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DISCURSOS AOS VEGETARIANOS 1

Falo sempre com o maior prazer e satisfação na presença de meus amigos, os membros da Sociedade Vegetariana. Com eles estou completamente à vontade, não tenho reservas, não tenho insatisfação. Não é assim quando falo por meus amigos os antivivisseccionistas, os antivacinacionistas, os espiritualistas, ou os defensores da liberdade das mulheres. Sinto sempre que aqueles dentre eles que não se abstêm de alimentos de…

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Falo sempre com o maior prazer e satisfação na presença de meus amigos, os membros da Sociedade Vegetariana. Com eles estou completamente à vontade, não tenho reservas, não tenho insatisfação. Não é assim quando falo por meus amigos os antivivisseccionistas, os antivacinacionistas, os espiritualistas, ou os defensores da liberdade das mulheres. Sinto sempre que aqueles dentre eles que não se abstêm de alimentos de origem animal têm terreno instável sob seus pés, e é para mim um grande pesar que, ao ajudá-los em suas boas obras, eu não possa sustentar aberta e publicamente aquilo em que tão ardentemente acredito — que o movimento vegetariano é o fundamento e a base de todos os outros movimentos em direção à Pureza, à Liberdade, à Justiça e à Felicidade.

Creio que foi Benjamin Disraeli quem disse que paramos no Conforto e o confundimos com a Civilização, contentando-nos em aumentar o primeiro à custa da segunda. Não passa um dia sem que a perspicácia dessa observação se imponha fortemente a mim. Conforto, luxo, indulgência e facilidade abundam nesta época e nesta parte do mundo; mas, infelizmente, de Civilização adquirimos até agora apenas os mais rudimentares elementos. Civilização não significa mera comodidade física, mas Liberdade moral e espiritual — Doçura e Luz — com as quais os costumes da época, em grande parte, estão em franca oposição.

Mencionei há pouco a liberdade das mulheres. Um dos maiores obstáculos ao avanço e à emancipação do sexo deve-se ao luxo da época, que exige tanto tempo, estudo, dinheiro e pensamento dedicados ao que se chama de “prazeres da mesa”. Uma grande classe de homens parece acreditar que as mulheres foram criadas principalmente para serem “donas de casa”, termo que aplicam quase exclusivamente a organizar jantares e supervisionar sua preparação.

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1 Dois exemplos de discursos proferidos por Anna Kingsford à Sociedade Vegetariana (de A Vida de Anna Kingsford, vol. II, pp. 223–227).

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Se este ofício estivesse ligado apenas à horta, ao campo e ao pomar, poderia verdadeiramente ser considerado refinado, refinador e digno da melhor e mais delicada senhora da terra. Mas, estando como está, na realidade, ligado a matadouros, açougues e carcaças mortas, é uma ocupação ao mesmo tempo antifeminina, desumana e extremamente bárbara. O Sr. John Ruskin disse que o critério de uma ação bela ou de um pensamento nobre deve ser encontrado no canto, e que uma ação sobre a qual não podemos fazer um poema não é digna da humanidade. Ele já aplicou esse teste ao consumo de carne?1

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1 Edward Maitland diz: “Assim, afinal, o Sr. John Ruskin não é ‘vegetariano’; mas, como seu companheiro profeta de Chelsea [Thomas Carlyle], seus princípios são uma coisa, sua prática outra. ... Ele pode escrever de maneira requintada sobre beleza, honra, ternura, ‘campos e sol, crianças e coisas desse tipo’, e, ao mesmo tempo, ser um patrono de matadouros, com sua inevitável feiura moral de sofrimento prolongado e morte violenta e bárbara infligida a herbívoros de olhar manso, e degradação indizível para uma vasta classe de seus semelhantes. E isso, ainda, quando a Ciência demonstrou que o homem é, por sua estrutura, adaptado a ser apenas um consumidor de grãos e frutos; quando o Senso Comum nos assegura que a Natureza deve saber melhor o que é bom para nós; e quando a História mostra que todos os grandes reformadores, não apenas de instituições, mas dos próprios homens — os Pitágoras, os Buda, e inúmeros Sábios e Santos — fizeram disso o primeiro passo em direção à perfeição pregada pelo Sr. Ruskin, que seus discípulos ordenassem seu modo de sustentar-se de tal maneira que não implicasse nenhum choque aos sentimentos morais.”

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Muitos belos poemas, muitas belas pinturas podem ser feitos sobre jardins e a colheita de frutos, e o trazer para casa os dourados produtos da colheita, ou a carga das vinhas, com grupos de meninos e meninas felizes, e bois tranquilos, de olhar manso, curvando o pescoço sob sua carga perfumada. Mas desafio qualquer pessoa a fazer versos belos ou pintar quadros belos sobre matadouros, correndo com rios de sangue fumegante, e animais aterrorizados, debatendo-se, abatidos ao chão com machados; ou sobre uma banca de açougue cercada por fileiras de cadáveres ensanguentados, e pessoas no meio deles negociando com o ogro que mantém o lugar por pernas, ombros, coxas e cabeças das criaturas assassinadas! Que ambientes horríveis são esses para senhoras gentis e belas!

A palavra “wife” (esposa) significa, na antiga língua saxônica, “tecelã”, e a palavra “husband” significa, naturalmente, “lavrador”. “Lady”, também, é uma palavra que originalmente significa “aquela que dá o pão”. Nessas palavras antigas chegou até nós um vislumbre de um belo quadro de tempos passados. A esposa, ou tecelã, é a fiandeira, a criadora, cuja função é produzir formas de beleza e arte decorativa, alegrar, adornar e tornar a vida bela. Ou, se a considerarmos como senhora da casa, no papel de provedora e distribuidora de boas coisas, não é a carne repugnante dos animais que ela oferece, mas o pão — doce, puro e inocente tipo de todo alimento humano. Quanto ao homem, ele é o cultivador da terra, o semeador do grão, o lavrador do campo.

Eu gostaria de ver esses tempos antigos de volta, com toda a sua doce e terna simplicidade arcádica, no lugar das vidas feias que a maioria das pessoas leva em nossas cidades modernas, cujas ruas são horríveis, sobretudo à noite, com seus bares apinhados, bancas de açougue manchadas de sangue, bêbados cambaleantes e mulheres brigando. Às vezes as pessoas me falam de convenções de paz e pedem que eu me junte a sociedades para acabar com a guerra. Eu sempre digo: “Vocês estão começando pelo lado errado, colocando a carroça diante dos bois.” Se querem que as pessoas deixem de lutar como feras de rapina, devem primeiro levá-las a deixar de viver como feras de rapina.¹ Não se pode reformar instituições sem antes reformar os homens. Ensinem os homens a viver como seres humanos devem viver, a pensar com sabedoria, pureza e beleza, e a ter ideias nobres sobre o propósito e o significado da Humanidade, e eles próprios reformarão suas instituições.

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  1. Veja Prefácio biográfico, p. 6-7.

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Qualquer outro modo de proceder resultará apenas em remendos sobre um tecido sem valor, em branquear um sepulcro cheio de ossos de mortos e de toda impureza. As carnes e as bebidas intoxicantes — o alimento do Luxo — são o funesto enredamento do vício de muitas cabeças, como a hidra, cujas cabeças sempre renovadas golpeamos em vão, enquanto deixamos o corpo do dragão ainda intacto. Ataquem ali — no coração — nas entranhas do monstro destruidor, e a obra de Hércules, o Redentor, estará cumprida.

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Tenho estado tantas vezes neste e em outros palcos por toda a Inglaterra, bem como na Escócia e na Suíça, para falar aos meus amigos sobre os aspectos fisiológicos, químicos, anatômicos e econômicos da dieta sem carne, que, esta noite, para variar, vou adotar outra linha, e uma linha mais elevada.

Tomaremos, portanto, se assim desejarem, como “já demonstradas” todas as defesas de nosso modo de vida fornecidas por diversos argumentos científicos: que temos a organização do frugívoro; que os elementos constituintes dos alimentos vegetais fornecem toda a força e o material necessários ao vigor corporal; que é mais barato comprar feijões e farinha do que comprar carne de porco e gordura; que a terra rende mais e sustenta mais pessoas quando cultivada com vegetais do que quando destinada ao pasto, e assim por diante. Todos esses argumentos, formulados com maior ou menor eloquência e clareza, a maioria de vocês já sabe de cor; e aqueles que não os sabem podem adquiri-los por seis pence na Sociedade Vegetariana.

Assim, esta noite vou falar-lhes sobre um ramo completamente diferente de nosso tema, o mais elevado e mais frutífero de toda a árvore. Vou dizer-lhes que vejo na doutrina que estamos aqui para pregar a própria culminação e coroa da Vida Suave, aquela Vida que, de algum modo, todos nós, em nossos melhores momentos, ansiamos viver, mas que somente de tempos em tempos é concedida a alguma alma grande e nobre, quase divina, realizar plenamente e glorificar aos olhos do mundo.

Disse há pouco que, “em nossos melhores momentos”, todos nós ansiamos levar a Vida Ideal. Alguns de nós têm muitos “melhores momentos”, e longos também: momentos que dominam e elevam nossos esforços cotidianos como uma luz de estrelas acima de nós, através da qual o Céu parece olhar para nós. Outros, porém, têm pouquíssimos “melhores momentos”, curtos e fracos, como luzes sobre um pântano, nunca firmes, sempre tremulando e apagando-se quando nos aproximamos deles. Para esta classe de pessoas, o Ideal é muito tênue e instável, enquanto para os primeiros é forte e dominante.

Sociedades como a nossa existem para encorajar os “melhores momentos” dos fracos e para glorificar os dos fortes. Sociedades como a nossa existem para treinar soldados e fornecer-lhes líderes para lutar pelo Ideal. Iniciantes e pessoas frágeis não conseguem manter-se firmes diante de um fogo intenso, nem avançar contra o inimigo, a menos que algum herói os lidere e mostre o caminho.

A Vida Ideal, a Vida Suave, tem muitos inimigos, e as armas usadas por eles são variadas. São pseudo-científicas, pseudo-religiosas, pseudo-filantropicas, pseudo-estéticas e pseudo-utilitárias. E os inimigos pertencem a todas as classes, profissões e interesses. Mas, de todas as armas utilizadas, a mais mortal, a mais terrível, é — o Ridículo. Sim, o ridículo mata às dezenas de milhares! Ser alvo de riso é muito mais assustador para os mortais comuns do que ser alvo de sermões, de lamentos ou de maldições. É a arma que os jornalistas quase sempre manejam com maior facilidade. São esses os homens que riem para viver. Eles substituíram, nos tempos modernos, os bobos da corte pagos de outrora. Cada cidade agora mantém seu bobo pago no escritório de seu jornal local, assim como, alguns séculos atrás, os grandes nobres mantinham um homem com gorro e traje de bufão para fazer piadas à mesa para os convidados. Não mudamos em costumes, mas apenas na maneira.

E a primeira coisa que os reformadores têm a fazer é deixar de se importar com o homem de traje de bufão. Deixem-no rir. Ele não pode argumentar. Rir é o seu ofício. Se ele não rir de modo demasiado grosseiro e evitar a blasfêmia, afinal, é bastante inofensivo. É seu privilégio rir de tudo o que é novo e incomum. Todas as crianças fazem isso, e o homem de traje de bufão não passa de uma criança esperta. Por que permitir que ele os derrube com seu bastão de tolo? Se vocês se encolhem, recuam e protestam, ele percebe sua vantagem e os espanca sem piedade. Mas não lhe deem atenção e continuem seu trabalho com um grande coração, como se fosse algo régio a fazer, e ele logo partirá em busca de outra presa. Apenas estejam certos, em sua própria mente, de que estão certos; apenas estejam profundamente determinados a manter essa coisa régia claramente diante de si e a trabalhar em direção a ela, e o Ideal os recompensará tornando-se o Real e o Atual.

Não é necessário ir muito longe para encontrar essa obra régia. Ela não consiste — para a maioria de nós — em sair para realizar alguma tarefa grandiosa. A maioria de nós a encontrará simplesmente moldando e elevando a própria vida, de modo a embelezá-la, aperfeiçoá-la e unificá-la, sendo justos e misericordiosos com todos os homens e todas as criaturas. Nós, vegetarianos, levamos o Ideal um grau mais abaixo e, portanto, um grau mais acima do que as outras pessoas. Encontramos no dever para com o mais humilde o dever mais completo em bênção.

Permitam-me contar-lhes uma história. Certa vez, nos remotos tempos antigos do romance, havia um Cavaleiro cristão de reputação incomparável, cujo maior anseio e mais caro desejo era ter a Visão do Santo Graal. O Santo Graal é o nome dado, na cavalaria, ao Cálice do Altar que contém o Sangue Sagrado de Cristo, e dizia-se que ele era mostrado em uma Visão por Deus àqueles que Ele julgasse dignos de contemplar esse símbolo supremo de Sua Graça, no momento em que mais Lhe agradavam.

Pois bem, o Cavaleiro de quem falo, em busca do objetivo de seu desejo, juntou-se aos cruzados e realizou prodígios de valor e feitos maravilhosos de armas na batalha contra os infiéis, mas tudo em vão; não teve Visão alguma e permaneceu sem bênção. Então deixou a Palestina, depôs sua espada em um mosteiro e viveu uma longa vida de penitência e meditação, desejando sempre ver o Santo Graal. Mas isso também foi em vão.

Por fim, triste e quase desesperado, retornou ao seu domínio. Ao aproximar-se de seu castelo, viu reunida diante de seus portões uma multidão de mendigos, doentes, mutilados, idosos e enfermos, velhos, mulheres, bebês e crianças — todos aqueles que haviam permanecido na terra enquanto os fortes e saudáveis iam lutar contra “os sarracenos”. Então disse ao seu escudeiro:

“Quem são estes?”
“São mendigos”, respondeu o escudeiro, “que não podem nem trabalhar nem lutar. Clamam por pão; mas por que dar atenção a um bando tão inútil e desprezível? Deixe-me afastá-los.”

“Não”, disse o Cavaleiro, tocado no coração, “matei muitos lá fora; deixem-me salvar alguns aqui. Reúna esses pobres, dê-lhes pão e bebida; que sejam aquecidos e vestidos.”

E eis que, ao proferir essas palavras, uma luz do céu desceu sobre ele e, erguendo os olhos, viu, finalmente, a tão desejada Visão do Santo Graal! Sim, esse dever humilde, simples e doméstico de caridade foi mais precioso aos Olhos Divinos do que todos os seus feitos de bravura no campo de batalha ou suas longas devoções no claustro!

E assim também conosco. Quem é tão pobre, tão oprimido, tão desamparado, tão mudo e tão negligenciado quanto as criaturas sem voz que nos servem — aquelas que, não fosse por nós, morreriam de fome, e que não têm amigo algum na Terra se o homem for seu inimigo? Mesmo estas não são demasiado humildes para a piedade, nem demasiado insignificantes para a justiça. E, sem receio de irreverência ou de desrespeito ao santo nome que os cristãos amam, podemos verdadeiramente dizer delas, assim como do cativo, do enfermo e do faminto: “Na medida em que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequenos, a mim o fizestes.”

Pois, como Francisco de Assis nos disse, todas as criaturas da mão de Deus são irmãs. “Minhas irmãs, as aves”, costumava ele dizer — “meus irmãos, os bois nos prados.” O essencial da verdadeira justiça é o senso de solidariedade. Todas as criaturas, do mais elevado ao mais humilde, estão de mãos dadas diante de Deus. E nunca começaremos a espiritualizar nossas vidas e pensamentos, a nos tornar mais leves e a nos elevar mais alto, enquanto não reconhecermos essa solidariedade, enquanto não aprendermos a olhar para as criaturas da mão de Deus, não como meros objetos de caça e matança, de dissecação e experimentação, mas como almas vivas com as quais, assim como com os filhos dos homens, a aliança de Deus é feita.

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ÍndicePALESTRAS E ENSAIOS SOBRE O VEGETARIANISMO

FontePalestras e Ensaios sobre Vegetarianismo

Autoria preservada do acervo

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