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VEGETARIANISMO E A BÍBLIA

Edward Maitland Há muitíssimas pessoas para as quais os argumentos científicos, sociais, econômicos e mesmo morais em favor de uma dieta vegetal não são suficientes, mas que requerem, além disso, a sanção da Bíblia. Como estamos preparados para atender aos que indagam também nesse ponto, elaborei um breve texto em solução do que pode ser chamado a dificuldade religiosa no caminho do vegetarianismo, que agora vos…

Edward Maitland

Há muitíssimas pessoas para as quais os argumentos científicos, sociais, econômicos e mesmo morais em favor de uma dieta vegetal não são suficientes, mas que requerem, além disso, a sanção da Bíblia. Como estamos preparados para atender aos que indagam também nesse ponto, elaborei um breve texto em solução do que pode ser chamado a dificuldade religiosa no caminho do vegetarianismo, que agora vos lerei. Percebereis, à medida que eu prossiga, que não questiono a autoridade da Bíblia. A única questão, se houver alguma, será a da interpretação da Bíblia, ou pelo menos de certas partes dela. E, para obter de modo mais eficaz uma escuta paciente e tolerante para qualquer coisa que eu possa dizer em desacordo com vossas crenças habituais, recordo-vos antecipadamente que, enquanto a crença na infalibilidade da Bíblia é uma coisa, e é compatível com aquele espírito de humildade com que apenas as coisas sagradas devem ser abordadas, a crença na infalibilidade da própria interpretação da Bíblia é outra coisa, e é incompatível com tal espírito de humildade. Naturalmente, este exórdio pode ser totalmente desnecessário, pois pode acontecer que as opiniões por mim expressas já sejam as vossas. Mas, seja como for, é necessário, para a adequada defesa de nossa Causa, que elas sejam apresentadas.

Antes de tudo, então, quanto ao caráter e propósito da Bíblia. Ela é, antes de todas as outras coisas, um livro religioso; não um livro científico, nem histórico, mas um livro religioso. E, ademais, como a religião não é algo dos sentidos externos e da razão, mas diz respeito à Alma, o apelo da Bíblia não é aos sentidos externos e à razão, mas à Alma.

Concordando com essas premissas, não deveremos ter dificuldade em concordar também com estas outras premissas. Como a Alma não é perecível como o corpo, mas é imortal e pode tornar-se eterna, os ensinamentos necessários para ela devem referir-se não a pessoas, coisas ou acontecimentos, que pertencem ao tempo e são transitórios, mas devem consistir em verdades, que são eternas e capazes de aplicação perpétua.

E, além disso, como a Bíblia, sendo um livro religioso e dirigida à Alma, ou à parte espiritual do homem, trata de coisas interiores e espirituais, e não de coisas exteriores e materiais, é no significado espiritual, e não na forma externa, que seu verdadeiro valor consiste e deve ser buscado.

Sobre este último ponto, a própria Bíblia fala de modo decisivo, dizendo que a Letra é morta e mata, mas somente o Espírito tem e dá vida. E não apenas isso, mas a Bíblia insiste também na necessidade, por parte do leitor ou ouvinte, de um sentido interior próprio, por meio do qual apenas ele pode discernir seu significado interno. Constantemente se diz, em referência a alguma afirmação cujo sentido principal está tão profundamente oculto a ponto de constituir um mistério: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.” E constantemente fala com reprovação daqueles que têm olhos que não veem e ouvidos que não ouvem o sentido místico oculto sob suas expressões simbólicas.

E, longe de aprovar um assentimento cego e sem inteligência, ela repetidamente exalta o Espírito de Entendimento como o principal dos dons divinos. E, ao fazer isso, pode-se observar, a Bíblia não é inconsistente consigo mesma quando, ao enumerar as graças divinas — Fé, Esperança e Caridade — declara a primeira delas como sendo a Caridade. Pois a Caridade é una com o Amor, e o Amor é uno com a Simpatia, e a Simpatia é o primeiro e o último passo para o Entendimento.

Ora, é ao vosso Entendimento que apelo para o reconhecimento daquilo que direi nesta ocasião.

Das premissas assim estabelecidas, segue-se esta importante conclusão, que é uma chave mestra para a interpretação das Escrituras: tudo o que nela é verdadeiro é espiritual, e nenhum dogma ou doutrina é verdadeiro que pareça ter um significado físico, ou que não seja espiritual. Se algo é verdadeiro, e ainda assim nos parece ter um significado material, então não o resolvemos, mas trata-se de um mistério para nós, cuja interpretação ainda devemos buscar. Aquilo que é verdadeiro é apenas para o Espírito.¹

Ora, não somente a Bíblia se dirige à Alma, como também contém, e é, a história da Alma. E está escrita, como seria de esperar de sua origem egípcia, em hieróglifos, ou símbolos sagrados, método usual entre os egípcios, e adotado deles pelos hebreus — ou talvez o método dos hebreus, ou povo sagrado, desde o princípio, e por eles introduzido no Egito. Esse método de escrita consiste em descrever coisas espirituais e pertencentes à Alma sob figuras ou em termos derivados do mundo natural.

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¹ Ver A. K.’s Illumination Concerning the Prophecy of the Immaculate Conception, C.W.S., Parte I, nº iii.

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De modo que aquilo que se pretende não é o animal, planta, pessoa ou outro objeto desenhado ou escrito, mas algo diverso que tal objeto foi escolhido para representar, e do qual assim se torna o tipo ou símbolo. Sendo escrita dessa maneira, a Bíblia — ou pelo menos sua parte espiritual, e não meramente histórica — é um hieróglifo, denotando, sob diversos objetos físicos, tais como narrativas de eventos aparentemente terrenos, e biografias aparentemente de pessoas reais, e outras coisas naturais, processos que são puramente espirituais e místicos. A Bíblia, em suma, pode ser definida como uma coleção de parábolas que expõem a história da Alma desde sua primeira descida à matéria até seu retorno final à sua condição original de puro espírito. E, como a Alma passa pelo mesmo processo, quer seja uma ou muitas — uma pessoa, uma igreja, uma raça ou mesmo o universo em geral —, a narrativa que expõe, ou a parábola que representa a história de uma, o faz igualmente para todas. E os mesmos termos, que são três em número, abrangem todo o processo. Estes são Geração, Degeneração e Regeneração, e estes, portanto, aplicados à Alma, constituem o tema da Bíblia, como mostraremos em seguida, e não a história física de qualquer pessoa ou povo, embora descrita em termos derivados de pessoas e povos. E tomar tais pessoas, povos ou outros símbolos fora de seu lugar próprio como símbolos, e, ignorando sua verdadeira significação, prestar-lhes a honra devida apenas a essa significação é, na linguagem bíblica, cometer idolatria. Pois, ao fazê-lo, materializamos mistérios espirituais e conferimos à Forma a consideração devida apenas à Substância. Sempre que compreendemos as coisas do Sentido onde apenas as coisas do Espírito são implicadas, e assim ocultamos os verdadeiros traços da Divindade com representações falsas e espúrias, cometemos aquilo que a Bíblia considera o mais abominável dos pecados, tornando-nos idólatras e, ao mesmo tempo, identificando-nos com aquela escola materialista que está rapidamente cobrindo o mundo com o objetivo declarado de erradicar a própria ideia de Deus e da Alma.

Pois
“Idolatria é Materialismo, o pecado comum e original dos homens, que substitui o Espírito pela Aparência, a Substância pela Ilusão, e conduz tanto o ser moral quanto o intelectual ao erro, de modo que substituem o inferior pelo superior, e a profundidade pela altura. É aquele falso fruto que atrai os sentidos externos, a isca da serpente no princípio do mundo;”¹ e isto tanto para a raça quanto para cada indivíduo que já viveu, pois todos são suscetíveis à sua atração.

Devemos, então, saber, para a correta compreensão das Escrituras místicas, que, em seu sentido esotérico, ou interior e real, elas tratam não de coisas materiais, mas de realidades espirituais; e que Adão não é um homem real, mas designa antes a personalidade inferior ou a força intelectual em todo ser humano; nem Eva é uma mulher real, mas designa o elemento feminino em todo ser humano, a saber, a Alma ou consciência moral; e por isso é chamada a “Mãe dos vivos”, ou dos espiritualmente vivos, isto é, daqueles em quem a Alma alcançou a autoconsciência. Nem o Éden é um lugar real, mas uma condição de inocência anterior a uma queda de um estado elevado já alcançado. Nem a Árvore da Vida em seu meio é uma árvore real, mas Deus permanecendo no centro do Universo como sua vida. Nem o homem foi feito de uma só vez à imagem de Deus, mas apenas após longas eras de desenvolvimento, começando nas formas mais inferiores de vida vegetal, e ascendendo através de muitas formas até alcançar a forma humana; e mesmo então ele não está feito à imagem de Deus, não é verdadeiramente homem no sentido bíblico e místico. Pois, nesse sentido, é necessário algo mais do que o homem físico, mais do que o homem intelectual, mais, ainda, do que o homem moral, para ser um homem. Para ser feito à imagem de Deus, ele deve alcançar sua maioridade espiritual, por meio do desenvolvimento da consciência de sua natureza espiritual. Deve ser alma assim como corpo; Eva assim como Adão; assim como no plano físico, também no plano espiritual, ele necessita da mulher para fazê-lo homem, e a mulher mística é sua Alma. Antes de sua vinda, ele é apenas homem materialista e rudimentar, humano apenas na forma, e animal em tudo o mais. Mas ela vem finalmente, manifestando-se como somente a Alma pode manifestar-se, quando seu eu inferior está envolto em profundo sono, e ele desperta para encontrar-se plenamente homem, à imagem de Deus, masculino e feminino, no sentido de que representa os dois aspectos, masculino e feminino, da Divindade — o poder divino e o amor divino —, e também os Sete Espíritos por meio dos quais Deus cria todas as coisas. Assim constituído, ele é de fato Homem, pois é uma manifestação de Deus, por cujo espírito, operando dentro dele, foi criado. E assim foi e será criado todo homem que já viveu ou viverá.

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¹ Ver A. K.’s Illumination Concerning the Interpretation of the Mystical Scriptures, C.W.S., Parte I, nº v.

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Mas o processo inclui um ponto chamado a Queda. Cedendo aos impulsos exteriores da natureza inferior antes de estar suficientemente forte para resistir a eles, Eva estende a mão e colhe o fruto que, sendo ela espiritual, e sendo ele material — isto é, Matéria — lhe é proibido. Em outras palavras, e despido de alegoria, a Alma, ou o eu superior, cai sob o poder do eu inferior e perde a intuição do Espírito, e o homem, não mais sustentado por ela, segue-a em sua queda. O eu inferior, com os apetites corporais e a razão, torna-se o único governante, e sua descendência é Caim, o assassino e até o torturador de seus irmãos, humanos e animais. E quando Abel, que, como ministro da Alma e de suas intuições, representa o profeta, oferece a Deus as “primícias do seu rebanho”, isto é, o “Cordeiro” de um coração puro e manso, faz sua aparição, ele é imediatamente morto por Caim, que, como escravo dos sentidos, oferecendo “os frutos da terra”, ou da natureza inferior, representa o sacerdote.¹

Nessa perspectiva, então, Abel não foi o iniciador do sangue e da morte de criaturas inocentes, seja para sacrifício ou para alimento. Seu “Cordeiro” significava simplesmente o mais santo e elevado dos dons espirituais que, rejeitado e morto desde a fundação do mundo, é representado no Apocalipse como finalmente ocupando o trono de Deus, cercado por todos aqueles que, redimidos por segui-lo, têm o nome do Pai escrito em suas frontes. Pois é ainda a Alma que, sob a denominação de mulher, quando purificada da Matéria, torna-se a Noiva do Espírito e Mãe dos eternamente vivos; enquanto é a Alma persistente no mal que é chamada “Mãe das Abominações” e que compartilha o destino de “Babilônia”, ou “a grande cidade” — o mundo ou sistema de civilização no qual a Matéria é exaltada ao lugar santo de Deus na Alma, e o corpo é feito tudo em todos.

A mesma verdade espiritual reaparece repetidamente nos livros sagrados, sob diversas formas alegóricas. Sempre a ternura de coração e a pureza de hábitos acompanham a vida superior; sempre o derramamento de sangue e o consumo de carne são resultados de uma queda a um nível inferior. A história do Dilúvio ilustra a mesma verdade e, ao massacre de animais, acrescenta a embriaguez. Nessa parábola, o homem é representado, após um período de declínio para um materialismo absoluto, como novamente, sob um dilúvio de intuição, recuperando aquela altura de perfeição, a plena consciência de sua natureza espiritual. Mas, tão logo desce do monte de purificação e regeneração, ele volta novamente à grosseria e ao derramamento de sangue, de tal modo que a Divindade é representada como desistindo dele como caso perdido, dizendo que era inútil puni-lo, e concedendo-lhe, com relutância, permissão para usar carne como alimento. Pois este é o significado óbvio e verdadeiro da passagem tão confusamente traduzida no nono capítulo do Gênesis. E, ainda assim, encontramos constantemente uma permissão, que foi o resultado de uma queda, sendo usada como desculpa para recusar qualquer esforço de recuperação!

Que tal recuperação não é considerada impossível na Bíblia é demonstrado pela instituição de um símbolo de esperança no arco-íris com seus sete raios. Pois este é novamente o tipo da Mulher ou Alma que, quando restaurada à pureza e iluminada divinamente, manifesta os Sete Espíritos de Deus, dos quais a Alma sempre traz a potencialidade em seu seio e, em virtude disso, algum dia voltará a ser a geradora de homens “feitos à imagem de Deus”.

A contenda, já mencionada, entre profeta e sacerdote, como ministros respectivamente da Alma e dos sentidos, da vida pura e do derramamento de sangue, estende-se por toda a Bíblia, até culminar no assassinato, pelos sacerdotes, do maior dos profetas. Pois os profetas não eram derramadores de sangue; e todas as narrativas que representam Moisés, Samuel, Elias e outros profetas como envolvidos no massacre de seu próprio povo ou das tribos vizinhas — narrativas que, por seu aparente horror, são ao mesmo tempo pedra de tropeço para os fiéis e motivo de escárnio para os incrédulos — representam simplesmente os conflitos da Alma com as tendências malignas do homem que ela anima. E, além disso, se os tradutores da Bíblia estivessem devidamente preparados para sua tarefa, primeiro, pela posse do conhecimento necessário do hebraico; segundo, pela posse da necessária compreensão das coisas divinas; e, terceiro, pela ausência de preconceitos em favor de uma concepção sanguinária do caráter divino, teriam traduzido para o inglês os nomes das vítimas desses massacres, em vez de mantê-los no original; e assim teríamos visto nessas narrativas apenas uma antecipação do método empregado em O Peregrino e A Guerra Santa, de Bunyan. E quanto aos próprios autores da Bíblia, podemos bem crer que, se tivessem podido prever a que profundidades de embotamento um regime de carne e estimulantes pode reduzir um povo, de outro modo não destituído de inteligência, vivendo dois mil anos depois deles — embotamento demonstrado pelo fato de tomarmos suas parábolas como verdades literais —, teriam abandonado imediatamente seu método preferido e falado de modo claro.

Nenhum outro senão o método descrito foi o de Moisés. Instruído em todos os Mistérios da religião dos egípcios, ele transmitiu mistérios semelhantes ao seu próprio povo, ensinando a seus iniciados o espírito dos hieróglifos celestiais, e ordenando-lhes que, quando celebrassem festividades diante de Deus, levassem em procissão, com música e dança, aqueles animais sagrados que, por sua significação interior, estivessem relacionados à ocasião. E, dentre esses animais, ele selecionava principalmente machos do primeiro ano, sem mancha ou defeito, para significar que, acima de todas as coisas, é necessário que o homem consagre ao Senhor seu intelecto e sua razão, e isto desde o princípio e sem a menor reserva. Os sacerdotes, então, foram idólatras que, vindo depois de Moisés, e pondo por escrito aquelas coisas que ele havia transmitido oralmente a Israel, substituíram as coisas verdadeiras significadas por seus símbolos materiais, e derramaram sangue inocente sobre os puros altares do Senhor.¹

Os profetas, portanto, como já foi dito, não eram derramadores de sangue. Eles não lidavam com coisas materiais, mas com significações espirituais. Seus cordeiros sem mancha, suas pombas brancas, seus bodes, seus carneiros e outras criaturas sagradas são tantos sinais e símbolos das diversas graças e dons que um povo místico deveria oferecer ao céu. Sem tais sacrifícios, não há remissão do pecado. Mas, quando o sentido místico foi perdido, então veio o morticínio. Os profetas desapareceram da terra, e os sacerdotes dominaram o povo. Então, quando novamente a voz dos profetas se ergueu, foram constrangidos a falar claramente e declararam abertamente que os sacrifícios de Deus não são a carne de touros nem o sangue de cabritos, mas votos santos e ações de graças sagradas, seus correspondentes místicos. Pois, assim como Deus é Espírito, também Seus sacrifícios são espirituais. É apenas tolice e ignorância oferecer carne e bebida materiais ao Poder puro e ao Ser essencial. Em vão, até mesmo para nós, falaram os profetas, e em vão Cristo foi manifestado.¹

Pois todo o peso do ensinamento de Cristo e a moral de sua vida — pela qual Ele confirmou ao mesmo tempo a Lei e os Profetas — é que o homem não pode ser salvo por qualquer ato de outro, nem por qualquer processo que ocorra fora de si mesmo; que “ninguém pode de modo algum remir seu irmão, nem dar a Deus resgate por ele”; que, portanto, nem holocausto, nem oferta pelo pecado, nem qualquer sacrifício físico ou material pode salvar o homem de seus pecados e de suas consequências, mas apenas um coração humilde e contrito, e um espírito puro dentro do próprio homem, e uma vida em conformidade com isso.

Somente quando lermos a Bíblia com visão, não obscurecida por um véu de sangue, nem distorcida pelo preconceito, todo o seu mistério — o mistério de nossa queda e de nossa redenção — torna-se claro como o céu sem nuvens. Pois então podemos acompanhar, ocorrendo em nossas próprias almas, todo o processo, do começo ao fim, que a Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse, expõe sob formas típicas e parábolas, precisamente à maneira do próprio Senhor. E, fazendo isso, passamos a saber absolutamente, pela experiência pessoal de nossas próprias almas, que o segredo e o método do Cristo não são outros senão aquele processo de purificação interior e regeneração pelo qual somente o espírito no homem retorna à sua condição original de pureza, fazendo dele um novo homem, uno com Deus, que é Espírito puro.

É esse processo de transmutação, ou redenção do Espírito da Matéria, tanto no indivíduo quanto no universal, que constitui o tema de todas as escrituras sagradas, o objetivo de todas as verdadeiras religiões, a tarefa de todas as verdadeiras igrejas. E são as diversas etapas desse processo que constituem, respectivamente, a Queda de Adão, pela submissão da Eva nele à serpente da Matéria; a descida de Israel, ou da Alma, ao Egito, ou ao mundo e ao corpo; e o Êxodo, ou fuga do mundo através das águas da separação e da consagração para o deserto da experiência benéfica; e a travessia do Jordão, ou rio da purificação, para tomar posse da terra prometida da perfeição.

São ainda as mesmas etapas desse processo que são representadas na história evangélica do homem típico regenerado. Quer sejam denominadas água e espírito, uma alma pura e a operação divina nela, ou a Virgem Maria e o Espírito Santo, são esses dois, em cada homem que finalmente é redimido, que produzem o novo homem, ou homem regenerado, o Cristo Jesus — que é sempre o “Filho unigênito de Deus”.

E é sempre pela crucificação e morte, na cruz da renúncia, daquele velho Adão, o eu inferior, e pela ressurreição e ascensão a uma condição de perfeição final, que a salvação é finalmente alcançada. E a razão pela qual todas essas verdades eternas na história da alma são feitas convergir para o profeta de Nazaré é simplesmente porque, reconhecendo nele os sinais de sua realização da perfeição em um grau nunca antes alcançado, e em sua história as correspondências simbólicas apropriadas, o Espírito Divino, sob cuja inspiração os Evangelhos foram compostos, o escolheu como o tipo das possibilidades da humanidade em geral.

Mas, ainda que assim rejeitemos, como idólatra, blasfema e altamente perniciosa, a doutrina, tal como ordinariamente entendida, da Expiação Vicária, continuamos a ver em “Cristo Jesus” o “Filho unigênito de Deus” e a nos apegar firmemente ao Seu sangue e à Sua cruz como os únicos meios de salvação. Mas é o Cristo Jesus, ou o homem renascido de uma alma e espírito puros — como o próprio Jesus declarou que todos devem nascer, precisamente como Ele é dramaticamente descrito como tendo nascido dentro de nós — a quem recorremos para a salvação. E os meios são Sua cruz de autossacrifício, renúncia e pureza de vida; e a recepção, em nós mesmos, daquele “Sangue de Deus”, que não é um mero sangue físico — entre o qual e a imperfeição moral não há relação congruente —, mas que é a vida de Deus, o próprio Espírito puro, que é Deus, e que Deus está sempre livremente derramando por Suas criaturas, dando-lhes de Sua própria vida e substância.

Quão perniciosa é a doutrina da expiação vicária, tal como ordinariamente aceita, pode ser visto na condição atual do mundo, intelectual, moral e espiritualmente, não menos do que fisicamente. O homem sempre se molda à imagem de seu Deus, isto é, à sua ideia de Deus. E, acreditando em um Deus que é injusto, egoísta e cruel, o homem não pode ser senão injusto, egoísta e cruel também. É precisamente essa deturpação do caráter divino, e essa perversão da verdadeira e única possível doutrina da expiação em uma que torna a salvação do homem um processo externo a si mesmo e dependente da ação de outro que não ele próprio, que, ao falsificar o Cristianismo, asseguraram seu fracasso e, em vez de um mundo ordenado pelos princípios da justiça, da simpatia e da pureza, nos deram um mundo de injustiça, egoísmo e sensualidade.

Segundo o verdadeiro evangelho, tal como declarado pelos profetas, a substância da humanidade não é material e criada, mas espiritual e divina. E o homem se eleva de sua natureza inferior para sua natureza superior subordinando a primeira à segunda e, assim, elevando-se inteiramente àquela superior, tornando-se desse modo divino — pois entre Espírito e Matéria não há linha divisória. O conhecimento disso foi o inestimável “tesouro com que Israel, ao fugir, despojou os egípcios”. E esse foi o grande segredo de todos os mistérios sagrados desde o princípio.

Ao contrário, é um falso evangelho, procedente dos sacerdotes, aquele que, desafiando ao mesmo tempo o intelecto e a intuição, atribui a salvação a uma operação vicária e, em vez do sacrifício de nossa própria natureza inferior à nossa própria natureza superior, e de nós mesmos pelos outros, insiste no sacrifício de nossa natureza superior à nossa inferior, e dos outros por nós mesmos. É dessa inversão da ordem divina que o hábito prevalente de comer carne e da vivissecção — essa mais infernal de todas as práticas que já brotaram do abismo da natureza inferior do homem — são o resultado direto e inevitável.

E, até que a ordem divina seja restaurada, tanto na ação quanto no pensamento, pela renúncia à doutrina do sacrifício vicário tal como ordinariamente mantida, e pela consequente reabilitação do caráter de Deus, todos os nossos esforços de melhoria serão inúteis; nossa civilização não passará de uma caricatura do termo; e nossa moral e nossa religião serão coisas das quais estaríamos melhor sem.

Em conclusão: aquilo a que visamos não é meramente uma reforma de instituições, nem a promoção de benefícios apenas materiais, mas uma renovação radical da própria Substância dos homens em todos os planos de sua natureza, com vistas à realização do tão prometido “novo céu e nova terra, onde habita a Justiça”, e ao advento desse estado aperfeiçoado, a Nova Jerusalém, ou Cidade que tem Deus como sua luz, e que desce do céu da própria região celestial do homem, isto é, daquele reino dos céus que está dentro dele, mas que jamais pode ser realizado por aqueles que persistem em ordenar suas vidas de modo a fazer do derramamento de sangue e da injustiça necessidades.

“Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor exige de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus?” “Não farão mal nem dano algum em todo o meu santo monte, diz o Senhor.”

E, se se perguntar qual é a fonte e qual a autoridade dessas interpretações, a resposta é que há apenas uma fonte e autoridade para a verdade, e essa é a própria Alma do homem, e que, para obter acesso a ela e conhecer a doutrina, é necessário fazer a Vontade do Pai e viver a vida pura requerida. Pois a Alma vê divinamente e jamais esquece o que uma vez aprendeu. E tudo o que ela conhece está ao serviço daquele que devidamente a cultiva e desenvolve. Dela procede, diretamente e sem mistura de elemento humano, aquilo que acaba de ser dito. E não há outra fonte nem outro método de revelação divina.

É verdade, como comumente se supõe, que a revelação divina é proferida por uma voz do céu. Mas o céu é o mais íntimo santuário do templo do próprio homem, e a voz é a de Deus falando ali dentro. Somente quando o solo, que é o corpo, é puro e alimentado de modo puro, de modo que nenhuma exalação nociva surja para obscurecer a atmosfera, podem o homem e sua Alma assim dialogar entre si. Vivendo como vive o mundo hoje, ele não pode conhecer as potencialidades da humanidade. Por isso diviniza um único exemplar destacado, em detrimento do restante da raça, quando todos são divinos, se apenas quiserem sê-lo. E a revelação, não menos que a razão, é um atributo natural do homem. Basta que ele viva puramente, e reverterá a Queda.

Índice: PALESTRAS E ENSAIOS SOBRE O VEGETARIANISMO

Fonte: Palestras e Ensaios sobre Vegetarianismo

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