Artigos

Você alguma vez alimentou seu filho com papel?

Luc Vankrunkelsven Duas grandes manifestações cruzam Porto Alegre, para não deixar passar em branco o Dia Internacional da Mulher. Uma é da multicolorida rede de organizações de mulheres, Fetraf, CUT, ONGs; da outra, participam três mil integrantes do MST-Via Campesina. A primeira tem como tema a ‘violência contra’ as mulheres no mundo todo. A segunda ‘pratica violência’. Pelo menos, é assim que o fato é amplamente…

Luc Vankrunkelsven

Duas grandes manifestações cruzam Porto Alegre, para não deixar passar em branco o Dia Internacional da Mulher. Uma é da multicolorida rede de organizações de mulheres, Fetraf, CUT, ONGs; da outra, participam três mil integrantes do MST-Via Campesina. A primeira tem como tema a ‘violência contra’ as mulheres no mundo todo. A segunda ‘pratica violência’. Pelo menos, é assim que o fato é amplamente noticiado pela imprensa e é esta a impressão que fica em muitas pessoas. Eu mesmo não sei o que pensar. Há anos me preocupo com o avanço dos reflorestamentos de eucalipto e pinus, mas sempre defendi, também, a resistência pacífica.

O que fazer, enquanto organização de base revolucionária, quando se quer deter estes desertos verdes das multinacionais estrangeiras?

O que fazer, quando o governo federal afirma em sua propaganda que opta pela ‘agricultura familiar e camponesa’, enquanto, na verdade, ele joga o jogo do ‘agronegócio’ (1)?

O que fazer com a frustração de centenas de milhares de famílias, após tantas promessas de reforma agrária enquanto as terras são redistribuídas com parcimônia?

O que aconteceu?

Nesta madrugada, em torno das 4 horas, cerca de 2 mil pessoas (principalmente mulheres) invadiram a multinacional Aracruz Celulose e atacaram três milhões de mudas de eucalipto nos telados. Em meia hora a tarefa foi concluída. Além disso, destruíram o coração da empresa: o laboratório com experimentos de ‘melhoramento’ dos plantios de eucalipto no Brasil. Leia-se: ‘tornar ainda mais produtivos’, pois todas as pesquisas do agronegócio estão voltadas, exclusivamente, para aumento da produção. Esta superespécie arbórea da Austrália possui cerca de mil variedades, das quais pelo menos metade consegue se desenvolver no Brasil. Economicamente, a espécie é muito interessante, pois é possível fazer a colheita dentro de sete anos. Para estas empresas, os lucros alcançam níveis estratosféricos (3). Os desertos verdes de soja deslocam-se do Sul para o Centro-Oeste, os desertos verdes de eucalipto ocupam seus lugares no Sul. Aracruz é a líder. A empresa já plantou 250 mil hectares de eucalipto, dos quais 50 mil hectares no Rio Grande do Sul. A empresa internacional norte-americana, com seus 30% do mercado, é líder mundial em celulose de eucalipto e está a ponto

[Foto 25]

Contra o deserto dos eucaliptos, a miséria e a fome

 

 de investir 1,2 bilhões de dólares em uma nova indústria de celulose. Para sua localização, eles ainda vão escolher entre os estados Bahia, Espírito Santo ou Rio Grande do Sul. Se a opção for pelo Rio Grande do Sul, a capacidade de produção será aumentada em 1 milhão de toneladas de celulose. Isto significaria que 2% a área do estado seriam ocupados por reflorestamentos de eucalipto. As atuais indústrias da Aracruz já produzem, atualmente, 2,4 milhões de toneladas de celulose branqueada por ano no Brasil. Isto causa uma enorme poluição da água e do ar, e ainda nem falamos dos problemas de saúde e dos inúmeros focos de tensão social. Graças à ditadura militar, a multinacional entrou no país em 1967 e foi beneficiada financeiramente pelos sucessivos governos. O último impulso para o agronegócio é a ‘Lei Kandir’, de 1996, que estabelece isenção de Imposto Sobre Circulação de Mercadorias – ICMS para ‘produtos primários e produtos industrializados semi-elaborados destinados ao exterior’. Uma vez que a Aracruz produz, basicamente, para o mercado norte-americano, ela praticamente não paga impostos.

O que fazer, quando a concentração de terras – devido às monoculturas de soja e milho, aos desertos de eucalipto e bosques sem vida de pinus – aumenta cada vez mais?

O que fazer, quando se está no meio de uma guerra agrária (2)?

Como se defender nesta guerra e que recursos utilizar? Afinal, estamos no meio de uma Conferência da FAO sobre ‘Reforma Agrária’ e não é justamente esse o tema central de mobilização e atuação da Via Campesina?

Eucaliptos e pinus. 

No Espírito Santo, o espírito atormentador e violento da Aracruz já se manifesta há quase 40 anos. Com a colaboração do governo do estado, foram desapropriadas, principalmente, as terras de indígenas das etnias tupiniquim e guarani. As comunidades de quilombolas (descendentes de escravos) também sofrem, regularmente, com a violência. No dia 20 de janeiro de 2006 ainda foi realizada uma ação contra os tupiniquim, na qual duas aldeias foram destruídas. Também houve muitos feridos.

[Foto 26]

Guarani durante seu culto. A água ocupa a posição central em sua casa de oração

 

Além disso, os desertos verdes geram somente um posto de trabalho para cada 185 hectares enquanto na agricultura familiar é criado um posto de trabalho a cada 8 hectares. E, obviamente, estes reflorestamentos com quilômetros de extensão são destituídos de qualquer biodiversidade, enquanto as estiagens no Brasil pioram a cada ano. Este grande consumidor de água – a evapotranspiração de uma árvore adulta pode chegar a 20 mil litros de água por dia (4) – dá uma grande contribuição neste sentido. No âmbito da ‘segunda geração de espécies energéticas’, estão sendo realizadas pesquisas para obter energia de espécies geneticamente manipuladas. O eucalipto vai se tornar ainda mais interessante. Obviamente ninguém fala da contaminação do meio ambiente por árvores transgênicas. Afinal, o eucalipto e o pinus são parte de uma estratégia para não implementar a reforma agrária. Terras ‘improdutivas’ – passíveis de reforma agrária – tornam-se ‘produtivas’ pelo reflorestamento com eucaliptos. A partir daí, estão perdidas para centenas de milhares de famílias que esperam por um lote.

A clonagem das variedades arbóreas, o rápido desenvolvimento e o lucro igualmente rápido, sem ter que se preocupar com ‘detalhes’ sociais e ecológicos, está em perfeita sintonia com o capitalismo que mantém o planeta em suas garras asfixiantes. As terras dos reflorestamentos, destituídas de qualquer vida, degradam numa velocidade assustadora. Depois do pinus, pode esquecer a agricultura familiar!

Resistência pacífica é sinal de covardia?

Há razões suficientes para partir para a ação. Mesmo assim, será que é este o caminho para conseguir mudanças? Será que teremos que retomar a velha discussão sobre violência institucional e opressora versus violência libertadora? Será que eu sou covarde por não acreditar em violência ‘libertadora’? Ou será que essa ação libertadora não é violência, não é destruição? De acordo com a propaganda e os interesses dos barões dos eucaliptos, sua atuação não é violenta, não agride o homem e a natureza, mas traz benefícios para a sociedade. Geração de emprego?! Enquanto trabalhador, também é possível causar prejuízo econômico a uma empresa com uma mobilização sindical. Isso ainda é geralmente aceito na Europa. Por que a destruição desta manhã esbarra na desaprovação (quase) geral? Quando José Bové e seus companheiros colhem/destroem (simbolicamente) um campo de soja transgênica na França e também aqui no Brasil (em 2002), eu sinto empatia por esta manifestação. Eu até participaria, empunhando uma foice. Por que agora tantas sobrancelhas franzidas? Não é uma ação da mesma ordem? Será que não poderíamos, conforme os exemplos de Mahatma Gandhi e Martin Luther King, empreender ações mais criativas sem que nós mesmos tenhamos que partir para a destruição? Mahatma não defendia a covardia, mas suas marchas por sal, e outras, possuíam um caráter bem distinto das marchas de Mao Tse Tung. A ‘Satyagraha do sal’ de sua época não invoca uma ‘Satyagraha da semente’ agora (5)? Com freqüência se reclama – e com justiça – da criminalização dos movimentos sociais. A imprensa realmente possui a tendência de criminalizar principalmente o MST. Mas onde termina a resistência justificada e criativa e onde começa a criminalidade? E mais: o agronegócio reclama da ação criminosa dos que ocupam as propriedades, mas será que o latifúndio em si também não é criminoso? Ou ainda: as condições de trabalho que são comparáveis à escravidão? Criminoso!

E, por fim, a agricultura convencional – principalmente na produção de carne – não está baseada em destruição? É só pensar da indescritível destruição de milhares a milhões de cabeças de gado, em caso de febre aftosa; de suínos, em caso de peste suína; de aves, em caso de gripe aviária. No Brasil utiliza-se a palavra ‘sacrificar’. Como se fosse a coisa mais natural do mundo: oferecer sacrifício. O ‘deus Capital’ que exige sacrifícios. Sacrifícios nos quais se fundamenta a ordem social.

Criativo e em pequena escala

Quando, timidamente, faço estas perguntas, será que estou totalmente do lado da ‘imprensa burguesa’ que durante vários dias comenta detalhadamente este ‘ato de violência’? A imprensa que, com todos os meios, ataca o MST e está do lado do agronegócio. A imprensa que está, ela própria, nas mãos do Grande Capital? Será que com estas perguntas sou imediatamente classificado como ‘direita’ neste sistema às vezes simplista de ‘esquerda-direita’?

Sempre tive muito respeito (e ainda tenho) pelo MST e me sinto apoiado pelas correntes amplas da Via Campesina, mas quando vejo esta espiral de destruição se ampliando fico triste por dentro. O MST ameaça tornar-se cada vez mais sectário e isolado (6). Além disso, o cidadão brasileiro médio considera tudo farinha do mesmo saco. Pelo noticiário ele não consegue entender do que se trata na verdade. Ele também não faz distinção entre MST, Via Campesina, PT, outras organizações rurais que defendem a agroecologia ou reforma agrária, sindicatos e outros movimentos sociais. Uma manifestação violenta como esta atinge – sem pedir licença e sem aviso prévio – o trabalho de outras organizações.

Será que não é possível imaginar outros caminhos para as mudanças? Mais no estilo do ‘Plowshares Eight’ [As oito relhas do arado][1], por exemplo. Em meio à época da Guerra Fria, oito pessoas invadiram a General Electric. Simbolicamente, eles bateram com um martelo em ogivas nucleares e as aspergiram com seu sangue. Os oito possu&iacu te;am inspiração cristã, assim como muitos militantes do MST têm suas raízes no cristianismo. O jesuíta e pacifista Daniel Berrigan era um deles. A ‘máquina de destruição’ não foi destruída materialmente, mas o coração do capitalismo foi, sim, profundamente atingido. O fato gerou um processo judicial que durou anos, fazendo com que houvesse um debate contínuo sobre armas nucleares. Naturalmente as armas nucleares ainda não deixaram de existir. Mas será que, graças a estas ações destrutivas, os desertos de eucaliptos serão banidos mais rapidamente de nosso planeta?

Na verdade, a maioria das ações do MST consegue, sim, me entusiasmar. Recentemente, o MST invadiu uma propriedade da multinacional química e de sementes Syngenta. O centro de pesquisas visado realizava, dentro da faixa de 10 km em torno do Parque Nacional de Foz do Iguaçu, experimentos com transgênicos. Isso é 100% contra a legislação brasileira de biossegurança. Não foi empregada violência, mas a ação foi extremamente eficaz. Agora, o governo do Paraná quer transformar a propriedade num centro de pesquisas de sementes crioulas. Será que sou frouxo demais quando aplaudo uma ação como essa e balanço negativamente a cabeça com pesar no outro caso?

_____________

[1] Um grupo que realizava protesto antinucleares não-violentos. Em inglês: <http://en.wikipedia.org/wiki/Plowshares_Movement>.

Mudança no próprio estilo de vida versus ação política?

Hoje, dia 8 de março de 2006, foi atingido o coração do ‘capitalismo e do patriarcado’. Esta mensagem se destaca no comunicado à imprensa da Via Campesina. A história deverá mostrar se isto promoveu progresso, ou não, na causa da reforma agrária, de um outro modelo agrícola e da agricultura familiar. Quando a manifestação foi questionada pelos jornalistas, João Pedro Stedile, do MST, respondeu laconicamente: “Eucaliptos não enchem a barriga de ninguém. Nós devemos dar os parabéns às mulheres, pois tiveram a coragem de – com esta manifestação – chamar a atenção da sociedade para este problema.” Eu reparo, na Folha de S. Paulo, que o senador Eduardo Suplicy – em uma Carta Aberta a Stedile – faz questionamentos. Ele fala de Martin Luther e do sucesso do movimento pelos direitos civis nos EUA, sobre Gandhi e sobre a grande simpatia da população brasileira por manifestações criativas.

 

Enquanto isso papel é desperdiçado como nunca. A cada doce ou salgado que se compra, cada caipirinha que você toma, você recebe em excesso de guardanapos. No banheiro, os pedaços de papel higiênico têm o dobro do comprimento do que na Europa. Por quê? O papel não pode ser jogado no vaso e deve ser descartado na lixeira ao lado. É óbvio que é lixo, mas sempre faz com que eu novamente me confronte com o Brasil como o país campeão em desperdício, não obstante todas as conferências internacionais sobre reforma agrária, biodiversidade, teologia da libertação. Naturalmente a celulose é utilizada para produção de papel e destinada, principalmente, para o mercado mundial. A ‘pegada ecológica’ média na Europa, por enquanto, ainda é maior do que a brasileira (porque a maioria da população não tem acesso ao paraíso do consumo), mas isso quer dizer que o desperdício neste país ‘que emana leite e mel’ não pode ser apontado?

Felizmente há em Porto Alegre 16 mil catadores, pessoas que vivem da reciclagem. Reciclagem do lixo produzido pela classe média e pelos ricos. Todas as noites, lá estão eles, revirando os sacos de lixo e lixeiras, procurando matérias-primas. Felizmente? A mim sempre parece tão contrário à dignidade humana quando vejo as classes sociais menos favorecidas fazendo seu trabalho silencioso.

Enquanto isso, sempre entro novamente numa cultura que deixa as torneiras abertas. Descargas de banheiros que estão sempre vazando e não são consertadas. Vazamentos nas ruas que só são consertados vários dias mais tarde. Centenas de milhares de litros de água se perdem diariamente desta maneira. É como se houvesse reflorestamentos de eucaliptos chupadores de água no banheiro! Os reflorestamentos de eucaliptos podem ser um desastre ambiental e social, mas pelo menos produzem fibras. As descargas de banheiros sempre vazando não levam a nada. Somente geram prejuízo ecológico e econômico. Mas, aparentemente, isto não é visto e, muito menos, se estabelece uma ligação entre uma coisa e outra (7).

 

Crônica intermediária

 

Na próxima semana, será realizado o Fórum Mundial da Água, no México. Trata-se de uma iniciativa das Nações Unidas, mas com atuação fortemente influenciada pela ideologia do Banco Mundial.

Em razão deste evento, novamente surgem na imprensa dados não muito animadores:

* 1,1 bilhão de pessoas não têm acesso a água potável;

* 2,5 bilhões de pessoas não têm acesso a instalações sanitárias;

* em 1950, cada pessoa tinha à sua disposição 17 mil m3 de água; em 2006, este volume é de 7 mil m3.

O Brasil pode ter abundância de terras, água, florestas, biodiversidade, carne, peixe… mas o cenário mundial é bem diferente.

 

No dia 22 de março comemora-se o Dia Mundial da Água. Será que o Brasil vai receber alguma atenção neste dia?

O problema é que, em função dos números aci ma, os promotores do Fórum Mundial da Água reivindicam com ainda mais ênfase a privatização da água potável.

Neste momento, 80% de toda a água mineral já está nas mãos de quatro empresas: Nestlé, Danone, Pepsi-Cola e Coca-Cola.

Mas... estes números a imprensa não divulga com tanta facilidade.

 

Enquanto isso a cara iluminação elétrica tem que concorrer com o sol gratuito. Cara? Existe, com todo direito, um ‘Movimento dos Atingidos por Barragens’. Agricultores e povos tradicionais, lutando por seus direitos, suas terras. O território brasileiro é gigantesco e abundante em rios. Desde a década de 1950, a opção preferencial é pela geração de energia hidrelétrica. Energia ‘limpa’, tal como hoje é propagandeada a energia ‘verde’ do etanol da cana-de-açúcar, do biodiesel dos desertos de monoculturas de soja ou outras fontes. Limpa, arrumada e barata, mas o custo social e ecológico não é computado e repassado. Foi assim que, em 1985, se construiu Itaipu, a maior hidrelétrica do mundo em geração de energia, que inundou 1350 km2 de terras. Os agricultores foram expulsos. Os guarani já estão, há mais de 20 anos, amontoados numa pequena área.

Devido ao estilo de vida de desperdícios diários, serão necessárias muitas ‘itaipus’ nos próximos anos. Porém, o milagre da multiplicação de hidrelétricas está encontrando resistência política. A empresa franco-belga Tractebel é, entre outras, um dos alvos. A resistência é digna de louvor, mas quem é que vai – finalmente – fazer a ligação entre o próprio estilo de vida e a grande resistência? Ou será que aí você se torna o chato-mor, o estrangeiro que não entende nada, que fica o tempo todo desligando as luzes e tentando consertas a descarga? É o belga pão-duro que não consegue entender por que o chuveiro deve ficar tanto tempo despejando água sobre o corpo suado? O chuveiro elétrico brasileiro que consome uma enorme quantidade de energia elétrica…

O que sempre me causa espanto é que as organizações e seus membros que defendem a sustentabilidade, agricultura sustentável, reforma agrária, etc., no dia-a-dia do escritório e no estilo de vida doméstico não estão atentos à redução de consumo. Os sem-posses também desejam – lá no fundo – ‘possuir e consumir’. E esta não é uma atitude básica, que todos nós compartilhamos de uma ou outra maneira? Isto também é assim na Europa, mas – na minha percepção – é ainda mais forte no país da abundância que se chama Brasil. Será que ‘mudança no estilo de vida’ e ‘trabalho político’ estão mesmo fadados a ficar em ilhas distintas? Duas ilhas que não têm relação uma com a outra? Será que a questão estará resolvida se dividirmos a terra e todos os seus recursos igualmente e, em seguida, democratizarmos a grande pegada ecológica daqueles que hoje já são consumidores?

Enquanto isso 

Mesmo assim, ainda há um outro ‘enquanto isso’. A questão do poder sempre deve ser formulada novamente. O rolo compressor destruidor das multinacionais e do agronegócio deve ser parado. O ponto em discussão aqui é: que meios se deve usar para fazer isso?

Enquanto este grande trabalho espera para ser realizado, agricultores familiares e campesinos seguem trabalhando. Eles enfeitam suas propriedades e comunidades com plantas e árvores. Eles recuperam, gradativamente, o que se perdeu ao longo do tempo por desconhecimento. Espécies arbóreas nativas são replantadas nas propriedades. Enquanto isso, políticos interessados, com base no Protocolo de Kyoto, tomam providências para que não só as grandes empresas estrangeiras ganhem dinheiro. O agricultor familiar também será remunerado por preservação e recuperação da natureza e replantios em sua propriedade. Ainda há muitas críticas a fazer em relação ao governo Lula, mas raramente algo é completamente branco ou preto. O retrato global é negativo porque, ao analisar os números, ainda são o agronegócio e os bancos que ficam com o grosso do dinheiro. Mas, enquanto isso, também foram feitas mudanças em temas estruturais e de grande impacto. Para permitir a revitalização do campo, da agricultura familiar, dos jovens no meio rural. Para recuperar a biodiversidade. Será que haverá um dia em que o global e o local apertarão as mãos? Aceleramos o tempo em que o grande trabalho político e as pequenas mudanças locais se alimentam e se inspiram mutuamente?

 

‘Pense globalmente, alimente-se localmente!’ é o chamamento que Wervel lança para os próximos anos.

É ‘a’ resposta? Não, é uma orientação na direção de um outro mundo.

 

Porto Alegre, 8 de março de 2006.

 

(1)   ‘Agricultura familiar e camponesa versus agroindústria’. No período de 2003-2005, as grandes empresas receberam do governo federal, na forma de crédito, 115 bilhões de reais. Neste mesmo período, 20 bilhões de reais foram destinados a um milhão de famílias da ‘agricultura camponesa e familiar’. Desde 2003, dez grupos econômicos (principalmente estrangeiros) receberam do Banco do Brasil cerca de 8 bilhões de reais. A Aracruz celulose foi um deles. Na safra de 2003/2004 recebeu 1,167 bilhão de reais; na safra de 2004/2005, a mão estendida da empresa rendeu 455 milhões de reais. Como os empréstimos não foram pagos, o governo tem agora uma participação de 12,5% na empresa. Este é um truque que já é utilizado há décadas no Brasil e é um dos motivos pelos quais o governo afunda cada vez mais em dívidas.

(2)   Veja as crônicas anteriores sobre o conflito entre dois modelos agrícolas e sobre o domínio esmagador do agronegócio. Leia principalmente ‘Soja e guerra’, de 28 de outubro de 2005.

(3)   A balança comercial do agronegócio registrou, em fevereiro de 2006, uma exportação de 2,887 bilhões de dólares; um crescimento de 3,8% em relação ao ano passado. Enquanto o complexo soja diminuiu em 3,2%, cresceram, principalmente, fumo (22,4%), papel e celulose (18,3%), couro (15%) e café (14%). Não é exatamente uma produção de alimentos. O capital financeiro, do qual o agronegócio e os bancos fazem parte, não vai nada mal. Em 2005, o conjunto dos bancos obteve um lucro 36% superior (cerca de 28,3 bilhões de reais) ao ano anterior, que já foi um ano recorde. A rentabilidade do setor bancário é de 22,65%. Em outras palavras, se você investir em ações, para cada 100 reais investidos você recebe 22,65 reais. Em 2000, a rentabilidade média era de apenas 11,49%. O lucro está relacionado, principalmente, com o aumento explosivo de concessão de crédito e com a elevada taxa de juros. Enquanto escrevo esta crônica, escuto sem-tetos desesperados gritando enlouquecidos nas ruas. Você não precisaria de muito menos para enlouquecer? Um homem é cego e grita por horas algo ininteligível, mas sempre o mesmo mantra, sobre um chuveiro. Quem é que está cego para o chuveiro de benefícios que rega os ricos? Este pobre homem que clama ou o Banco Central e o governo, que mantêm os juros desse país no nível mais elevado do mundo? O cego como vidente.

(4)   Uma muda de eucalipto recém-plantada pode consumir até 30 litros de água por dia. Uma árvore adulta, em um reflorestamento, consome 700 a 1000 litros, dependendo do espaçamento entre as árvores. Uma árvore adulta isolada pode absorver até 20 mil litros por dia. Como explicar isso? Os eucaliptos são originários das regiões áridas da Austrália. A partir do processo evolutivo ao longo de milhões de anos, ele desenvolveu a capacidade de absorver com grande intensidade a pouca água disponível. Se você colocar esta espécie extraordinária em uma região (sub)tropical com muita água, os resultados são bem diferentes. Enquanto, na Austrália, um eucalipto necessita de cem anos para atingir um determinado diâmetro, num ambiente rico em água ele realiza a mesma proeza em dez anos. Leia, do mesmo autor: ‘Eucalyptus en Canada’ [Eucalipto e Canadá] em: “Brazilië: spiegel van Europa? Op zoek naar eigen spirituele bronnen” [Brasil: espelho da Europa? Em busca de fontes espirituais próprias] Dabar/Luyten, 2000. Ou veja ‘Iraque, soja, pinus e eucalipto’ em: “Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o Oceano” Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2006.

(5)   Satyagraha’ = ‘de kracht van de waarheid’ [Satyagraha = a força da verdade]. Vandana Shiva encerra sua argumentação a favor do policultivo versus monocultura com a ‘Satyagraha van het zaad’ [‘A força da verdade da semente’]. Veja: Wervelforum 1, ‘Patent op leven?’ [Patente sobre a vida?], Wervel, 1996. Os agricultores indianos invocam Gandhi e a Satyagraha. Partindo de uma profunda indignação, porque suas sementes são roubadas, desde o final da década de 90, eles também destroem o algodão transgênico da Monsanto. Não está claro para mim o que Gandhi pensaria hoje desta maneira de agir. No dia 30 de janeiro de 2008 faz 60 anos que Mahatma Gandhi foi assassinado. Para relembrar a data foi editado um calendário de aniversários com belas fotos e textos de Gandhi, em quatro idiomas (inglês, francês, alemão e holandês). Informações com < n stefvermuyten@telenet.be Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo >.

(6)   Exatamente no período da manifestação é divulgada uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística  (Ibope), com entrevistas realizadas na rua, entre 16 e 20 de fevereiro, com 2002 pessoas em 142 cidades: ‘O que o brasileiro médio acha das manifestações do MST?’ Cerca de 56% acham que as manifestações têm resultado negativo, enquanto 32% as consideram positivas; 13% não opinou. As invasões servem à democracia? 76% respondeu ‘não’, 16% ‘sim’ e 8% não opinou. Em comparação com pesquisas anteriores, parece que a simpatia e o apoio da população está diminuindo. Naturalmente o agronegócio e os grandes fazendeiros utilizam estas pesquisas para apoiar os seus interesses. E, talvez, as perguntas até tenham sido sutilmente direcionadas por eles.

Pelo que eu sei, não há democracia em multinacionais como a Aracruz. A relação democrática com a sociedade inexiste. O trabalho de lobby em Washington DC, Bruxelas e Brasília proporciona legislações adaptadas e fluxos de dinheiro em direção à Coca-Cola, Aracruz, Monsanto, Chevrolet, Mercedes, etc.

(7)   A Organização Mundial da Saúde, das Nações Unidas, afirma que cada pessoa deveria dispor de 40 litros de água por dia. O consumo médio de um brasileiro é de 200 litros. Portanto, cinco vezes mais. É claro que ‘consumo médio’ quer dizer que um consome (muito) mais água que outro. Recentemente foi criado um site n o Brasil no qual é possível calcular seu consumo de água: <http://www.h2c.com.br>. Tanto a existência deste site quanto o aumento nos vários movimentos de sensibilização visam mudanças no estilo de vida neste país rico em recursos hídricos. Afinal, dependendo da forma de cálculo, o Brasil possui 12% a 20% da água doce do planeta. Só para comparar: a China, com mais de 20% da população mundial, dispõe de 6% da água disponível do planeta. Outra comparação, em relação ao consumo médio de água: Flandres, 115 litros/pessoa ao dia; Bélgica, 120 litros; Alemanha, 127 litros; França, 137 litros; Canadá, 350 litros; Estados Unidos da América, 375 a 400 litros.

Autoria preservada do acervo

SitioVeg