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Um vegetariano na ‘capital da carne’

Luc Vankrunkelsven Este dia está sob o signo da ‘carne’. Chapecó = terra da carne, mas também ‘capital da agroindústria’ e ‘capital da agricultura familiar’. É evidente que isto implica numa constante disputa por espaço e reconhecimento. Os grandes representantes da agroindústria – Sadia, Perdigão, Aurora –são reconhecidos nas ruas e praças. Eles possuem suas revistas, suas propagandas na TV, seus caminhões…

Luc Vankrunkelsven

Este dia está sob o signo da ‘carne’.

Chapecó = terra da carne, mas também ‘capital da agroindústria’ e ‘capital da agricultura familiar’. É evidente que isto implica numa constante disputa por espaço e reconhecimento. Os grandes representantes da agroindústria – Sadia, Perdigão, Aurora –são reconhecidos nas ruas e praças. Eles possuem suas revistas, suas propagandas na TV, seus caminhões refrigerados. Seus frigoríficos. Defensores de seus interesses nas diversas instâncias governamentais existentes no país, eles contam com o ‘vento a favor’ graças à ideologia de liberalização proclamada pelo ‘imperador’ Organização Mundial do Comércio (OMC). Com a carne de suas aves e suínos eles querem desbancar a carne européia no mercado mundial – gerando, obviamente, protestos da União Européia (UE). Uma tensão crônica entre UE e Mercosul, como a que pode ser sentida aqui, em Chapecó, entre dois modelos agrícolas.

Nos últimos anos, a agricultura familiar se fortaleceu na defesa de sua identidade, tanto em termos organizacionais quanto em visibilidade. Fetraf-Sul/Cut tem sua sede em Chapecó. Não é surpresa, portanto, que eu tenha ouvido – em 2002 – o então prefeito proclamar que Chapecó é a ‘capital da agricultura familiar’. De início, tal título provocou risos de deboche na agroindústria. Provavelmente estes risos se transformaram em ranger de dentes, pois agora eles, informalmente, proclamaram Chapecó como a sua capital.

‘Capital’ ambígua

O que significa isso, o título de ‘capital da agricultura familiar’?

Quando caminho do alojamento para o escritório de Fetraf, passo por um terminal de ônibus. Os ônibus param, descarregam pessoas e pegam uma nova carga. Os letreiros que indicam as rotas são reveladores: por seis vezes lê-se ‘Sadia’ e três vezes ‘Aurora’. Ou seja, tansporte para os muitos funcionários que trabalham nestes abatedouros e indústrias de processamento. Muita carne ainda passará pelas esteiras antes que uma agroindústria familiar, como a do ‘Grupo Bergamin’ (que não processa carne), receba um letreiro de ônibus com seu nome. Tais iniciativas são novas no meio rural e geralmente inacessíveis com transporte público. Um ônibus para ‘Sadia’ é mais lógico, do mesmo modo que era mais lógico que o metrô Anderlecht-Bruxelas [Bélgica] fosse prolongado, afinal, para o novo hipermercado de móveis e decorações Ikea e não para o grande colégio São Nicolau, que fazia esta reivindicação há anos.

[Foto 49]

Ônibus para Sadia & Cia. Para a agroindústria familiar não.

 

Chego ao escritório: um telefonema entusiasmado de Marly Winckler. Ela coordena o movimento vegetariano no Brasil. De acordo com Marly, trata-se de um movimento em franca expansão. Ela trabalha e mora na idílica capital do estado de Santa Catarina: Florianópolis. Ela é natural de – isso mesmo – Chapecó. Sua família ainda mora lá, mas ela não gosta mais de visitar a cidade, a capital da carne, com tantos abatedouros. Tobias Leenaert, de EVA (Ethisch Vegetarisch Alternatief [Alternativa Ética Vegetariana na Bélgica]) (2), falou para ela do livro sobre soja. Ela está muito entusiasmada com a edição do livro em português, pois finalmente o escândalo de que a maior parte da produção de soja vai parar nos cochos dos animais é revelado. Marly também tem denunciado este fato há muito tempo. Com seu movimento, eles pretendem utilizar o livro para denunciar a insanidade deste sistema. Desenrola-se uma longa conversa. Segundo ela, a soja tornou-se muito importante na dieta dos vegetarianos porque os norte-americanos fomentaram isso. Na verdade, não há necessidade de tanta soja no modo de vida vegetariano. Independentemente se a atual onda de soja e tofu foi imposta pelos EUA ou se tem origem na culinária oriental, também é importante que os vegetarianos saibam o que acontece na região amazônica, quais são os impactos sociais e ecológicos da monocultura da soja em grande escala e que mais de 70% de toda soja produzida é destinada a ração animal. Isto não elimina o fato de a soja para consumo humano ser uma dica interessante (3). Afinal, os chineses já nos dão este exemplo há mais de dois mil anos (4).

Vegetariano ano 2056?

Carne e consumo de carne. É de ficar desesperado. Mesmo assim… no mesmo dia, recebo um e-mail sobre uma pesquisa publicada na revista New Scientist (5). A pedido de seus editores, 40 cientistas proeminentes fizeram previsões sobre o que seria muito comum em 2056. O que leio? “Os cientistas prevêem que daqui a 50 anos todos serão vegetarianos, p orque teremos a capacidade de entender os pensamentos e as emoções dos animais.

Ainda preciso ver para crer, mas certamente dá um fio de esperança de sobrevivência nesta ‘capital da carne’. Eu mesmo não sou vegetariano, mas se reduzirmos coletivamente o consumo de carne, já resolveremos muitos dos problemas que nos ameaçam mundialmente hoje em dia. É disso que trata o livro sobre soja e nossa história de 17 anos de atuação de Wervel. É claro que também são tratados outros argumentos, além das emoções dos animais, embora, aqui no escritório, Ivo Dickmann acabe de me contar sobre um DVD brasileiro muito contundente. Este também trata das emoções dos animais pouco antes de serem abatidos. O interessante é que é logo Ivo – que é carnívoro – quem puxa o assunto aqui, na ‘capital da carne’. Ele está realmente sensibilizado pelo filme e eu, definitivamente, quero assisti-lo.

No restaurante

À noite, saímos jantar com um grupo de colaboradores da Fetraf. Há somente um prato com peixe no cardápio. Pelo jeito, não é pedido com muita freqüência, pois sou servido muito mais tarde que os demais integrantes do grupo. Trata-se de tilápia, uma espécie provavelmente 90% criada e alimentada com esterco de porco. Isto se acreditarmos na história contada à delegação de Wervel, em 2005, em Concórdia (SC). A travessa com iscas de peixe circulam a mesa como tira-gosto. Todos saboreiam.

Vamos pagar a conta junto ao caixa. Ao lado, uma dezena de revistas da poderosa agroindústria: Revista Nacional da Carne, Agromais (ou seja, mais do mesmo), Sabores do Sul, e outras do gênero. Procuro, inutilmente, uma revista de agricultura familiar ou uma voltada aos vegetarianos.

[Foto 50]

Soja e alternativas durante o curso da capacitação da Terra Solidária

 

Obviamente há muito trabalho a fazer na ‘capital da carne’. E é realmente necessário ter coragem para se tornar vegetariano neste contexto.

Será que os 40 cientistas falavam de outro planeta? Ou então será provado que os cientistas de Southampton tinham razão em sua tese de que crianças com QI mais elevado têm maior tendência para se tornarem vegetarianos na idade adulta (6)?

Se for verdade, aqui, na ‘capital da carne’, a situação seria desoladora.

 

Chapecó, 21 de novembro de 2006.

 

(1)   Veja: <http://old.vegetarianismo.com.br>; <http://www.svb.org.br>; <http://www.ivu.org>. Nestes sites podem ser encontrados, entre outros, debates sobre se é desejável, ou não, a inclusão de soja na alimentação dos vegetarianos. No primeiro site, no tópico soja, é possível ler a íntegra do livro do ‘Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano’ (Curitiba: Editora Gráfica Popular/Cefuria, 2006), do mesmo autor.

(2)   Veja: <http://www.vegetarisme.be>.

(3)   Noëmi Weis, em Foz do Iguaçu, está fortemente engajada na introdução de produtos de soja na merenda de escolas e creches. Ela alcança, diariamente, 40 mil crianças e, indiretamente, também suas famílias. Mais sobre este tema no livro sobre soja. Lucie Morren, da Asociación Soya de Nicaragua (Soynica), Nicarágua, há vários anos tenta introduzir soja na dieta dos nicaragüenses por meio de grupos de mulheres. Veja o site <http://www.soynica.org.ni>; < n soynica@soynica.org.ni Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo >.

(4)   De kunst van het tofu-maken [A arte de fazer tofu] já existe há 2 mil anos, numa diversidade chinesa desconhecida. O meio rural da China é uma coletânea de minorias étnicas, cada qual com sua própria forma secular de preparo de tofu e outras aplicações da soja. Veja o interessantíssimo documentário da TV Arte (transmitido no dia 24/10/2006): ‘Tofu in China’ [Tofu na China]. O filme trata somente de soja para consumo humano. A novidade das últimas décadas – soja como ração animal – não é discutida. Mais informações junto a Wervel.

(5)   Veja: <http://www.newscientist.com/channel/opinion/science-forecasts/dn10580>.

(6)   Veja: <http://www.soton.ac.uk/mediacentre/news/2006/dec/06_138.shtml>.

Children with a high IQ are more likely to become vegetarian

University of Southampton,

SOUTHAMPTON

SO17 1BJ

Telephone: +44 (0)23 8059 3212 / Fax: +44 (0)23 8059 3285

Email: n press@soton.ac.uk Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo

 

Um ponto de luz: parece que algumas instituições estão começando a entender... Um professor de uma escola agrícola, em Chapecó, relatou que recentemente eles começaram a mudar o cardápio. Reduziram o consumo de carne. Tanto os professores quanto os alunos estão descobrindo que até um ‘gaúcho’ pode viver sem ou com pouca carne. E eles se sentem melhor. Detalhe interessante: é uma escola voltada para a agroecologia. Talvez seja possível, a partir da visão agroecológica da vida, provocar rachaduras nas muralhas que cercam a ‘capital da carne’.

Autoria preservada do acervo

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