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É moralmente lícito que pessoas cultas e refinadas imponham a toda uma classe da população uma ocupação repugnante, brutalizante e insalubre, que é científica e experimentalmente demonstrável como não apenas inteiramente desnecessária, mas absolutamente nociva aos melhores interesses da raça humana? Os açougueiros são os párias do mundo ocidental; o próprio nome de sua profissão tornou-se sinônimo de barbaridade, e é…

É moralmente lícito que pessoas cultas e refinadas imponham a toda uma classe da população uma ocupação repugnante, brutalizante e insalubre, que é científica e experimentalmente demonstrável como não apenas inteiramente desnecessária, mas absolutamente nociva aos melhores interesses da raça humana?

Os açougueiros são os párias do mundo ocidental; o próprio nome de sua profissão tornou-se sinônimo de barbaridade, e é usado como termo de reprovação ao se falar de pessoas notórias por brutalidade, grosseria ou amor ao derramamento de sangue. A exclamação comum: “Que açougueiro é Fulano!”
em referência a tais homens, revela o horror e a reprovação com que são instintivamente considerados os seguidores de uma profissão criada e patrocinada principalmente pelas classes “refinadas”!

No relatório de um caso de “carne doente” publicado no Leeds Mercury de 6 de março de 1880, aparece a seguinte passagem:

“O Sr. J. Ellis, Presidente da Associação dos Açougueiros de Leeds, declarou que não havia absolutamente nenhuma doença nos pulmões do animal. O sangue provavelmente havia sido forçado para dentro deles por alguma pessoa pulando sobre o corpo do animal depois que ele foi abatido.”

“O Sr. Bruce: É uma prática comum, quando um animal está morrendo, uma pessoa pular sobre ele para forçar a saída do sangue?”

“A testemunha: Sim.”

No decorrer do célebre caso Tichborne, um certo açougueiro metropolitano foi chamado para testemunhar sobre a identidade do requerente. Esse homem afirmou que os empregados dos matadouros habitualmente usam tamancos para evitar encharcar os pés nas poças de sangue que continuamente inundam o piso desses lugares. Realmente, quando se pensa nesses homens infelizes e brutalizados, assim condenados pela moderna “civilização” — Deus nos livre da expressão! — a passar seus dias em meio a

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  1. De The Perfect Way in Diet, de Anna Kingsford (Nova Edição, 1897, pp. 61-64). Ver Prefácio Biográfico, p. 42 supra.
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espetáculos e práticas tão vis e repugnantes, participando diariamente de massacres em larga escala, e vivendo apenas para tirar a vida, é impossível não concluir que tais homens são privados de toda chance de se tornarem eles próprios civilizados e são, consequentemente, deserdados de seus direitos humanos e defraudados de sua dignidade humana. E não apenas os próprios matadores, mas todos aqueles que estão direta ou indiretamente associados a esse comércio abominável — condutores e comerciantes de gado, vendedores de carne, seus aprendizes e empregados — todos estes vivem em contato familiar, quando não exclusivo, com práticas e cenas do tipo mais vil e hediondo; todos estes são condenados à degradação ou supressão das características mais distintivas da Humanidade.

Para as pessoas em geral, a simples visão e o toque da carne crua despertam uma repugnância que somente uma educação especial pode superar. Assim, os açougueiros e cozinheiros são condenados a um trabalho que seus empregadores consideram totalmente repulsivo. É absurdo supor que, se a creofagia fosse realmente natural à humanidade, os sentimentos em relação aos açougueiros e à sua profissão, aos quais já se fez alusão, encontrariam entre nós expressão tão espontânea e universal. Os verdadeiros carnívoros e onívoros não têm horror aos cadáveres; a visão do sangue, o cheiro da carne crua, não lhes inspira qualquer espécie de repugnância. Se todos nós, homens e mulheres igualmente, fôssemos obrigados a dispensar os serviços de um matador remunerado e a imolar nossas vítimas com nossas próprias mãos, a inclinação pela carne não sobreviveria por muito tempo na sociedade refinada. Seria, de fato, difícil encontrar um homem ou uma mulher das classes alta ou média que consentisse voluntariamente em assumir os deveres do açougueiro, indo ao curral armado de marreta ou faca para derrubar um boi, ou cortar a garganta de uma ovelha ou cordeiro, ou mesmo de um coelho, para a refeição do dia seguinte. Por outro lado, não há ninguém, por mais delicadamente educado ou refinado que seja, que não pegasse prontamente uma cesta para colher maçãs em um pomar ou pêssegos em um jardim, ou que, caso surgisse a necessidade, se recusasse a fazer um bolo ou uma omelete.

Seriam necessárias, infelizmente, muitas e longas páginas para citar as inumeráveis crueldades e sofrimentos que a gula e o luxo do homem comedor de carne impõem aos inocentes herbívoros — sofrimentos que, diga-se o que se disser em contrário, são absolutamente inevitáveis e inseparáveis dos hábitos alimentares modernos da Europa. Sofrimentos por mar e por terra, durante o transporte de diferentes portos, por ferrovia e por estrada, sofrimentos nos mercados de gado, nos currais dos matadouros enquanto aguardam sua vez de morrer, sofrimentos por sede, fome, doença, superlotação, frio, calor, mutilação, golpes, terror, apreensão, exaustão, negligência, sem mencionar a barbaridade gratuita à qual são frequentemente submetidos — tal é, sob o atual sistema odioso e antinatural, o triste destino dessas pacientes, dóceis e laboriosas criaturas que deveriam estar arando nossos campos e nos oferecendo, não sua carne e sangue, mas leite, lã e os frutos de seu trabalho voluntário. 

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  1. Seguem-se aqui detalhes pungentes, fornecidos por diversas testemunhas oculares, sobre crueldades e sofrimentos ligados e inseparáveis do comércio de gado e dos matadouros.

Recentemente foi aprovada uma Lei consolidando e alterando a legislação relativa à crueldade contra os animais. Pela seção I da Lei de Proteção aos Animais de 1911, prevê-se punição para pessoas condenadas por certos atos de crueldade, ali especificados, contra animais domésticos ou cativos, conforme definidos na própria lei; mas a mesma seção contém uma ressalva em favor de “a destruição, ou preparação para destruição, de qualquer animal como alimento para a humanidade”, bem como em favor da caça esportiva de animais cativos e da vivissecção legalizada. O efeito dessa Lei é ampliar a classe dos animais legalmente protegidos, mas, a menos que se lhe dê uma interpretação mais liberal e humana do que aquela dada à lei anterior — a Lei de Prevenção da Crueldade contra os Animais de 1849 — que também foi aprovada com o objetivo de proteger certos animais contra crueldade e maus-tratos, ela oferecerá apenas uma proteção muito pobre; pois os juízes, tendo decidido que a lei anterior visava apenas abusos desnecessários, isto é, abusos que os comedores de carne considerariam desnecessários, sustentaram que um ato como marcar cordeiros no focinho com ferro em brasa para fins de identificação não era cruel; e, enquanto a dolorosíssima operação de descornar o gado serrando seus chifres rente à cabeça, com o objetivo de aumentar ligeiramente seu valor e facilitar a alimentação e o transporte, foi considerada por um juiz inglês desnecessária e cruel, portanto injustificável, juízes da Escócia e da Irlanda recusaram-se a seguir tal entendimento e decidiram que descornar o gado não constituía delito! Alegou-se, em defesa da prática de descornar o gado, que isso os fazia pastar melhor e engordar mais rapidamente. Quando, inicialmente, esse caso foi apresentado aos magistrados, eles concluíram que o fazendeiro que havia descornado o gado “agiu acreditando que a operação era para o benefício dos próprios animais, bem como para seu próprio benefício como criador”. Sustentou-se, sob a antiga lei, que uma operação dolorosa realizada em um animal, se fosse costumeira e se fosse executada com o propósito de beneficiar o proprietário aumentando o valor do animal, não era legalmente cruel, mesmo que a operação fosse, na realidade, desnecessária e inútil (por exemplo, a operação de castração de porcas). Tal foi a interpretação dada por juízes comedores de carne a uma Lei aprovada para a Prevenção da Crueldade contra os Animais! Deve-se observar que todas essas crueldades eram praticadas para e em favor dos comedores de carne enquanto tais. Por quanto tempo ainda continuará este estado de coisas? Tão degradada se tornou esta nação da Inglaterra sob um regime de carne, que atos tão deliberadamente cruéis e desumanos quanto o seguinte podem ser abertamente perpetrados sem protesto ou temor de punição, e sem comentários adversos em um jornal diário que lhes dá publicidade. O Daily Express, de 2 de novembro de 1911, sem uma palavra de condenação ou desaprovação, diz: “Uma foca foi vista ontem no Tâmisa [Dia de Todos os Santos] e perseguida até o Canal de Higham, que se junta ao rio em Gravesend. Foi apedrejada e finalmente baleada.”
— S.H.H.

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