14. Hiper Procriação
Se for perguntado: “O que acontecerá então com todos os animais? Não seremos invadidos por eles?”, a resposta a tais questões não é difícil de encontrar. Cesse-se a criação de animais para fins alimentares. A própria Natureza saberá como se restabelecer e recuperar o equilíbrio que o homem violou. A criação de gado e de animais de caça está muito além do que a natureza prevê. Essas criaturas são multiplicadas…
Se for perguntado: “O que acontecerá então com todos os animais? Não seremos invadidos por eles?”, a resposta a tais questões não é difícil de encontrar.
Cesse-se a criação de animais para fins alimentares. A própria Natureza saberá como se restabelecer e recuperar o equilíbrio que o homem violou. A criação de gado e de animais de caça está muito além do que a natureza prevê. Essas criaturas são multiplicadas intencionalmente pela intervenção humana, por meio de seleção, importação e todos os artifícios imagináveis.
Deve-se, contudo, ter em mente que, com o aumento do cultivo e da agricultura que o sistema reformado propõe, um grande número de bois seria necessário para auxiliar no trabalho agrícola — seu serviço antigo e legítimo. Quanto aos coelhos, lebres e aves de caça, todos sabem que esses animais são mantidos em números excessivos para fins de “esporte”. (1)
Que, por ora, hábitos artificiais perturbaram o justo equilíbrio da natureza é demonstrado pelo fato de que aquelas criaturas que não são utilizadas como alimento pelo homem não aumentam em grau apreciável, muito menos de forma prejudicial. Corremos o risco de sermos devorados ou invadidos por texugos, castores, esquilos, ouriços, burros, cavalos? Ou de sermos expulsos de nossas casas por pintarroxos, estorninhos ou pintassilgos?
Não temos, inclusive, grande dificuldade em obter cavalos e outros animais de carga a preços razoáveis, embora essas criaturas nunca sejam abatidas para alimentação, exceto por alguns excêntricos em Paris?
A Natureza, de fato, a menos que o homem desorganize deliberadamente suas leis, regula de tal modo as relações mútuas entre as coisas que impede a multiplicação excessiva de qualquer espécie animal.
Além disso, é altamente improvável que a transformação do mundo, de seus hábitos atuais para um sistema mais puro, ocorra de outra forma que não muito gradualmente. Portanto, aquelas criaturas que hoje são artificialmente multiplicadas terão tempo suficiente para diminuir gradualmente em número, à medida que a demanda por sua carne também diminuir gradualmente.
A maioria desses animais, recordemos, não é sequer originária do nosso clima, mas foi, em tempos remotos, importada de regiões distantes do globo; o boi provavelmente de países orientais, a ovelha da África.
Entre nossos animais domesticados, descendentes do gado selvagem, tantas modificações foram introduzidas pela mão do homem que a própria natureza foi profundamente alterada. Esses animais enfraquecidos, indolentes e de expressão triste, que vemos em nossos campos e ruas, são uma raça degenerada, moldada artificialmente e propagada apenas para satisfazer apetites viciosos.
Detenha-se por um momento em qualquer pastagem e observe a ovelha. Ela é uma mera massa de carne, sustentada por quatro pernas pequenas e retas, mal adaptadas para carregar tal peso. Seus movimentos são desajeitados e lentos; ela se fatiga facilmente e frequentemente sucumbe sob o peso de sua própria corpulência.
E, na medida em que aumenta o grau de transformação ao qual a engenhosidade humana submeteu o animal e seus ancestrais, a criatura torna-se mais indefesa, inerte e estúpida. Bois e ovelhas que se alimentam em terras muito férteis tornam-se extraordinariamente gordos e fracos; aqueles sem chifres são os mais pesados e apáticos, enquanto aqueles cuja lã é mais longa e fina são os mais sujeitos a doenças.
Em suma, quaisquer que tenham sido as transformações operadas nesses desventurados e infelizes animais pela ação do homem, todas elas tendem inteiramente a submetê-los à mesma maldição de doença e degradação que o homem trouxe sobre si mesmo. Pois a verdade é, como foi dito pelo poeta Percy Bysshe Shelley, ele próprio um dos apóstolos de nossa doutrina: –
“O homem, e os outros animais que ele degradou por meio de seu domínio, são os únicos que adoecem. As criaturas selvagens estão isentas de enfermidades, e morrem ou por acidente ou por idade avançada. Mas o porco, a ovelha, a vaca e o cão domesticados estão sujeitos a uma incrível variedade de doenças e, como os corruptores de sua natureza, têm médicos que prosperam com seus sofrimentos. A supremacia do homem é a supremacia da dor.”
Mas, ao tratar de questões de economia, distribuição e comércio, convém dizer ainda algumas palavras sobre outros pontos relacionados ao comércio e ao consumo da carne, os principais dos quais dizem respeito aos interesses das indústrias do couro e das peles, ao uso de esterco animal e às práticas de “esporte” e de captura com armadilhas.
NOTA DE RODAPÉ
(105:1) Não muito tempo atrás, foi relatado que os coelhos haviam se tornado tão escassos na Dinamarca que um agente daquele país foi encarregado de importar 50.000 desses animais da França para repovoar as tocas dinamarquesas.
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