ideia que permanecera com ele, ganhando força e consistência, até tornar-se claro para si que “não apenas destruição, mas construção; não apenas a exposição do erro, mas a demonstração da verdade, estavam compreendidas nela.”⁵
Estava decidido a penetrar o segredo das coisas diretamente e por meio de um pensamento absolutamente livre. Fora criado na mais estrita das seitas evangélicas e, ainda rapaz, começara a revoltar-se contra o credo no qual fora educado — especialmente contra os dogmas da depravação total do homem e da expiação vicária, que considerava “uma calúnia nada menos que blasfema contra Deus e contra o homem”; e cedo passou a sentir que “nenhuma bênção maior poderia ser concedida ao mundo do que sua emancipação da escravidão de uma crença tão degradante e tão destrutiva de qualquer ideal elevado”; e que somente na medida em que pudesse tornar-se instrumento de...
- Life of A. K., vol. i, pp. 29, 32, 33.
- Ibid., p. 33.
- Ver Story of A. K. and E. M., p. 37.
- Life of A. K., vol. i, p. 36; Story of A. K. and E. M., p. 13.
- Life of A. K., vol. i, p. 38; Story of A. K. and E. M., pp. 15-16.
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sua abolição faria de sua vida um sucesso e uma satisfação para si mesmo. Ele diz:
“Parecia-me até que minha própria honra estava envolvida na questão, e que, ao refutar tais crenças, eu estaria vindicando meu próprio caráter. Pois, se Deus fosse mau, como essas doutrinas O faziam parecer, eu não poderia de modo algum ser bom, já que devo derivar d’Ele. E eu sabia que, por mais fraco e insensato que pudesse ser, eu não era mau.”¹
Sua vida também, como a de Anna Kingsford, fora marcada por muito isolamento e meditação. Ele diz:
“Sempre me senti um estranho, mesmo entre meus íntimos mais próximos. Pois estava sempre consciente de uma diferença que me separava deles, e de um lado de mim ao qual eles não poderiam ter acesso. Formei-me em Cambridge com o propósito de receber ordens religiosas; apenas para descobrir que não poderia fazê-lo conscienciosamente, e sentir que comprometer-me com quaisquer condições incompatíveis com a liberdade absoluta de pensamento e expressão seria uma traição tanto contra mim mesmo quanto contra meus semelhantes — pois eu desejava descobrir a verdade não por um fim meramente pessoal.”²
E assim, depois de obter seu diploma, juntou-se ao grupo dos “Forty-niners” rumo aos recém-descobertos campos auríferos da Califórnia, permanecendo no exterior — passando da América para a Austrália — por quase dez anos, durante os quais “experimentou quase todas as vicissitudes e extremos capazes de ampliar a consciência, endurecer a fibra e provar a alma do homem.”³
Enquanto estava na Austrália, casou-se, “apenas para ficar viúvo após um ano de matrimônio.”⁴ Desse casamento houve um filho, um menino, que lhe sobreviveu, mas que desde então também faleceu.
Em 1857 retornou à Inglaterra e, após um intervalo, dedicou-se à literatura — escrevendo por razões ideais; mas “não deixou suas provações para trás, pois ‘vicissitudes e lutas, provas e ordálios’ o aguardavam em casa, e foi levado a aprender pela experiência que somente ‘pela contusão do exterior o interior é libertado’, e que ‘o homem está vivo apenas na medida em que sentiu.’”⁵
Os livros desse período trouxeram-lhe fama imediata. Foram eles The Pilgrim and the Shrine, Higher Law e o livro ao qual já me referi, By and By.
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- Life of A. K., vol. i, p. 37; Story of A. K. and E. M., pp. 13, 14.
- Life of A. K., vol. i, p. 37; Story of A. K. and E. M., p. 14.
- Life of A. K., vol. i, p. 38; Story of A. K. and E. M., p. 15.
- Life of A. K., vol. i, p. 42; Story of A. K. and E. M., p. 21.
- Story of A. K. and E. M., pp. 16-17, 21-22.
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Ao visitar a casa paroquial de Shropshire em fevereiro de 1874, Edward Maitland recebeu de Anna Kingsford e de seu marido uma acolhida “mais do que cordial.”¹ Ele constatou que ela havia abandonado todas as outras ocupações em favor da ciência, e que “sua mesa de trabalho estava coberta com as insígnias de sua nova absorvente dedicação”;² mas, para que ele não tivesse qualquer equívoco sobre o assunto, ela novamente lhe disse que não era pelos homens e mulheres — que lhe pareciam seus inimigos naturais — que estava abraçando a medicina e a ciência; não para curar suas enfermidades, mas “pelos animais e pelo conhecimento em geral.”
Ela disse:
“Quero resgatar os animais da crueldade e da injustiça, que são para mim os piores, senão os únicos pecados. E não posso amar ao mesmo tempo os animais e aqueles que os maltratam sistematicamente.”³
A esse respeito, contudo, deve-se ter em mente que (como Edward Maitland observou), embora ela talvez não amasse homens e mulheres, “amava ardentemente aquilo que homens e mulheres estão formando ou destruindo, pois seu entusiasmo era pela Humanidade”; e “o homem, carnívoro e sustentando-se por meio do massacre e da tortura, não era para ela homem algum, em qualquer sentido verdadeiro da palavra. Nem intelectual nem fisicamente ele poderia estar em sua melhor condição enquanto se nutrisse dessa maneira.”⁴
Uma grande dificuldade colocava-se no caminho de Anna Kingsford para realizar sua determinação de obter um diploma de medicina — ao menos neste país. Imediatamente após ela ter sido aprovada em seu exame preliminar, as autoridades médicas haviam decidido fechar suas escolas às estudantes mulheres; e, devido à asma, da qual sofria intensamente, ela não podia viver no campo durante a maior parte do ano. Era essencial, portanto, que estivesse em uma grande cidade.
O país estrangeiro mais próximo onde as mulheres eram então admitidas aos graus de medicina era a França, e Paris era uma cidade na qual, quando outros lugares lhe fossem impossíveis, ela poderia viver, e onde poderia prosseguir seus estudos.
Seu marido “desejava apenas que ela fosse feliz à sua própria maneira e seguisse a carreira que preferisse, pois, pelos termos de seu compromisso matrimonial, assim como por seus dons e aspirações, considerava que ela tinha pleno direito de fazê-lo”;⁵ mas, como era natural e muito justamente, ele não consentiria que ela...
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- Life of A. K., vol. i, pp. 36, 46; Story of A. K. and E. M., p. 12.
- Life of A. K., vol. i, p. 47.
- Ibid., p. 48.
- Ibid., p. 21.
- Life of A. K., vol. i, p. 50; Story of A. K. and E. M., pp. 12, 13.
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ir sozinha e sem proteção para Paris. Ele próprio não podia abandonar seu trabalho para acompanhá-la, e nenhum dos dois conhecia qualquer pessoa, parente ou amigo, disponível para esse propósito; tampouco conheciam alguma família em Paris com quem ela pudesse estabelecer um lar. Essa era uma dificuldade que nenhum deles então conseguia resolver.
Enquanto isso, Anna Kingsford e Edward Maitland “viam a verdade da mesma maneira”, e o mesmo se verificou quanto aos respectivos objetivos de vida de ambos.
Edward Maitland diz:
“Como eu estava empenhado na construção de um sistema de pensamento ao mesmo tempo científico, filosófico, moral e religioso, reconhecível pelo entendimento como indubitavelmente verdadeiro, por estar fundado em primeiros princípios; ela estava empenhada na construção de uma regra de vida igualmente evidente e obrigatória, reconhecível pelos sentimentos como a única em conformidade com eles, tendo por base aquele senso de justiça perfeita que nasce da simpatia perfeita. Pelo que se verá que, enquanto o objetivo dela era estabelecer uma prática perfeita, que poderia ou não consistir com uma doutrina perfeita, o meu era estabelecer uma doutrina perfeita que inevitavelmente resultaria numa prática perfeita, definindo-a ao mesmo tempo e fornecendo um motivo irresistível para sua observância.”¹
Durante essa visita, que durou quase quinze dias, um assunto os ocupou especialmente: o tema da vivissecção, do qual ele então ouviu falar pela primeira vez. Foi uma descoberta que o encheu de “horror e espanto inexprimíveis”, e resolveu fazer da abolição da vivissecção, e do sistema por ela representado, o principal objetivo de sua vida e de sua obra.²
Quanto à questão da alimentação, Edward Maitland “jamais estivera plenamente satisfeito com o modo predominante de sustentar nossos organismos”. Sempre lhe parecera “incompatível com a perfeição concebível como possível que o homem, o mais elevado produto do mundo visível, fosse constituído de tal forma que só pudesse sustentar-se praticando violência não apenas contra seus semelhantes sensíveis, mas também contra seus próprios sentimentos mais elevados.”³
Consequentemente, estava favoravelmente disposto a dar atenção prática aos argumentos apresentados em favor do regime vegetariano; e a consideração adicional de que somente como abstêmio de carne poderia opor-se à vivissecção com inteira coerência foi um fator poderoso em sua decisão. Reconhecia a distinção entre “morte e tortura como ampla.”¹ “Mas”, diz ele, “as estatísticas que agora pela primeira vez examinei, relativas aos matadouros e ao comércio de gado, mostravam sem deixar dúvidas que a tortura, e esta prolongada e severa, está envolvida no uso de animais para alimentação tanto quanto para a ciência.”²
Assim, o primeiro resultado importante dessa visita foi que Edward Maitland tornou-se vegetariano.
A mudança em seu modo de vida logo produziu bons resultados. Foi, diz ele, acompanhada de “maior acessibilidade às ideias” e, consequentemente, de uma capacidade ampliada para entrar em relação com a região da qual as ideias derivam.³ Ele diz:
“Se tivéssemos sido em algum grau instruídos na ciência espiritual ou oculta, teríamos sabido que a renúncia à alimentação carnívora, embora em si mesma um ato físico, sempre foi reconhecida pelos iniciados como a principal condição para o desdobramento das faculdades espirituais; pois somente quando o homem é alimentado de maneira pura pode atingir clareza e plenitude de percepção espiritual.⁴ Naquela época, nenhum de nós sequer ouvira falar de ciência oculta ou da necessidade de tal regime para o aperfeiçoamento das faculdades. Ela o adotara por fundamentos fisiológicos, químicos, higiênicos, estéticos e morais; não por fundamentos mentais ou espirituais. Eu comprometi-me a adotá-lo em parte pelos mesmos motivos que a influenciaram, e em parte com o objetivo de intensificar e consolidar a simpatia existente entre nós.”⁵
Referindo-se à sua “maior acessibilidade às ideias”, ele diz:
“Atribuo principalmente à sensibilidade aumentada de minhas superfícies mentais, por meio da eliminação de meu organismo de todas as substâncias inadequadas, a maior acessibilidade às ideias de que falei. Toda a minha experiência mostra que não é a qualquer defeito original ou inevitável de material ou estrutura, mas à grosseria e inadequação dos alimentos com os quais temos o hábito de sustentar nossos organismos, que nossa insensibilidade geral às influências mais sutis que permeiam...”
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- Life of A. K., vol. i, pp. 51, 52; Story of A. K. and E. M., p. 36.
- Life of A. K., vol. i, pp. 52, 53; Story of A. K. and E. M., pp. 30, 31.
- The Soul, and How it Found Me, p. 21.
- Ver também a palestra de E. M., Man Incarnate and Discarnate (MS. pp. 4, 5).
- Story of A. K. and E. M., pp. 29, 30.
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“O mundo me revolta. Meu lugar não é aqui. Toda a terra está cheia de violência e de moradas cruéis. Em outro lugar encontrarei paz, e para lá irei esperar por você e pelas poucas almas puras e misericordiosas que ainda permanecem aqui. . . .
O que resta de minha vida eu viverei fazendo o máximo possível contra toda forma de crueldade. . . . A cada dia me parece mais que não pertenço a este mundo. Visões flutuam ao meu redor durante a noite, parecendo advertir-me de alguma mudança desconhecida talvez à minha espera. Não sei; mas meu estado de espírito ultimamente tem sido singularmente claro e expectante. Imagino que exista um futuro e que eu esteja destinada a realizar algum trabalho especial além deste plano de existência, algo para o qual fui enviada aqui como a uma escola.”¹
Pouco depois disso, Anna Kingsford foi aprovada em seu segundo examen “com alta distinção”. Sua saúde, contudo, que então se encontrava “em um estado absolutamente deplorável”, exigiu um mês à beira-mar, com “completa interrupção do trabalho”; e, após mais algumas semanas, divididas entre sua própria casa e a de sua mãe, chegou o momento em que se tornou necessário retornar ao seu trabalho em Paris.
Ela foi novamente acompanhada pelo marido, que desta vez havia providenciado permanecer com ela por um período prolongado, tendo seu bispo consentido que contratasse um substituto durante sua ausência. Mas, pouco depois de sua chegada, ela adoeceu “tão gravemente que era impossível dizer quando, ou se algum dia, seria capaz de retomar o trabalho.”
Decidiram, assim, retornar à Inglaterra na primeira oportunidade, e “foi solicitada e obtida permissão para que ela prosseguisse seus estudos em casa durante o inverno seguinte sem prejuízo de sua posição acadêmica, sendo aceito o comparecimento a um hospital inglês como equivalente ao comparecimento, pelo mesmo período, a um hospital francês.
Esse foi um favor especial concedido, em consideração às circunstâncias, pelo Ministro da Educação Pública, em resposta a uma solicitação formal feita em seu favor pelas autoridades da universidade. Ela retornou, portanto, para casa e, quando suficientemente restabelecida para retomar os estudos, fixou residência com uma parenta em Chelsea e obteve permissão para frequentar o Hospital Infantil de Great Ormond Street, em Bloomsbury.”²
Chelsea, contudo, não lhe fez bem e ela posteriormente, em janeiro de 1877, após ter retornado para casa no Natal, deixou Chelsea e tornou-se hóspede de...
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- Life of A. K., vol. i, pp. 89, 90.
- Life of A. K., vol. i, pp. 92, 93; Story of A. K. and E. M., pp. 42, 43.
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Letitia Going, uma senhora vegetariana e espiritualista que vivia em Jermyn Street; e ali ela teve a vantagem adicional de estar mais próxima de Edward Maitland do que estivera quando em Chelsea.¹
Durante o intervalo do Natal, que passara com Anna Kingsford e o marido dela em sua casa em Shropshire, Edward Maitland fez a seguinte anotação, descrevendo o aspecto, naquele momento, de certa aldeia que lhe parecera “singularmente ilustrativa de nossa condição como povo.” Ele diz:
“Nas cidades eu estava, naturalmente, acostumado a ver a festa da natividade da Vida Divina que nascera no mundo celebrada pela exibição pública, nas lojas de provisões, das usuais hecatombes de cadáveres animais despojados de suas peles. Mas esta bela aldeia entre colinas pacíficas ultrapassava em muito, em entusiasmo sacrificial, qualquer homenagem que uma cidade pudesse render ao sangrento Moloque de nossas ortodoxias nacionais.
Durante alguns dias antes do Natal, a população estivera empenhada na matança anual de seus porcos, processo que, durante todo aquele período, envolvera a incessante perfuração dos céus pelos gritos agonizantes dos inocentes assim massacrados antecipadamente.
“A matança terminou na Véspera de Natal, e a aldeia enviou seus cantores de cânticos natalinos pelos arredores para entoar aleluias sobre o ‘Senhor da Vida’, sobre ‘A alegria d’Aquele’, e sobre ‘Quão belos sobre os montes’; e, na manhã seguinte, viu-se o povo acorrer à igreja da aldeia para prestar nova homenagem ao Gênio do dia, recitando serviços religiosos sob a nota dominante de ‘Paz na Terra e boa vontade para com os homens!’
“Uma fina camada de neve recém-caída cobria o solo, como se enviada expressamente para significar que a Natureza, ainda que não houvesse perdoado a violência feita contra ela na pessoa de seus descendentes suídeos, desejava ao menos, naquele dia sagrado, apagar toda evidência do ato. Mas a tentativa foi malsucedida. Pois, nas sarjetas entre a calçada embranquecida e a estrada, o sangue corria em riachos, enquanto aqui e ali uma grande mancha ensanguentada na neve indicava o lugar de uma poça de sangue estagnada.
“As decorações da igreja e o vigor das devoções da congregação, cujas respostas eram praticamente berradas, serviam para agravar a incongruência de tudo aquilo e lembrar-nos que aquela pequena aldeia rude era apenas um epítome e resumo de toda a Cristandade, na medida em que...”
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- Life of A. K., vol. i, pp. 126, 138, 139.
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era precisamente a combinação de serviço labial e serviço de sangue, que sempre constitui, para uma ortodoxia construída por sacerdotes, a realização da perfeição. E perguntei-me se o Poeta Laureado poderia ter tido em mente uma cena como essa quando fez seu Harold perguntar a alguém que havia renegado sua fé:
‘Que fazes tu aqui,
Pisando o seio de tua mãe até fazê-lo sangrar?’”¹
- Life of A. K., vol. i, pp. 135-136; England and Islam, pp. 255-256.
As coisas não mudaram nesse aspecto desde 1876. O Natal ainda possui seu Advento ou estação de preparação e expectativa, e essa estação continua sendo observada pelos comedores de carne com disciplina apropriada. Na Inglaterra — como provavelmente na maioria, senão em todos os outros países cristãos — ela é honrada por grandes exposições de gado, realizadas em diferentes partes do país, mas às quais, embora repletas de homens e mulheres — “conhecedores” e “especialistas” — apenas uma pequena minoria de nossa grande população pode comparecer.
A maioria deve contentar-se, para sua informação, com longas descrições jornalísticas dessas exposições, descrições dadas numa linguagem tão leviana, zombeteira, insensível, desalmada e cruel quanto se possa considerar adequada, agradável ou condizente com os gostos dos “fiéis” comedores de carne, para cuja instrução ou deleite elas são escritas.
A descrição seguinte (extraída do Daily Express de 5 de dezembro de 1911) de uma dessas exposições de gado pode ser tomada como exemplo, pois confirma plenamente o que acabei de dizer — sendo o dia da exposição o dia seguinte ao Domingo do Advento, no ano da graça de 1911:
“A grande exposição natalina de gado gordo foi inaugurada ontem em Islington, e quase seiscentos animais, cada qual o orgulho de sua região, estão fazendo positivamente sua última aparição diante do público.
“Todos serão abatidos para proporcionar um feriado de Natal, e cada curral é uma cela de condenados.
“As ovelhas já são praticamente carneiro, e embora os porcos gigantescos durmam pacificamente sob rosetas premiadas, seu curral ostenta aquele outro terrível aviso: ‘Vendido a Cuttem and Slicem, curadores de presunto.’
“Mas essa nota de condenação iminente não estraga o prazer dos conhecedores vindos de todos os condados para banquetear os olhos diante dos currais de cordeiros gordos e inclinar-se sobre as cercas discutindo durante horas as qualidades de um novilho de pelagem vermelha.
“Muitos desses especialistas usam chapéus baixos de copa encaracolada e costeletas laterais, e vêm acompanhados de filhas que farejam com desdém os pontos fracos de um porco de Lincolnshire de pelagem encaracolada ou os defeitos de uma novilha Aberdeen-Angus.
“Para sentir o verdadeiro sopro das colinas e dos vales, contudo, é preciso ouvir os vaqueiros e pastores. Esses homens, tão evidentemente em suas melhores roupas de domingo, que nunca se cansam de cuidar e escovar seus animais, fazem do salão uma babel de todos os dialetos conhecidos. . . .
“A entrada na exposição custa apenas um xelim ou pouco mais, e vale bem o dinheiro. Há grupos de ovelhas South Down cujos dorsos são um verdadeiro deleite de acariciar. Os dedos afundam profundamente em dorsos espessos e lanosos que parecem raros tapetes turcos.
“Em outra sala há porcos gordos, cujos dorsos limpos e brancos é impossível passar sem dar um tapa. Gado feroz das Highlands é preso por cordas grossas e pode ser cutucado entre os largos chifres abertos com perfeita impunidade. . . .”
Essa descrição de uma exposição de gado é seguida, uma semana depois (Daily Express, 12 de dezembro de 1911), por um relato das “vendas”. O autor diz:
“Porque comemos para viver, nosso gado e nossas ovelhas são engordados para morrer — para proporcionar àqueles de nós que não são vegetarianos os caldeirões de carne pelos quais ansiamos.
“O mercado natalino de gado foi realizado ontem em Islington, e milha...”
Fez-se referência à maior acessibilidade às ideias que Edward Maitland percebeu possuir após sua renúncia aos alimentos cárneos. Novas faculdades começaram então a manifestar-se, e em ambos. Pois, em 1876, Edward Maitland e Anna Kingsford encontraram-se possuidores de faculdades psíquicas em tal medida que “o véu que divide o mundo sensível do mundo espiritual já não constituía uma barreira intransponível, mas ambos estavam abertos à visão, e o último era tão real e acessível quanto o primeiro.”
Edward Maitland diz:
“Foi por volta da metade de 1876 que esse notável acréscimo de faculdade começou a manifestar-se em plenitude, sendo eu o primeiro a experimentá-lo, apesar de minha anterior total ausência de qualquer faculdade do gênero, ou mesmo da crença na possibilidade de possuí-la. . . . Encontrei-me — sem procurá-lo nem esperá-lo — espiritualmente sensível em relação à visão, audição e tato, e em relações abertas e palpáveis com um mundo que não tive dificuldade em reconhecer como de natureza celestial; tanto transcendia tudo aquilo de que ouvira falar ou lera nos anais do espiritualismo contemporâneo; tão inteiramente correspondia às minhas concepções do divino.”
Edward Maitland, no que lhe dizia respeito, atribuía esse acréscimo de faculdade, em parte, à purificação que seu sistema físico havia sofrido por meio de seu novo regime alimentar.¹
A esse respeito, Edward Maitland relata a seguinte ocorrência interessante, acontecida no início de 1877, e que, diz ele, “embora em si mesma extremamente singular, lançou uma luz inesperada sobre uma parte obscura da Bíblia e sobre o significado espiritual de certas formas animais.”
Ele e Anna Kingsford estavam em Londres, lugar que haviam combinado deixar na noite de 29 de março, em visita à mãe dela em Hastings. Quando ela despertou na manhã do dia em questão, viu subitamente diante de si, em visão desperta, um conjunto de dragões, escorpiões, serpentes, lagostas e diversos animais rastejantes, grandes e pequenos, enquanto uma voz lhe dizia:
“Impeça-o [Edward Maitland] de tocar nestes; se ele tocar a carne destes, você não deve permitir que ele venha...”
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- Story of A. K. and E. M., pp. 37, 38.
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“aproxime-se de você.” Edward Maitland diz:
“Ela contou-me essa visão no decorrer do dia e desenhou para mim algumas das formas dos animais; pois tão vívida fora a visão que ela tinha cada detalhe perfeitamente impresso em sua mente. Mas, devido a alguma interrupção em nossa conversa, omitiu contar-me a proibição. Além disso, não suspeitava que qualquer um dos animais mostrados viesse a cruzar meu caminho, ou que eu os comesse caso isso acontecesse.
“À tarde, contudo, devido à presença de uma visita que desejava algo diferente da dieta habitual da casa, apareceu uma lagosta à mesa. Ao vê-la, ela [Anna Kingsford] ficou algo alarmada, pois isso sugeria que sua visão poderia ser profética e possuir um significado inesperado. Mesmo então, ela não me falou da proibição positiva, mas imaginou que aquilo fosse destinado como uma prova; e que, se eu participasse da refeição, ela não deveria seguir viagem comigo.
“Consequentemente, após uma observação geral feita por ela, destinada a dissuadir do consumo de qualquer coisa que tivesse de ser submetida a uma morte tão cruel como a reputada no caso da lagosta, eu, considerando-a peixe e ‘de sangue frio’, e portanto, na ausência de quantidade suficiente de alimento perfeitamente insensível, permissível, participei dela, mas por alguma razão que não consegui definir, fiz apenas uma prova.
“Pouco depois disso ela levantou-se e deixou a sala, dizendo que não seria capaz de viajar naquela noite.
“Depois de extravasar sua decepção sozinha — pois aguardava ansiosamente suas férias — ela retornou e disse que agora via ter estado errada em não me contar toda a visão; mas que havia interpretado mal o significado das palavras pronunciadas e que, como agora percebia, elas não eram uma prova, mas uma proibição positiva.
“Então sentamo-nos para consultar nossos Gênios¹ por meio da planchette² acerca da ocorrência, considerando provável que a visão tivesse sido enviada por eles.”
- Afinidades, guias ou ministros celestiais. Às vezes são chamados de “anjos”. Espíritos inferiores são empregados pelos Gênios para realizar o ato mecânico da escrita. Os Gênios, sendo de ordem celestial, não se manifestam diretamente no plano físico, mas empregam os elementais para esse propósito (Life of A. K., vol. i, p. 167. Ver a Iluminação de A. K., Concerning the Genius or Daimon, C. W.S., parte i, n.º xiv.).
- Para aqueles que nunca viram uma planchette, a seguinte descrição (extraída de The Century Dictionary) pode ser de interesse. Uma planchette é “uma pequena prancha em forma de coração ou triangular montada sobre três suportes, dos quais dois, colocados nos ângulos da base, são rodízios móveis, e...”
“Ambos, como de costume, colocamos as mãos sobre o instrumento; mas, depois de esperar algum tempo, não houve resposta. Retirei então minha mão para reduzir a quantidade de luz na sala, mas sentei-me novamente sem fazê-lo ao perceber que a escrita havia começado. Ao recolocar minha mão, ela cessou. Retirei-a, e a escrita recomeçou. E assim novamente pela terceira vez. Então retirei minha mão completamente.
“Ela então escreveu:
‘Deixem-no ir. Nada podemos fazer com ele agora.’
‘Por quanto tempo será isso? Podemos ir amanhã?’ perguntamos.
“Ao que escreveu:
‘Se ele se purificar esta noite, vocês poderão ir; mas ele não poderá pedir-nos nada durante sete dias.’
‘Qual é o significado dessa proibição?’
‘Os espíritos que mantêm intercâmbio com vocês pertencem a uma ordem que não pode ter qualquer relação com comedores de répteis, sejam do mar ou da terra. Pois todas as coisas que se movem sobre o ventre são malditas por causa do maligno, cujo selo está posto sobre todas as serpentes, dragões e escorpiões, tais como vos mostramos.’
“Em resposta a novos questionamentos, disseram:
‘Se ele tomar um purgante, você poderá ir com ele amanhã.’
“Obedeci à injunção deles e, na manhã seguinte, fizemos algumas perguntas adicionais acerca desse estranho acontecimento. Entre outras questões, perguntamos se eles endossavam todo o código levítico, pois havíamos reconhecido e encontrado uma passagem correspondente ao que fora dito. A isso responderam:
‘Não; do contrário vocês já teriam sido destruídos.’
‘É correto comer carne?’ foi então perguntado; ao que responderam:
‘Não dizemos que seja correto; e mesmo para vocês seria ilícito comer carne.’”¹
Em outra ocasião, foram informados de maneira semelhante por seus Gênios que...
- Life of A. K., vol. i, pp. 165, 166, 167; The Soul, and How it Found Me, pp. 204-207.
“a dieta perfeita do homem é composta de grãos, do suco das frutas e do óleo das nozes.”¹
Quando chegou o momento de seu retorno a Paris, Anna Kingsford foi acompanhada pelo marido, pela filha e pela governanta da filha; permanecendo o marido com elas até que estivessem instaladas. Algumas semanas depois, em julho, estando ela muito doente, Edward Maitland, por sugestão do marido dela e a pedido da própria Anna Kingsford, juntou-se a ela até que o marido pudesse substituí-lo, o que fez no mês seguinte, quando Edward Maitland retornou a Londres.
Durante o período em que Edward Maitland esteve com ela, receberam, por meio da planchette, a seguinte mensagem:
“Ensinai a doutrina da Alma Universal e da Imortalidade de todas as criaturas. O conhecimento disso é aquilo de que o mundo mais necessita, e esta é a nota fundamental de vossa missão conjunta. Sobre isso deveis construir; esta é a pedra angular do arco. A vida perfeita não é atingível apenas para o homem. O mundo inteiro deve ser redimido sob o novo evangelho que tendes de ensinar.”²
Em setembro, Anna Kingsford retornou para casa por um curto período. O trecho seguinte de uma carta, datada de 23 de setembro de 1877, escrita por ela a Edward Maitland, registra outra de suas experiências extraordinárias: uma experiência que possui importante relação com o tema deste livro e que ela considerava “uma nova revelação de grande importância e natureza espantosa”; e que, segundo Edward Maitland, “continha várias coisas que, na época, estavam além não apenas de nosso conhecimento, mas do conhecimento do próprio mundo, pois seu significado havia sido perdido há muito tempo.”³
Em sua carta ela diz:
“Você deve saber que passei a tarde de ontem lendo atentamente o livro Fruit and Bread, que me havia sido enviado anonimamente. O livro impressionou-me bastante, mas devo dizer que não lhe atribuí grande importância e jamais imaginei que tivesse chegado às minhas mãos de outra maneira senão por mero acaso comum.
“Não estava, portanto, exclusivamente em meus pensamentos quando chegou a noite; e eu de modo algum estava preparada para a visão que a luz da lua cheia me trouxe depois que fui repousar. Eu poderia guardá-la até nos encontrarmos, mas como talvez até lá ela perca algo de sua vividez, ou algumas das palavras pronunciadas possam escapar da minha...”
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- Life of A. K., vol. i, p. 171; The Soul, and How it Found Me, p. 215.
- Story of A. K. and E. M., p. 134; Life of A. K., vol. i, p. 186.
- Life of A. K., vol. i, p. 246.
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memória, penso ser melhor registrá-la imediatamente no papel enquanto ainda está fresca em minha mente.
“Vi em meu sono uma grande mesa posta sobre uma bela montanha, cujos picos distantes estavam cobertos de neve e resplandecentes com uma luz brilhante.¹ Ao redor da mesa reclinavam-se doze pessoas, seis homens e seis mulheres, algumas das quais reconheci imediatamente, as outras apenas depois. As que reconheci de imediato foram Zeus, Hera, Athena, Apollo e Artemis.² Reconheci-os pelos símbolos que usavam.
“A mesa estava coberta com toda espécie de frutas, de grande tamanho, incluindo nozes, amêndoas e azeitonas, com bolos achatados de pão e taças de ouro, nas quais, antes de beber, cada divindade derramava dois tipos de líquido, um dos quais era vinho e o outro água.
“Enquanto eu observava, estando de pé num degrau um pouco abaixo do topo da escadaria que conduzia à mesa, assustei-me ao ver Hera fixar subitamente os olhos em mim e dizer:
‘Que vês na extremidade inferior da mesa?’
“E eu olhei e respondi:
‘Vejo dois lugares vazios.’
“Então ela falou novamente e disse:
‘Quando fores capaz de comer de nosso alimento e beber de nossa taça, também te sentarás e banquetearás conosco.’
“Mal havia pronunciado essas palavras, quando Athena, que estava sentada diante de mim, acrescentou:
‘Quando fores capaz de comer de nosso alimento e beber de nossa taça, então conhecerás como és conhecida.’
“E imediatamente Artemis, que reconheci pela lua sobre sua cabeça, continuou:
‘Quando fores capaz de comer de nosso alimento e beber de nossa taça, todas as coisas se tornarão puras para ti, e vós sereis feitos virgens.’³
“Então eu disse:
‘Ó Imortais, qual é vosso alimento e vossa bebida, e em que vosso banquete difere do nosso, visto que nós também não comemos carne e o sangue não tem lugar em nossas refeições?’
“Então um dos Deuses, que naquele momento eu não conhecia, mas que desde então reconheci como Hermes,⁴ levantou-se da mesa e...”
- A montanha e os picos nevados nessa visão denotavam as alturas puras da realização espiritual, chamadas de diversas formas nas Escrituras de “Monte Santo do Senhor”, “Monte de Deus”, “Monte da Regeneração” e outros nomes, significando o cume da própria natureza espiritual de alguém (ver nota ao sonho de A. K., The Difficult Path, em D. & D. S., p. 56; e ver Life of A. K., vol. i, p. 254).
- Desses Deuses e Deusas, Zeus pode ser considerado representante do espírito e da razão; Hera, da vida original; Athena, da sabedoria interior; Apollo, do espírito da sabedoria; Artemis, do princípio intuitivo ou reflexivo da alma.
- O termo “virgem”, em seu sentido místico, significa uma alma pura de toda mistura com a matéria. O plural foi usado para incluir Edward Maitland.
- Hermes representa o espírito do entendimento, e a figueira, como “símbolo especial de Hermes”, significa a faculdade do entendimento interior (Life of A. K., vol. i, p. 247; Story of A. K. and E. M., p. 75; e ver p. 211 adiante).
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aproximando-se de mim, colocou em minhas mãos um ramo de figueira carregado de frutos maduros e disse:
‘Se quereis ser perfeitos e capazes de conhecer e fazer todas as coisas, abandonai a heresia de Prometheus. Deixai que o fogo vos aqueça e conforte exteriormente; ele é um dom do Céu. Mas não o arranqueis de seu propósito legítimo, como fez esse traidor de vossa raça, para encher as veias da humanidade com seu contágio e consumir vosso ser interior com seu sopro. Todos vós sois homens de barro, como foi a imagem que Prometeu fez. Sois nutridos com fogo roubado, e ele vos consome. De todos os maus usos dos bons dons do Céu, nenhum é tão mau quanto o uso interno do fogo. Pois vossos alimentos e bebidas quentes consumiram e ressecaram o poder magnético de vossos nervos, selaram vossos sentidos e abreviaram vossas vidas. Agora, não vedes nem ouvis; pois o fogo em vossos órgãos consome vossos sentidos. Sois todos cegos e surdos, criaturas de barro. Nós vos enviamos um livro para ler. Praticai seus preceitos e vossos sentidos serão abertos...’
“‘Desejais então’, perguntei, ‘que o mundo inteiro abandone o uso do fogo no preparo de alimentos e bebidas?’
“Em vez de responder à minha pergunta, ele disse:
‘Mostramos-vos o caminho excelente... Mostramos-vos tudo o que pode ser mostrado no nível em que vos encontrais. Mas nossos dons perfeitos, os frutos da Árvore da Vida, estão além de vosso alcance agora. Não podemos dá-los a vós até que estejais purificados e tenhais subido mais alto. As condições pertencem a DEUS; a vontade está convosco.’
“Essas últimas palavras pareceram repetir-se do céu acima de minha cabeça, e novamente debaixo de meus pés. E, naquele instante, caí como se tivesse sido abatida como um meteoro de uma imensa altura; e com a rapidez e o choque da queda despertei.
“Podeis imaginar quão cheio estava meu coração!... Suspeito que... realmente teremos de abandonar o uso de alimentos cozidos e viver como John the Baptist e os antigos santos do deserto, antes de podermos obter aquilo que os Deuses prometem. Tens coragem suficiente para isso? Quando se pensa no que se está adquirindo em troca desse preço, o sacrifício parece de fato algo muito pequeno. E, considerando teu consentimento, pedir-te-ei que compres alguns pacotes de ‘trigo triturado’, em vez do chá que íamos levar — refiro-me ao trigo triturado simples. Senti-me curiosamente culpada esta manhã ao comer meu ovo e beber meu café quente! E eu sempre havia considerado minha alimentação tão simples e pura! Agora considero-me uma mera rastejante — um verme e uma ‘imagem de barro’. Minha mente está cheia dos Deuses e de Prometeu, e não consigo pensar em outra coisa por cinco minutos seguidos...”
Durante o ano de 1877, ela foi aprovada em seu primeiro examen doutoral com distinção.¹
Aliada à questão do abate de animais para alimentação está a do abate de animais para sacrifício. Há aqueles que acreditam — ou professam acreditar — que, muitos anos atrás, Deus ordenou a Moses que animais fossem abatidos para sacrifícios religiosos! Baseiam essa crença em certas passagens — que invariavelmente interpretam literalmente — encontradas na Bíblia; e apenas isso, para eles, é final e conclusivo, resolvendo a questão. E argumentam que “como Deus ordenou que animais fossem mortos para fins sacrificiais, não pode ser errado que o homem os mate para outros fins, como alimentação etc.”
Esses defensores bíblicos do abate de animais, da alimentação carnívora e de outras crueldades nunca oram para serem libertados da “culpa de sangue”, nem procuram compreender o que significam “culpa de sangue” e “sede de sangue”;² tampouco atribuem qualquer importância ao fato de que apenas os Estatutos do Senhor (e, portanto, corretos) são aqueles que “alegram o coração”;³ nem acreditam que jamais tenha entrado na Providência Divina “salvar tanto homens quanto animais”;⁴ muito menos consideram marca distintiva “do homem justo” que ele respeite “a vida de seu animal”;⁵ e quanto a acreditar ou sentir que “é bom não comer carne nem beber vinho”⁶ — tais pensamentos, embora expressos em linguagem claríssima na própria Bíblia, estão longe deles.
Basta-lhes que existam nessa mesma Bíblia algumas passagens que aparentemente justificam a alimentação carnívora e outros costumes bárbaros que aprovam; e isso leva à questão de saber se interpretam corretamente a Bíblia, ou a parte dela à qual apelam para justificar seus atos errados.
Em junho de 1878, Anna Kingsford recebeu, durante o sono, uma instrução Concerning the Interpretation of the Mystical Scriptures,⁷ que possui importantíssima relação com o tema da interpretação bíblica em conexão com o sacrifício animal. Uma parte dessa instrução ela leu num livro, em uma biblioteca que parecia ser a de Emanuel Swedenborg. O restante...
- Life of A. K., vol. i, p. 264.
- Salmo li. 17; ver também Salmo cxxxix. 21.
- Salmo xix. 8.
- Salmo xxxvi. 1, 7.
- Provérbios xii. 10.
- Romanos xiv. 21.
- Ver a Iluminação de A. K. com esse título, C. W.S., parte i, n.º v.
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dela ouviu ser proferido como uma palestra “por um homem em vestes sacerdotais, num anfiteatro de pedra branca, para uma classe de estudantes (da qual ela fazia parte), que tomavam notas.” O que ela havia lido escreveu imediatamente ao despertar, e as anotações que fizera do que ouvira também conseguiu reproduzir de memória ao acordar, tendo sua memória sido “anormalmente intensificada, pois as palavras se apresentavam novamente diante dela enquanto escrevia e destacavam-se luminosamente à vista.”¹
A essência da Instrução era que os “Livros de Moses, o Profeta” não são históricos, mas místicos, e devem, portanto, receber não uma consideração literal, mas mística ou alegórica; e uma parte considerável dela foi utilizada por Edward Maitland em sua palestra sobre Vegetarianismo e a Bíblia,² que aparece em outra parte deste livro.
A seguinte passagem sobre os sacrifícios supostamente oferecidos respectivamente por Cain e Abel é de interesse:
“Não se deve supor que os dois sacrifícios oferecidos a Deus pelos filhos de Adão fossem sacrifícios reais, assim como não se deve supor que a Maçã que causou a Queda da Humanidade fosse uma maçã real. Deve-se saber, de fato, para a correta compreensão dos Livros Místicos, que em seu sentido esotérico eles tratam não de coisas materiais, mas de realidades espirituais; e que, assim como Adão não é um homem, nem Eva uma mulher, nem a Árvore uma planta em sua verdadeira significação, também os Animais mencionados nesses mesmos livros não são animais reais, mas o significado místico deles é o que está implicado.
“Quando, portanto, está escrito que Abel tomou das primícias de seu rebanho para oferecer ao Senhor, significa-se que ele ofereceu aquilo que um cordeiro implica, e que constitui o mais santo e elevado dos dons espirituais. Nem o próprio Abel é uma pessoa real, mas o Tipo e a Representação espiritual da raça dos Profetas; da qual também Moisés era membro, juntamente com os Patriarcas. . . .
“São idólatras aqueles que compreendem as Coisas dos Sentidos onde apenas as Coisas do Espírito estão implicadas.”³
No início de junho de 1878, seu segundo Doctorat examen, no qual ansiava obter tanta distinção quanto no primeiro, estava próximo. A data originalmente fixada para esse exame era 5 de junho, “mas seu professor, desaprov...”
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- Life of A. K., vol. i, p. 269.
- Ver pp. 214-224 adiante.
- Ver ainda, sobre o tema do sacrifício sangrento, The Perfect Way, or the Finding of Christ, Lect. iv, pars. 6-15 e 17, onde é mostrada a conexão entre idolatria e sacrifício sangrento — incluindo a alimentação carnívora. Ver também p. 197 adiante.
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desconfiando dos examinadores designados para a ocasião, em parte devido à conhecida hostilidade de alguns deles para com as estudantes mulheres, e em parte porque ele a havia preparado com livros diferentes daqueles escritos pelos próprios examinadores — circunstância suscetível de despertar ressentimento neles — persuadira-a a conseguir o adiamento da data de seu exame por alguns dias, quando outro grupo de examinadores atuaria.”¹
Edward Maitland diz:
“Tão ansiosa estava ela por testar sua condição que [em 5 de junho] foi até a Escola, embora não tivesse necessidade de ir, a fim de ouvir o exame então em andamento — sendo os temas os de sua próxima prova — e comparar as respostas dadas com aquelas que ela própria estava preparada para dar, sendo o exame oral (viva voce). Seu deleite ao retornar foi ilimitado. Declarou que poderia ter respondido a todas as perguntas muito melhor do que qualquer um dos estudantes e que teria deixado todos para trás caso tivesse sido uma das examinandas.²
“. . . O dia finalmente marcado [para seu exame] amanheceu com uma violenta tempestade de trovões, que cessou apenas a tempo de tornar possível sua saída; pois, enquanto durou, as ruas ficaram inundadas e nenhum veículo podia ser obtido.
“A tempestade, além disso, produzira o habitual efeito angustiante sobre seu sistema nervoso — pois ela era excessivamente sensível a perturbações elétricas — de modo que lhe implorei que desistisse da intenção de apresentar-se ao examen naquele dia. Mas ela estava decidida. Havia trabalhado longa e arduamente e recuava diante da tensão de um novo adiamento; e, além disso, estava confiante de dominar completamente suas matérias, e jamais até então deixara de ser aprovada com êxito.
“Não era seu estado mental, mas seu estado físico, que me levava a duvidar de sua aptidão. . . . Assim, partimos para a Escola. O examen deveria ocupar dois dias.
“O relato que ela me fez do primeiro dia prenunciava mal as chances de sucesso. Dos três examinadores, dois haviam sido tudo o que se poderia desejar; mas o terceiro, um Dr. N——, que fora substituído no último momento, era conhecido por ela como pertencente a um grupo da Faculdade que se opunha violentamente à admissão de mulheres aos diplomas e estava determinado a tornar os exames impossíveis para elas.
“Sua hostilidade para com ela manifestou-se desde o instante em que ela se apresentou; seus modos, que para com os estudantes homens haviam sido gentis e atenciosos, tornaram-se imediatamente severos e extremamente intimidadores. E...”
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- Life of A. K., vol. i, pp. 264, 265, 270.
- Ver também Story of A. K. and E. M., p. 144.
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quando constatou que ela dava respostas perfeitas em todos os assuntos propriamente compreendidos no exame, passou a interrogá-la sobre outros, referindo-se às doenças mais abstrusas e recônditas, algumas delas de ocorrência tão rara que sua própria existência é negada por muitos médicos. E, não encontrando motivo de crítica contra ela nesses pontos, procurou abalar sua presença de espírito cometendo a indignidade de fazer-lhe as perguntas mais embaraçosas que poderiam ser dirigidas a uma jovem na presença de homens, indo muito além do âmbito habitual dos assuntos para esse propósito.
Essa demonstração de sua hostilidade impôs uma terrível tensão sobre seus nervos, mas ela suportou tudo sem vacilar, sabendo que ele estava tecnicamente dentro de seus direitos e resolvida a não lhe fornecer o pretexto que buscava para recusá-la. Foi somente quando chegou à épreuve pratique, que envolvia destreza manual, que o efeito se manifestou. Ela controlara sua mente, mas não conseguia controlar os músculos. E a consequência foi que suas mãos tremiam sobre a peça de dissecação que lhe fora designada, e o trabalho foi realizado de maneira algo menos artística do que teria sido em outras circunstâncias e do que ela costumava fazer. Isso deu ao professor a oportunidade desejada e, embora o fracasso relativo fosse obviamente devido em parte ao nervosismo induzido por ele próprio e em parte à inabilidade do estudante designado para segurar a peça para ela, recusou-se a assinar sua nota de aprovação.
“Dos outros dois examinadores ela havia recebido os mais calorosos elogios. ‘Madame’, disse um deles, com uma reverente inclinação, ‘a senhora conhece perfeitamente suas matérias.’ ‘Madame’, disse o outro, ‘não tenho absolutamente nada a reprovar-lhe.’ Sentiam profundamente a injustiça e a dureza demonstradas para com alguém que reconheciam como excepcionalmente talentosa e industriosa, bem como a desonra infligida à universidade e à sua corporação ao tratar assim uma mulher por ser mulher, depois de terem aberto suas portas às mulheres. Mas ele permaneceu inexorável, declarando que, sob nenhuma circunstância, ele e seu grupo permitiriam que uma mulher fosse aprovada. E tão profundamente seus colegas sentiram a questão que se reuniram expressamente para discuti-la, resultando disso a oferta de lhe conceder um novo exame, fresco e meramente formal, no mês seguinte, diante de um professor imparcial em lugar dele.
“A oferta veio tarde demais. A decepção e a indignação sentidas por ela foram excessivas para um organismo sempre altamente tensionado e frágil, mas agora dolorosamente sobrecarregado. Instalou-se um estado de intensa agitação cerebral, sob o qual ela se recusava a voltar para casa, pois não podia suportar a visão, dizia ela, dos livros e estudos que a haviam conduzido a tal fim; e nada restava senão dizer ao cocheiro de nossa fiacre que desse voltas pelo Bois.
“Depois de dirigir por uma ou duas horas, disse que iria para casa arrumar algumas coisas e partir para a praia. Paris era agora insuportável; enlouqueceria se permanecesse ali. Ao chegar ao apartamento, lançou-se sobre o sofá, onde permaneceu por algum tempo gemendo e chorando, exclamando nos tons mais lastimosos: ‘Je suis refusée — refusée — refusée’, até que, num paroxismo culminante de angústia, ergueu-se subitamente em toda a sua altura e, com um grito lancinante, caiu inconsciente ao chão, sendo seu movimento tão súbito que, embora eu estivesse ao seu lado quando ocorreu, pude apenas amortecer a força total da queda.
“Permaneceu inconsciente muito tempo depois de ser levantada e recuperou a consciência apenas para descobrir-se paralisada da cabeça aos pés em todo o lado esquerdo do corpo. E quando, por fim, foi chamado um médico, o ataque foi diagnosticado como uma hémiplégie cérébrale gauche de caráter muito grave e sério, da qual se poderia esperar, na melhor das hipóteses, apenas uma recuperação parcial, e isso somente após um longo período de enfermidade. Quanto à possibilidade de ela voltar algum dia a estar apta para o trabalho intelectual, isso mal podia ser cogitado.
“O veredicto, se eu o tivesse aceitado, teria sido um golpe mortal em todas as nossas elevadas esperanças e implicaria a ruína de nossa missão. Mas não o aceitei por um só momento. Eu sabia que nela havia algo que a ciência médica não leva em consideração, e minha fé nos Deuses e em nossa missão excedia em muito minha fé nos médicos. Para os outros, a opinião deles poderia valer; mas não se aplicava a alguém de sua ordem.
“Concordaram comigo em que a recuperação dependeria muito mais de cuidados do que de medicamentos, e que esses cuidados deveriam ser simpáticos. Para auxiliar-me nisso, propus chamar imediatamente seu marido. Mas ela proibiu-me de fazê-lo até que estivesse suficientemente restabelecida para viajar, e então ele viria ajudar-me a levá-la para a praia. Enquanto isso, confiaria apenas nos cuidados e recusaria toda ajuda médica.
“O diagnóstico francês, declarou ela, poderia ser bom, mas não a terapêutica francesa. Sua experiência com a prática hospitalar a aterrorizava por seu caráter severo e experimental; e, além disso, como sensitiva das sensitivas e abstêmia de alimentos cárneos, seu organismo falseava todos os cálculos habituais sobre o efeito dos medicamentos.
“E, tal como estava, a forma assumida por sua enfermidade desafiava todos os precedentes. Pois, embora o ataque tivesse ocorrido no lado esquerdo do cérebro, a paralisia também se encontrava nesse lado, em vez de seguir o curso dos nervos e passar para o lado direito. Além disso, os médicos franceses eram todos vivisseccionistas e, como não podiam receber honorários de uma estudante de medicina, não teriam interesse algum em curá-la.”¹
Quando, pouco depois, seu marido juntou-se a ela, todos deixaram Paris e foram (via Fécamp) para Dieppe em busca de mudança de ares. Ele pôde permanecer com ela até “perto do fim de julho”, quando foi obrigado a retornar para casa, e ela e Edward Maitland voltaram a Paris.
Demorou muito até que ela se recuperasse “do choque em seu organismo”. Em setembro, estava “sofrendo terrivelmente por falha na ação do coração” — efeito “de sua recente enfermidade” — mas “lutava com seus estudos” a fim de passar no examen em que fora tão injustamente reprovada, embora fosse duvidoso que pudesse resistir por tanto tempo.²
Escrevendo em seu diário sob a data de 29 de setembro, Edward Maitland diz:
“Esta manhã ela teve um terrível acesso de incapacidade de respirar devido à constrição dos músculos do coração e pensou que seu último momento havia chegado. Nessa extremidade, foi surpreendida ao ouvir uma voz forte pronunciar dentro dela, em tom imperativo, a exclamação: ‘VIVE!’”³
Apesar de sua condição, durante o mês de setembro ela recebeu de seus Iluminadores — a quem chamava “os Deuses” — uma instrução de grande valor, que, segundo Edward Maitland, em consideração à persistente fraqueza de sua memória, “foi projetada em sua mente verso por verso, para ser imediatamente escrita, não lhe sendo dado um segundo verso antes que tivesse escrito o último recebido. A comunicação começou pouco antes de ela levantar-se e continuou em intervalos durante todo o tempo em que se vestia.”⁴
Nessa instrução, que pretendia vir de Hermes, Anna Kingsford e Edward Maitland eram exortados da seguinte forma:
“Purificai vossos corpos e não comais coisa morta alguma que tenha olhado com olhos vivos para a luz do Céu.
“Pois o olho é o símbolo da fraternidade entre vós...”
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- Life of A. K., vol. i, pp. 266, 270-273.
- Ibid., pp. 274, 289.
- Ibid., p. 289.
- Ibid., p. 282.
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“‘A visão é o sentido místico.
“‘Que nenhum homem tire a vida de seu irmão para alimentar com ela a si mesmo.
“‘Mas matai apenas aqueles que são maus; em nome do Senhor.’¹
“‘Estão miseravelmente enganados aqueles que esperam a vida eterna e não refreiam suas mãos do sangue e da morte.’”²
Em outubro, ela estava muito melhor, como mostra a seguinte anotação no diário de Edward Maitland:
“13 de outubro. — Desde 29 de setembro, quando o Espírito lhe ordenou ‘viver’, [ela] tem estado maravilhosamente melhor, não tendo tido qualquer retorno de seu problema cardíaco ou dificuldade respiratória. Não tomou medicamentos e viveu da maneira mais simples e moderada possível — principalmente de pão e frutas, evitando alimentos e bebidas quentes. Eu também fiz o mesmo, com manifesta vantagem para a saúde, o conforto e a lucidez.”³
Antes do final do ano, Anna Kingsford “passou com grande distinção e perfeita facilidade no examen no qual fora tão injusta e cruelmente refusée”, e pouco depois, em 1879, “um intenso período de trabalho, estendendo-se por três meses, foi recompensado por sua aprovação num temido exame de química com as mais altas notas de aprovação.”⁴
Em 1880, ela ingressou no último ano de seu curso, desde que tudo corresse bem. Mas sua persistente recusa em permitir que seus professores realizassem vivissecções em suas aulas continuava a sujeitá-la não apenas a constantes altercações com eles, mas também a constantes mudanças de professores.⁵
Tendo sido aprovada em seus Doctorat examens com a mais alta distinção e concluído seu curso no menor tempo possível — excetuando-se apenas a única reprovação acima mencionada, cuja culpa não lhe pertencia — restava apenas a aceitação da tese, que precedia a concessão do diploma, para completar seu curso de estudante e qualificá-la a entrar na prática de sua profissão como Doutora em Medicina da...
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- Os animais possuem almas que, como as dos homens, são boas e más e, como as dos homens, sobrevivem à morte do corpo, reencarnam e progridem ou não; pois a transmigração pode ser descendente tanto quanto ascendente. O corpo é apenas “a câmara de provação” para a alma e, por algum tempo, representa o caráter da alma. Alguns animais são receptáculos de espíritos malignos. Matar criaturas — sejam homens ou animais — que sejam habitualmente nocivas não é errado. Tais criaturas podem ser mortas, o mais misericordiosamente possível, “em nome do Senhor”.
- Life of A. K., vol. i, p. 283. Iluminação de A. K., An Exhortation of Hermes to his Neophytes, C. W.S., Parte ii, n.º xii, p. 248.
- Life of A. K., vol. i, p. 292.
- Ibid., pp. 303, 315.
- Ibid., pp. 338, 339.
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Faculté de Paris. Edward Maitland diz:
“Ela resolveu fazer de sua tese uma exposição dos princípios em favor dos quais buscava um diploma, intitulando-a De l’Alimentation Végétale chez l’Homme. Nela demonstrava a natureza não carnívora do homem, conforme determinada por sua estrutura física e constituição moral, e defendia um retorno à sua dieta natural como remédio para os males que afligem a sociedade moderna.
“Num tratado assim concebido, os males e sofrimentos dos animais inseparáveis do uso deles como alimento necessariamente ocupavam lugar destacado na divisão moral do argumento; e, embora não houvesse oportunidade para uma denúncia direta da experimentação científica sobre eles, todo o tom do trabalho apontava inequivocamente nessa direção.
“Era costume que os candidatos ao diploma recitassem suas teses nas Escolas diante de uma audiência de professores e estudantes, defendendo-as em debate público. E ela estava tão cheia de seu tema e tão confiante da inexpugnabilidade de sua posição, bem como de sua capacidade de fazer-lhe justiça mesmo em língua estrangeira, que aguardava com ardor uma prova geralmente considerada aterradora.
“Sua decepção e consternação, portanto, foram grandes quando, apresentando-se no local e hora designados, o chefe de seu hospital — o Professor Léon Le Fort — veio à frente e informou-lhe que sua tese não poderia ser aceita tal como estava; não porque fosse anticientífica — sua exatidão era irrepreensível nesse aspecto — mas porque era moral!
“Ele próprio, declarou, assim como alguns de seus colegas, não se opunham a ela por esse motivo; e, de fato, agora que haviam admitido mulheres, não poderiam esperar excluir totalmente o sentimento, ao menos por enquanto; mas havia alguns entre eles, um em particular, cuja posição tornava impossível ignorá-los, e que estavam enfurecidos com seu tom, de modo que o único caminho possível seria adiar a leitura até que as partes ofensivas fossem eliminadas, quando então ela seria novamente chamada e aprovada, porém sem debate público.
“Pois, embora admitindo que o trabalho fosse cientificamente sólido, a Faculdade não podia permitir que um ensinamento tão oposto a todas as suas tradições fosse promulgado entre os estudantes. Enquanto isso, ele próprio faria as supressões necessárias, e ela poderia ficar perfeitamente tranquila quanto ao resultado. Isso implicaria apenas um atraso de algumas semanas. . . .
“Não demoramos muito para descobrir o nome do principal opositor. Era um dos membros do grupo mais violentamente contrário à admissão de mulheres aos diplomas. E pelos relatos que nos chegaram acerca das discussões, e até mesmo dissensões, surgidas entre eles por causa da tese, ficou evidente que esses inveterados patronos dos matadouros e das câmaras de tortura se contorciam ao pensar que tal protesto em favor da misericórdia e da pureza de vida pudesse ter emanado de alguém formado em sua escola. Era um verdadeiro golpe da lança de Ithuriel, e a mão que o desferira era a de uma mulher!”¹
O dia finalmente marcado para a defesa da tese foi 22 de julho de 1880. Edward Maitland diz:
“Ao chegarmos às Escolas, encontramos seu amistoso chef e outros dois professores esperando para examiná-la sobre o tema de sua tese, e sobre quaisquer outros assuntos que desejassem, numa pequena sala e a portas fechadas, sendo eu, como amigo próximo, o único outro ouvinte.
“O exame assumiu a forma de uma conversa amistosa, na qual era evidente que os professores, todos sem exceção, sentiam não pequeno prazer em estimular uma candidata que reconheciam possuir dons excepcionais. Encontrando-os tão sympathiques, ela ficou perfeitamente à vontade e fez plena justiça à sua faculdade de exposição eloquente e lúcida.
“Na conclusão da sessão, seu chef, que evidentemente atribuía a si próprio não pequeno mérito por haver conciliado a divergência que ameaçava seu diploma, apertou calorosamente minha mão e felicitou-me por seu êxito, dizendo: ‘Madame é agora uma de nós’; ao que respondi mentalmente: ‘Sim, mas com uma diferença muito considerável.’ . . .
“A novidade e importância do tema, sua coragem ao escolher tal assunto, o talento demonstrado em seu tratamento e a controvérsia que suscitara asseguraram à tese uma procura absolutamente excepcional no caso de trabalhos desse tipo, levando ao rápido esgotamento da primeira edição e à publicação de uma segunda.² E a questão recebeu um impulso que se estendeu pelo continente em geral, levando à formação de sociedades vegetarianas, com vários médicos apoiando calorosamente a causa.”³
No mês seguinte ela graduou-se em Paris, encerrando assim sua carreira como estudante de medicina — carreira durante a qual...
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- Life of A. K., vol. i, pp. 380, 381.
- A tese original foi publicada em Paris em língua francesa. Posteriormente foi traduzida para o alemão e publicada com notas explicativas e outros acréscimos pelo Dr. A. Aderholdt (ver Prefácio de The Perfect Way in Diet; ver também Pall Mall Gazette, fevereiro de 1888; Light, 1888, p. 97).
- Life of A. K., vol. i, p. 382.
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ela jamais frequentou qualquer lugar ou ocasião em que se realizasse vivissecção, tendo sido parte essencial de seu plano provar que tal experimentação não era necessária para a obtenção de um diploma. E isso ela demonstrou efetivamente ao completar seu curso de estudante com rara rapidez e distinção, apesar de suas muitas e graves enfermidades e de suas frequentes mudanças de professores, os quais, um após outro, abandonavam o cargo por causa de sua recusa em permitir que realizassem experimentos em animais vivos durante suas aulas.¹
A respeito da obtenção por ela da qualificação para exercer a profissão como Doutora em Medicina da Faculté de Médecine de Paris, Edward Maitland diz:
“Do custo em trabalho e sofrimento, físico e mental, pelo qual esse privilégio foi obtido, a Life of Anna Kingsford oferece, na melhor das hipóteses, apenas uma tênue indicação. Pois, estando limitada às coisas que ocorrem no espaço e no tempo, a história não pode levar em conta a dimensão condicionada pela intensidade.”²
“Somente aqueles que sabem o que significa ser hipersensível ao ambiente espiritual podem imaginar a agonia aguda que para ela representavam as associações às quais esteve necessariamente exposta na Universidade de Paris. Aquilo que a sustentou e a conduziu através de seu curso universitário foi a consciência de que sua missão era uma missão de redenção, e que somente àqueles que foram eles próprios mais ou menos ‘aperfeiçoados pelo sofrimento’ é confiada tal missão.”³
Um dos três examinadores diante dos quais recebeu seu diploma foi o Professor Charles Richet. Edward Maitland diz:
“Ele ficou tão impressionado com ela que a convidou para um banquete vegetariano em sua casa, oferecido expressamente em sua homenagem; e ela não estava sem esperança de conquistá-lo para sua causa vegetariana e antivivisseccionista. Pois percebia nele uma possibilidade de coisas mais elevadas. Mas prevaleceram as influências rivais. Sua alma extinguiu-se, e ele tornou-se um dos principais experimentalistas de seu tempo.”⁴
Ao deixar Paris, foram por um curto período para Boulogne-sur-Mer, a fim de recuperar suas energias esgotadas; e dali retornaram à Inglaterra — ela para sua casa em Atcham, e ele para Londres.
Sua intenção era encontrar uma pequena casa no West End de...
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- Story of A. K. and E. M., pp. 135, 136.
- Life of A. K., vol. i, p. 380.
- Life of A. K., vol. ii, p. 348; Light, 1888, p. 117.
- Life of A. K., vol. ii, p. 269; ver também vol. i, p. 382.
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Londres adequada para continuar seu trabalho humanitário e outras atividades; e, antes do final do ano, decidiram-se pelo número 11 de Chapel Street (atualmente Aldford Street), Park Lane; e, em novembro seguinte, Anna Kingsfordestabeleceu ali sua residência.¹
Ela não estava ali há muito tempo quando recebeu, durante o sono, uma instrução Concerning the “Work of Power” — uma obra aberta a todos potencial e eventualmente, mas não efetiva e presentemente. Nessa instrução foi-lhe dito que os “Dois Lugares”² estavam vagos à Mesa Celestial, se ela quisesse revestir-se do Cristo, e foi exortada da seguinte maneira:
“Não comas coisa morta alguma. Não bebas bebida fermentada. Faz de todos os elementos de teu corpo elementos vivos. Mortifica os membros da terra. Toma teu alimento cheio de vida, e não permitas que o toque da morte passe sobre ele. . . . Hephaestus [o Espírito do Fogo] é um destruidor, e o sopro do fogo é um toque de morte.
“O fogo que passa sobre os elementos de teu alimento os priva de seu espírito vital e te dá um cadáver em vez de substância viva. E não apenas isso, mas o espírito do fogo entra nos elementos de teu corpo e estabelece em todas as suas moléculas um consumo e uma combustão, impelindo à concupiscência e ao desejo da carne.
“O espírito do fogo é um espírito sutil, penetrante e difusivo; e entra na substância de toda matéria sobre a qual atua. Quando, portanto, tomas tal substância em teu organismo, tomas com ela o espírito do fogo e o assimilas juntamente com a matéria da qual ele se tornou parte.
“Falo-te de coisas excelentes. Se queres tornar-te um Homem de Poder, deves ser senhor do Fogo.”³
O incidente seguinte mostra quão adversas eram as condições da vida moderna naquele país para o trabalho espiritual deles. Edward Maitland diz:
“Estando em Londres numa noite de Natal, e falando comigo sob iluminação, ‘Mary’⁴ interrompeu-se subitamente e disse:
‘Não me faças perguntas tão profundas agora, pois não consigo ver claramente, e dói-me olhar. A atmosfera está espessa com o sangue derramado para as festividades da estação.⁵ O Cinturão Astral está em toda parte denso de sangue. Meu Gênio diz que, se estivéssemos em algum país onde as condições de vida fossem mais puras, poderíamos viver em comunicação constante com o mundo espiritual. Pois a terra aqui...’”
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- Life of A. K., vol. i, pp. 386, 388.
- Ver p. 25 acima.
- Life of A. K., vol. i, pp. 425, 426; C. W.S., pp. 98-102.
- Isto é, Anna Kingsford.
- Ver pp. 19, 20 acima.
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gira ao redor como numa nuvem de sangue semelhante a fogo vermelho. Ele diz clara e enfaticamente que a salvação do mundo é impossível enquanto as pessoas se alimentarem de sangue. O globo inteiro é como uma vasta casa mortuária. O magnetismo é interceptado. O sangue fortalece os laços entre os Astrais e a Terra. . . . Este tempo, que deveria ser o melhor para a comunhão espiritual, é o pior, por causa desse horrível modo de vida. Por favor, desperta-me. Não suporto olhar, pois vejo o sangue e ouço os gritos das pobres criaturas abatidas.’
“Aqui sua aflição tornou-se tão extrema que ela chorou amargamente, e passaram-se alguns dias antes que recuperasse plenamente sua compostura.”¹
Em 1881, Anna Kingsford teve outras experiências notáveis. Em março daquele ano foi recipiente de uma visão Concerning Three Veils which separate Man from God.² Ela é longa demais para ser inserida aqui. Seu propósito era ensinar “à humanidade a necessidade absoluta de pureza de vida, pureza de coração e pureza de doutrina.”
Os três véus a serem removidos eram “Sangue, Idolatria e a Maldição de Eva”, e em sua visão foi-lhe dado removê-los. Foi-lhe dito:
“‘A ti é dado removê-los; sê fiel e corajosa; chegou o tempo.’
“E o mandamento dado foi:
‘Afastai o sangue do meio de vós!’”
É em parte com o propósito de mostrar quão fiel e corajosamente Anna Kingsford removeu o primeiro desses três véus que este Prefácio foi escrito.
No mesmo mês ela recebeu, também em sono, uma Iluminação Concerning the Greek Mysteries,³ da qual os seguintes trechos, sendo de grande interesse, são extraídos:
“Na celebração dos mistérios de Apollo,⁴ era proibido comer qualquer coisa sobre a qual tivesse passado o fogo terrestre. Por isso, todo o alimento de seus devotos era cozido ao sol, e seu principal sacrifício consistia em frutos de árvores altas amadurecidos pelos raios solares.
“A esses mistérios de Apollo associavam-se os de Zeus e Hera, o Rei e a Rainha.”
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- Story of A. K. and E. M., pp. 136, 137.
- Essa visão está registrada integralmente em Clothed with the Sun, Parte i, n.º i; também em The Perfect Way, or the Finding of Christ, Lect. vi, par. 42.
- Ver C. W.S., Parte i, n.º xviii.
- Os mais íntimos e elevados mistérios da humanidade perfeita, que constituem a mais alta de todas as castas e “dão àqueles que os alcançam o direito de sentar-se nos ‘assentos dourados’” (C. W.S., p. 78). As castas são, propriamente, graus espirituais e não têm relação com a condição externa da vida (ver p. 210 adiante).
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“. . . Era, portanto, uma ofensa contra Apollo e Zeus que seus devotos comessem qualquer coisa sobre a qual tivesse passado o fogo, ou qualquer vinho fermentado.¹ Seu vinho era o puro suco da uva bebido novo, e seu pão era sem fermento e cozido ao sol.¹
“. . .
“Nos mistérios de Hermes, o segundo círculo — o Deus que guarda a Alma — era proibido comer qualquer criatura que tivesse vida, ou, antes, que tivesse olhos que veem.² Pois Hermes é o Vidente. Seus devotos participavam apenas de alimento vegetal, que podia ser preparado com fogo terrestre, e de vinho, que podia ser fermentado.”³
E em maio ela recebeu, também em sono, uma instrução acerca da degradação da religião por meio da materialização da doutrina espiritual do sacrifício. Em sua visão, seu Gênio conduziu-a a um grande salão de estrutura semelhante a um templo, onde viu quatro touros abatidos jazendo sobre altares, e várias pessoas em volta em atitude de adoração.
E acima dos altares, nos vapores que se erguiam dos espíritos do sangue dos animais sacrificados, havia formas colossais nebulosas, meio formadas da cintura para cima e semelhantes aos Deuses.⁴ E seu Gênio disse:
“Estes são Astrais, e assim procederão até o fim do mundo.”⁵
Já me referi ao livro deles, The Perfect Way; or, The Finding of Christ. Durante a preparação das palestras compreendidas nesse livro, receberam certas instruções com referência ao caráter de sua audiência. Foi-lhes dito que não deveriam falar dos Grandes Mistérios a quaisquer pessoas que, por um período de quarenta dias, tivessem provado carne, ou cujas mãos tivessem derramado sangue, ou cujas línguas tivessem provado qualquer sangue.⁶
Os Grandes Mistérios deveriam ser reservados até que tivessem um círculo de “viventes puros”. Ao mesmo tempo, foram instruídos a comer peixe por algum tempo, para capacitá-los a realizar o árduo trabalho intelectual diante deles. Foi-lhes dito que o peixe continha iodo...
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- Ver p. 25 acima.
- Ver p. 32 acima.
- Além dos mistérios de Apollo, Zeus e Hera, e Hermes, a Iluminação de Anna Kingsford Concerning the Greek Mysteries trata também dos mistérios de Her, cujos iniciados podiam comer peixe; de Dionysus (Bacchos), em cujos mistérios era permitido ao círculo exterior comer toda carne exceto a impura; e de Ares, em cujos mistérios podia-se comer carne humana e carne de cavalos.
- Uma delas em particular atraiu sua atenção. Era a cabeça e o busto de uma mulher de enormes proporções usando as insígnias de Diana (The Perfect Way, or the Finding of Christ, Lect. iv, par. 14).
- C. W.S., p. 66.
- Life of A. K., vol. i, p. 441.
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que era necessário para ambos, especialmente para ela: que “a proibição referente ao peixe dizia respeito ao modo de vida mais elevado”, e que essas coisas eram questões de Casta ou Grau, e eles ainda não pertenciam ao mais alto, de modo que não lhes era obrigatório abster-se de peixe. Mas, enquanto comessem peixe, deveriam considerar-se “de uma casta inferior”. Essa permissão, naturalmente, não se estendia a permitir o consumo de carne.¹
Falando sobre seu método de trabalho na preparação das palestras de The Perfect Way; or, The Finding of Christ, Edward Maitland diz que ele
“consistia na projeção forçada do ponto perceptivo da mente para dentro e para cima, em direção ao seu ponto central e radiante, em busca da ideia informadora de qualquer fato fenomenal, seguindo-se ao mesmo tempo o modo de vida que sempre foi considerado essencial para tal introvisão, sendo uma condição indispensável a renúncia à carne como alimento.”²
As palestras de The Perfect Way destinavam-se a expor o processo de aperfeiçoamento interior do indivíduo, mais do que elaborar as várias aplicações práticas da doutrina ensinada. Mas nessas palestras o vegetarianismo é
“insistido como essencial para a plena apreensão e realização do ideal implicado pelo termo ‘Cristo’ — entre outras razões, por sua influência sensibilizadora sobre os planos superiores da consciência”;³
e o consumo de carne é condenado como incompatível com a religião de Jesus Christ.
Tendo em mente as instruções que lhes haviam sido dadas, ao referir-se em uma de suas palestras a certos conhecimentos pertencentes aos Grandes Mistérios, Edward Maitland disse:
“Tal conhecimento é reservado àqueles que cumpriram as condições necessárias para a iniciação neles. Dessas condições, a primeira é a completa renúncia a uma dieta de carne, sendo a razão quádrupla — espiritual, moral, intelectual e física — de acordo com a constituição quádrupla do homem.
“Isto é imperativo. O homem não pode receber, os Deuses não concederão, os mistérios do Reino dos Céus em outros termos. As condições pertencem a Deus; a vontade está com o homem.”⁴
- Life of A. K., vol. ii, pp. 4, 5; ver também Story of A. K. and E. M., pp. 131, 132.
- Light, 1893, p. 103.
- Carta datada de 15 de outubro de 1890, de E. M. para M. B. Ver The Perfect Way, or the Finding of Christ, Prefácio, pp. ii-iii.
- The Perfect Way, or the Finding of Christ, Lect. iii, par. 60; ver também C. W.S., n.º ii, pp. 5-8.
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Sobre o tema do vegetarianismo, Anna Kingsford disse:
“Ao comer carne, e assim ingerir o princípio do sangue — sendo carne e sangue inseparáveis — o homem ‘sacrifica às emanações astrais de sua própria atmosfera magnética e, fazendo isso, ministra ao terreno e corruptível. Isto é “comer das coisas oferecidas aos ídolos”, pois o sangue é o alimento dos eidola astrais, e o comedor de sangue é infestado por eles.’”¹
E:
“‘Digamos ousadamente, e sem receio de contradição por parte daqueles que realmente sabem, que a Vida Interior e o Céu claro não são alcançáveis pelos homens que participam do sangue: homens cuja atmosfera mental está espessa com os vapores dos sacrifícios diários aos ídolos. Pois, enquanto essas sombras infestarem o Homem, obscurecendo a extensão do Éter superior e divino além dele, ele permanecerá incapaz de desprender-se do amor à Matéria e das atrações dos Sentidos, podendo no máximo discernir vagamente a Luz do Sol Espiritual.’
“‘A abstinência das oblações sangrentas em todos os planos é, portanto, a porta do Caminho Perfeito, a prova da iluminação, a pedra de toque e o critério do desejo sincero pela plenitude da Visão Beatífica.’”²
Em outra palestra ela disse:
“‘O Paraíso jamais poderá ser reconquistado, a Regeneração jamais completada, o homem jamais plenamente redimido, até que o corpo seja colocado sob a lei do Éden e tenha purificado completamente de si a mancha do sangue.
“‘Ninguém jamais conhecerá as alegrias do Paraíso que não possa viver como os homens do Paraíso; ninguém jamais ajudará a restaurar a Idade de Ouro ao Mundo que não a restaure primeiro em si mesmo.
“‘Nenhum homem, sendo derramador de sangue ou comedor de carne, jamais tocou o Segredo Central das coisas, ou lançou mão da Árvore da Vida. Por isso está escrito acerca da Cidade Santa: “Fora ficam os cães.” Pois o pé da besta carnívora não pode pisar os pisos dourados; os lábios poluídos pelo sangue não podem pronunciar o Nome Divino.
“‘Jamais foi pronunciada palavra mais verdadeira do que esta; e se não disséssemos outra, já teríamos dito tudo o que o homem precisa saber. Pois se ele apenas viver a vida do Éden, encontrará todas as suas alegrias e todos os seus mistérios ao alcance de sua mão.
“‘Aquele que quiser fazer a vontade de Deus conhecerá a doutrina.’ Mas até que ‘pai e mãe’ sejam abandonados — isto é, até que o discípulo esteja resolvido a não permitir que afeições ou desejos terrenos o impeçam de entrar...’”
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- The Perfect Way; or, The Finding of Christ, Lect. iv, par. 15.
- Ibid., pars. 18-19.
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no Caminho Perfeito — Cristo não será encontrado nem o Paraíso reconquistado.”¹
Em outra ocasião, estando em estado de clarividência, Anna Kingsford disse:
“‘Muitos detalhes me são mostrados acerca da dieta. . . . O alimento deve ser frio e não cozido, e nenhuma bebida fermentada deve ser usada. Os bolos devem ser assados ao sol num forno, para que as partículas se polarizem pelo magnetismo solar. Vejo uma fileira de bolos sendo assados dessa maneira no Egito, mas neste clima [inglês] tais coisas nos são impossíveis, e devemos contentar-nos em viver e morrer.’”²
Três interessantes cartas, intituladas Letters on Pure Diet, escritas por Anna Kingsford, apareceram nas edições de julho e outubro de 1881 e janeiro de 1882 de The Food Reform Magazine, então recentemente estabelecida. A segunda e a terceira dessas cartas — sobre o tema de Jesus Christ e o consumo de carne — sendo de interesse particular. Elas são reproduzidas neste livro.
O ano de 1881 viu também a publicação de uma edição inglesa da tese que Anna Kingsford escrevera em Paris ao final de seu curso de estudante. Nessa edição, as partes que haviam sido rejeitadas pela Faculté foram restauradas. Ela foi publicada sob o título de The Perfect Way in Diet.³
No Prefácio, Anna Kingsford diz:
“‘Se alguém em cujas mãos este livro venha a cair estiver inclinado a considerar-me excessivamente entusiástica, ou a estigmatizar minhas opiniões como “utópicas”, eu lhe pediria que considerasse seriamente se “Utopia” não está, de fato, ao alcance da realização de todos os que possam imaginá-la e amá-la, e se, sem entusiasmo, alguma grande causa jamais foi conquistada para nossa raça.
“‘O homem é o senhor do mundo e pode fazer dele o que quiser. Em suas mãos ele é entregue com todas as suas poderosas possibilidades de bem ou de mal, de felicidade ou de miséria. Seguindo os impulsos e artifícios do sub-humano, ele pode fazer dele — o que, de fato, para algumas almas gentis e ternas já se tornou — um verdadeiro inferno; trabalhando com Deus e a Natureza, pode reconvertê-lo em Paraíso.’”
O livro atraiu imediatamente a atenção do mundo científico, sendo considerado uma obra de grande valor, e tornou-se o pioneiro do moderno movimento em direção a uma alimentação pura...
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- The Perfect Way; or, The Finding of Christ, Lect. vi, par. 24.
- Life of A. K., vol. ii, p. 5; ver também Story of A. K. and E. M., pp. 131, 132.
- Life of A. K., vol. i, p. 382; vol. ii, p. 27. Uma sexta edição de The Perfect Way in Diet foi publicada em 1909.
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e uma alimentação sem sangue. Disseram-me recentemente, por autoridade confiável, que neste país The Perfect Way in Diet fez mais pela causa vegetariana do que qualquer outro livro — e isso após um intervalo de vinte e nove anos desde sua publicação, e apesar dos muitos livros escritos sobre o assunto desde sua publicação em 1881.
Uma ideia da abrangência de The Perfect Way in Diet pode ser obtida pelo fato de que trata de (inter alia) anatomia e fisiologia, culinária, força física, valores alimentares, hábitos nacionais, química, efeitos e perigos dos alimentos cárneos, alcoolismo, matadouros, considerações sociais,¹ sofrimentos do gado e supercriação, tratamento de doenças, considerações econômicas, a questão do couro, o comércio de peles e o esporte.
Nesse livro, Anna Kingsford diz:
“‘Os alimentos mais excelentes e apropriados dos quais nossa raça pode fazer uso consistem em frutos e sementes das árvores — e estes crus — e não nas próprias plantas, sejam folhas ou raízes.’”²
Ao mesmo tempo, ela admite que
“‘por uma combinação de causas naturais e artificiais, esse melhor modo de subsistência tornou-se impossível para a maioria das pessoas em certas partes do globo, e parece, portanto, sábio e consistente que aumentem a variedade e extensão de sua alimentação recorrendo à culinária.’”³
Mas, ela diz,
“‘o fogo só pode ser legitimamente usado pelo homem para a preparação daqueles vegetais, plantas herbáceas, raízes e frutos duros que ele não pode mastigar adequadamente quando crus, e para cuja digestão, nesse estado, a anatomia e fisiologia de seu sistema não estão adaptadas.’”⁴
Até esse ponto, o fogo é permitido para tornar palatáveis e digestíveis alimentos não naturais, e o homem pode viver — pode até ser obrigado a viver — total ou parcialmente de tais alimentos. Pelo uso do fogo, é dada ao homem uma escolha entre Natureza e Arte.
Mas, como Anna Kingsford aponta, a escolha entre o jardim e o matadouro, que o uso do fogo também proporciona, envolve considerações muito diferentes. Pois, como ela diz,
“‘o cultivo, a colheita e a preparação de todos os produtos vegetais estão igualmente em harmonia com os interesses da moralidade, da saúde individual e pública...’”
- Ver p. 61 adiante.
- The Perfect Way in Diet, p. 15.
- Ibid.
- Ibid. The Perfect Way in Diet não se opõe, pelas razões ali mencionadas, à adição de certos alimentos de origem animal, a saber: leite, ovos, creme, manteiga e queijo — como não sendo inconsistentes com o regime pitagórico ali defendido (ver pp. 50-51).
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da economia social e privada, e daquele amor pela beleza, pela virtude e pela filosofia consistente que domina a natureza de toda humanidade gentil e civilizada”; mas
“‘cada um desses interesses é ferido, e violentamente, pelo abuso da arte culinária nas mãos do homem que se degrada por meio dela ao nível da besta de rapina.’”¹
Em 1882, falando sobre o tema do vegetarianismo numa reunião de temperança em Church Lawford, Edward Maitlanddisse:
“‘Descubro-me [como vegetariano] tão melhor tanto no corpo quanto na mente que estou completamente convencido de que ninguém pode ser o melhor que tem em si para ser até tornar-se abstêmio não apenas quanto à bebida, mas também quanto à carne. . . .
“‘Não recomendo, porém, que comais apenas o que se chama de vegetais, como repolhos, cenouras e nabos. Os homens não são, por natureza, comedores de raízes ou ervas, mas de frutas e grãos; e é dessa dieta que prosperamos melhor quando nos acostumamos adequadamente a ela.’”
No mês de abril de 1882, Anna Kingsford proferiu uma palestra On Food diante das estudantes de Girton College, em Cambridge, a qual foi muito apreciada. Ela é reproduzida neste livro.
Durante o mesmo ano, ela e Edward Maitland receberam urgentes apelos para ir à Switzerland em prol da causa antivivisseccionista. Assim, acompanhados por sua filha, deixaram Londres por algum tempo para levar adiante sua cruzada na Suíça, chegando lá no início de agosto,² cuja maior parte passaram em Lausanne.
Fizeram sua residência na Pension du Cèdre, “sendo atraídos para lá por sua encantadora localização em campo aberto e por seu regime vegetariano”.
Enquanto esteve em Lausanne, ela pronunciou conferências em defesa do vegetarianismo e contra a vivissecção. A energia que demonstrava na causa pela qual lutava foi tal que provocou de um dos magnatas locais a observação de que
“‘era uma sorte para eles que ela fosse vegetariana, pois, como carnívora, sua ferocidade a teria tornado perigosa.’”³
Geneva era seu objetivo, mas ainda era cedo para Genebra, pois os habitantes encontravam-se então, em sua maioria, nas montanhas. Assim, de Lausanne foram para Montreux, onde permaneceram até 19 de setembro, quando seguiram para Genebra.
Ao chegarem ali, porém, o tempo, que até então estivera bom...
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- The Perfect Way in Diet, p. 16.
- Life of A. K., vol. ii, pp. 73, 75, 79, 84.
- Ibid., p. 79.
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mudou, e ela viu-se “prostrada por um resfriado” que, instalando-se nos pulmões, produziu uma enfermidade tão séria que levou aqueles a quem consultaram a insistirem para que partisse imediatamente para um clima mais ameno. Declararam que ela jamais se recuperaria do ataque caso permanecesse naquela estação do ano na Switzerland.
No final do mês, portanto, deixaram a Suíça rumo a Menton, para onde haviam sido aconselhados a ir, pretendendo retornar a Geneva assim que as circunstâncias permitissem.¹
Mas Menton mostrou-se um lugar não melhor para ela; e, em The Life of Anna Kingsford, Edward Maitland fornece um relato detalhado de como viajaram de lugar em lugar procurando um adequado para ela, de seus terríveis sofrimentos e dos problemas que os assediavam e das dificuldades que encontravam por onde passavam.
Finalmente, em 23 de outubro, encontraram-se novamente em Paris, permanecendo ela resolvida a retomar sua cruzada interrompida na Suíça quando estivesse suficientemente recuperada; e, nesse meio tempo, com o objetivo de manter seus conhecimentos médicos e científicos, conforme sua saúde permitisse, ela “retomou suas visitas aos hospitais.”²
A publicação, em 1882, das palestras de The Perfect Way; or, The Finding of Christ³ foi seguida por uma correspondência, que continuou por alguns meses, no então novo jornal semanal Light — órgão oficial dos espiritualistas.
As contribuições de Anna Kingsford e Edward Maitland para a controvérsia consistiram em três artigos conjuntos, intitulados The Perfect Way and its Critics, que são de grande interesse.⁴ Parte da controvérsia, naturalmente, dizia respeito à questão alimentar e, nesse contexto, Paul the Apostle foi citado por um de seus críticos contra eles (como o expressaram) como uma autoridade em favor das
“‘inevitáveis brutalidades do matadouro’”
e da
“‘repugnante e desumana prática de comer cadáveres.’”
Em resposta, apontaram que
“‘o próprio fato de Paulo ter considerado necessário interferir nessa questão entre duas diferentes escolas da Igreja prova que a convicção e a prática relativas ao consumo de carne estavam longe de ser uniformes...’”
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- Life of A. K., vol. ii, pp. 79, 80, 84.
- Ibid., pp. 95, 96.
- Foram publicadas em 1882 sob o título de The Perfect Way; or, The Finding of Christ.
- Os artigos apareceram em Light de 23 de setembro de 1882, p. 425; de 11 de novembro de 1882, pp. 508-510; e de 9 de dezembro de 1882, pp. 551-553. Estão incluídos no Apêndice III da Nova (Quarta) Edição de The Perfect Way, or the Finding of Christ. A maior parte do terceiro artigo incorporou (quase literalmente) a segunda das Letters on Pure Diet de Anna Kingsford, publicadas em The Food Reform Magazine, às quais já se fez referência (ver p. 42 acima).
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entre os cristãos professos, e que um número nada insignificante deles se abstinha, por princípio, de carnes sangrentas.”
Eles disseram:
“‘Se ouvirmos a tradição e estudarmos os registros históricos que possuímos sobre o assunto, veremos que o próprio Paul the Apostle foi o inovador, e que os hábitos e ensinamentos gerais da Igreja Primitiva eram nazarenos ou essênios e, portanto, vegetarianos.
“‘Jesus Christ, o Nazareno, certamente deve ter sido abstêmio de carne e bebidas fortes, e até mesmo as afirmações relativas ao seu costume de comer peixe são, como um de nós demonstrou em outro lugar,¹ não destinadas literalmente, mas misticamente.
“‘James the Just, o “irmão” de Jesus e um de seus associados mais íntimos, é universalmente reputado como vegetariano, e assim também o foi uma incontável multidão dos primeiros santos, tanto homens quanto mulheres.
“‘As Ordens devocionais mais estritas da Igreja Católica, assim como as de todos os outros Mistérios divinos, sempre se abstiveram de carne; e, não obstante Paulo, essa dieta incruenta e inocente foi desde o princípio considerada por todos os Adeptos como constituindo “o excelente — ou perfeito — caminho”.
“‘É certo que a profecia de Isaiah — “Não farão mal nem matarão em todo o Meu santo monte” — jamais será realizada por aqueles que persistem em destruir e devorar como bestas de carnificina.
“‘Como poderemos apressar a restauração do Paraíso continuando os costumes da Queda? Se verdadeiramente e sinceramente desejamos reconquistar a Idade de Ouro e tornar-nos cidadãos do Céu, devemos começar adotando a nova vida e retornando aos modos naturais e humanos de sustento.
“‘O consumo de sangue e o hábito da matança fazem parte da Queda e vieram com ela. Nós, da nova Vida, desejamos retornar ao Éden. E, como primeiro passo nessa direção, abandonamos esse horrível e degradante costume que por tanto tempo assimilou nossa raça aos mais baixos tipos de existência bestial; rejeitamos os despojos que deleitam o lobo e o porco e voltamo-nos, em vez disso, para os puros frutos e grãos criados pelo sol, dádivas incruentas das árvores e dos campos fragrantes, para os quais unicamente a anatomia do homem é adequada.
“‘Não podemos errar seguindo as indicações — mais ainda, os mandamentos — da natureza, pois estas são as mais seguras palavras de Deus.’
“‘[Nosso crítico] parece argumentar que a superioridade de certas raças se deve ao hábito de comer carne. Com igual razão poderia ele...’”
- A referência é às duas cartas de Anna Kingsford mencionadas acima sobre Pure Diet, que apareceram em The Food Reform Magazine de outubro de 1881, p. 46, e janeiro de 1882, p. 100.
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afirmar que isso se deve ao hábito, não menos universal, de consumir bebidas alcoólicas fortes. Ambos os hábitos são igualmente abusos e entraves, e sem dúvida impediram essas mesmas raças de alcançar a civilização superior e interior que até hoje, invariável e significativamente, não conseguiram atingir.
“‘Pois não pode haver verdadeira e perfeita civilização sem simpatia e solidariedade entre todos os filhos da família de Deus, e sem o reconhecimento do fato que deve constituir a base dessa solidariedade — que o mesmo Espírito respira em todos, que o mesmo Destino paira sobre todos e que a mesma Imortalidade é a herança de todos, não importando em que degrau da escada cada alma individual possa encontrar-se em dado momento.
“‘Matar, devorar ou torturar qualquer semelhante senciente por um fim egoísta é uma violação da lei da solidariedade, e há apenas uma questão de grau entre o assassinato de um boi e o de um homem (Isaías lxvi. 3). . . .
“‘Contra o uso do vinho nada dissemos; sobre esse assunto deixamos [nosso crítico] reconciliar Paul the Apostle com os Nazarenos, ao número dos quais pertenciam Jesus Christ, John the Baptist e muitos santos e heróis do Antigo Testamento.’”¹
Escrevendo na mesma controvérsia sobre a relação da religião com a dieta, Edward Maitland observou com muita propriedade que:
“‘Como reguladora da conduta, a religião é necessariamente reguladora da dieta. Pois a dieta é um departamento da conduta, e isso tanto no que se refere à qualidade quanto à quantidade.
“‘Negar a relação em questão é repudiar a prática da temperança, seja no comer ou no beber, como dever religioso, e admitir canibais, glutões e bêbados no reino dos Céus.
“‘As condições de admissão nesse reino dependem da atitude da mente e do estado do coração. A questão entre nós é saber se essas condições são cumpridas por alguém que, pessoalmente ou por procuração, esmaga o crânio ou corta a garganta de uma criatura semelhante, dócil, inocente e altamente sensível, a fim de devorar sua carne, quando a terra ao seu redor fornece em abundância alimento saudável e legítimo.
“‘Nem a crueldade contra os animais é a pior parte do mal envolvido em tal prática. Os próprios homens são indescritivelmente degradados por ela e mantidos para trás.
“‘Não é o lobo nem o tigre, mas o cordeiro, que é representado nas Escrituras Sagradas como o tipo daquele que finalmente vence o mal e alcança a perfeição e a bem-aventurança.
“‘E há abundante razão para acreditar que somente de alimentos...’”
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- Light, 1882, p. 509; The Perfect Way; or, The Finding of Christ, Apêndice III, pp. 348-350.
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ao mesmo tempo puro em si mesmo e obtido de maneira justa, o espírito interior (o “Deus do homem”, como o denominei) pode extrair os elementos necessários para a edificação do indivíduo até a plena estatura de sua devida perfeição.’”¹
Permaneceram em Paris até meados de março de 1883, quando retornaram à Switzerland para retomar sua cruzada interrompida.
Escrevendo, por essa época, para o The Herald of Health, Anna Kingsford disse:
“‘Penso que talvez gosteis de reproduzir um artigo que apareceu recentemente num jornal francês e do qual, portanto, envio uma tradução.
“‘Vi vários dos anúncios de “Bains de Sang” (“Banhos de Sangue”) aos quais o artigo se refere, e conheço uma senhora parisiense cujo médico lhe disse que provavelmente morreria se não consentisse em ir ao matadouro pela manhã e beber sangue. Ele disse que ela apresentava sintomas tuberculosos e que nada mais poderia salvá-la. Ela se recusou a obedecer e recuperou-se.
“‘Essa “mania do sangue” é, de fato, a mais recente loucura médica, e talvez interesse a vossos leitores ver qual é assim o resultado prático da vivissecção e dos gostos carnívoros, encorajados como o são aqui nesta cidade ateísta de Paris.’”²
Edward Maitland diz:
“‘O artigo continha uma descrição vívida da cena nos matadouros da Rue de Flandres, as filas de elegantes carruagens das classes altas alinhadas diante deles, e seus delicados ocupantes aguardando nos edifícios o abate dos “bois de olhar manso”, e então sorvendo tigelas do sangue fresco e fumegante; enquanto outros complementavam ou variavam o processo tomando banhos de sangue em casa.’”³
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- Light, 1882, p. 551. A carta de Edward Maitland está assinada “Cantab.”
- Life of A. K., vol. ii, p. 112.
- Ibid., pp. 112, 113.
No Daily Express de 16 de julho de 1908, um relato sobre “A Cura pelo Sangue”, tal como então recentemente praticada sob conselho de “um médico charlatão em Kirchbrak”, foi apresentado da seguinte forma:
“‘Berlim, quarta-feira, 15 de julho.
“‘A extraordinária credulidade que ainda prevalece entre uma grande parcela da população foi hoje bem ilustrada por um processo em Brunswick, que resultou na condenação de um homem chamado Charles Albrecht a três anos de trabalhos forçados por charlatanismo criminoso.
“‘Albrecht praticava como médico charlatão em Kirchbrak, e a seus numerosos clientes recomendava o sangue de assassinos executados como remédio para toda espécie de enfermidades.
“‘A procura por esse medicamento macabro era enorme e, para atendê-la, Albrecht obteve certa quantidade de sangue de porco, que engarrafou e vendeu como sangue de assassinos decapitados ao preço de 12 xelins a garrafa. Seus lucros...’”
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Sua campanha na Switzerland começou de maneira aflitiva, pois ela teve de permanecer vários dias em Bern devido à má saúde.
No decorrer dessa expedição, ela
“‘realizou reuniões públicas e privadas e pronunciou conferências e palestras em Berna, Lausanne, Montreux e Geneva’”,
lugares nos quais cartas de apresentação que possuíam lhes garantiram recepções cordiais por parte dos principais residentes.
Edward Maitland diz:
“‘Seus temas eram o vegetarianismo e a vivissecção, e o entusiasmo despertado pela combinação de seus dons, sua coragem, seu zelo, sua eloquência, sua presença de espírito, sua desenvoltura, seu domínio dos assuntos e o encanto de sua aparência pessoal fizeram de seu progresso um verdadeiro triunfo.’”
E acrescenta:
“‘Sua visita revelou-se um grande e duradouro estímulo à causa da reforma alimentar na Suíça.’”¹
Em 20 de maio retornaram à England. Dois dias depois seguiram para Norwich, onde ela havia se comprometido a dar uma palestra em defesa do vegetarianismo, e
“‘sua recepção foi extremamente entusiástica.’”²
Em agosto foram juntos para Atcham,
“‘a fim de preparar uma tournée de palestras’”
que haviam empreendido em nome da Vegetarian Society.
A expedição ocupou-os de 21 de setembro até meados de outubro de 1883, quando retornaram a Atcham, após terem realizado conferências públicas em Chester, Carlisle, Longtown, Silloth, Ambleside, Stirling, Dundee, Dunfermline, Glasgow, Edinburgh e Dumfries.³
Edward Maitland diz:
“‘As características mais notáveis dessa viagem foram, primeiro, o indescritível entusiasmo demonstrado por toda parte por Anna Kingsford em razão da eloquência e luminosidade de suas exposições e do encanto de sua personalidade; e, em segundo lugar, a intensidade de seus sofrimentos físicos e a maneira pela qual seu espírito se elevava acima deles e a conduzia triunfantemente através de tudo.
“‘Ela havia saído de casa doente...’”
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- Life of A. K., vol. ii, pp. 117-119.
- Ibid., p. 120.
- Ibid., p. 128.
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as condições climáticas do lugar haviam se mostrado extremamente prejudiciais para ela, e cada jornada diária a deixava completamente prostrada, às vezes provocando perda total de consciência enquanto estava no trem, e sempre culminando, ao chegar, em uma agonizante dor nevrálgica de cabeça, tornando-a aparentemente totalmente incapaz da tarefa marcada para a noite.
“‘Seu único remédio era a imersão dos membros inferiores em água tão quente quanto pudesse suportar; e assim permanecia ocupada até o último momento antes de partir para o salão de conferências.
“‘Chegando lá, era uma nova pessoa e, durante a hora, ou hora e meia, de sua palestra, mantinha-se firme, confiante e senhora de si, derramando sem hesitação aquilo que tinha a dizer, com uma eloquência natural e espontânea que mantinha seu público fascinado, sendo saudada ao final com uma explosão de aplausos, elétrica em sua veemência e que parecia ter sido reprimida com dificuldade até então.
“‘Os tributos prestados ao seu dom foram muitos e notáveis. Mesmo pessoas de cultura limitada e normalmente pouco impressionáveis declaravam que, qualquer que fosse o assunto, percorreriam qualquer distância para ouvi-la.
“‘Falando dela certo dia, um conhecido publicista e filantropo, ele próprio excelente orador, declarou sobre si e seus colegas que sempre se sentiam, ao ouvi-la, como seres de uma ordem inferior escutando os pronunciamentos de algum ser superior que descera para ensiná-los.
“‘Ela própria e seu ensinamento pareciam igualmente aos seus ouvintes uma nova revelação das possibilidades humanas.’”¹
Após alguns dias de descanso em Atcham, visitaram Birmingham e Bath pela mesma causa e com resultados semelhantes.²
Foi provavelmente durante essa tournée de palestras que, falando a uma sociedade vegetariana em Birmingham, Edward Maitland disse:
“‘Entre os muitos excelentes fundamentos — econômicos, higiênicos, estéticos e morais — pelos quais nós, abstêmios de uma dieta de carne, temos direito de nos felicitar, há um que, em minha opinião, não apenas supera todos os demais, mas que neste momento³ exige especial reconhecimento.
“‘Este é o...’”
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- Life of A. K., vol. ii, pp. 128-129.
- Ibid., p. 129.
- Em 1882, esforços especiais haviam sido feitos para privar os animais até mesmo da escassa parcela de justiça que até então se supunha ser-lhes concedida, deixando-os inteiramente à mercê dos caprichos dos vivisseccionistas, ao reivindicar para os fisiologistas o direito não apenas de matar, mas de torturar os animais ao máximo por fins nos quais as próprias vítimas animais não tinham qualquer interesse. (Ver o artigo do Dr. William Benjamin Carpenterna Nineteenth Century de fevereiro de 1882.)
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consciência de que desfrutamos de que, em virtude de nosso modo inofensivo de viver, constituímos em nossas próprias pessoas, como nenhum outro entre a humanidade, templos vivos do princípio divino da Justiça e, em todas as ocasiões em que a Justiça esteja envolvida, podemos apresentar-nos como defensores dos oprimidos e reparadores de injustiças, sem estarmos sujeitos à censura por inconsistência. . . .
“‘A menos que eles [os animais] façam algo que mereça tratamento severo, não lhes dispensemos tratamento severo. Usando sem abusar; não lhes infligindo voluntariamente qualquer dano ou sofrimento irremediável; treinando-os, como a nossos filhos, por meio de uma disciplina bondosa, para levarem vidas úteis, contribuindo assim para sua felicidade no presente e preparando-os para formas mais elevadas no futuro; matando, em obediência à lei da autopreservação, apenas aqueles que sejam nocivos e perigosos ou, por piedade, os que estejam sofrendo sem esperança.
“‘Tal é o Caminho Perfeito com os Animais. Mas não é um caminho novo, por mais estranho que possa parecer a um mundo que há séculos se deleita no sangue. Foi o caminho da Idade de Ouro do passado, quando a inocência era produto da ignorância. Será o caminho da Idade de Ouro do futuro, quando a inocência será produto da experiência.
“‘Pois é sempre o caminho indicado pelo próprio Espírito divino da Humanidade, expresso nas palavras: “Ele te declarou, ó Homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com teu Deus?”¹ — palavras nas quais temos ao mesmo tempo o Credo do Vegetariano e todo o dever do Homem.’”
Em maio do ano seguinte (1884), eles visitaram Exeter
“‘para participar de uma demonstração pública em prol da causa vegetariana, na qual Anna Kingsford foi a principal oradora’”;
em junho estavam em Paris em defesa da causa antivivisseccionista;² e em dezembro partiram para uma tournée de palestras em Leeds, Hull, Birmingham e Cheltenham, sendo seus temas, como antes, vegetarianismo e vivissecção.
“‘Ela teve em toda parte o mesmo sucesso e reconhecimento de sua tournée anterior, mas também, como então, uma enorme quantidade de sofrimento físico.’”³
E, no final do ano, ela comprometeu-se a escrever uma carta semanal para a Lady's Pictorial sobre temas relacionados à Higiene.
Isso implicou uma correspondência muito intensa com indivíduos e lhe trouxe uma considerável prática privada.
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- Book of Micah vi. 8.
- Life of A. K., vol. ii, p. 179.
- E. M., manuscrito de Life of A. K., p. 1154.
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Por esse meio, também, ela pôde fazer muito para promover a causa da humanidade que tanto lhe era cara.¹
O ano de 1884 foi memorável para os vegetarianos. Durante esse ano realizou-se, em London, uma International Health Exhibition, e a Vegetarian Society — cuja sede ficava em Manchester² — obteve espaço e abriu um restaurante dentro da Exposição com o propósito de demonstrar de maneira prática a verdade de seus ensinamentos e distribuir literatura em defesa de uma dieta pura e humanitária; além disso, foi realizada uma série de conferências públicas sobre o tema.
Como consequência de uma decisão tomada ao final da Exposição, a Sociedade realizou, em 12 de janeiro de 1885, uma grande reunião em Exeter Hall, em Londres, na qual discursos foram proferidos por destacados vegetarianos que trataram de diversos aspectos da questão alimentar.
Essa reunião atraiu considerável atenção, e muitos artigos editoriais foram escritos sobre ela.
A presidência foi assumida por Edwin Collier (então tesoureiro da Sociedade), e entre os oradores estavam William Edward Armytage Axon, o Rev. Professor John Eyton Bickersteth Mayor, a Dra. Anna Kingsford, Edward Maitland, Thomas Richard Allinson, William Harrison, Thos. Baker, o Rev. M. de Colleville, o Rev. W. J. Monk, Lieut. Richardson, W. S. Manning, T. W. Platten e outros.
Anna Kingsford falou sobre “The Physiology of Vegetarianism”, e Edward Maitland sobre “The Higher Aspects of Vegetarianism”.
Em 15 de maio de 1885, Anna Kingsford escreveu à sua amiga Marie Sinclair, Countess of Caithness da seguinte forma:
“‘Anexo-vos um formulário de petição enviado a mim para assinatura.... Já obtive quase setenta assinaturas para ele, e envio-vos um exemplar, pedindo-vos que o assineis e que obtenhais também a assinatura de todos os amigos que puderdes.
“‘Como vedes, trata-se de uma petição ao Pope Leo XIII conclamando-o a instruir a Igreja Católica sobre o tema da humanidade para com os animais — assunto há muito negligenciado — que, segundo compreendo, Sua Santidade prometeu abordar caso o mundo cristão demonstre desejo de receber a expressão de sua opinião. . . .
“‘A vivissecção não é especificamente mencionada, sendo a base do pedido tão indefinida e geral quanto possível. Mas estou certa de que concordareis comigo que a expressão das opiniões do Pontífice em favor do tratamento bondoso dos animais é enormemente...’”
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- Life of A. K., vol. ii, pp. 230, 277, 278.
- Essa Sociedade data de 1847. Originou-se em Ramsgate; seu primeiro presidente foi James Simpson. Entre seus presidentes estiveram o Professor Francis William Newman e o Professor Mayor.
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necessária nos países católicos.’”
A petição acabou
“‘revelando-se desafortunada. Desafortunada porque, embora contasse com algumas centenas de milhares de assinaturas, foi recusada sua apresentação sob o argumento de que o efeito de uma declaração papal sobre o tema seria sobrecarregar a consciência dos fiéis com um novo pecado a confessar, e um pecado cuja definição precisa seria impraticável.’”¹
Cerca de dois anos depois, quando estava em Rome, ela viu por si mesma quão cruelmente os animais eram tratados ali e quão indiferentes as pessoas eram aos seus sofrimentos.
Numa carta datada de 28 de março de 1887 para Light, Anna Kingsford disse:
“‘A grande necessidade da forma popular da religião cristã é precisamente a crença na solidariedade de todos os seres vivos. É nisso que o Budismo supera o Cristianismo — nesse divino reconhecimento do direito universal à caridade.
“‘Quem pode duvidar disso ao visitar Roma — a cidade do Pontífice — onde agora estou, e testemunhar a crueldade de coração negro desses “cristãos” para com os animais que trabalham e se exaurem por eles?
“‘Por mais doente que eu estivesse, fui obrigada, no dia seguinte à minha chegada, a sair da carruagem em que viajava para repreender uma criança perversa que torturava um pobre cachorrinho preso por uma corda a um pilar — chutando-o e pisoteando-o. Ninguém além de mim interferiu.
“‘Hoje vi um camponês corpulento, calçado com grossos sapatos, chutar sua mula na boca por pura maldade gratuita.
“‘Argumentai com esses brutamontes, ou com seus padres, e eles vos dirão que “os cristãos não têm deveres para com as bestas que perecem”. Seu Papa lhes disse isso.
“‘Assim, em toda a Cristandade católica, as pobres, pacientes e mudas criaturas suportam toda espécie de tormento sem que uma única palavra seja pronunciada em sua defesa pelos mestres da religião. É horrível — condenável.
“‘E a verdadeira razão de tudo isso é porque popularmente se acredita que os animais não têm alma.
“‘Eu digo, parafraseando um dito de Voltaire: “Se fosse verdade que eles não têm alma, seria necessário inventar almas para eles.”
“‘A Terra tornou-se um inferno por falta dessa doutrina [de que os animais têm almas que sobrevivem à morte do corpo]. Testemunhai a vivissecção e a tolerância da Igreja para com ela.
“‘Oh, se quaisquer seres vivos sobre a Terra têm direito ao Céu, seguramente os animais têm o maior direito de todos! Quais sofrimentos são tão amargos quanto os deles, quais injustiças tão profundas, qual necessidade de compensação tão terrível?
“‘Como mística e ocultista, sei que eles não são destruídos pela morte; mas se eu pudesse duvidar...’”
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- Life of A. K., vol. ii, pp. 201, 202, 290, 291.
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disso — solenemente o digo — eu também duvidaria da justiça de Deus. Como poderia eu acreditar que Ele seria justo para com o homem se fosse tão amargamente injusto para com os queridos animais?’”¹
Escrevendo em seu diário sobre suas experiências romanas, ela disse:
“‘Fui [a Rome] pensando que amaria Roma; descobri que a odiava. Odiava acima de tudo os camponeses e os padres. Todo o lugar e suas influências deixaram em mim um gosto amargo.
“‘Jamais desejarei ver Roma novamente, mesmo que viva cem anos. Um grande horror e desprezo pelo culto degradado chamado Cristianismo, que de Roma saiu para envenenar toda a Terra, apoderou-se de mim.
“‘Pior ainda do que o Protestantismo nisso, por ter ensinado o povo a ser cruel com seus animais. . . .
“‘Nenhuma arte, nenhum mármore, beleza pintada ou colunada pode compensar a visão e a audição diárias das perversidades dos camponeses italianos. E os padres! Bah! Assemelham-se a moscas negras zumbindo em torno do cadáver pútrido de uma religião morta. . . .
“‘Vi um homem golpear furiosamente seu cavalo com o punho nas narinas porque a pobre criatura arrancou um punhado de capim de um saco rasgado.’”²
No outono de 1885, Anna Kingsford e Edward Maitland realizaram uma tournée de palestras de quase seis semanas, durante a qual ela pronunciou quinze conferências públicas.³
Visitaram Gloucester, Malvern, Cheltenham, Hereford, Bristol, Clifton, Weston-super-Mare, Clevedon e Royal Tunbridge Wells.
Edward Maitland diz:
“‘Em todos esses lugares ela dirigiu-se a grandes audiências, públicas e privadas, com seu habitual poder e aceitação, não traindo sinais da enfermidade de que sofria; seu entusiasmo pelas causas defendidas sempre bastando para sustentá-la através do esforço, por mais árduo que fosse, elevando-a a um plano no qual se tornava superior a todas as limitações.’”⁴
Em 1886, Anna Kingsford — então em London — encontrava-se novamente em péssimo estado de saúde.
“‘Quando chegou o momento de deixar Londres e voltar para casa, estava prostrada e sofrendo além de toda experiência anterior.’”
Edward Maitland a acompanhou de volta a Atcham; mas, diz ele,
“‘logo se tornou evidente que a única esperança de imunidade contra intenso e constante sofrimento. . . residia em fugir para condições menos desfavoráveis de...’”
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- Light, 1887, pp. 161-162. Ver ainda, sobre as almas e a imortalidade dos animais, a carta de Anna Kingsford datada de 8 de maio de 1887, Light, 1887, p. 219.
- Life of A. K., vol. ii, p. 298.
- Carta de E. M., datada de 16 de novembro de 1885, à Sra. A.
- Life of A. K., vol. ii, p. 222.
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clima. A ruptura para todos nós foi severa, pois nunca éramos tão felizes quanto na Casa Paroquial, e aquele era um lugar ideal para estudo e trabalho.”¹
Ela decidiu ir para Paris; para lá seguiram ela e Edward Maitland, via Ostende e outros lugares, chegando ali em algum momento de outubro.² Enquanto estavam em Ostende, visitaram Helena Blavatsky, que então se encontrava hospedada ali.³
- Life of A. K., vol. ii, p. 251.
- Ibid., p. 260.
- Na época de sua visita — que durou apenas três dias (isto é, de 5 a 8 de outubro) — Madame Wachtmeister e Madame Blavatsky viviam juntas. Alguns anos após a morte de Anna Kingsford, foi publicado um livro intitulado Reminiscences of H. P. Blavatsky and “The Secret Doctrine”, escrito por Madame Wachtmeister. Nesse livro, Madame Wachtmeister ampliou a visita acima mencionada, de três dias, para uma visita de quinze dias, e seu relato da visita foi, além disso, impreciso — tão impreciso que Edward Maitland diz: “Ela declarou erroneamente tudo, exceto o fato da visita” (carta de E. M. ao Rev. J. G. Ouseley, datada de 2 de março de 1895).
É necessário ter isso em mente, porque prova quão pouca confiança se pode depositar nas declarações feitas por Madame Wachtmeister sobre Anna Kingsford em conexão com essa visita. Edward Maitland soube posteriormente que, depois da visita acima mencionada, Madame Wachtmeister costumava depreciar Anna Kingsford, “especialmente alegando que, em matéria de dieta, ela não praticava o que pregava e não era uma adversária coerente da crueldade contra os animais”.
Não foi apenas em conversas vagas que ela disse essas coisas, mas também por escrito; e disso Edward Maitland recebeu prova absoluta e conclusiva. Escrevendo a uma amiga, Madame Wachtmeister disse: “Anna Kingsford não era vegetariana, portanto vês que ela não poderia censurar a tortura dos animais tanto antes quanto nos matadouros, pois era incoerente tanto no ensino quanto na conduta.”
Em outra carta, ela disse: “Pareces tão surpresa ao ouvir que a Sra. Kingsford não era vegetariana quanto eu mesma fiquei quando ela e o Sr. Maitland me pediram que providenciasse peixe, aves domésticas e pássaros durante o tempo em que foram hóspedes de Madame Blavatsky e meus em Ostende. Na primeira noite havia apenas comida vegetal, como eu mesma como, mas durante os quinze dias em que permaneceram conosco, naturalmente providenciei a comida que a Sra. Kingsford me disse estar acostumada a comer. . . .”
Essas declarações, na medida em que apresentam Anna Kingsford e Edward Maitland como comedores de carne na época referida, são, naturalmente, absolutamente falsas. As cartas que as continham vieram posteriormente à posse de Edward Maitland.
Referindo-se às declarações errôneas de Madame Wachtmeister, Edward Maitland diz: “Até que ponto a calúnia se espalhou, e qual o dano causado por ela à nossa reputação e obra, não tenho meios de julgar. . . . Madame Blavatsky . . . não fez qualquer acusação contra nós no ponto alegado por sua associada Madame Wachtmeister” (ver Life of A. K., vol. ii, pp. 256-259; e carta de E. M. ao Rev. J. G. Ouseley, datada de 2 de março de 1895).
Eu não teria considerado necessário, depois de todos estes anos, repetir ou sequer mencionar as “invenções” de Madame Wachtmeister, se não fosse pelo fato de que, muito recentemente, voltou-se a divulgar — desta vez em um conhecido e amplamente lido periódico de reforma alimentar (The Herald of Health, julho de 1911, p. 131) — que Anna Kingsford “comia aves”.
Como prova adicional e conclusiva da inexatidão de todas essas declarações: ao escrever, em 4 de março de 1895, ao Rev. J. G. Ouseley sobre uma declaração semelhante feita por certa conhecida reformadora alimentar (a quem chamarei de “Sra. X”) e que chegara pela primeira vez ao conhecimento de Edward Maitland em 1894 — a declaração feita...
Em 17 de novembro, encontrando-se então no estado de extrema debilidade de saúde que descrevi, Anna Kingsford foi apanhada por uma forte chuva ao retornar para casa depois de ir ao Instituto Pasteur, com o objetivo de testemunhar o procedimento de Pasteur e obter informações para fortalecer sua posição diante do público contra o sistema dele.
A visita revelou-se infrutífera, por ela ter ido em horário inadequado; e, ao regressar para casa, foi “acometida por um severo ataque de pneumonia, que por algum tempo ameaçou levá-la”. Mas, após uma quantidade inacreditável de sofrimento — tão extraordinária era sua vitalidade — “ela reagiu”.
Esse foi o começo de uma “longa e terrível enfermidade”, da qual jamais se recuperou realmente. Marcou o início do fim.
E somente em 15 de fevereiro do ano seguinte (1887) ela estava suficientemente bem para deixar Paris, quando partiram para Saint-Raphaël, acompanhados por seu marido, que se juntara a eles por alguns dias.¹
De Saint-Raphaël foram para outros lugares, incluindo Rome. Já mencionei a impressão causada nela pela crueldade habitual do povo para com os animais, da qual foi testemunha enquanto esteve em Roma.
Em 15 de julho retornaram a London — sendo então o único lugar adequado para ela — e instalaram-se em 15 Wynnstay Gardens, residência mobiliada que haviam alugado, e que, no que lhe dizia respeito, revelou-se “um lar para morrer”, passando seu marido o máximo de tempo possível com ela, conforme lhe permitiam seus deveres clericais.²
Essa foi a primeira vez em sua vida que ela realmente conheceu o prazer de possuir um lar confortável próprio no qual pudesse viver; e, a princípio, isso contribuiu para reanimá-la com nova energia e esperança, e ela continuou sua escrita com...
- Life of A. K., vol. ii, pp. 274, 275, 277, 292.
- Ibid., p. 299.
A nota de S. H. H. continua:
Ao escrever, em 4 de março de 1895, ao Rev. J. G. Ouseley sobre uma declaração semelhante feita por certa conhecida reformadora alimentar (a quem chamarei de “Sra. X”) — declaração essa segundo a qual Anna Kingsford “não era vegetariana” — e referindo-se à conversa que tivera com ela sobre essa falsa afirmação, Edward Maitland diz:
“‘Ao exigir [da Sra. X] sua autoridade para tal afirmação, ela disse que vira [Anna Kingsford] comer peixe ou ave na casa da Sra. Going, na primavera de 1877.
“A isso respondi que a casa da Sra. Going era vegetariana, e que tal alimento não era servido à sua mesa, sendo precisamente essa a razão de Anna Kingsford hospedar-se ali.
“A isso [a Sra. X] retrucou que algum visitante havia chegado necessitando tal alimento, e que ele fora obtido especialmente para essa pessoa; e que Anna Kingsford participara dele.
“‘Assegurei [à Sra. X] que ela devia estar enganada, certamente quanto à ave. Quanto ao peixe, não podia ser tão categórico, porque naquela época ainda não colocávamos o peixe na mesma categoria dos animais de sangue quente; e estávamos tão no início de nosso trabalho espiritual que ainda não havíamos recebido instruções positivas sobre o assunto. Mas, mesmo assim, eu estava convicto de que ela [a Sra. X] se enganava. E, como ela não possuía qualquer conhecimento sobre os hábitos de Anna Kingsford posteriores àquele período, não tinha absolutamente justificativa para negar que ela fosse vegetariana.’” — S. H. H.
vigor inalterado.
Embora seu conhecimento médico lhe dissesse que, fisiologicamente, ela não tinha direito de esperar uma recuperação, adotava avidamente todos os meios que prometessem conduzir à cura, incluindo a ingestão da “dieta mais nutritiva compatível com seus princípios, embora não aquela que satisfazia seu médico, a quem ela declarou claramente que preferia morrer, se morrer tivesse de ser, como vegetariana, do que viver como comedora de carne, tão profundamente detestava a ideia, assim como desaprovava a prática”.¹
Mas, à medida que as semanas passavam, tornava-se apenas demasiado evidente que ela estava ficando cada vez mais fraca. Dizia que não seria bondade desejar mantê-la viva se a vida tivesse de continuar sendo o suplício que até então fora para ela.²
Durante o período em que permaneceu enferma, escreveu uma carta ao Pall Mall Gazette, “defendendo com ternura e vigor a causa das focas e de outras criaturas indefesas que são abatidas todos os anos por causa de sua pele”.³
Em setembro teve de abandonar seu trabalho para a imprensa, interrompendo suas contribuições semanais para a Lady's Pictorial.
Mesmo então, seus médicos não viam razão para que ela não pudesse recuperar uma razoável parcela de saúde e viver por alguns anos “se consentisse em seguir a dieta prescrita por eles — carne bovina e borgonha”. Mas Edward Maitland diz:
“‘Tal abandono de seus princípios estava fora de questão, mesmo que ela acreditasse na eficácia disso’”⁴ — o que não acontecia.
Pelo contrário, ela considerava a si mesma “um exemplo marcante dos efeitos benéficos do sistema pitagórico de alimentação”, ao qual devia sua vida, sua saúde e a força vital de que desfrutara.
Em The Perfect Way in Diet, ela disse:
“‘Enquanto me dedicava ao laborioso estudo de seis anos de minha profissão na École de Médecine de Paris, superei muitos obstáculos e provações, físicas e morais, tornadas especialmente difíceis pelas incapacidades artificiais impostas ao meu sexo e por uma variedade de circunstâncias pessoais.
“‘De fato, as dificuldades no meu caso eram tais que, creio, teriam se mostrado insuperáveis para a maioria das pessoas, mesmo de saúde e constituição robustas.
“‘Além disso, não apenas sou sobrecarregada por uma tendência hereditária à tísica, como fui efetivamente tratada por uma manifestação bastante severa da doença e sou, além disso, de uma natureza extremamente sensível...’”
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- Life of A. K., vol. ii, p. 300. Carta de E. M., datada de 4 de março de 1895, ao Rev. J. G. Ouseley.
- Carta de E. M., datada de 10 de agosto de 1887, à Sra. E. M. James.
- Pall Mall Gazette, fevereiro de 1880; ver Light, 3 de março de 1888, p. 97.
- Life of A. K., vol. ii, p. 328.
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e de temperamento nervoso e extremamente sensível.
“‘Que, sob todas essas condições adversas, eu tenha sido capaz de alcançar satisfatoriamente o fim do meu curso de estudante, devo provavelmente em grande parte à dieta simples, pura e não excitante que, por um período de dez anos,¹ mantive ininterruptamente.’”²
Em uma conferência pública, Anna Kingsford declarou:
“‘Curei-me da tuberculose vivendo de alimentos vegetais. Um médico disse-me que eu não tinha seis meses de vida. O que deveria fazer? Comer carne crua e beber vinho do Porto. Pois bem, fui para o campo, comi mingau e frutas, e apareço hoje nesta tribuna!’”³
Um necrológio⁴ sobre ela diz:
“‘Segundo sua própria afirmação, ela teria sucumbido a essa doença [tuberculose] vinte anos antes, não fosse sua estrita adesão à dieta vegetariana.’”
Mas sua vida não seria poupada por mais tempo e, finalmente, em 22 de fevereiro de 1888, em seu quadragésimo segundo ano, essa “boa e fiel serva” de Deus foi libertada de seu “suplício” e partiu para continuar seu trabalho de outro plano.
A grande e elevada missão que Anna Kingsford veio cumprir, ela cumpriu. O duro e doloroso trabalho que lhe foi dado realizar, ela realizou. A agonia do coração que foi chamada a sofrer, ela sofreu. O pesado e penoso fardo que foi colocado sobre seus ombros para carregar, ela carregou —
“‘pois, para ela, não era outro senão aquele suave jugo de Cristo que todos os santos abraçam’” —
e o carregou até o fim; e, mesmo então, não pensava em descanso, pois
“‘uma de suas últimas declarações foi a de que poderia continuar melhor o trabalho do outro lado, onde estaria livre de suas limitações físicas.’”⁵
A dela foi uma missão divina e, ao cumpri-la, ofereceu — e ofereceu voluntariamente — sua saúde, sua força, sua comodidade, seu conforto, sua felicidade, sim, sua própria vida — tudo aquilo que as pessoas consideram mais precioso — e deu como dão aqueles, e somente aqueles,
“‘que permanecem próximos de Deus.’”
Seu conhecimento das crueldades perpetradas no mundo, especialmente daquelas realizadas em nome da ciência, roubou-lhe toda a alegria da vida e fez da Terra um inferno do qual ansiava escapar.⁶
Edward Maitland sobreviveu-lhe por pouco mais de nove anos. Mas, sem sua ajuda e simpatia — sem sua vida de...
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- The Perfect Way in Diet, em que esta passagem ocorre, foi publicado em 1881.
- Ibid., pp. 90-91.
- Conferência sobre “The Physiology of Vegetarianism”, p. 113 adiante.
- Pall Mall Gazette, fevereiro de 1888; ver Light, 3 de março de 1888, p. 97.
- Carta de E. M., datada de 22 de fevereiro de 1888, à Sra. E. M. James.
- Life of A. K., vol. ii, p. 347; Light, 1888, p. 116.
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abnegação e autossacrifício — ela não teria podido realizar sua obra; e, não fosse por ele, a história de sua vida não teria sido contada. O mundo deve uma grande dívida a essa alma querida e amorosa. Seus anos restantes foram passados editando os livros dela, Dreams and Dream Stories e Clothed with the Sun; e preparando uma nova (terceira) edição de sua obra conjunta, The Perfect Way; or, The Finding of Christ; e escrevendo The Story of the New Gospel of Interpretation, The Bible’s Own Account of Itself e The Life of Anna Kingsford; além de escrever várias cartas, artigos e panfletos — muitos deles em prol da causa vegetariana — e de proferir palestras.
Escrevendo em 1892, em resposta a uma carta de uma amiga sobre alguns dos humanitários da época, Edward Maitlanddiz:
“Embora simpatize com seus fins, não simpatizo com seus meios, pois vejo em seus exageros os piores inimigos da causa que procuram servir. E, consequentemente, considero toda a ordem representada por T——, K—— e companhia como sintomas da doença predominante, mais do que como seus médicos e curadores. Se, contudo, você tiver influência sobre algum deles, penso que a linha mais eficaz a seguir, quanto à dieta, não é em favor dos animais, mas dos seres humanos; mostrando-lhes que a raiz de todo progresso deve estar dentro do próprio homem; e que, enquanto ele se alimentar como os carnívoros, não se pode esperar que seja humano. É apenas uma regeneração espiritual que pode melhorar o mundo, uma regeneração que reforme os próprios homens, e não apenas as instituições. E essas pessoas não têm ideia senão do exterior, não sendo elas mesmas evoluídas em sua parte espiritual. Se pudermos colocar o espírito correto no homem, todo o resto se ordenará de acordo. Esse era o segredo e o método de Jesus; e é nessa linha que estamos trabalhando. Naturalmente não devemos negligenciar o exterior, mas o principal é o interior. Os dois agem e reagem um sobre o outro. O mundo não estaria em melhor situação se todos os reformadores apenas do exterior chegassem ao poder de uma só vez. Pois o homem permaneceria o mesmo.”¹
Em 14 de maio de 1895, em uma reunião da Sociedade Vegetariana de Londres, Edward Maitland, ao abrir uma discussão sobre o tema “Alimento, Morte e Civilização”, disse que “à primeira vista, a conexão entre essas coisas não era clara. Mas, sem a primeira, a segunda era inevitável. Era igualmente verdade que nenhuma quantidade de alimento impediria...”
¹ Carta datada de 12 de abril de 1892, para a Sra. L.
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a morte ou promover a civilização. A questão era: qual a causa saliente de nossas dificuldades, perigos e defeitos sociais; e qual a cura radical? Nosso modo de vida estava na base de tudo, e o remédio devia ser encontrado no retorno ao modo natural de sustentar a vida. Nossos hábitos carnívoros pecavam contra as leis da natureza, físicas e morais; e o mal de nossa condição social era a consequência da violação dessas leis, que não podem ser ultrajadas impunemente, mas sempre exigem a penalidade. Os males predominantes de nosso sistema social eram a embriaguez, a doença e o crime; e isso era consequência da congestão das grandes cidades e centros urbanos, causando uma luta pela existência. A causa disso ele atribuía aos nossos hábitos carnívoros, que expulsavam as pessoas para as cidades a fim de abrir espaço para os animais se alimentarem. Retomando a dieta natural (alimentação vegetal), as populações de nossas cidades se espalhariam pela terra para cultivá-la e transformá-la em um vasto jardim de frutas e vegetais, com o resultado de fornecer alimento e trabalho para todos, tornando possível a educação de todos.”¹
Tendo combatido “o bom combate”, Edward Maitland faleceu em 2 de outubro de 1897, ao final de seu septuagésimo terceiro ano.
Desde 1874, quando conheceu Anna Kingsford, até sua morte, sua voz e sua pena estiveram sempre ativas na causa da humanidade, e ele sempre ofereceu o melhor de si. Seu coração lhe ensinou a desumanidade — e nisso o erro e a perversidade — do consumo de carne. Ele foi fiel às suas intuições: e “a geração dos fiéis será abençoada.”
Sempre me lembrarei de Edward Maitland como um dos maiores, mais sábios, mais amáveis e melhores homens que tive o privilégio de conhecer; e, aplicando as palavras respectivamente a Anna Kingsford e a Edward Maitland, digo, com Anna Kingsford:
“Bendita é a Alma que os Justos comemoram diante de Deus;
por quem o Pobre, o Órfão e a Criatura muda choram.”²
In memoria aeterna erit justus:
ab auditione mala non timebit.
SAMUEL HOPGOOD HART.
Croydon, 1912.
¹ The Vegetarian Messenger, julho de 1895.
² Hymn of Love, em C. W. S., Parte II, nº XIV, p. 273.
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