As representações de Sevananda como pioneiro no campo do Yoga brasileiro
Raphael Lugo Sanches Universidade Federal da Grande Dourados raphaelhistorias@hotmail.com Maria Lucia Abaurre Gnerre Departamento de Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba marialucia.ufpb@gmail.com Resumo: O artigo analisa algumas representações discursivas contemporâneas construídas por professores brasileiros de Yoga, referentes ao período da década de 1950, época em que o Yoga foi introduzido no…

Raphael Lugo Sanches
Universidade Federal da Grande Dourados
raphaelhistorias@hotmail.com
Maria Lucia Abaurre Gnerre
Departamento de Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba
marialucia.ufpb@gmail.com
Resumo: O artigo analisa algumas representações discursivas contemporâneas construídas por professores brasileiros de Yoga, referentes ao período da década de 1950, época em que o Yoga foi introduzido no país. Nesses discursos, constatou-se um consenso em relação ao pioneirismo do francês Leo Alvarez
Costet de Mascheville (Sevanada Swami). Em seguida, analisamos a biografia de Sevananda elaborada pela Igreja Expectante; nela, Sevananda foi apresentado como um exímio mestre iniciado em diversas linhas esotéricas e de autoconhecimento. Contudo, comparando essas representações discursivas com outras representações como, por exemplo, a que foi criada pela revista Prana Yoga Journal, em 2007, vimos que nesse caso as contribuições de Sevananda não foram mensuradas, elegendo outros personagens como pioneiros. Tal indicativo é reflexo de uma batalha discursiva que vem sendo forjada por professores e praticantes desde a década de 1960, e que posteriormente passou a ser reforçada pelas publicações bibliográficas e pelos meios midiáticos especializados em Yoga.
Palavras-chave: Yoga, disputas, Brasil, Sevananda Swami.
The representations of Sevananda as a pioneer in the Brazilian Yoga field
Abstract: The article analyzes some contemporary discursive representations built by Brazilian teachers of Yoga, for the period of the 1950s, a time when Yoga was introduced in the country. In these discourses, there was a consensus in relation to the pioneer role of a French, Leo Alvarez Costet de Mascheville (Sevanada Swami). Then we analyze Sevananda’s biography prepared by the Expectant Church; there, Sevananda was presented as an accomplished master initiated in various esoteric and self knowledge lines. However, comparing these discursive representations with other accounts, such as the one created by the magazine Prana Yoga Journal, in 2007, we noticed that in this case the contributions of Sevananda were not gauged; other characters were elected as pioneers. This variable evaluation reflects a discursive battle that has been fashioned by Yoga teachers and practitioners since the 1960s, and later became reinforced by the bibliographical publications and the media specialized in Yoga.
Keywords: Yoga; disputes; Brazil, Sevananda Swami.
1 Práticas, representações e disputas de poder
Para Chartier (2002), as representações são construídas no embate, por meio das contradições; e tais representações estão diretamente relacionadas às práticas, sejam elas discursivas ou imagéticas. Trata-se de uma relação dialética, onde as práticas são construídas a partir das representações e as representações construídas a partir das práticas. Com essa perspectiva, analisamos algumas representações discursivas sobre a introdução do Yoga no Brasil, tendo em vista que tais representações influenciam na forma como esse vem sendo entendido e praticado no país. Escrever sobre a história do Yoga no Brasil proporciona aos professores e à mídia especia
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lizada, um acúmulo de capital simbólico e consequentemente agrega credibilidade aos discursos que estão sendo construídos. Nessa relação, muitas vezes, as representações se contradizem, constituindo um campo de disputa pela verdade histórica que se quer vender e, por outro lado, que se quer ocultar.
1.1 A busca por um pioneiro: discursos de professores de Yoga
Para Cordeiro (2013), a semente do Yoga brasileiro foi plantada pelo francês Swami Asuri Kapila, que chegou ao Uruguai em 1936 e, nesse mesmo ano, teria viajado para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Antes disso, em 1932, Kapila fundou na França o Ramana Ashram – Escola Internacional de Yoga, cujos ideais estavam pautados no entendimento do Yoga Integral postulado por Sri Aurobindo1. Estabelecido no Uruguai, passou a ensinar e disseminar seus conhecimentos através de conferências e de cursos de formação. Segundo a referida autora, um
de seus discípulos esteve no Brasil em 1947, quando participou de um Congresso no Rio de Janeiro, onde teria discursado para aproximadamente 5.000 pessoas. Tratava-se do francês Leo Alvarez Costet de Mascheville (Sevananda Swami), que cinco anos depois se mudou para o Brasil2. Em função disso, Cordeiro (2013) e Caruso (2010, p. 50) consideram Sevananda como precursor no ensino de Yoga no Brasil:
Indiscutivelmente a prática do yoga no Brasil se inicia com os trabalhos do francês Leo Alvarez Costet de Mascheville (1901-1970), denominado Swami Sevananda, que segundo a própria biografia divulgada pela Ordem que fundou, Ordem dos Sarvas Swamis, instalou-se no Uruguai em 1932, e de lá, parte em junho de 1952, de jipe e trailer por uma jornada pelo Brasil. Ele e sua segunda esposa, Sadhana, chegam a Resende, no Rio de Janeiro em 1953. Existem informações prévias sobre um grupo de estudo de Lages (SC), que não se encontra registro em documentos
oficiais. Tenho em mãos cópias oficiais dos documentos de fundação do Monastério Amo-Pax, (AMO significa Associação Mística Ocidental) que possui fundação legal em 29/10/1953 e fundação mística (ou celebração de inauguração, como queira) em 20/11/1953. Nos documentos de fundação, relata-se até a presença do cão Nero que insistiu em assistir. (Caruso, 2010, p. 50)
Remontando sua estadia em outros países da América do Sul antes de se radicar no Brasil, André De Rose afirma que: Após alguns anos na Europa onde além de prestar serviço militar servindo no Estado maior do Exército Francês, participou de uma série de ordens secretas, inclusive a rosa cruz na Europa, Léo viaja para a Argentina em 1923 e atravessa os pampas a pé com um Yogi alemão durante seis meses e volta ao Brasil, em 1924, com a esposa Lotúsia, que conhecera na frente de batalha como enfermeira de campanha, da qual ganhou uma filhinha. No final da década de 20 a família muda-se para Curitiba onde Leo, conhecido como Sri Sevánanda Swami, funda uma série de ordens místicas coordenadas pelo seu pai, que acaba por morrer em 1943, nesta cidade.3
André De Rose compactua com a versão de Caruso, considerando Sevananda como precursor da prática e ensino de Yoga no Brasil. Contudo, remonta a passagem de Sevananda pelo Brasil para uma data mais remota, 1924, onde ficou até 1943, ano da morte de seu pai em Curitiba.
Após esse incidente, foi morar em Montevidéu, no Uruguai, onde fundou o Grupo Independente de Estudos Esotéricos (GIDEE) que, segundo De Rose, era uma miscelânea de tradi-
1 Aurobindo Akroyd Ghosh (1872-1950) foi escritor, filósofo, poeta e yogin indiano. Viveu dos cinco aos vinte anos
de idade na Inglaterra, onde teve sua instrução educacional. Lutou pela independência da Índia do controle colonial
britânico, motivo que o manteve encarcerado entre os anos de 1908 e 1909. Sua companheira espiritual, Mira Alfassa
(a Mãe), deu continuidade ao seu trabalho, criando uma comunidade espiritual denominada Auroville, que existe até hoje no estado de Tamil Nadu, no sul da Índia.
2 Disponível em: http://boa-yoga.com/sementes-do-bem-buscando-a-historia-do-yoga-no-brasil/. Acessado em 03 de março de 2014.
3 Disponível em:
http://www.yogapequenaindia.com/news/voc%C3%AA%20sabe%20quem%20trouxe%20o%20yoga%20para%20o
%20brasil-/. Acessado em 30 de março de 2011.
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ções esotéricas e espiritualistas, tal como Yoga, Sufismo, Kabbala, Ayurveda, Ciências Herméticas, Gnose, Cristianismo Esotérico, entre outras4.
Sevananda conseguiu sustentar e dirigir o GIDEE durante alguns anos, mas logo teve que suspender as atividades do grupo. É sabido que teria arrumado uma nova companheira após o falecimento de sua esposa Lotúsia e que ao lado dela teria passado períodos financeiros difíceis, tendo vendido apólices de seguros de porta em porta nas ruas de Montevidéu. Ao lado de sua nova companheira, Sadhana, resolveram vender suas posses e adquiriram um trailer e um jipe
(Figura 1). Assim, Em junho de 1952 partem, Sevánanda e Sádhana, dirigindo o jipe, rumo norte a atravessar o
Uruguai e Brasil, parando em todas as cidades visitadas e dando palestras públicas a divulgar sob o lema “O sacrifício de Jesus e de Gandhi nos unem a todos.”5
Segundo André De Rose, Sevananda teria passado por dois países – Argentina e Uruguai – proferindo palestras sobre conhecimentos esotéricos em geral, entre os quais se incluía o Yoga.
Sevananda e sua companheira Sadhana denominaram suas peregrinações de Cruzada Continental
de Vida Espiritual, onde falavam sobre o pensamento de Cristo, Gandhi e da Yoga Espiritual.
Em artigo dedicado ao Martinismo6 no Brasil, é possível encontrar panfletos de divulgação da época, frisando que tal cruzada não tinha qualquer intenção sectária, sendo suas palestras abertas às pessoas de qualquer credo. Um desses panfletos7 nos informa que estiveram em Niterói, Rio de Janeiro, entre os dias 10 e 23 de novembro de 1953, promovendo conferências no Teatro Municipal e em outros locais públicos, com demonstrações práticas do Yoga em seus vários aspectos.
Figura 1. Partida da Cruzada Continental, no parque Del Prata, em Montevidéu, em 1952.

Sevananda fazia questão de ressaltar que o Yoga que ensinava era de conotação espiritual, diferindo do Yoga como prática meramente física. Nesses panfletos, Sevananda se autodenominava escritor, filósofo yogin e espiritualista militante. Ao lado da propaganda de suas conferências, há uma foto de Sevananda e de sua companheira trajando vestes monásticas (túnica, cinto, botina e bastão) e uma explicação sobre seu significado: “A nossa vida missionária como Monges Espirituais justifica a Túnica postas sobre as nossas roupas de treinamento da Yoga; constituindo,
assim, um real símbolo da união: cristã-yoguística”.8 Sevananda se posicionava como um missionário cujo papel era propagar ideais espiritualistas. Como monge, buscou unir os
4 Disponível em:
http://www.yogapequenaindia.com/news/voc%C3%AA%20sabe%20quem%20trouxe%20o%20yoga%20para%20o
%20brasil /. Acessado em 30 de março de 2011.
5 Disponível em:
http://www.yogapequenaindia.com/news/voc%C3%AA%20sabe%20quem%20trouxe%20o%20yoga%20para%20o
%20brasil-/. Acessado em 30 de março de 2011.
6 Ordem Martinista é uma ordem iniciática com base essencialmente na mística cristã, embora existam algumas
linhagens do Martinismo que conciliam os ensinamentos da tradição esotérica cristã com os ensinamentos de algumas tradições esotéricas do oriente.
7 Disponível em: http://www.oocities.org/athens/stage/4223/martbrasil.html. Acessado em 15 de fevereiro de 2014.
8 Disponível em: http://www.oocities.org/athens/stage/4223/martbrasil.html. Acessado em 15 de fevereiro de 2014.
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ensinamentos práticos e filosóficos do Yoga e do hinduísmo aos ensinamentos cristãos, defendendo que havia muito mais semelhanças que diferenças entre o que foi propagado por Jesus Cristo e Mahatma Gandhi, por exemplo. Como apontado por Andre De Rose e constatado no panfleto referenciado, as conferências de Sevananda levavam o título O pensamento de Jesus e o de Gandhi e os seus sacrifícios nos unem a todos9 (Figura 2). Título que expressa e representa muito bem essa concepção.

Figura 2. Panfleto da “Cruzada Continental de Vida Espiritual”, 1953.
1.2 Fundação da Associação Mística Ocidental (AMO-PAX)
Na época de suas conferências no Rio de Janeiro, Sevananda fundou em Resende, no dia 20 de novembro de 1953, a sede da Associação Mística Ocidental (AMO-PAX), que confluía em um Ashram10 de Sarva Yoga11 e um Mosteiro Essênio, em uma área de 12 hectares, recebida como doação. Os primeiros meses foram de intensa dificuldade para a manutenção do mosteiro, com pouco recurso e apoio financeiro. Mas logo chegaram novos discípulos vindos até do exterior formando uma comunidade esotérica que comungava distintas tradições espiritualistas. No ashram, Sevananda reuniu ensinamentos do ocidente e do oriente e aplicou sua doutrina de síntese pessoal. Ali, foram realizadas até mesmo cerimônias matrimoniais de acordo com o sistema da Egrégora Expectante, igreja onde até hoje o Mestre Sevananda é considerado patriarca, juntamente com Mestre Cedaior, seu pai e fundador da igreja, Mestre Thoth e Mestra Mariland Diniz Bezerra Nunes12.
No mesmo panfleto, de 1953, constava o símbolo da AMO-PAX com uma explicação sobre sua simbologia:
Ostentamos o símbolo da “A.M.O.”, que além da Cruz do Senhor, tem um Coração Humano, indispensável à obra da Paz e do Amor. A Rosa simboliza Jesus e tudo que de belo e puro
9 Disponível em: http://www.oocities.org/athens/stage/4223/martbrasil.html. Acessado em 15 de fevereiro de 2014.
10 Palavra sânscrita que faz referência a um local tranquilo, retirado e protegido, usado para fins espirituais.
11 Sarva é uma palavra sânscrita que pode ser traduzida por tudo, completo, integral. Sarva Yoga foi o nome utilizado por Sevananda para designar seu método de Yoga. Um de seus discípulos, Sarvananda, foi responsável por dar continuidade à sua obra, promovendo cursos de formação de instrutores de Sarva Yoga em Belo Horizonte, onde formou e iniciou inúmeros discípulos.
12 Disponível em: www.igrejaexpectante.org/patriarcas. Acessado em 6 de fevereiro de 2014.
Figura 2 – Folheto de divulgação da Cruzada Continental, 1953.
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tem sua doutrina, seu exemplo e seu sacrifício. O Lírio lembra a pureza visível de Gandhi, que triunfou sobre a malignidade. O Loto, à esquerda, lembra a pureza interior sob forma devocional e elevação espiritual, tal como o Oriente o concebe. O Cardo, em baixo, lembra alguma coisa do trabalho pelos caminhos do Mundo, assim como a Sementeira que o tempo e o vento ampliam!13
Os significados descritos por Sevananda, presentes no símbolo da AMO-PAX, revelam suas influências e o propósito dessa instituição: unir o pensamento espiritualista do ocidente e o do oriente. Tal aproximação já havia sido feita anos antes por Vivekananda, mestre indiano que trouxe ensinamentos de Yoga e Vedanta para o Parlamento das Religiões do Mundo ocorrido em Chicago, em 1893, bem como por Paramahansa Yogananda, que propagou o Yoga na América do Norte no início do século XX, tendo escrito uma obra emblemática em dois volumes,
The second coming of Christ: the resurrection of the Christ within you, cuja compilação foi
publicada no Brasil com o título A Yoga de Jesus14.
A partir dessa perspectiva, afirma-se que a sede da AMO-PAX teria sido o primeiro espaço de prática e estudo de Yoga instalado no Brasil. Caruso (2010, p.51) afirmou que “em material da própria AMO-PAX, havia muitos horários de práticas meditativas entre os trabalhos do monastério, mas o material apresenta com especial destaque as práticas de yoga ministradas por Vayuananda (Juan Carlos Ovídio Trotta)”. Não obstante, tal constatação não descarta a possibilidade de outras pessoas terem contatos anteriores com a tradição e a prática do Yoga, e até mesmo de a terem ensinado a outras pessoas.
Vayuananda era capitão de corveta e foi discípulo de Swami Asuri Kapila, tendo dirigido uma de suas escolas em Buenos Aires, na Argentina. Fazia viagens constantes com seu mestre a Montevidéu, no Uruguai, e foi considerado seu sucessor no Brasil e na Argentina após 1955.
Residiu durante algum tempo no ashram em Resende e na década de 1960 passou a dar aulas de Yoga no Rio de Janeiro, onde fundou a Academia de Yoga Vayuananda. A partir de 1963 passou a oferecer cursos de formação de professores. Ele também foi presidente da Associação Uruguaia de Yoga e presidente honorário da Escola Internacional de Yoga.
Outro pioneiro do Yoga no Brasil foi o francês Jean Pierre Bastiou (Hridayadasa), que chegou ao país em 1952. Ele também foi ordenado monge pela AMO-PAX e, em 1958, passou a ensinar em sua própria academia, no Rio de Janeiro. Bastiou foi discípulo de Swami Sivananda, com quem travou contato ao longo de suas viagens para a Índia. Em 1965, publicou, pela editora Freitas Bastos, sua obra Encontro com Yoga: um Yoga brasileiro na Índia, onde narrou suas experiências e encontros com mestres indianos. Em 2002, publicou a obra Globe-trotter da consciência: do Yoga à conscienciologia, onde relatou sua biografia e traçou um paralelo entre o Yoga e a Conscienciologia15.
O ashram fundado por Sevananda em Resende encerrou suas atividades em junho de 1961. Seus discípulos se dispersaram e apenas um pequeno grupo seguiu o mestre para Lajes, em Santa Catarina, onde foi fundado o retiro Alba Lucis. Um panfleto da década de 1950 informa que Alba Lucis (Alvorada da Luz), foi um movimento destinado a despertar a vida espiritual no continente americano, tendo como campo de ação a América Latina e o Brasil como primeiro país de germinação, com sede legal na cidade São Sebastião, no Rio de Janeiro. Sevananda e sua companheira eram responsáveis pela propagação desse movimento durante a Cruzada Continental de Vida Espiritual. Estavam também envolvidos no movimento Swami Satichidananda (Puri), responsável por trazer o conhecimento dos Vedas, do Yoga Tradicional e da Medicina Ayurvédica e V. M. Ayrandasã, que na ocasião era mentora de Agla-Avis e responsável por preparar metodicamente pessoas e instituições interessadas em disciplina espiritual. Por fim, era
13 Disponível em: http://www.oocities.org/athens/stage/4223/martbrasil.html. Acessado em 15 de fevereiro de 2014.
14 Nessa obra, revela o Yoga oculto no Evangelho, afirmando que Jesus, assim como os mestres antigos do oriente, conheceu e ensinou esse caminho universal de realização divina aos seus discípulos mais próximos. Yogananda afirmou que Jesus esteve na Índia durante os anos desconhecidos de sua vida e que os princípios e métodos do Yoga são equivalentes aos ensinamentos dos santos e místicos cristãos.
15 Uma ciência não-convencional, cujos princípios foram propostos pelo médico e médium Waldo Vieira (1932-
2015). Entre outras coisas, ocupa do estudo dos fenômenos parapsíquicos, como por exemplo, as experiências extracorporais.
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citado o nome de Vayuananda como representante da Associação Mística Ocidental. O movimento Alba Lucis era uma missão espiritual assumida por representantes de diversas tradições e instituições, cujo objetivo era divulgar ensinamentos relacionados à solução de problemas sociais, morais, políticos, ecológicos e econômicos:
A razão de sua origem é apenas a necessidade, urgente, de aumentar o número de pessoas, cuja vida tenha suficiente moralidade, dignidade, utilidade coletiva e real sentido espiritual, para ajudar a equilibrar o egoísmo, a imoralidade e a indiferença humanas, que estão causando todas as calamidades sociais, internacionais, advertências sísmicas e outras da Natureza e que ainda nos trarão maiores e inevitáveis castigos.16
Para tal, suas lideranças anunciavam que um intenso e pertinente trabalho seria realizado “com toda a disciplina de um profundo respeito às leis civis do país” e que através de sucessivos manifestos públicos dariam a conhecer “as várias etapas de realização do movimento Alba Lucis”
17. O movimento ainda contava com a colaboração de seus membros para a “formação de núcleos coloniais, destinados a implantar a produção agrícola honestamente orientada” e “também devolver à vida natural aquelas pessoas que aspirem a uma vida harmonizada”. Ao que parece, a sede da AMO-PAX fundada em Resende, em 1953, era um desses núcleos coloniais.
Além dessa área, afirma-se que Sevananda recebeu de doação 1.250 hectares de excelentes terras em Mato Grosso18. Contudo, não encontramos outras referências sobre a fundação de núcleos coloniais, tampouco a passagem de Sevananda pela região.
Sabe-se que seu discípulo mais próximo, Georg Kritikos (Sarvananda) e sua companheira de ashram, Daya, fundaram em Esmeralda, MG, a Comunidade Alternativa Mãe D'água, cuja existência é datada de 1975 a 1986. Nessa comunidade conviveram pessoas de diversas nacionalidades, formando um grupo que deu continuidade e manteve viva a concepção de Yoga postulada por Sevananda. Lá se formaram vários professores de Yoga que atuam até hoje em Belo Horizonte, ministrando aulas e também cursos de formação de instrutores nessa perspectiva.
Sarvananda foi responsável por traduzir para o português uma das principais obras de seu mestre, Yo que caminé por el mundo, e também publicou alguns livros, entre eles, Yoga para crianças, Yoga em casa e Androgonia: o homem como ele é. Em 18 de abril de 2000, foi publicada sua obra póstuma Memórias – 1922-1960, editada e revisada por seu amigo de Ashram, Mario Teles de Oliveira, onde narra sua vinda da Europa para o Uruguai durante a Segunda Guerra Mundial, o encontro com Sevananda e os anos de vivência e autoestudo no Ashram ao lado do
seu mestre.
2 O Sevananda da Igreja Expectante: uma biografia
Saindo um pouco dos discursos produzidos no campo do Yoga brasileiro, é possível obter mais informações a respeito de Sevananda na biografia19 publicada, em 1991, pela Igreja Expectante20, da qual, é considerado um dos nove fundadores, ao lado de seu pai, o aristocrata francês Visconde Albert Raymond Costet de Mascheville, conhecido pelo nome místico de Cedaior. Tal biografia foi elaborada com base nos relatos de sua companheira e discípula, Sadhana, nas anotações de seus discípulos e nos dados autobiográficos contidos na sua obra O homem, esse conhecido, publicada em 195321. Nessa seção, analisaremos as representações construídas em torno de Leo Costet nessa biografia.
16 Disponível em: http://www.oocities.org/athens/stage/4223/martbrasil.html. Acessado em 15 de fevereiro de 2014.
17 Disponível em: http://www.oocities.org/athens/stage/4223/martbrasil.html. Acessado em 15 de fevereiro de 2014.
18 Disponível em: http://www.oocities.org/athens/stage/4223/martbrasil.html. Acessado em 15 de fevereiro de 2014.
19 Disponível em: http://www.igrejaexpectante.org/patriarcas_sevananda.htm. Acessado em 19 de fevereiro de 2014.
20 A Igreja Expectante foi fundada em 17 de agosto de 1919, em Buenos Aires, na Argentina. Foi registrada no Brasil
em 13 de janeiro de 1954 e possui sede legal em Guarapari, no Espírito Santo desde 16 de agosto de 1991.
21 Sua primeira edição foi publicada em Córdoba, na Argentina, em 1951, sob o título Yo que caminé por el mundo,
onde traça uma síntese da sua doutrina pessoal admoestando o discípulo rumo à Realização. O título em português foi escolhido por um discípulo a partir de uma carta escrita em 1958 por Polymnia a Sevananda, onde relatava suas
experiências, sensações e compreensões advindas da leitura de sua obra. Trata-se um trocadilho em relação à obra de Alexis Carrel, O homem, esse desconhecido (Sevananda, 1986).
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2.1 Infância e Juventude de Leo Costet
No final do século XIX, Cedaior, que era violonista, e sua esposa, que era pianista, foram enviados para Khedive, no Egito, sobre pretexto de dirigir concertos musicais. Contudo, a real intenção dessa viagem foi uma missão recebida da Ordem Martinista para realizar averiguações a respeito das ordens místicas na terra dos faraós. Sabe-se muito pouco sobre os resultados dessa viagem, além do que foi descrito no Livro das Leis de Vayu, publicado em 1989, pela Igreja Expectante.
A biografia não é precisa quanto às datas, mas informa que em dado momento da infância Leo Alvarez Costet de Macheville, seus pais emigraram para a América do Sul e se radicaram em Buenos Aires, na Argentina. Leo Costet é apresentado como uma criança inquieta e inquiridora, cujo contanto com assuntos místicos se deu muito cedo, época em que um mestre se materializava com frequência em sua casa para trazer ensinamentos para seus pais, tal como ele mesmo relata em seus escritos posteriormente. Seu biógrafo o apresenta como um pesquisador nato, pois desde a infância preferia as experiências solitárias que as brincadeiras em conjunto com outras crianças. Em 1913, aos doze anos de idade, foi matriculado em um colégio Marista, onde presenciou um dos seus superiores praticando atos sexuais com outros alunos e denunciou o fato, sendo transferido do colégio pelos seus pais. Consta que esse episódio mudou drasticamente suas convicções religiosas e que a partir desse momento seu pai passou a lhe dar instruções espirituais, sendo seu primeiro mestre. Nessa época, Leo Costet recebeu seu primeiro codinome místico, Etienne, em homenagem à Etienne Dolet (1509-1546), um eminente tradutor francês.
Leo Costet é sempre representado como um jovem que gostava de ler e estudar, tendo conseguido o título de Bacharel em Ciências como primeiro lugar da turma e por ter ingressado na universidade com uma licença especial, antes de alcançar a idade regular. Além disso, é dito que Costet se engajou aos movimentos revolucionários, pichando paredes e rasgando cartazes do governo em atividades clandestinas. Na universidade, estudou química industrial e filosofia, [...] aos 16 anos, já dava, nos centros operários e socialistas, conferências sobre citologia (ciência que estuda as células), evolução biológica e geológica, entre outras. Demonstrando que tinha interesse em saber e divulgar, ao mesmo tempo, fazia tudo o que podia alcançar. Enquanto seus colegas iam aos bailes ou reuniões sociais, dava palestras nos centros operários e estimulava as vocações ao estudo. A própria iniciação sexual, recebida da clássica “mucama” ou empregada da mãe, com 15 anos – como usava-se na França naquela época, hábito que seu pai teve cuidado de trazer para evitar maiores contratempos – não conseguiu deter sua atenção mais prolongadamente.
Estava convencido de que casaria cedo e que teria uma só filha, o que sabia interiormente sem o saber explicar, razão pela qual não se interessava pelas aventuras corriqueiras de seus colegas.
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O texto não informa com precisão quais seriam os movimentos revolucionários que ele esteve engajado, nem o governo que contestava. Seu biógrafo preserva tal representação ao longo de todo o texto, ou seja, de que Costet era contido quanto às festas e reuniões sociais, preferindo se entregar aos estudos e às atividades de auxílio aos outros. Em 1918, aos dezessete anos de idade, passou por uma experiência marcante que o levou a concluir que a química orgânica era incompleta e que a os alquimistas possuíam certa razão em suas afirmações. Motivado por essas questões, foi até a Biblioteca Nacional de Buenos Aires e pediu certa obra de Paracelso. Então, “apenas a abriu e, ao tocá-la, ocorreu-lhe um fato notável: sem encontrar-se em nenhum ‘estado especial’, lembrou, de golpe, todo o conteúdo do livro, que não tinha tocado antes”.23 Esse fato teria lhe ocorrido mais de uma vez, com diversas obras.
Em função desses acontecimentos, diminuiu seu interesse pelas questões sociais e passou a se dedicar aos assuntos relacionados à espiritualidade. Dos dezessete aos vinte anos de idade, serviu seu pai como Instrutor das coisas do Espírito, e já retransmitia tais assuntos a grupos de
22 Disponível em: http://www.igrejaexpectante.org/patriarcas_sevananda.htm. Acessado em 19 de fevereiro de 2014.
23 Disponível em: http://www.igrejaexpectante.org/patriarcas_sevananda.htm. Acessado em 19 de fevereiro de 2014.
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pessoas interessadas, que passaram a segui-lo e, apesar da sua pouca idade, respeitá-lo como mestre.
2.2 Trilhando os caminhos da espiritualidade
Nesse período, Costet se entregou à procura transcendental e ao lado de seu pai e mais sete integrantes fundou, em 1919, a Igreja Expectante24, onde é venerado como Segundo Patriarca até hoje. Em função dessa ocasião, foi-lhe dado o codinome místico Krimi. Quando ainda tinha vinte anos de idade, descobriu que sua mãe estava tramando um casamento arranjado com uma moça da nobreza francesa para lhe assegurar o título de visconde, fato que o fez sair de casa na data do seu aniversário, 22 de março, e juntar-se a um yogin que tinha conhecido anos antes.
Esse evento é narrado por seu biógrafo como uma renúncia a sua posição social, aos seus bens materiais e, até mesmo, a sua família.
Essa versão biográfica informa que Costet passou algum tempo peregrinando pela Argentina ao lado desse yogin, conhecendo pessoas, lugares e, sobretudo, seu próprio companheiro de caminhada. Contudo, não é precisa quanto à duração desse período de sua vida, mas informa que um determinado acontecimento o fez desgostoso quanto ao seu companheiro, abandonandoo e seguindo viagem sozinho, até certa cidade portuária, onde garantiu seu sustento carregando e descarregando embarcações de carvão durante o dia e, à noite, dando conferências sobre assuntos místicos. Aqui já apareceram seus primeiros discípulos, mas Costet não tardou muito nesse local e foi para a cidade de Mendoza, ao encontro de seu pai, onde viveu alguns anos como companheiro e ajudante em seus estudos e atividades místicas. Posteriormente, foi convocado para o serviço militar na França, por ocasião da Primeira Guerra Mundial25. A unidade militar que Costet fazia parte foi enviada à Alemanha como tropa de ocupação. Sabendo disso, seu pai havia lhe dado a incumbência de entrar em contato com fraternidades e organizações místicas da Europa, averiguando as condições e as atividades, inclusive na Alemanha. Apesar de ter aceitado cumprir suas obrigações militares, enquanto cidadão francês, a narrativa da Igreja Expectante apresentava um Leo Costet mais comprometido com o auxílio humanitário que com a atuação militar nesse contexto belicoso. Assim, Dados os seus conhecimentos gerais, foi chamado a trabalhar no serviço de saúde e no Estado Maior do Exército, não precisando empunhar arma, cumprindo-se assim o que tinha percebido espiritualmente, que “jamais teria que tocar num fuzil”. Sua posição aqui também permitiralhe entrar em contato com tropas e oficialidade de várias nacionalidades, inclusive com o inimigo vencido, que ajudou onde e como podia, utilizando-se do seu “passe livre”, conseguindo alimento para os alemães famintos, ao ponto de chegar a ser admoestado por seus superiores por causa de sua “familiaridade” com os inimigos. [...] Fez experiências e curas magnéticas nos hospitais militares em que trabalhou, aprendendo que todas as oportunidades são boas para servir.26
Muitos dos fatos narrados na versão biográfica da Igreja Expectante são apresentados como previamente já conhecidos por Costet através de sua sensibilidade espiritual, como por exemplo,o fato de não precisar empunhar armas durante a guerra ou de casar-se com Jeanne, uma enfermeira francesa que trabalhava na linha de frente do combate à cólera e as demais pestes que assolavam a Europa no pós-guerra. Na ocasião, Costet tinha vinte e dois anos de idade, Jeanne já estava com trinta e sete anos e sofria com sintomas da tuberculose. Jeanne se tornou uma buscadora espiritual junto com Costet e recebeu o codinome místico Lotúsia.
Assim, nas representações construídas pelo biógrafo, seus propósitos espirituais continuaram durante a guerra, onde auxiliou o inimigo e operou curas magnéticas. Com o término da guerra, o casal navegou o Oceano Atlântico e se radicou em Santa Catarina, no Brasil, onde Costet começou a ganhar sustento como agrimensor e realizar trabalhos espirituais como marti-
24 De acordo com o texto oficial da Igreja Expectante, trata-se de uma igreja que busca reunir aspectos espiritualistas universais, prezando pelo respeito e a unidade das religiões. O termo expectante designa um estado de espera e observação.
Com esperança por dias melhores, uma humanidade mais fraterna e a vinda do Cristo. Disponível em:
http://www.igrejaexpectante.org/faq.htm. Acessado em 26 de fevereiro de 2014.
25 Disponível em: http://www.igrejaexpectante.org/patriarcas_sevananda.htm. Acessado em 19 de fevereiro de 2014.
26 Disponível em: http://www.igrejaexpectante.org/patriarcas_sevananda.htm. Acessado em 19 de fevereiro de 2014.
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nista, quando assumiu o codinome místico Jehel. Depois, mudaram-se para o estado de Goiás e, depois de sete meses de convivência, teriam presenciado a anunciação da vinda de Núnia, sua única filha que “nasceu no dia, hora e minutos em que Jehel o tinha calculado antecipadamente”
27. Esse fato também é narrado por ele na obra O homem, esse conhecido. Nesse período, exerceu inúmeros ofícios para assegurar o sustento da família, como por exemplo, agrimensor, administrador de circo, cônsul da Alemanha, vendedor de seguros e fabricante de óleos lubrificantes para automóveis. Entremeado a tudo isso, ocupou-se como Instrutor Martinista e com a Maçonaria, da qual era participante ativo. Em função dessas atividades místicas, se ausentava com frequência de sua residência e foi em uma dessas viagens que Jeanne foi vitimada por um ataque de tuberculose, considerada incurável. Núnia, que na ocasião estava com quatorze anos de idade, decidiu pela eutanásia para não prolongar o sofrimento da mãe. Costet não teria conseguido chegar a tempo para velar sua companheira.
Na época do falecimento de Jeanne, Costet era assíduo nas atividades que ocorriam nos círculos maçons. Um de seus companheiros mais próximos, um arquiteto alemão do qual o nome não é conhecido, estava sofrendo de uma cirrose hepática que veio a vitimá-lo pouco tempo depois. Mas antes, fez Costet prometer que cuidaria de sua viúva. Cumprindo sua promessa, casou-se com a viúva do companheiro alemão, Martha, que além de companheira, tornou-se sua discípula sob o codinome místico Luise. Esses fatos ocorreram em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, onde Costet e sua nova parceira conseguiram uma maior estabilidade material. Nessa cidade, conheceu Asuri Kapila, que é apresentado na narrativa da Igreja Expectante como seu “principal colaborador e discípulo”, diferentemente da narrativa de Cordeiro (2013) que apresenta Kapila como mestre de Sevananda. De qualquer forma, a partir desse contato, suas relações se estreitaram e Costet foi, algumas vezes, a Montevidéu e a Buenos Aires para proferir palestras. Foi quando Costet, Martha e Núnia se mudaram para Montevidéu e, [...] em maio de 1942, fundaram o Grupo Independente de Estudos Esotéricos (GIDEE), verdadeira Universidade Espiritual, onde se formou um excelente grupo de Instrutores a ensinar desde o Esoterismo Oriental e Ocidental, à Astrologia, Androgonia, Alquimia, Magia, a Kabala, Balzac, Papus e Philippe.28
Essa data de fundação do GIDEE difere da data informada por Andre De Rose, que afirma que Costet saiu de Curitiba em 1943, ano de falecimento de seu pai, onde estava desenvolvendo uma série de atividades místicas coordenadas por ele. Contudo, na versão oficial da Igreja Expectante, Costet saiu de Porto Alegre em 1942, quando fundou essa Universidade Espiritual onde professava os ensinamentos de Philippe de Lyon29 entre diversas correntes esotéricas. Como meio de divulgação desse trabalho, fundaram a revista La Iniciación, que perdurou até 1948.
Nesse ínterim, a filha de Costet se casou e foi morar em Buenos Aires. Esse período é representado no texto como uma fase de intenso trabalho espiritual, mas de muita penúria material para Costet e Martha. Para suprir as necessidades materiais, Costet tornou-se representante dos óleos Castrol no Uruguai, mas por algum motivo esse empreendimento não vingou. Então trabalhou como corretor e revisor no jornal La Tribuna e distribuiu artigos de roupas para as lojas.
Consta que nessa época o casal chegou a passar fome e que muitos dos seus discípulos nem imaginavam que o mestre estava vivendo nessas condições materiais.
Certo dia, esperando o ônibus em pleno sol, Martha, que estava usando o nome místico de “Luise”, caiu desmaiada – de fome. Nenhum discípulo soube disso nem sequer se lhes ocorreu perguntar ao Mestre se tinha almoçado enquanto lhes faziam perguntas de cunho espiritual, procurando usufruir da grande experiência e sabedoria que este homem possuía.30
27 Disponível em: http://www.igrejaexpectante.org/patriarcas_sevananda.htm. Acessado em 19 de fevereiro de 2014.
28 Disponível em: http://www.igrejaexpectante.org/patriarcas_sevananda.htm. Acessado em 19 de fevereiro de 2014.
29 Nizier Anthelme Philippe (1849-1905) foi um influente ocultista francês ao qual são atribuídas inúmeras curas
taumaturgas, cujos ensinamentos estavam ancorados no Evangelho e na vida de Jesus Cristo. Sevananda escreveu
uma obra em quatro volumes sobre sua vida e seus ensinamentos, O Mestre Philippe de Lyon, publicados entre 1958
e 1959.
30 Disponível em: http://www.igrejaexpectante.org/patriarcas_sevananda.htm. Acessado em 19 de fevereiro de 2014.
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Costet, que então atendia pelo codinome místico Jehel, angariou inúmeros discípulos, gozou da condição e respeito de mestre, mas passou por condições de penúria material. Afastou-se dos círculos intelectuais, onde era conhecido por Doutor Jehel, e também da Ordem Martinista da América do Sul, da qual foi presidente.
2.3 O contato com o Yoga
Foi nesse período de dificuldades que teria se encontrado com um senhor de idade já avançada, que se apresentou como emissário da Fraternidade Branca. O senhor trazia consigo um pequeno baú com livros e documentos, objetos de culto e, em especial, o contato direto com a hierarquia da organização que representava, o Suddha Dharma Mandalam (SDM)31. Tal organização possuía sede no Himalaia e naquele tempo era representada pelo seu Iniciador Externo na Índia, o guru Subramanyananda, com quem Costet passou a se comunicar espiritualmente. Nesse ponto da narrativa, o biógrafo afirma que após o falecimento do guru, Costet foi iniciado como representante, iniciador externo e sucessor de Subramanyananda, quando recebeu o codinome místico de Sevananda Swami, como ficou conhecido no campo do Yoga e na Igreja Expectante.
Acessando o site do Suddha Dharma Mandalam, obtêm-se mais informações a respeito dessa organização, seu propósito e de sua linhagem sucessiva. Nos artigos e textos do site, não há alusões ao encontro de Sevananda com o referido guru. Quando se falou da presença dessa organização na América do Sul, referiu-se a Sri Vajra Dasa (1916-1984), que foi considerado instrutor continental e responsável por disseminar e enraizar os princípios e práticas dessa organização em Santiago do Chile. Estudou com ele o Dr. José Ruguê (Swami Narayananda), médico brasileiro que foi investido e considerado seu sucessor, representante do SDM.
Prosseguindo, a biografia informa que após esse encontro, Sevananda deu continuidade aos trabalhos no GIDEE. Desde 1945, uma senhora alemã frequentava as atividades do grupo com assiduidade e interesse, tendo recebido iniciação no dia 7 de setembro de 1946, quando recebeu o codinome místico Sadhana. Ela, além de discípula, acabou se tornando sua companheira, ocorrendo uma troca de posições “comandada pelo Invisível: enquanto a irmã Luise aceitou, compreensiva, a necessidade de uma nova etapa na vida do Mestre”32. Sem muitos detalhes, o
biógrafo informa que Costet trocou de companheira para começar uma nova fase em sua vida, em que Luise não poderia acompanhá-lo.
Sadhana abandonou sua profissão de cabeleireira, vendeu sua casa, seu carro e comprou um jipe americano que puxava um trailer. Após, saíram por longa viagem “por ordem Superior”, numa peregrinação que denominaram de Cruzada Continental de Paz Espiritual. A cruzada saiu do Parque del Plata, em 24 de junho de 1952, rumo ao Brasil, onde o casal ia parando em várias cidades divulgando em forma de palestra os ensinamentos de Jesus Cristo e Mahatma Gandhi.
Esse encontro com o representante da SDM, que transformou Costet em Sevananda, deu a ele a incumbência de propagar os conhecimentos do Yoga entre as atividades místicas que já desenvolvia. Em consonância com as informações apresentadas pelos professores, a biografia produzida pela Igreja Expectante, afirma que após percorrer várias cidades, então chegaram a Resende, no Rio de janeiro, onde fundaram, em 19 de novembro de 1953, o Mosteiro Essênio e o Ashram de Sarva Yoga em terreno doado. Nesse espaço, que foi mantido até 1961, eram realizadas inúmeras atividades dirigidas por Sevananda e por sua equipe, formada por residentes vindos de vários cantos do Brasil e do exterior. Entre elas a Ordem dos Sarva Swamis, criada por Sevananda para dar continuidade aos ensinamentos mais relacionados ao Yoga e a Associação Mística Ocidental, que sintetizava as correntes espirituais do oriente e do ocidente, com as quais já trabalhava no GIDEE, em Montevidéu. Depois do encerramento do ashram em Resen-
31 Suddha Dharma Mandalam (SDM) é uma organização universal, também conhecida como The Great White, com
sede no Himalaia. Seus preceitos foram revelados por Swami Subramanyananda a partir de 1915. Tanto Sevananda
como seu discípulo Sarvananda, definem a SDM como uma hierarquia espiritual, uma fraternidade mística multimilenar.
Em suas memórias, Sarvananda cita várias vezes que no Ashram em Resende os princípios e juramentos do
SDM faziam parte das práticas e disciplinas diárias dos residentes (Sarvananda, 2000, p. 148).
32 Disponível em: http://www.igrejaexpectante.org/patriarcas_sevananda.htm. Acessado em 19 de fevereiro de 2014.
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de, Sevananda teria abandonado o trabalho com Yoga e conhecimentos esotéricos orientais, dedicando-se mais aos ensinamentos cristãos do mestre Philippe de Lyon33.
Dez anos após o fim do monastério, Sevananda se retirou para uma pequena chácara em Betim, Minas Gerais, onde, sob os cuidados da discípula Sevaki, viveu seus últimos anos de vida, tendo falecido em seis de novembro de 1970, no Hospital Nossa Senhora do Carmo. A Igreja Expectante, além de considerá-lo como segundo Patriarca, considera que Sevananda foi um “verdadeiro guru” que [...] desenvolveu este cadinho alquímico humano levando seus discípulos à plenitude das suas próprias aptidões interiores. Este Ashram-Monastério foi a coroação da Obra “sui generis” que permanecerá nos anais da Humanidade como exemplo e como estímulo.34
Em 1959, Sevananda realizou o que eles chamam de Remodelação do Labor, onde apontou quais discípulos poderiam e deveriam assumir as correntes no Brasil, oferecendo ao círculo de ajudantes mais íntimos a oportunidade de dar continuidade aos seus trabalhos. De acordo com o texto oficial sobre a Sucessão Apostólica da Igreja Expectante, Sevananda fez a seguinte designação:
• AMO – Associação Mística Ocidental (Chefe: PEREGRINA, com Sarvãnanda (Sarva-Ioga) e Sarah (Suddha Dharma Mandalam);
• Ordem dos Sarva Swamis e Instituto Juvenil de Yoga (Chefe: SARVÃNANDA, com Daya);
• AÇÃO GERAL (Alba Lucis) (Sevãnanda, Sádhana, Sarah, Thoth, com Vivekadasa na sua qualidade de presidente da Fundação Philippe);
• LABOR ESSÊNIO (Sevãnanda, com Sádhana, Sarah, Perseverante, Daya, Vivekadasa e outros);
• AÇÃO SOCIAL E DIPLOMÁTICA – junto a governos e à República dos Cidadãos do Mundo etc. (Sevãnanda, com Turydasa (Prof. Mário Teles de Oliveira com Vivekadasa);
• ECUMENISMO (Sevãnanda, com Sarah e com Thoth, sendo este último ajudado por sua esposa Zanti).35
Assim, a biografia oficial de Sevananda elaborada pela Igreja Expectante, informa que onze anos antes do seu falecimento, ele designou seus respectivos sucessores em cada corrente de trabalho, onde uma das atribuições conferidas a Thoth foi a de Sucessor Designado, que assumiria o patriarcado da Igreja a partir “dos 30 dias que se seguissem ao falecimento, ou ao desaparecimento pelo mesmo prazo, do Patriarca Sevananda, evitando-se ficar acéfala a Igreja”36.
3 Considerações finais
Como apontado, Caruso (2010), Andre De Rose (2011) e Cordeiro (2013), apresentam Sevananda com precursor do ensino de Yoga no Brasil através da fundação do Ashram de Sarva Yoga em Resende, no Rio de janeiro. Já a biografia oficial de Sevananda elaborada pela Igreja Expectante, o apresenta como eminente guru iniciado em diversas tradições esotéricas como Rosa Cruz, Maçonaria, Martinismo, dentre outras, além de ter se dedicado ao ensino de Yoga em uma perspectiva monástica, com a fundação da Ordem dos Sarvas-Swamis em 1953, onde ordenou inúmeros monges.
As representações analisadas apontavam para Sevananda como pioneiro. Contudo, existem outras narrativas que, muitas vezes, nem chegam a mensurá-lo, elegendo outros nomes como pioneiros do Yoga no Brasil. Haja vista os três artigos publicados em 2007 pela revista Prana Yoga Journal, intitulados A velha-guarda do Yoga, que apontam como pioneiros os professores
33 Nizier Anthelme Philippe, ver nota 2.
34 Disponível em: http://www.igrejaexpectante.org/patriarcas_sevananda.htm. Acessado em 19 de fevereiro de 2014.
35 Disponível em: http://www.igrejaexpectante.org/not_20080404_sucessao.htm. Acessado em 19 de novembro de
2014.
36 Disponível em: http://www.igrejaexpectante.org/not_20080404_sucessao.htm. Acessado em 19 de novembro de
2014.
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Hermógenes37, Shotaro Shimada, Caio Miranda, dentre outros, sem mencionar a trajetória e a contribuição de Sevananda para a formação dessa velha-guarda do Yoga no Brasil (Cabral & Reif, 2007a, 2007b; Ribeiro, 2007).
O Yoga propagado por Sevananda possuía uma conotação monástica. Havia uma preocupação por parte dele em frisar que o Yoga que ensinava era uma prática espiritual. Sevananda também foi responsável por aproximar o Yoga e o cristianismo brasileiro. Essa aproximação esteve presente nas obras posteriormente publicadas pelo professor Hermógenes, que apesar de ser o grande divulgador dos aspectos terapêuticos advindos dessa prática, também manteve essa conotação do Yoga como uma prática espiritual, como um caminho de autoconhecimento.
Essa breve análise de algumas representações acerca de Sevananda nos proporciona um relativo entendimento de como o Yoga foi introduzido no Brasil e como foi entendido no contexto das décadas de 1950 e 1960 e, sobretudo, como esse período vem sendo representado atualmente, já que esse conhecimento é muitas vezes utilizado como ferramenta de marketing pessoal, em especial, por professores (Caruso, 2010). Tal indicativo é reflexo de uma batalha discursiva que vem sendo forjada por professores e praticantes desde a década de 1960, e que posteriormente passou a ser reforçada pelas publicações bibliográficas e pelos meios midiáticos especializados em Yoga.
Referências bibliográficas
CABRAL, Madu; REIF, Renata. A velha-guarda do Yoga I. Prana Yoga Journal, (08): 50-63, 2007 (a).
–––––. A velha-guarda do Yoga II. Prana Yoga Journal, (09): 59-65, 2007 (b).
CARUSO, Victor. A história do Yoga no Brasil. Cadernos de Yoga, 7 (26): 48-52, 2010.
CHARTIER, Roger. À beira falésia: a história entre certezas e inquietude. Tradução de Patrícia Chittoni Ramos. Porto Alegre: UFRGS, 2002.
CORDEIRO, Mariana. História do Yoga no Brasil. Disponível em: <http://boayoga.com/sementes-do-bem-buscando-a-historia-do-yoga-no-brasil/>.
DE ROSE, Andre. Quem trouxe o Yoga para o Brasil. Disponível em:
<http://www.yogapequenaindia.com/news/voc%C3%AA%20sabe%20quem%20trouxe%
20o%20yoga%20para%20o%20brasil-/>.
RIBEIRO, Patrícia. A velha-guarda do Yoga III. Prana Yoga Journal, (10): 79-83, 2007.
SARVANDA, Swami (Georg Kritikos). Memórias (1922-1960). Belo Horizonte: Edifrater, 2000.
SEVANANDA, Swami. O homem, esse conhecido. Belo Horizonte: Vinte e Dois, 1986.
Sites:
www.igrejaexpectante.org
www.yogaintegralsaopaulo.com.br/web/sobre/historia-do-yoga-no-brasil/
Imagens:
Disponíveis em: http://www.oocities.org/athens/stage/4223/martbrasil.html.
37 O professor José Hermógenes de Andrade Filho faleceu recentemente, no dia treze de março de 2015. A mídia
televisiva, sobretudo, anunciou o fato destacando Hermógenes como sendo o precursor do Yoga no Brasil e um prolixo escritor, responsável pela disseminação do Yoga no país, tendo publicado cerca de trinta livros sobre a temática.
Esse acontecimento reforçou ainda mais essas disputas discursivas que buscam eleger uma pessoa como pioneira.
Nessa mesma perspectiva, será lançado o documentário Doc. Hermógenes, onde o professor é lembrado como precursor do Yoga e da Medicina Holística no Brasil
Fonte: Periódicos UFPB