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Soja out. Açúcar é a alternativa?

Luc Vankrunkelsven Muitos fazendeiros e pequenos agricultores chegaram ao final da safra agrícola de 2004/2005 desesperançados. Os preços internacionais da soja estão baixando desde junho de 2004. Na chegada da nova época de plantio, a partir de setembro, havia grande incerteza mas, mesmo assim, muita soja foi plantada. Os preços de adubos químicos e agrotóxicos subiram muito nos últimos anos, em conseqüência da…

Luc Vankrunkelsven

Muitos fazendeiros e pequenos agricultores chegaram ao final da safra agrícola de 2004/2005 desesperançados. Os preços internacionais da soja estão baixando desde junho de 2004. Na chegada da nova época de plantio, a partir de setembro, havia grande incerteza mas, mesmo assim, muita soja foi plantada. Os preços de adubos químicos e agrotóxicos subiram muito nos últimos anos, em conseqüência da euforia da soja. No final de 2004, a cotação do dólar ainda estava relativamente alta, porém, na época da colheita – início de 2005 – a cotação não parava de cair. Muitos dos insumos para a agricultura patronal vêm do exterior. Ou seja: cotação elevada do dólar = preço alto de adubos químicos e de agrotóxicos. Para piorar, nos anos de 2004 e 2005 ocorreram, no sul do Brasil, estiagens prolongadas que provocaram grandes perdas agrícolas.

E para completar, ao longo de 2005, o real se fortaleceu em relação ao dólar e ao euro. Os produtos brasileiros tornaram-se menos competitivos no mercado internacional.

Revolução desanimadora 

O resultado é uma grande crise e descapitalização dos agricultores, que não acreditavam que a história de sucesso teria fim. Às vezes, uma crise é o momento de mudanças. Será que os ideólogos da agricultura brasileira vão começar a refletir sobre seu modelo e suas vítimas?

Nestes meses está sendo realizado, em diversas regiões do Paraná, o ‘Fórum Futuro 10 Paraná’. No fórum, realizado no noroeste deste estado, os participantes ousaram questionar a monocultura. É que a região é formada por um solo arenoso extremamente frágil, com grande suscetibilidade à erosão. Mesmo assim, os fatos se sucederam muito rapidamente por aqui. A revolução agrícola iniciou-se muito recentemente, em 1997, com o Programa de Arrendamento de Terras – PATER. Desde então, uma explosão de soja expulsou os sistemas dominantes na região – cana-de-açúcar, gado de corte e café.

Álcool no tanque

Atualmente, a soja e todo o agronegócio estão em declínio. Estima-se que neste ano haverá uma redução de 2 milhões de hectares. Os agricultores não querem arriscar o investimento e, além disso, estão trilhando caminhos perigosos. Como as sementes certificadas são muito caras, eles freqüentemente compram sementes ‘piratas’ de soja, o que pode colocar toda a safra em perigo. As sementes ‘pirata’ são 50% mais baratas do que as sementes certificadas. Por isso, a participação destas últimas diminuiu de 90% (em 2002) para 66% (em 2004).

Os preços de todas as commodities estão sob pressão. As grandes exceções são o açúcar e o álcool. Isto está muito relacionado com a tendência internacional de fazer os veículos usarem o assim chamado ‘combustível verde’. O Brasil – que já tem experiência desde a década de 70 com o programa de álcool em larga escala – vê, agora, a oportunidade de ocupar este espaço. No noroeste do Paraná surgem novas usinas e elas usam estratégias agressivas para convencer os agricultores a cultivar cana-de-açúcar. Para pagar o arrendamento de suas terras, eles utilizam os preços garantidos nos contratos de cultivo para as usinas de açúcar e álcool. Não são somente os produtores de soja que fazem a mudança; os pastos para gado de corte também estão sendo convertidos em lavouras de cana-de-açúcar. Cenários semelhantes se desenrolam, por exemplo, em Goiás. O governo deseja que lá sejam implantadas, o mais rápido possível, 11 novas usinas. No norte do Espírito Santo, a produção de cana-de-açúcar está sendo quintuplicada. O Protocolo de Kyoto, em sua busca internacional por ar puro, faz com que a febre do álcool se espalhe por todo o Brasil sem, necessariamente, modificar o comportamento dos motoristas e impor uma redução nas indústrias de veículos. Além dos problemas ambientais da monocultura com seus ‘desertos verdes’ ainda resta a questão de se as emissões de veículos que utilizam etanol realmente são tão ‘limpas’. Marc Z. Jacobson, da universidade norte-americana de Stanford afirma: “Nos gases residuais de combustão do etanol há menos benzeno e butadieno, mas aumenta o conteúdo de formaldeído e acetaldeído. O produto E85 (85% de etanol e 15% de gasolina) produz uma quantidade significativamente maior de ozônio e apresenta maior risco de formação de smog[1] (1).” A inalação de ozônio leva ao desenvolvimento de problemas respiratórios crônicos e causa danos ao sistema imunológico. Ou seja, é necessário adaptar melhor os motores ao uso de etanol ou estaremos trocando seis por meia dúzia.. ‘Mais mortes e milhões de hectares de terra ocupados com etanol versus aquecimento global provocado pela gasolina: é como optar entre a peste e a cólera.’

 

[Foto 6]

Do ‘deserto’ de soja para o ‘deserto’ de cana-de-açúcar?

[1] Smog palavra inglesa que combina as palavras inglesas “smoke” e “fog” (fumaça e neblina).O smog ocorre quando a poluição ocorre em combinação com gotículas de vapor de água. Fonte: <http://www.ecologica.com.br/airp0dic.htm>. Consultado em jan. 2008.
 
Soja out? Açúcar in? 
 

Eu não acredito que uma monocultura possa ser a alternativa para outra monocultura. É o próprio modelo de desenvolvimento, incluindo o problema energético, que deve ser questionado. E nesse debate a agricultura familiar pode desempenhar um importante papel.

 

Guarapuava, 22 de outubro de 2005.

 

(1) <http://news-service.stanford.edu/news/2007/april18/ethanol-041807.html>.

 
 

Autoria preservada do acervo

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