Minha vida e minhas experiências com a verdade - Gandhi
Acompanhar os caminhos de Gandhi, no final o século XIX, em busca de uma alimentação ética, saudável e "espiritual" é mais do que curioso; seu relato coloca-nos em contato com outra dimensão do vegetarianismo. Impossível ler sua biografia e continuar o mesmo. Tente. Aqui, reproduzimos apenas um trecho do livro; mas ele dá uma dimensão da grandeza e profundidade dos ideais do Mahatma. O livro Minha Vida e Minhas…
Minha vida e minhas experiências com a verdade - Gandhi
Acompanhar os caminhos de Gandhi, no final o século XIX, em busca de uma alimentação ética, saudável e "espiritual" é mais do que curioso; seu relato coloca-nos em contato com outra dimensão do vegetarianismo. Impossível ler sua biografia e continuar o mesmo. Tente. Aqui, reproduzimos apenas um trecho do livro; mas ele dá uma dimensão da grandeza e profundidade dos ideais do Mahatma. O livro Minha Vida e Minhas…
O livro Minha Vida e Minhas Experiências com a Verdade, Mohandâs Karamchand Gandhi, você encontra nas livrarias e bibliotecas.
Do ponto de vista médico, esses autores propunham que se abolissem todas as especiarias, todos os condimentos. Referindo-se a argumentos práticos e de economia, demonstraram que o regime vegetariano era o menos dispendioso de todos. Esse conjunto de considerações teve o seu efeito sobre mim e travei conhecimento com vegetarianos desses diferentes tipos nos restaurantes do regime que eu freqüentava. Existia na Inglaterra uma Sociedade Vegetariana, que publicava o seu boletim semanal. Tornei-me assinante desse boletim, inscrevi-me na Sociedade e não tardei a surpreender-me membro do Comitê Executivo. Aí entrei em contato com os que eram considerados pilares do vegetarianismo e lancei-me em experiências pessoais de dietética.
1889
Deixei de consumir doces e condimentos que recebera de casa. Tendo mudado de direção o progresso do meu espírito, a minha paixão pelos temperos esgotou-se por si mesma. Adorava agora os espinafres cozidos que me haviam parecido insípidos em Richmand, cozinhados sem condimentos. Muitas outras experiências semelhantes ensinaram-me que a verdadeira sede do paladar não é a língua, mas o espírito.
Bem entendido, o argumento econômico estava sempre diante dos meus olhos. Havia, naquele tempo, um grupo que considerava nocivos o chá e o café, e preferia o cacau. Convencido como estava de que não se devia consumir senão os artigos necessários ao sustento do corpo, abandonei o chá e o café, de modo geral, e os substituí pelo cacau.
(...) Na Inglaterra, encontrei três definições de carne. Segundo a primeira, só tinha direito a esse nome a carne dos pássaros e a dos animais. Os vegetarianos que a aceitavam abjuravam a carne dos pássaros e dos animais, mas comiam peixe, para não falar em ovos. De acordo com a segunda definição, a palavra carne aplicava-se à carne de toda criatura viva; não se pensava, pois, em tocar em peixe, mas os ovos eram permitidos. A terceira definição englobava não somente a carne de toda criatura viva, mas igualmente os seus frutos, conseqüentemente o leite e os ovos. Seu eu me ativesse à primeira, poderia comer tanto os ovos como o peixe. Mas estava convencido de que a definição adotada por minha mãe era a que eu devia observar. Se, portanto, quisesse cumprir o voto que tinha pronunciado, devia renunciar aos ovos. Renunciei a eles, Foi uma dura privação, pois que a mais simples indagação provava que, mesmo nos restaurantes vegetarianos, os ovos entravam na feitura de muitos pratos. O que significa que, salvo nos casos em que eu sabia de que se tratava, tinha de decidir-me, não sem constrangimento, a perguntar se tal ou qual prato continha ovo - porque numerosos pudins e bolos não estavam isentos dele. Mas, se a revelação do que era meu dever me impunha essas dificuldades, simplificava também a minha alimentação. Simplificação que, por sua vez, me causava muitos aborrecimentos, pois tive de renunciar a diversas iguarias pelas quais tomara gosto. Essas dificuldades foram passageiras: a estreita observância de meu voto proporcionou-me delícias interiores evidentemente mais sãs, mais sutis e mais duradouras.
(...) O entusiasmo do neófito pela fé que acaba de abraçar é maior do que o da pessoas que nasceu na mesma religião. O vegetarianismo representava então, para os ingleses, um culto inédito. E igualmente para mim: como já tivemos oportunidade ver, eu era, ao chegar, um carnívoro convencido, e a minha conversão intelectual ao vegetarianismo devia vir mais tarde. Cheio de zelo dos novos convertidos, decidi criar um clube vegetariano no bairro em que vivia - Baywater. (...) O clube prosperou algum tempo, mas extinguiu-se ao cabo de poucos meses, porque, fiel ao costume de mudar-me, periodicamente, deixe o bairro. Não obstante, essa breve e modesta experiência instruiu-me, de modo ligeiro, sobre a organização e a direção de uma instituição."