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Os Direitos dos Animais - Brigid Brophy

Brigid Brophy Sunday Times, outubro de 1965 Se fosse anunciado amanhã que qualquer pessoa que quisesse poderia, sem risco de represálias ou recriminações, ficar à janela de um quarto andar, deixar pender uma linha com uma isca (“Grátis”) na ponta, esperar até que um transeunte desse uma mordida e então, tendo prendido sua bochecha ou garganta num anzol escondido na comida, içá-lo até o quarto andar e ali espancá-lo…

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Brigid Brophy

Sunday Times, outubro de 1965

[Publicado originalmente no The Sunday Times em 10 de outubro de 1965, este ensaio é considerado um dos textos fundadores do moderno movimento pelos direitos dos animais. Sua publicação inspirou o chamado Grupo Oxford, do qual surgiria, alguns anos depois, o livro Animals, Men and Morals (1971), obra que influenciou decisivamente Peter Singer na elaboração de Libertação Animal.  Nota da tradutora, Marly Winckler.]

Se fosse anunciado amanhã que qualquer pessoa que quisesse poderia, sem risco de represálias ou recriminações, ficar à janela de um quarto andar, deixar pender uma linha com uma isca (“Grátis”) na ponta, esperar até que um transeunte desse uma mordida e então, tendo prendido sua bochecha ou garganta num anzol escondido na comida, içá-lo até o quarto andar e ali espancá-lo até a morte com um porrete, não creio que houvesse muitos interessados.

A maioria dos adultos sensatos, imagino, sentiria náusea só de pensar nisso. No entanto, adultos sensatos fazem o equivalente com peixes todos os dias: não em pânico, ciúme sexual, frenesi ideológico ou mesmo ganância — muitos dos nossos peixes de água doce são praticamente intragáveis, e nenhum deles constitui ameaça à vida, ao amor ou à ideologia de qualquer ser humano na margem — mas por diversão. A civilização não se indigna com tal comportamento. Pelo contrário: o fato de a pesca ser o hobby de alguém é frequentemente visto como garantia de um caráter íntegro e inocente.

A relação do homo sapiens com os outros animais é de exploração incessante. Utilizamos seu trabalho; nós os comemos e vestimos. Nós os exploramos para servir às nossas superstições: enquanto antes os sacrificávamos aos nossos deuses e arrancávamos suas entranhas para prever o futuro, agora os sacrificamos à Ciência e fazemos experiências com suas vísceras na esperança — ou na mera possibilidade — de que assim possamos enxergar um pouco mais claramente o presente. Quando não conseguimos pensar em nenhum pretexto para causar sua morte nem em qualquer lucro a obter com isso, ainda assim frequentemente a causamos, gratuitamente, sendo o único ganho um breve prazer para nós mesmos, geralmente apenas marginalmente maior do que o prazer que poderíamos ter tido sem matar coisa alguma; poderíamos muito bem apreciar nossa pontaria ou nossas cavalgadas campestres sem precisar de um animal selvagem morto ao final.

É raro deixarmos animais selvagens vivos; e, quando o fazemos, frequentemente não os deixamos selvagens. Alguns colocamos em exibição numa prisão apenas grande o suficiente para que sobrevivam, mas não, em qualquer sentido pleno, para viver. Outros levamos pelo país em prisões ambulantes, parando de tempos em tempos para exibi-los em público realizando, como relógios mecânicos, “truques” que “treinamos” neles. Contudo, animais não são mecanismos de relógio, mas seres instintivos. Os “truques” de circo são espetaculares ou terríveis precisamente porque violam a natureza instintiva do animal — razão pela qual deveriam violar também nosso senso moral e estético.

Mas, quando se trata de animais, a humanidade parece ter desligado sua moral e sua estética — na verdade, sua própria imaginação. Deus sabe que essas faculdades funcionam de forma suficientemente errática em nossas relações uns com os outros. Mas ao menos reconhecemos suas falhas. Passamos um número crescente de nossos momentos mais lúcidos tentando evitar os colapsos morais e estéticos que, numa crise, podem precipitar-nos em atrocidades contra nossos semelhantes. Temos amargas disputas de delimitação sobre onde terminam os direitos de um homem e começam os do próximo, mas a maioria das pessoas hoje reconhece que existem direitos do próximo homem. Somente em relação ao próximo animal seres humanos civilizados conseguem persuadir-se de que possuem direitos absolutos e arbitrários — de que podem fazer qualquer coisa que consigam impunemente.

O leitor já terá percebido em algum grau que tipo de pessoa me enfrenta: um sentimentalista; provavelmente um estraga-prazeres; alguém sem noção das realidades econômicas; um antropomorfista que atribui sentimentos humanos (e sem dúvida nomes e roupas humanas também) aos animais, e ainda assim prefere animais a seres humanos e socorreria antes um gato de rua do que uma criança órfã; uma versão moderna daquelas solteironas inglesas que no século XIX provocavam o ridículo dos nativos ao andarem por Florença pedindo que não maltratassem seus burros; e, acima de tudo, naturalmente, um excêntrico.

Bem. Tomemos primeiro essa última acusação: se por “excêntrico” você quer dizer “anormal”, sim. Minhas opiniões são compartilhadas apenas por uma pequena (embora provavelmente não tão pequena quanto você imagina) parte da população — por enquanto. Ainda assim, isso nada prova sobre a validade de nossas opiniões. É anormal ser um lunático convencido de que é Napoleão, mas igualmente (e talvez ainda mais, numericamente falando) anormal ser um gênio. O teste de uma opinião é sua racionalidade, não o número de pessoas que a apoiam. No mundo antigo teria parecido insano levantar a questão dos direitos dos escravos — tão insano que quase nenhuma voz registrada o fez. Para nós parece incrível que os filósofos gregos tenham examinado tão profundamente o certo e o errado e ainda assim jamais tenham percebido a imoralidade da escravidão. Talvez daqui a três mil anos pareça igualmente incrível que não percebamos a imoralidade de nossa opressão sobre os animais.

A escravidão era o ponto cego da insensibilidade moral e estética do mundo antigo. De fato, foi somente nos séculos XVIII e XIX de nossa própria era que a consciência humana foi efetivamente e universalmente despertada nesse aspecto. Mesmo então continuaram explorações econômicas e sociais que apenas aboliram a escravidão em seu status constitucional, e surgiram pessoas para justificá-las. Mas então os exploradores ao menos foram forçados a se defender e sentiram-se obrigados a produzir os frágeis argumentos que jamais haviam sido sequer exigidos no mundo antigo. Talvez seja sinal de que nossa consciência está prestes a despertar em relação aos animais o fato de que exploradores de animais agora procurem justificar-se.

Quando criadores industriais nos dizem que animais mantidos em “campos intensivos” (isto é, campos de concentração) estão sendo bondosamente poupados das intempéries do inverno ao ar livre, e que bezerros não se importam em ficar presos sobre ripas por toda a vida porque nunca conheceram outra coisa, deveria soar em nossa consciência histórica um eco infantil: lembram-se de como os negros escravizados eram “bondosamente poupados” das duras responsabilidades da liberdade, de como a criada não sentia a dureza de esfregar o chão o dia inteiro porque estava acostumada a isso, de como o pobre não se importava com seus cortiços porque jamais conhecera outra coisa?

O primeiro dos argumentos dos criadores industriais é, naturalmente, um argumento para que fazendas comuns ofereçam melhores condições aos animais no inverno, não para que sejam substituídas por câmaras de tortura. Quanto ao argumento de que os animais “nunca conheceram outra coisa”, continuarei sem aceitá-lo até que os criadores industriais demonstrem sinceramente acreditar nele financiando, com seus lucros, a libertação de todos os animais de circo e zoológico capturados na natureza, sob o argumento de que estes conheceram outra coisa.

Sem me abalar por ser considerado excêntrico, darei gratuitamente outro bastão para me baterem, informando que sou vegetariano. Agora, certamente, você me tem. Não apenas sou um excêntrico ainda maior, membro de uma minoria ainda menor do que você percebia; certamente devo agora ser um estraga-prazeres. E, no entanto, quem de fato destrói mais alegria: o estraga-prazeres que o privaria do prazer de comer bifes, que é apenas um dos prazeres disponíveis para você, ou o animal morto que perde todos os prazeres junto com sua vida?

Cuidado, porém, ao me chamar de sentimentalista nesse assunto. Talvez eu seja menos sentimental do que você. Não mataria um animal para comê-lo, mas não tenho nenhum respeito especial por cadáveres enquanto tais. Se nossos químicos descobrissem (e certamente descobririam rapidamente se houvesse demanda) como dar maciez e higiene ao corpo de um animal que tivesse morrido de velhice, eu o comeria de bom grado; e, em princípio, o mesmo valeria para seres humanos. Na prática, suspeito que eu me engasgaria com um rissole que soubesse conter pedaços da tia-avó Emília (não sei bem se por amor ou repulsa por ela), e admito que talvez tivesse de deixar o canibalismo racional para gerações futuras educadas sem meu preconceito irracional. Mas você estava me acusando, não estava?, de sentimentalismo e ignorância das realidades econômicas. Já pensou quanto do suprimento potencial de alimento do mundo você deixa inutilmente desperdiçar por causa de sua repugnância sentimental em comer seus concidadãos depois que eles viveram suas vidas naturais?

Se vamos criar e matar animais para alimentação, penso que temos obrigação moral de poupá-los da dor e do terror em ambos os processos, simplesmente porque são sencientes. Não posso provar que sejam sencientes; mas também não tenho prova de que você seja. Embora você seja articulado, enquanto um animal apenas pode gritar ou se debater, não tenho garantia de que seu “Isso dói” expresse algo parecido com as intoleráveis sensações que experimento na dor. Sei, porém, que quando visito meu dentista e digo “Isso dói”, fico agradecido por ele me dar o benefício da dúvida.

Eu mesmo não acredito que, mesmo quando cumprimos nossa obrigação mínima de não causar dor, tenhamos o direito de matar animais. Sei que eu não teria o direito de matar você, por mais indolor que fosse, apenas porque gosto do sabor de sua carne; e não estou em posição de julgar que sua vida valha menos para você do que a do animal vale para ele. Se há diferença, você provavelmente valoriza menos a sua própria vida; ao contrário do animal, é capaz de agir por impulso suicida. A tradição cristã permitiria que eu matasse o animal, mas não você, sob o argumento de que você possui — e ele não — uma alma imortal. Não sou cristão e não recorro a essa licença; mas, se o fosse, veria na teoria da alma razão ainda maior para deixar o animal viver plenamente a única vida mortal que possui.

O verdadeiro problema moral só existe quando há conflito direto entre a vida final de um animal e a de um ser humano. Nossa dieta não cria tal conflito, já que carne não é essencial à vida humana; sustentei uma vida bastante saudável durante dez anos sem ela. E, na realidade, tais conflitos são muito mais raros do que em exercícios acadêmicos, onde sempre nos pedem escolher entre nossa avó e um Rubens numa casa em chamas. A fantasia humana frequentemente fabrica dilemas (como você fez ao sugerir que amo animais mais do que pessoas — não existe lei psicológica que me impeça de amar ambos) como desculpa para a inércia.

Na realidade, sua preferência pelos humanos em detrimento dos animais não o justifica em resistir à minha sugestão de enviar uma doação à Liga de Defesa dos Animais de Circo (11 Buckingham Street, Adelphi, WC2), a menos que você realmente vá enviar o dinheiro à Oxfam em vez disso.

O conflito mais genuíno e doloroso é, naturalmente, o da vivissecção. Sustentar que ela jamais se justifica é uma crença difícil. Mas também é difícil sustentar o contrário. Creio que ela jamais se justifica porque não vejo nada — exceto nossa capacidade de escapar impunes — que nos permita fazer com animais o que não permitiríamos fazer com seres humanos idiotas (que seriam mais úteis) ou, nesse sentido, com alguns seres humanos de qualquer tipo que poderíamos sacrificar pelo bem da maioria. Se permitimos a vivissecção, há de qualquer modo obrigações mínimas extremamente rigorosas. A mais básica é garantir que nenhum experimento seja repetido, descuidado, feito meramente para ensino ou como substituto do pensamento. Sabendo quantas vezes, em todas as outras esferas, pseudo-trabalhos proliferam para preencher tempo e empregos, e quantas vezes a atividade substitui o pensamento, ao ler as estatísticas oficiais sobre vivissecção você realmente acredita que garantimos isso?

Toda a nossa relação com os animais é tingida por uma fantasia — e uma falácia — sobre nossa dureza. Sentimo-nos obrigados a demonstrar que conseguimos suportar; na verdade, são os animais que suportam. Temos tanta vergonha de parecer sentimentais que frequentemente disfarçamos nossos impulsos humanos sob argumentos “realistas”: a caça à raposa seria esnobe; alimentos de criação industrial não teriam sabor agradável. Mas a caça à raposa continuaria sendo uma atrocidade mesmo se praticada por proletários autênticos e certificados; e a criação industrial continuaria sendo uma atrocidade mesmo se se descobrisse uma forma de tornar saborosos seus cadáveres. Assim também seria a escravidão, ainda que se provasse cem vezes mais economicamente realista do que a liberdade.

A mais triste e tola das superstições às quais sacrificamos animais é a crença de que, ao matá-los, vivemos mais plenamente. Poderíamos viver mais plenamente entrando imaginativamente em suas vidas. Mas derramar seu sangue não nos torna mais plenamente vivos. É um mito, frequentemente ligado ao mito do savoir vivre e da sensualidade do sul ensolarado. Não existe lei natural que torne o savoir vivre incompatível com “viver e deixar viver”. O toureiro que tortura um touro até a morte e depois o castra não demonstrou nem aumentou sua própria virilidade; apenas demonstrou ser um açougueiro com tendências de bailarino.

A superstição e o medo do sentimentalismo pesam sobre todas as nossas questões relativas aos animais. Não examinamos rigorosamente a vivissecção — de algum modo pensamos que seria “moleza” fazê-lo, o que aparentemente consideramos pior do que ser cruel. Quando, em fevereiro deste ano, a Câmara dos Lordes votou contra um projeto proibindo apresentações com animais em circos, apontou-se que treinadores de animais perderiam seus empregos. (Pensando bem, muitos treinadores humanos devem ter perdido os seus quando se decidiu abolir os combates de gladiadores.) Ninguém observou quantos acrobatas e malabaristas desempregados poderiam conseguir trabalho substituindo os animais.

Da mesma forma ocorre com o argumento do antropomorfismo, que funciona nos dois sentidos, mas é sempre utilizado apenas num deles. No mesmo debate da Câmara dos Lordes, Lady Summerskill, que defendia a causa humanitária, foi ridicularizada por um nobre sob a alegação de que, se ela fosse trancada numa jaula, sofreria humilhação e perda de liberdade, mas um animal, por não ser humano, não sofreria. Por que ninguém respondeu que um ser humano, em tais circunstâncias, por terríveis que fossem, teria ao menos o consolo do intelecto e da imaginação humana — desde ler livros até analisar sua situação e escrever ao Ministro do Interior — enquanto o animal sofre o terror bruto de não compreender o que está sendo feito com ele?

Na verdade, sou exatamente o oposto de um antropomorfista. Não considero os animais superiores nem sequer iguais aos humanos. Toda a razão para tratarmos decentemente os animais repousa no fato de sermos a espécie superior. Somos a espécie singularmente capaz de imaginação, racionalidade e escolha moral — e é precisamente por isso que temos a obrigação de reconhecer e respeitar os direitos dos animais.

Autoria preservada do acervo

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