Supermercados e feiras do produtor
Luc Vankrunkelsven Ao caminhar pelas ruas de Guarapuava, vejo em todo lugar – sobre lixeiras de metal – saquinhos amarelos com lixo. As lixeiras são para prevenir que gatos e cachorros, buscando comida no lixo, rasguem os sacos e espalhem o lixo. Quase todos os saquinhos apresentam, impressa, a palavra ‘Superpão’, um dos supermercados locais. Quando vou a Chapecó, a cena se repete; só que aqui os saquinhos são…
Luc Vankrunkelsven
Ao caminhar pelas ruas de Guarapuava, vejo em todo lugar – sobre lixeiras de metal – saquinhos amarelos com lixo. As lixeiras são para prevenir que gatos e cachorros, buscando comida no lixo, rasguem os sacos e espalhem o lixo.
Quase todos os saquinhos apresentam, impressa, a palavra ‘Superpão’, um dos supermercados locais.
Quando vou a Chapecó, a cena se repete; só que aqui os saquinhos são vermelhos e ostentam a palavra ‘Brasão’. Segundo o dicionário, ‘brasão’ é: “[…] 4. Heráldica. Conjunto de peças, figuras e ornatos dispostos no campo do escudo ou fora dele, e que representam as armas de uma nação, um soberano, uma família, corporação, cidade, etc.”[1]. Em Chapecó, há mais duas redes de supermercado. Todos querem tanto agradar o consumidor com preços baixos... Será que, dentro de algum tempo, eles não vão combinar os preços entre si e impor seus preços? Ao produtor e ao consumidor!
Não será por falta de saquinhos plásticos. Por menor que seja o item, tudo é empacotado em separado. Os funcionários levantam os olhos espantados quando alguém pede gentilmente que utilizem menos saquinhos. No caixa do mercado, sempre sou forçado a me lembrar, desesperado, de uma imagem alucinante na Chapada Diamantina, Bahia. No meio da natureza desolada mora gente. E, portanto, toda a região está coberta de saquinhos plásticos: um fenômeno que também pode ser observado na África. Felizmente, um estudante de Níger desenvolveu uma solução criativa para o fluxo de toneladas de saquinhos plásticos: transformar uma mistura de saquinhos plásticos e areia em blocos de pavimentação (1).
Hoje é o último dos quatros dias de Carnaval. Em Chapecó, os festejos carnavalescos são menos vistosos do que os que ocorrem em Salvador da Bahia, Recife, Rio de Janeiro ou São Paulo. Recebo um e-mail do Padre Miguel, da cidade de Lauro de Freitas. Ele conta que, em Salvador, 1,5 milhão de pessoas estão dançando nas ruas! Durante quatro dias inteiros. Nesta terça-feira gorda, durante o dia, parece que a vida parou: ninguém nas ruas, praticamente não se vê carros, todas as lojas e restaurantes estão fechados. Uma exceção: no Brasão, é possível fazer compras e tomar um lanche. Verdadeira soberania alimentar. O ‘salvador da pátria’!
[Foto 22]
Feira da Agricultura Familiar, em Chapecó
[1] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1980.
Feira da Agricultura Familiar e concentração de supermercados.
Será que é assim mesmo? Ao caminhar em direção à Feira da Agricultura Familiar pode-se observar imagens bem diferentes: agricultores e agricultoras oferecem, com orgulho, os produtos de sua própria fabricação; consumidores que sabem porque estão aqui. São produtos da agroindústria familiar, em franca expansão em Santa Catarina, no Paraná e Rio Grande do Sul. Deste modo, a produção local – e também o processamento local destes produtos – se mantém nas mãos de agricultores. O valor agregado e a alegria do trabalho também. Será que não deveriam ser eles os primeiros a incentivar a ‘soberania alimentar’? Este tipo de feira é realizado três vezes por semana em Chapecó. Em dezenas de outras cidades e municípios você sente, nestas feiras de agricultores familiares, o pulsar do coração das comunidades locais.
Estou lendo aqui o relatório da OCDE (2) sobre as evoluções na agricultura brasileira. O que os saquinhos do Superpão e do Brasão ao lado das casas já haviam me mostrado é confirmado no relatório: “Estima-se que, no ano 2000, os supermercados detinham 75% da distribuição. Em 1990, este percentual era de apenas 20%.” Ou seja, a onda de liberalização da década de 1990 realizou bem o seu trabalho (3). Esta concentração de poder traz conseqüências de grande impacto na agricultura familiar. O relatório afirma que o cenário é particularmente desfavorável para aqueles que querem fornecer frutas, verduras e laticínios frescos. E estes são exatamente os produtos que representam a artéria vital da agricultura familiar. A maior parte das verduras e frutas (até 90%) comercializadas aqui é trazida do Ceasa de Curitiba, a 480 km de distância. Situação comparável com a importação de verduras da Holanda, que acabou com a olericultura na região de Hamburgo (Alemanha). Ou mais longe ainda: desde a década de 1960, a região de Almeria, na Espanha, é o ‘cinturão verde’ da Europa. Lá, milhares de africanos trabalham em estufas quentes e por um salário de fome. Os europeus? Bem, estes consomem, em média, 10 kg de verduras por ano da região de Almeria! Será que este leva-e-traz será neutralizado se os caminhões passarem a utilizar biodiesel? O biodiesel da agricultura familiar?
O paraíso dos shopping centers
Freqüentemente, os supermercados são apenas um componente de imensos shopping centers, que seguem o modelo norte-americano. A classe média gosta de circular nestes shoppings, nem sempre para comprar, mas também para ver e para ser visto. Além disso, é um lugar seguro, vigiado por serviços de segurança particulares. Mas até nisso pode haver mudança. As desigualdades na sociedade brasileira são tão grandes que os excluídos estão reivindicando sua parte de maneira cada vez mais agressiva. Há alguns meses, Curitiba foi sacudida por violência entre jovens em shopping centers. A bolha da ilusão do paraíso do consumo recebeu uma alfinetada.
Será que a agricultura familiar, com sua agroindústria familiar e suas feiras da agricultura familiar, não poderia se revelar um caminho mais seguro para o futuro? Rumo à segurança dos alimentos, segurança alimentar e soberania alimentar. Um mercado justo, onde – além disso – qualquer pessoa pode se sentir ‘segura’ e manter sua dignidade.
Produtor e consumidor.
Chapecó, 28 de fevereiro de 2006.
(1) Saquinhos de plástico constituem problema ambiental na África: <http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/4292205.stm>.
Buscando a solução: blocos de pavimentação feitos com saquinhos plásticos e areia, um projeto social com jovens, em Níger: <http://www.planeteafrique.com/Republicain-Niger/index.asp?affiche=News_Display.asp&ArticleID=2308>.
E uma ONG apóia o processo: <http://www.ipsnews.net/fr/_note.asp?idnews=2999>.
O governo da região de Valônia, na Bélgica, decidiu banir os saquinhos plásticos dos supermercados a partir de 2010 e de todas as mercearias a partir de 2012. Um pouco mais tarde, o governo federal seguiu o exemplo, criando um pequeno imposto sobre saquinhos plásticos. No Brasil, encontro de vez em quando, ao longo das rodovias, placas de sinalização informando que “o plástico leva 150 anos para se decompor”. Veja também o debate ‘Embalagens descartáveis de soja?’, no livro ‘Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano’. Desde maio de 2007, no Paraná, os supermercados estão sendo responsabilizados – com base na lei – pela poluição causada pelos saquinhos plásticos. O governo do Paraná, por meio da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) e os supermercados estão, agora, negociando sobre as alternativas: fornecimento de saquinhos de degradação mais rápida (18 meses), convencer os consumidores a utilizarem sacolas de pano, campanhas de reciclagem, etc. Veja <http://funverde.wordpress.com/2007/05/24/sacolas-plasticas-com-os-dias-contados-no-parana>.
(2) ‘Review of agricultural policies in Brazil [Análise das políticas agrícolas no Brasil]’, de Jonathan Brooks, OESO [OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico], 2005 ( n jonathan.brooks@oecd.org ). Mesmo que a OCDE seja um reservatório liberal de pensadores, ainda se encontram lá questões que valem a pena ser consideradas. Eles reconhecem, entre outros, como a agricultura familiar foi seriamente oprimida devido à onda de liberalização da década de 1990. Um fato bastante significativo é que o relatório se refere, constantemente, à ‘substituição das importações’: uma política que o Brasil conheceu de 1945 até o início da década de 1990. Como se a regra de ouro e ponto de partida da economia fosse ‘importação-exportação’. Ou seja, promover ao máximo o comércio internacional, transportando alimentos e bens de lá para cá e vice-versa. Esta ‘substituição das importações’ é interrompida pela ‘liberalização’, na década de1990.
(3) A concentração de poder dos supermercados é um fenômeno mundial. Enquanto as três maiores multinacionais de alimentos (Nestlé, Kraft e Unilever) detêm – cada uma – ‘apenas’ 3% do mercado mundial, os supermercados, em conjunto, detém com suas marcas próprias cerca de 12% do mercado. Eles impõem preços ao produtor e consumidor. Com suas marcas próprias, eles conseguem até suplantar as grandes multinacionais de alimentos.