1. Anatomia e Fisiologia
Por quais hábitos e modos de vida a humanidade, no passado, alcançou o seu mais alto desenvolvimento, e qual é o método que a ciência e a filosofia modernas nos indicam como o mais adequado para aperfeiçoar a nossa espécie? Para resolver essa vasta e importante questão, será necessário, em primeiro lugar, recorrer à história natural e buscar, no estudo da anatomia comparada do homem e dos outros animais, informações…
Por quais hábitos e modos de vida a humanidade, no passado, alcançou o seu mais alto desenvolvimento, e qual é o método que a ciência e a filosofia modernas nos indicam como o mais adequado para aperfeiçoar a nossa espécie?
Para resolver essa vasta e importante questão, será necessário, em primeiro lugar, recorrer à história natural e buscar, no estudo da anatomia comparada do homem e dos outros animais, informações relativas aos hábitos primitivos da humanidade e ao modo de vida indicado por sua conformação exterior e pela estrutura de seus órgãos. Em suma, devemos investigar se a espécie humana é naturalmente carnívora, herbívora, onívora ou frugívora.
Sem aceitar definitivamente as teorias de Lamarck, Darwin e Haeckel, creio que podemos adotar, sem receio de qualquer objeção séria, a classificação de Linneu, geralmente admitida pelos cientistas. Essa classificação distingue, sob o nome de Primatas, a ordem mais elevada da classe dos mamíferos, colocando em seu topo a família humana e a dos macacos antropoides. Estes últimos incluem duas espécies, uma das quais, do ponto de vista anatômico e fisiológico, se assemelha muito ao homem: refiro-me aos macacos do Velho Mundo, entre os quais encontramos o orangotango (“homem selvagem”), o gorila e o chimpanzé. O orangotango pertence à tribo dos Simiadae, enquanto o gorila e o chimpanzé pertencem aos Troglodytes.
Examinaremos, tão rápida e sucintamente quanto possível, os caracteres que aproximam esses seres do homem e aqueles que os separam, bem como os que distinguem o homem de certas outras ordens ou gêneros. Em seguida, investigaremos qual modo de alimentação é próprio aos animais que mais se aproximam da família humana e, assim, poderemos julgar qual deve ser, de acordo com as leis naturais, os hábitos e a dieta desta última. Começaremos nossa tarefa examinando a parte superior do esqueleto, o crânio, e os órgãos que ele contém.
A observação mais superficial permite reconhecer, por um lado, a semelhança existente entre a conformação geral do crânio humano e a do macaco e, por outro, as diferenças que estabelecem uma linha de separação mais ou menos marcada entre o crânio humano e o dos outros mamíferos, seja qual for sua ordem ou espécie. Deixando de lado essas características morfológicas familiares e superficiais, dedicaremos nossa atenção àquelas que apresentam interesse mais científico e menos comum.
O mais nobre e importante sistema da economia animal é, sem dúvida, o sistema nervoso, que, dominando as funções de todos os órgãos, preside à harmonia de suas operações, regula o funcionamento de todos os outros sistemas e tecidos, repara suas lesões, mantém sua integridade e é, por assim dizer, o guardião e legislador do organismo. O animal em que esse sistema — e, sobretudo, sua parte dominante, isto é, o cérebro — mais se aproxime do tipo humano terá, portanto, a priori, o direito de ser considerado o mais semelhante ao homem entre as espécies inferiores.
Além disso, é à perfeição, maior ou menor, do sistema nervoso — e, em particular, de seus centros ganglionares, isto é, à maior ou menor perfeição da agregação e da composição completa das partes que constituem esse sistema — que se deve, principalmente, poder-se-ia quase dizer exclusivamente, o grau de elevação de qualquer ser na escala animal e os caracteres que o separam mais ou menos distintamente do reino vegetal. Ora, é no homem que encontramos o grau supremo dessa agregação e desse desenvolvimento ganglionar, e o animal que mais se aproxima dele nesse aspecto é o orangotango.
A altura do cérebro no orangotango é maior do que no chimpanzé; o lobo frontal é mais desenvolvido, o occipital menor, o temporal mais horizontal e menos achatado — características que concordam bem com o aspecto exterior dos símios. Além disso, as circunvoluções cerebrais, que são muito rudimentares nos roedores e desdentados, menos simples nos carnívoros e ainda menos nos ruminantes e solípedes, atingem seu maior desenvolvimento nos macacos, e particularmente no orangotango.
A disposição da massa cerebral nos mamíferos carnívoros, bem estudada por Leuret, mostra apenas seis circunvoluções, variando em regularidade e simplicidade conforme a espécie, mas permanecendo em todos os casos paralelas entre si e orientadas no sentido ântero-posterior. Essas circunvoluções foram descritas pelo Professor Sappey sob o nome de circunvoluções constantes ou primitivas.
Somente quando chegamos ao elefante, ao lêmure e, especialmente, ao grupo dos macacos, encontramos certas novas circunvoluções, ou “pregas de aperfeiçoamento”, notáveis pelo seu volume e por sua direção perpendicular às circunvoluções primitivas. “Acrescentai”, diz M. Sappey, “às circunvoluções ântero-posteriores dos carnívoros e de outros mamíferos inferiores, duas ou três circunvoluções que as cortem perpendicularmente no meio, e obter-se-á a disposição própria dos mamíferos superiores, particularmente do homem e do macaco.”
Ora, no cérebro do orangotango, não apenas encontramos as circunvoluções ântero-posteriores alongadas, curvadas e anastomosadas segundo o tipo humano, mas é também no encéfalo desse animal que essas circunvoluções adicionais, ou “pregas de aperfeiçoamento”, observadas pelo Professor Sappey, aparecem de modo mais distinto, oferecendo, consequentemente, a analogia mais completa com a disposição do órgão cerebral no homem.
Somos, assim, autorizados a concluir, com o Professor Mivart, que a diferença entre o cérebro do orangotango e o do homem é uma diferença não de natureza, mas de grau. Os escritos do falecido Professor Broca, cujos estudos cuidadosos em antropologia conferem grande peso às suas afirmações, confirmam essa opinião, sustentando que o cérebro dos animais arquencefálicos — os hominídeos de Owen — difere tão pouco do dos girencefálicos superiores que os únicos caracteres distintivos observáveis nestes últimos são de importância totalmente secundária.
“Mas”, diz o professor, “esses caracteres não são reais em sua natureza e, mesmo que o fossem — mesmo que os hemisférios cerebrais dos macacos não contivessem nem a cavidade anciroide nem o pequeno hipocampo do homem, ou mesmo que seu cérebro não cobrisse inteiramente o cerebelo — essas diferenças seriam apenas leves, quase acessórias, e menos importantes do que aquelas que encontramos entre animais pertencentes à mesma ordem; de modo que devem ser consideradas totalmente insuficientes para o estabelecimento de duas subclasses.”
Tendo assim traçado brevemente os pontos de semelhança entre o cérebro humano e o símio, e sua divergência comum do tipo apresentado por outras raças inferiores, passamos ao exame da cavidade bucal, que deve fornecer indicações valiosas quanto ao modo de vida do ser em observação.
Nos animais antropoides, a boca é disposta segundo o tipo humano. As bolsas laterais, conhecidas como sacos bucais, estão ausentes nessa espécie; os dois canais excretores das glândulas submaxilares (ductos de Wharton) abrem-se separadamente nos lados do frênulo da língua; a própria língua assemelha-se à do homem; no orangotango, as papilas circunvaladas apresentam a disposição em forma de V do tipo humano, diferindo ligeiramente no chimpanzé, onde assumem a forma de um T.
A morfologia dentária e a fórmula dentária dos macacos do Velho Mundo (catarrinos) são idênticas às do homem; seus caninos são, contudo, mais longos, especialmente nos machos, e os dentes do siso aparecem em idade mais precoce do que no homem. Os macacos do Novo Mundo (platirrinos) diferem do homem pela ausência de um molar em cada metade da mandíbula, sendo o lugar desse dente ocupado por um bicúspide adicional.
A superfície dos dentes molares no homem é caracterizada pela presença de uma depressão irregular e ramificada que os divide em quatro ou cinco tubérculos distintos. A mesma formação é encontrada no orangotango, no chimpanzé e no gorila, assim como a disposição superficial do esmalte — substância que, nas raças herbívoras, é distribuída de maneira bastante diferente. Entre estas últimas — paquidermes, ruminantes (que não possuem incisivos na mandíbula superior) e roedores — os dentes molares são compostos por camadas alternadas de dentina, esmalte e cimento, que penetram no interior do dente, de modo que uma seção transversal, em vez de apresentar uma substância homogênea rodeada por uma simples camada de esmalte, como no homem e nos quadrúmanos, mostra várias dobras compostas onduladas. A dentina, sendo muito menos durável que o esmalte, desgasta-se rapidamente, e o dente adquire assim uma superfície áspera e irregular, adaptada a triturar as substâncias lenhosas que constituem parte da alimentação desses animais.
Por outro lado, os carnívoros possuem órgãos de mastigação que, segundo Küss, dificilmente podem ser chamados propriamente de dentes, sendo antes instrumentos em forma de espinhos destinados a rasgar em pedaços a carne de que se alimentam. Seus incisivos, seis em vez de quatro em cada mandíbula, são pequenos, pontiagudos e irregulares; a superfície dos molares apresenta aspecto de serra, e geralmente existe apenas um de cada lado, sendo o último bicúspide ou dente carniceiro especialmente característico. Esse dente, bem desenvolvido nos felinos, é composto por três proeminências fortes, agudas e irregulares, colocadas uma atrás da outra e ligadas por cristas salientes, sendo a anterior duplicada por uma espinha acessória. Nada disso se observa no homem nem nas espécies que mais se aproximam dele.
Ao lado dos mamíferos exclusivamente predadores colocamos os tipos onívoros, como o urso alpino, o urso norte-americano (ursus arctos), o javali e o porco (sus scrofa, sus tibetanus e sus ibericus). No urso, a superfície dos molares é achatada, mas os incisivos são em número de seis, como nos verdadeiros carnívoros, embora mais rombos e menos acentuados. Os caninos são muito longos e curvos, e entre eles e os bicúspides existe geralmente um intervalo notável. Esse caráter da dentição se aproxima mais do tipo carnívoro do que do herbívoro e, exceto pelo fato de o esmalte estar disposto superficialmente sobre os dentes jugais, nada tem em comum com a morfologia humana e frugívora.
Os incisivos do javali e do porco são alongados e projetam-se para frente na direção do eixo do maxilar; os caninos, particularmente os da mandíbula superior, assumem caráter especial e desenvolvem-se sob a forma de presas; na mandíbula inferior, esses dentes projetados para fora cruzam a direção do par superior. O mesmo intervalo entre os caninos e os pré-molares, que observamos no urso, também existe nas espécies de javalis e porcos.
Passemos agora ao exame do arco zigomático e da região temporal nas diversas ordens de mamíferos. Essa região é importante para nosso estudo, pois sua disposição e aspecto indicam o tipo de alimento próprio ao animal. Deve-se notar que, no homem e nos macacos, o arco zigomático é relativamente delicado, ligeiramente curvado de modo a apresentar uma superfície superior côncava, e que os músculos temporal e masseter são pouco desenvolvidos; enquanto, nos ruminantes, embora o músculo temporal não atinja grandes dimensões, o masseter, ao contrário, apresenta desenvolvimento considerável e, ultrapassando o arco zigomático, fixa-se em quase toda a superfície lateral do maxilar superior.
Além disso, a mandíbula inferior desses animais possui um movimento lateral característico; para produzi-lo, os côndilos são achatados e capazes de deslizar lateralmente em sua cavidade. Outro tipo de côndilo é o dos roedores, que apresenta aumento no diâmetro ântero-posterior e uma cavidade glenoide correspondente.
Mas é sobretudo entre os quadrúpedes carnívoros que encontramos a variação mais marcante em relação ao tipo humano no que diz respeito às características do arco temporal. O arco zigomático nos animais carnívoros é extremamente desenvolvido e reforçado por uma curvatura acentuada, cuja direção é oposta à observada nos frugívoros: a concavidade situa-se inferiormente e a superfície superior é fortemente convexa, sendo a curvatura tanto maior quanto mais feroz a espécie.
As dimensões, assim como a forma peculiar desse osso e sua projeção para fora do crânio, conferem força precisamente na direção mais necessária, aumentando enormemente a capacidade de rasgar. Além disso, os músculos masseter e temporal são fortemente desenvolvidos, sendo que o segundo preenche totalmente o grande espaço entre o processo zigomático e o osso temporal, atingindo em altura o limite superior do crânio.
Por outro lado, os músculos pterigoideos internos e externos são muito pequenos, pois esses quadrúpedes não possuem mobilidade lateral da mandíbula. Esse movimento é, de fato, impossível devido à disposição da cavidade glenoide, cuja grande profundidade impede qualquer alteração de posição além da abertura e fechamento verticais.
Os onívoros diferem muito pouco dos carnívoros nesses aspectos; e é somente entre os macacos — especialmente os símios e trogloditas — que encontramos uma disposição e aspecto dessa articulação e região muscular perfeitamente análogos aos observados no homem.
A classificação que assim vimos indicada em relação ao cérebro, à cavidade bucal, aos dentes e à articulação temporomaxilar será confirmada pelo estudo do canal digestivo.
O estômago humano é simples, consistindo, isto é,
de um único compartimento, como ocorre em todos os primatas. O Professor Broca teve a gentileza de me permitir ver, em seu laboratório antropológico, alguns desenhos e preparações anatômicas que demonstravam, de maneira impressionante, a identidade de configuração existente entre o aparelho digestivo do homem e o dos macacos superiores. De fato, à primeira vista, é quase impossível distinguir entre ambos, embora uma comparação mais minuciosa mostre que o estômago humano é menor que o do macaco.
Quanto ao intestino, os antropoides não diferem do homem nesse aspecto; seu ceco, desprovido de mesentério, é fixado na fossa ilíaca direita pelo peritônio; o apêndice vermiforme existe em todos os animais dessa tribo, e o comprimento de todo o trato corresponde ao tipo humano. O fígado do orangotango (e do gibão) é tão simples quanto o do homem; no chimpanzé, esse órgão parece menos desenvolvido, pois seu “lóbulo de Spigel” é menor e a fissura da veia cava inferior reduz-se a uma simples depressão.
Podemos notar que, no que diz respeito ao fígado, assim como em alguns outros aspectos, os antropoides diferem consideravelmente das três últimas famílias dos primatas e não diferem, em grau sensível, do homem. A vesícula biliar está sempre presente em todos os primatas; entre outros mamíferos, ela está ausente nos cetáceos, preguiças, rinocerontes, elefantes, camelos, cavalos e tapires.
O peritônio e os omentos do orangotango são quase idênticos, em sua disposição, aos do homem, e devemos lembrar que as pregas peritoneais têm considerável importância, pois suas conexões e disposições complexas são consequência de certas alterações de posição sofridas pelas vísceras abdominais durante a evolução embrionária.
Em um pequeno detalhe, o chimpanzé difere do homem nesse aspecto: o omento daquele se fixa à parte superior do cólon ascendente por uma extensão muito limitada. Nesse animal, assim como no gorila e no orangotango, o cólon ascendente e a parte superior do ceco são fixados pelo peritônio ao lado da coluna vertebral da mesma maneira que no homem.
O estômago dos quadrúpedes carnívoros difere do mesmo órgão no homem não apenas quanto às suas dimensões relativas, mas também quanto à sua forma. Em vez de ser subdividido, como nas raças frugívoras, em porções cardíaca e pilórica, o estômago carnívoro tem a forma de um saco simples, ligeiramente alongado no sentido transversal, sendo uniforme em toda a sua capacidade.
O comprimento do canal digestivo, em relação ao corpo inteiro, varia nas espécies carnívoras de três a seis para um; enquanto nos macacos e no homem a proporção é de sete a dez para um. O fígado dos carnívoros apresenta, quanto à sua conformação geral, uma divisão muito mais complexa do que o órgão humano, sendo composto de seis lobos distintos. Geralmente não há ceco; quando existe, é sempre rudimentar.
Por outro lado, o estômago dos herbívoros, especialmente o dos ruminantes, possui uma forma muito complexa; e mesmo quando o órgão é relativamente simples, como no cavalo, o ceco e o cólon apresentam grande desenvolvimento, o que parece compensar a falta de complexidade do estômago. Nos ruminantes encontramos quatro compartimentos distintos — o rúmen (pança), o retículo, o omaso e o abomaso — e o comprimento do canal digestivo, em relação ao corpo, varia de doze a vinte e sete para um.
Para não omitir os quadrúpedes onívoros, tomemos o porco como exemplo. Nesse animal, encontramos o fundo cardíaco dilatado em forma de bolsa, ao contrário do tipo humano, enquanto duas pregas paralelas conduzem do esôfago ao piloro.
Os célebres experimentos do Dr. Beaumont com Alexis St. Martin demonstraram que os movimentos peristálticos do estômago humano ocorrem no sentido de uma rotação completa; em outras palavras, a porção da massa alimentar que ocupa a grande curvatura move-se para a direita em direção ao piloro, enquanto a porção que ocupa a pequena curvatura move-se para a esquerda em direção à região cardíaca. Há, portanto, um movimento peristáltico contínuo do lado da grande curvatura e um movimento antiperistáltico do lado da pequena curvatura.
Ora, parece estabelecido que é assim que se produzem os movimentos digestivos do estômago nos animais herbívoros e, sem dúvida, também nos mamíferos da ordem à qual o homem pertence; mas nos carnívoros existe apenas um movimento simples de vai-e-vem, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. Não parece que tenha havido oportunidade de observar esses movimentos nos animais onívoros, mas a analogia leva a crer que não haveria diferença, nesse aspecto, entre estes e os verdadeiros carnívoros.
Quanto à análise comparativa dos diferentes sucos digestivos do organismo, convém fazer algumas observações:
- As oportunidades para estudar sua composição em estado fisiológico, isto é, saudável, no homem, são extremamente raras; e o mesmo se pode dizer no caso de outros animais, pois as operações preliminares necessárias para a criação de fístulas etc. complicam tanto as condições sob as quais esses sucos são obtidos que dificilmente se pode considerar conclusivos os resultados de sua análise. É altamente provável que, na maioria dos casos, as secreções estejam alteradas antes que o pesquisador consiga isolar seus elementos constituintes.
- As secreções do organismo variam conforme a natureza da alimentação, e parece provável que, se fosse possível comparar os sucos digestivos de uma pessoa habitualmente carnívora com os de outra habitualmente vegetariana, uma diferença química seria claramente perceptível. Sabe-se, de fato, que as funções e secreções do organismo se adaptam, com maior ou menor facilidade e rapidez, aos hábitos de vida e alimentação do indivíduo. Assim, no animal carnívoro, a quantidade de saliva produzida durante uma refeição é proporcionalmente muito menor do que no herbívoro, e o homem carnívoro secreta relativamente pouca saliva. Mas esse mesmo homem, ao tornar-se vegetariano, experimenta um aumento notável na secreção das glândulas salivares, que se adaptam às exigências de seu novo regime; e, embora não possamos recorrer a análises comparativas nesses casos, é lógico supor que as propriedades químicas dos sucos digestivos se adaptem, assim como o processo mecânico, às novas condições de alimentação.
Apesar dessas ressalvas, parece, segundo Bernard, Lent e outros, que a saliva humana, mesmo nas condições habituais de consumo de carne, se assemelha mais à dos herbívoros do que à dos carnívoros, pois, como nos primeiros, possui poder de sacarificação, não encontrado na secreção correspondente de nenhum carnívoro, cuja ação se limita aos aspectos mecânicos da mastigação e deglutição. Demonstrou-se também, pelos estudos de Frerichs e Gorup-Besanez, que a bile humana apresenta a mesma composição que a dos herbívoros.
Ao concluir esta parte de nosso trabalho, podemos ainda mencionar brevemente a diferença existente quanto à disposição e extensão das glândulas sudoríparas entre os carnívoros, de um lado, e os antropoides e herbívoros, de outro — sendo que a alimentação destes últimos dá origem naturalmente a uma produção excessiva de calor, exigindo, portanto, um aparelho mais desenvolvido para sua eliminação. Também nesse aspecto o homem se assemelha aos frugívoros e herbívoros.
Se dedicamos a este esboço de anatomia e fisiologia comparadas um espaço que pode parecer um tanto fatigante em detalhes, foi porque nos pareceu necessário combater certas ideias errôneas sobre a estrutura do homem, amplamente aceitas não apenas pelo público em geral, mas até mesmo por pessoas instruídas. Quantas vezes não ouvimos falar, com plena convicção, dos “dentes caninos” e do “estômago simples” do homem como prova de sua adaptação natural a uma dieta de carne!
Ao menos demonstramos um fato: que, se tais argumentos fossem válidos, aplicar-se-iam com ainda maior força aos macacos antropoides — cujos “caninos” são muito mais longos e poderosos do que os do homem — e, nesse caso, os cientistas deveriam apressar-se em retificar sua atual divisão do reino animal, classificando entre os carnívoros, e suas espécies próximas, todos os animais que hoje constituem a ordem dos primatas.
E, no entanto, com a única exceção do homem, não há um sequer entre eles que, em estado natural, aceite alimentar-se de carne! M. Pouchet observa que todos os detalhes do aparelho digestivo humano, bem como sua dentição, constituem “tantas provas de sua origem frugívora” — opinião compartilhada pelo Professor Owen, que afirma que os antropoides e todos os quadrúmanos obtêm sua alimentação de frutos, grãos e outras substâncias vegetais nutritivas, e que a estreita analogia existente entre sua estrutura e a do homem demonstra claramente sua natureza frugívora.
Essa também é a opinião de Cuvier, Linneu, do Professor Lawrence, de Charles Bell, de Gassendi, de Flourens e de muitos outros autores eminentes. Este último exprime seu ponto de vista da seguinte maneira:
“O homem não é nem carnívoro nem herbívoro. Ele não possui nem os dentes dos ruminantes, nem seus quatro estômagos, nem seus intestinos. Se considerarmos esses órgãos no homem, devemos concluir que ele é, por natureza e origem, frugívoro, como o macaco.”
Pode-se objetar que, sendo o homem, por estrutura e inclinações naturais, um consumidor de frutos e sementes, ele não deveria alimentar-se de plantas leguminosas e raízes, que pertencem mais propriamente à dieta dos herbívoros, cuja organização demonstramos diferir, em muitos aspectos, da do homem.
Pode-se ainda argumentar que é inútil tentar provar a qual ordem o homem pertence por natureza, uma vez que, nele — único entre todos os animais — a Arte substituiu a Natureza, permitindo-lhe, por meio do fogo, dos condimentos e de artifícios culinários, comer e digerir, sem repugnância e até com prazer, o alimento do tigre, do lobo e da hiena.
Segue: 2. Culinária