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ASPECTOS HISTÓRICOS DA REFORMA ALIMENTAR1

Foi-me atribuído falar sobre o desenvolvimento histórico desta forma de dieta, e penso que uma referência à evolução é bastante necessária nesse contexto, pois dificilmente se pode abordar a história do homem em qualquer período sem remontá-la às fontes das quais ele surgiu. Pois devemos considerar a raça humana, não como algo separado do restante da criação, mas como estando em fraternidade e solidariedade com todas…

Foi-me atribuído falar sobre o desenvolvimento histórico desta forma de dieta, e penso que uma referência à evolução é bastante necessária nesse contexto, pois dificilmente se pode abordar a história do homem em qualquer período sem remontá-la às fontes das quais ele surgiu. Pois devemos considerar a raça humana, não como algo separado do restante da criação, mas como estando em fraternidade e solidariedade com todas as formas de vida que nos cercam. Do ponto de vista científico, todos nós surgimos por diferenciação a partir de um tronco comum; mas o ponto que desejo enfatizar é que, ao longo dessa evolução, houve uma constante orientação para o melhor, uma corrente contínua de tendência que conduz à retidão; e vemos que a evolução foi realizada pela incorporação, na estrutura nervosa complexa, e especialmente no grande gânglio do cérebro, de tudo o que há de melhor que a natureza pode oferecer.

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1 Reimpresso de um relatório, publicado em The Food Reform Magazine (nº 1, vol. V, julho–setembro de 1885, p. 16), de uma conferência proferida por Anna Kingsford na terça-feira, 26 de maio de 1885, no Exeter Hall, sob os auspícios da National Food Reform Society.

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Isto é, foi por meio da elaboração da estrutura nervosa, e especialmente do cérebro, que o homem se tornou homem. Desejo, em conexão com esse tema, destacar que o homem surgiu diretamente do grupo frugívoro. É um fato de grande importância que o homem se tornou homem como comedor de frutos, e não como animal carnívoro, pois isso mostra que os carnívoros eram incapazes de produzir o homem, e que apenas o grupo frugívoro era capaz da elaboração e perfeição necessárias à natureza intelectual. O reconhecimento desse fato deve representar um enorme avanço para a reforma alimentar.

Às vezes me dizem, quando trato da anatomia e da fisiologia do homem em relação a essa questão, que ele poderia muito bem ter surgido das raças do tigre, do leão ou do chacal. Mas eu digo que não; o próprio fato de que não surgiu delas prova que essas raças eram incapazes de tal evolução. Quando sabemos que todos os grandes anatomistas concordaram em colocar os primatas — os grandes macacos antropoides — no topo de toda a família da evolução natural, e os classificaram de acordo com a evolução estrutural do sistema nervoso, vemos que podemos reivindicar para esse grupo frugívoro a ascendência e a prioridade sobre todos os demais.

E não apenas isso é verdadeiro em relação ao macaco; é também verdadeiro em relação às primeiras raças do homem. Não importa se recorremos a Ovídio, a Hesíodo ou à Bíblia: encontraremos sempre a mesma narrativa. Veremos que, na Idade de Ouro (se consultarmos Ovídio), os homens viviam dos frutos da terra e dos dons naturais que a bondosa natureza lhes concedia, “nem manchavam seus lábios com sangue”. Assim também, se nos voltarmos ao primeiro capítulo do Gênesis, encontraremos o mandamento de “comer os frutos da terra”. Seja sob o ponto de vista religioso popular, científico ou poético, chegamos sempre à mesma conclusão: todos têm seu ponto de partida na dispensação frugívora, e dela surgiram todas as grandes nações que nos deram as leis, as ciências e as artes que o mundo posteriormente desenvolveu.

Na History of Egypt de Sharpe, afirma-se que os legisladores do Egito primitivo proibiam o uso da carne; e dificilmente preciso lembrar que foi do Egito que o mundo ocidental recebeu o melhor que possui em ciência e conhecimento. Quando pensamos nos construtores das pirâmides, nos grandes doadores da filosofia do passado — quando refletimos sobre os profundos pensamentos desses grandes homens — quando recordamos as artes e ciências que nos legaram, percebemos quanto devemos a esse passado, que vive de forma tão nobre, tão sutil e tão esplêndida nas páginas da história.

Voltemos novamente ao Oriente. Diz-se que Pitágoras, o sábio de Samos, adquiriu todo o seu conhecimento no Oriente — mas este ponto não está aqui em discussão — o fato permanece que todas as grandes tribos da Índia são frugívoras em seus hábitos; e, quando estudamos as leis dos brâmanes, vemos que estão divididos em várias seitas ou classes — castas, como são chamadas. As três primeiras castas, naturalmente as mais elevadas, são proibidas de consumir carne animal; de fato, o uso de carne está associado, na mente desses povos orientais, à ideia de impureza, sendo permitido apenas à classe mais baixa — uma ideia exatamente oposta àquela a que estamos acostumados no Ocidente.

Conversei, há alguns anos, com um brâmane que havia quebrado sua casta ao atravessar o mar. Ao tomar conhecimento dos costumes deste país, resolveu, antes de deixar sua terra natal, acostumar-se, em silêncio e às escondidas, ao hábito degradante de comer carne. Era obrigado a fazê-lo à noite, com a porta fechada, por temor de que seus compatriotas descobrissem sua apostasia. Havia, porém, um homem na casa onde residia que necessariamente conhecia seus hábitos. Esse homem era seu servo, membro da classe mais baixa, que lhe fornecia a carne para que pudesse habituar-se à dieta comum do país que visitaria.

Com o tempo, o brâmane percebeu que diversos objetos de valor estavam sendo roubados de sua casa. Suspeitou do servo, acusou-o de furto e disse-lhe: “Levarei você ao magistrado e o acusarei de me roubar.” Então o servo voltou-se contra ele e respondeu: “O senhor não ousará; pois, se o fizer, eu o acusarei do horrível crime que comete na escuridão da noite, cuja revelação o degradaria de sua casta.” E assim o brâmane foi obrigado a silenciar.

Dessa pequena história pode-se perceber quão profundamente enraizada está, no Oriente, a ideia de poluição associada ao consumo de carne. Narro-a apenas para mostrar a força desse conceito entre brâmanes e budistas. Gautama Buddha — do qual creio nunca ter existido no mundo ser mais gentil, admirável ou santo — ensinou essa doutrina a seus discípulos como parte essencial de seu ensinamento. Estabeleceu como regra que nenhum homem deveria tirar a vida de qualquer criatura viva, e toda a tendência de seus ensinamentos e da religião budista segue nessa direção.

Concordo plenamente com o Arcebispo de Canterbury quando afirmou, há algum tempo, que deveríamos unir os ensinamentos do Evangelho ao quase divino evangelho de Gautama Buda, tomando tudo o que nele há de bom e incorporando-o ao nosso. Se quiserem compreender algo da vida religiosa do Oriente, leiam o belo poema The Light of Asia, de Edwin Arnold, e aprenderão quanta nobreza, grandeza e beleza existem no coração humano quando ele vive corretamente, como deveria viver, e se torna aquilo que foi destinado a ser por natureza. Então compreenderão quão esplêndida, sublime e bela é a filosofia à qual o homem pode chegar.

Creio que aqui, no Ocidente, faremos bem em estudar as doutrinas de Gautama Buda e do budismo. Sempre me impressiona a ideia de que toda a filosofia mais elevada, mais pura, mais sutil e mais profunda que o mundo possui veio até nós das raças vegetarianas. Não apenas no caso dos budistas, mas também no do grande mestre egípcio Hermes Trismegistos, que sustentava as mesmas doutrinas. E todos os pensamentos mais elevados e puros que nos chegaram através do tempo parecem ter sido filtrados por essas grandes raças.

Mas surge então a questão: “Isso também se aplica à força física?” Diz-se: é muito bom para filósofos viverem com dieta vegetariana, mas, quando se trata de combate, é necessário comer carne, como fazem os guerreiros do Ocidente, famosos por suas conquistas, enquanto o Oriente se distingue pelo pensamento. Afirma-se que todas as raças vegetarianas foram contemplativas, filosóficas e meditativas, ao passo que as raças guerreiras foram consumidoras de carne.

Essa é uma questão complexa, e não estou certa de que tal conclusão seja correta. Lembro-me de que os mais esplêndidos heróis que o mundo já viu — os espartanos sob Leônidas I, que defenderam o desfiladeiro das Termópilas — viviam de pão de cevada, bolos de aveia e azeite. Os heróis de Salamina e Maratona eram quase todos vegetarianos; assim também os persas sob Ciro. Considerando isso, inclino-me a pensar que todo verdadeiro heroísmo do mundo pode ser encontrado entre as melhores flores das raças vegetarianas.

Lembremo-nos de que ser herói é uma coisa, e ter um impulso febril pela guerra é outra. Uma coisa é resistir com os espartanos ou com Gordon; outra é desejar atacar nossos semelhantes e inundar o mundo de sangue. Aquele que pode enfrentar seu inimigo com calma, coragem e firmeza é um herói; mas desejar matar por conquista, devastar países por paixão de guerra, é um ultraje à natureza humana.

Penso que, enquanto os homens viverem com o alimento do tigre, terão a natureza do tigre; mas, se adotarem o alimento da Idade de Ouro — o alimento do Éden — terão a natureza do Paraíso. Se o mundo deve ser redimido, precisamos retornar àquele belo tempo celebrado por todos os poetas, que habita os sonhos dos videntes, do qual Percy Bysshe Shelley cantou — Shelley, o rei dos poetas — e que todas as almas mais puras, sublimes e elevadas contemplaram em visão divina e beatífica. Permitam-me citar aquelas belas e proféticas linhas de The Revolt of Islam, que anunciam esse Paraíso reconquistado.

[Aqui a conferencista recitou o trecho de The Revolt of Islam, que se encontra ao final de sua Conferência sobre Alimentação.¹]

¹ Ver p. 100 anterior.

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ÍndicePALESTRAS E ENSAIOS SOBRE O VEGETARIANISMO

FontePalestras e Ensaios sobre Vegetarianismo

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