Sustentabilidade e ética
Luc Vankrunkelsven ‘O mundo real’ programou para hoje um debate interessante. A barraca está lotada. Parece que a maioria veio para ouvir Leonardo Boff, ainda que os demais debatedores certamente também sejam muito interessantes. Leonardo ainda é apresentado como ‘Frei’ Leonardo Boff. Por duas vezes, ainda que já tenha deixado a ordem religiosa há anos. No Brasil, os dominicanos e franciscanos são tratados por…
Luc Vankrunkelsven
‘O mundo real’ programou para hoje um debate interessante. A barraca está lotada. Parece que a maioria veio para ouvir Leonardo Boff, ainda que os demais debatedores certamente também sejam muito interessantes.
Leonardo ainda é apresentado como ‘Frei’ Leonardo Boff. Por duas vezes, ainda que já tenha deixado a ordem religiosa há anos. No Brasil, os dominicanos e franciscanos são tratados por ‘frei’. Para o povo, o ex-franciscano Leonardo continua sendo ‘Frei’ Leonardo.
Desenvolvimento sustentável: ambíguo
Com prazer, deixo a palavra a Boff:
“Foi pedido que eu falasse de ‘sustentabilidade e ética’. Primeiramente, vou falar da expressão da moda ‘desenvolvimento sustentável’. Na verdade essa expressão é fundamentalmente ambígua, porque ainda se trata de um aumento na produção e um aumento no consumo e isto porque, aparentemente, a riqueza de uma minoria precisa crescer ainda mais. O slogan ‘desenvolvimento sustentável’ é o instrumento para que o capitalismo continue avançando. A economia devasta a natureza e cria desigualdade. Esta economia – desvinculada de controle político e de ética – é como um rebanho de ovinos que come tudo o que vê pela frente. Sem limites. O homem ocupa, atualmente, 83% do planeta e hoje já ultrapassamos em 20% a capacidade de regeneração da terra. No ano de 2002 foi realizado o ‘Rio + 10’ (1). Bem, mesmo que tivéssemos executado as medidas pactuadas em ‘Johannesburgo’ (1) a partir de 2002, ainda assim a terra não seria mais sustentável em 2030. Nós precisamos de um novo paradigma civilizatório. É por isso que precisamos privilegiar a sustentabilidade em todas as dimensões da vida. Para isto, precisamos de uma nova ética. Ética com uma nova ótica. Trata-se de uma visão ampla e holística. ‘Meio ambiente’ não existe. Todos os seres vivos, em conjunto, formam a comunidade da vida.
Para esta nova ética, são necessários quatro princípios e quatro virtudes:
Princípios:
- Dar centralidade à ‘afetividade’ e não à razão. Enquanto pessoas, nós somos fundamentalmente ‘sentimento’. O novo conceito ‘inteligência emocional’ é, portanto, um passo firme na direção certa.
- O ‘cuidado’ está vinculado a ela. Para Heidegger, é a essência da vida. Tudo o que é cuidado dura mais. ‘Cuidar’ até a própria morte. ‘Cuidar’ de nossa própria espiritualidade. Um dos mais conhecidos textos da ONU é ‘Cuidando da Terra’. E a ministra do meio ambiente, Marina Silva, e outros ministros organizaram a II Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente, que resultou na Carta de Responsabilidades ‘Vamos Cuidar do Brasil’.
- A ‘cooperação’ é a lei suprema do universo. Esta se contrapõe ao postulado de Darwin de ‘luta pela sobrevivência do mais apto’. Se faltar cooperação, a humanidade vai sucumbir.
- A ‘responsabilidade’: chegamos a um ponto em que não é possível seguir em frente. Com suas bombas, Bush poderia varrer o Iraque do mapa, mas não poderia fazer o mesmo com a China ou a Coréia do Norte sem destruir o mundo todo. As armas nucleares ainda são uma ameaça. Também não podemos continuar poluindo os recursos hídricos ou vamos todos perecer. E, em relação aos transgênicos, deveria prevalecer o princípio da precaução.
Virtudes (são mais concretas que os princípios):
- A ‘hospitalidade’. O último livro de Kant foi o primeiro sobre a globalização. Bem, neste livro ele tratava da hospitalidade como a primeira virtude. Se, hoje, o mundo abriga 300 milhões de refugiados, então este é um dos maiores crimes da atualidade.
- Trata-se da ‘convivência’, ou coexistência. Isolados, estamos fadados a sucumbir. Não se trata somente de um ‘pacto social’, mas de um ‘pacto ambiental’, um pacto com todos os seres vivos. O socio-cosmocentrismo versus o antropocentrismo. Uma ótica socio-cósmica versus a ótica na qual ‘o homem é o centro do mundo’. A globalização é uma ocidentalização e homogeneização do mundo.
- ‘Respeito perante cada ser’. A Terra não precisa de nós; nós precisamos da Terra. É uma convocação para uma grande tolerância, inclusive pela vida que já existia muito tempo antes de nós. O grande inimigo deste respeito é a monocultura. Como disse Albert Schweitzer, “ética é a ilimitada veneração perante a vida e o respeito diante de cada ser”.
- A ‘comensabilidade’: o saborear juntos os alimentos, o sentar à mesa, em fam& iacute;lia, é fundamental na ampliação de uma nova ética.
Estes princípios e virtudes não são somente elementos de uma nova ética, mas também de uma nova espiritualidade. Na tradição judaico-cristã, isto se resume em: ‘Para que todos tenham vida, e a tenham em abundância’ (João 10:10).”
Para esta nova ética e espiritualidade, Boff nos remete a algumas obras importantes. Para ele, uma delas é um divisor de águas, a Carta da Terra, que foi elaborada ao longo de vários anos por povos tradicionais, organizações ambientais e pesquisadores. É um programa para as próximas décadas (2).
De princípios e virtudes para a ação
Mesmo com dificuldades para ficar em pé, Leonardo é incansável. Quando ele encerra sua fala, o público se põe de pé. Durante vários minutos, o aplauso ecoa na barraca.
[Foto 34]
Leonardo Boff participa da passeata em defesa da biodiversidade
Após o discurso, todos são convocados para uma passeata até a conferência oficial da ONU. É que a polícia invadiu o escritório do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC), em Passo Fundo (RS). Mulheres e crianças foram agressivamente intimidadas por causa da manifestação contra os eucaliptos, na Aracruz.
Frei Boff é convidado para liderar a passeata. Com a bengala na mão, fica evidente sua dificuldade de locomoção, mas seu ânimo é imbatível.
No Brasil, Frei Leonardo continua inspirando multidões.
Afinal, uma pessoa não vive só de pão e mandioca.
Curitiba, 23 de março de 2006.
Postscriptum
Após a conferência e a manifestação, tomo um ônibus de volta para a Aopa, em Curitiba. Reparo no anúncio de que os ônibus especiais, contratados para o MOP 3-COP 8, utilizam biodiesel. ‘Biodiesel’, o assim chamado ‘combustível verde’, que fascina a todos, na Europa e no Brasil. Como se esta fosse a solução para nossa ‘pegada ecológica’ exagerada. Percebo que, por causa dessa febre de biocombustíveis, muitas monoculturas de soja são rapidamente convertidas em desertos de cana-de-açúcar. O elevado preço do açúcar e do etanol tem tudo a ver com esta folia de energia ‘limpa’, sem que seja necessário fazer mudanças fundamentais em nosso padrão de consumo e na organização da nossa mobilidade – um verdadeiro exemplo de como é falso o slogan do ‘desenvolvimento sustentável’. Os 865 milhões de famintos do mundo sabem disso muito bem. Afinal, os motores têm preferência em relação ao estômago. A Revolução Verde tem preferência em relação ao grito sufocado por reforma agrária.
(1) Rio de Janeiro, 1992: primeira conferência internacional das Nações Unidas sobre ‘Desenvolvimento Sustentável’; 2002, ‘Johannesburgo’: Conferência para avaliação, 10 anos após ‘Rio’.
(2) ‘Carta da Terra’: <http://www.comitepaz.org.br/carta_da_terra.htm> e <http://www.apoema.com.br/boff.htm>; ‘Netwerk Rechtvaardigheid en vrede, vzw’ [Rede Justiça e Paz, sfl] (www.rechtvaardigheidenvrede.be) editou, em 2007, um livreto baseado na ‘Carta da Terra’: Zorg voor de Schepping! [Cuidar da Criação!] Um livro inspirador para a ‘eco-espiritualidade’.