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Soja, contaminação e envolvimento pessoal

Luc Vankrunkelsven Devido às comemorações dos 15 anos de existência de Wervel, recebemos muitos entrevistadores: desde o semanário Knack, passando por Boer & Tuinder , da Boerenbond , até Milieurama, da Bond Beter Leefmilieu . Wervel também organizou, em conjunto com a ONG Ieder voor Allen , da Boerenbond, alguns debates vespertinos, em Oudenaarde. Na véspera de minha viagem para o Brasil, 12 de outubro, o tema é…

Luc Vankrunkelsven

Devido às comemorações dos 15 anos de existência de Wervel, recebemos muitos entrevistadores: desde o semanário Knack, passando por Boer & Tuinder [Agricultor & Horticultor], da Boerenbond [Federação de Agricultores], até Milieurama, da Bond Beter Leefmilieu [Liga por um Meio Ambiente Melhor]. Wervel também organizou, em conjunto com a ONG Ieder voor Allen [Um por Todos], da Boerenbond, alguns debates vespertinos, em Oudenaarde. Na véspera de minha viagem para o Brasil, 12 de outubro, o tema é: ‘transgênicos e a fome no mundo’. Em novembro, o debate será sobre a Organização Mundial do Comércio (OMC) e os modelos agrícolas.

Envolvimento com os pés no chão

O público comparece em bom número e a noite começa com o novo DVD de Trias, no Paraná. Em seguida, desenrola-se um debate interessante. Louis De Bruyn, presidente de Wervel, acaba se destacando pelas suas intervenções precisas. Regularmente recebe apoio dos presentes, quando faz perguntas fundamentais acerca da imposição e invasão da ‘manipulação genética’ (OGM) no mundo em que vivemos. Isto me faz relembrar de um encontro na semana passada. O bem conhecido holandês conversava conosco sobre ‘envolvimento’ na educação, no jornalismo, na política, em instituições de um modo geral. Seu chefe, regularmente, reclamava: “Você é um bom pesquisador, mas se envolve demais!” Resposta a este chefe tão cristão: “O que é que você faz na igreja aos domingos?” Resposta: “Domingo é domingo e segunda é segunda. Uma coisa não tem a ver com a outra.” Será que isto é esquizofrenia total? E será então que a mensagem de fundo é que na ciência, no jornalismo, na política, nas igrejas você deve ser ‘neutro’, ‘insensível’ e ‘indiferente’?

Acho ótimo que Louis vincule a objetividade ao envolvimento. Assim, a emoção da santa indignação pode, gradativamente, entrar em equilíbrio com os fatos nus apresentados. Aliás, foi assim que Wervel surgiu: a partir da indignação com o que há de errado na agricultura e a partir da cólera despertada por esta esquizofrenia onipresente. Quando fui diretor do centro de reflexão, no mosteiro em Averbode, eu costumava encerrar os fins de semana com: “Caros amigos, amanhã é segunda-feira! Vamos fazer algo com isso? Ou será que este fim de semana de reflexão, este mosteiro, é tudo uma área de fuga no domingo, fora da realidade da segunda-feira?” A partir deste choque, às vezes surgiam iniciativas. Wervel foi uma delas.

Wervel irá bem enquanto vincular envolvimento e emoção a uma análise sóbria dos fatos.

Wervel irá mal se nós nos tornarmos um bando de tecnocratas ou nos guiarmos somente pela emoção.

Agricultura em grande escala: a contaminação

Na noite em questão, Kristof Volkaert, de ‘Ieder voor Allen’, e o professor Rony Swennen, da Universidade Católica de Leuven, deram suas distintas contribuições. Em relação a OGMs e visão da agricultura, a posição de Kristof Volkaert parece estar mais próxima das idéias de Wervel. De Rony Swennen, é principalmente sua reação à ‘contaminação’ que me mantém refletindo. Em Flandres [Bélgica], o debate imposto a partir da União Européia trata principalmente de ‘co-existência’: como fazer para que agricultura convencional, agricultura orgânica e agricultura com OGMs existam lado a lado? Será que na cidade-estado Flandres existe alguma possibilidade de manter estas três formas de agricultura lado a lado, sem que a agricultura com OGMs contamine as outras formas? Pense em colza, que apresenta troca de pólen a muitos quilômetros de distância.

Da platéia surge a pergunta: “No Brasil, ainda é possível separar a soja transgênica da convencional e da orgânica? Como é que está a contaminação no Paraná?”

De acordo com o que me lembro, Rony Swennen respondeu: “Eu sempre tenho um pouco de dificuldade com esta pergunta sobre contaminação. A soja é uma cultura tradicional da China e é, há séculos, um cultivo importante por lá. Simplesmente pegar e introduzir em massa esta espécie em um outro continente é – na verdade – a grande contaminação.”

O que será que o homem quis dizer com isso? Será que ele viu os imensos desertos verdes nos Estados Unidos, Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia? Ou será que ele está se referindo a outra coisa? Estes pensamentos me ocupam enquanto sobrevôo o oceano e medito sobre a triste paisagem que agora começa a dominar a América Latina.

Como quero citar os outros corretamente nos textos e não me apropriar das citações de outra pessoa, eu entrei em contato com Rony ao chegar no Brasil. A internet nos une com a seguinte explicação: & ldquo;Eu sempre tenho um pouco de dificuldade com esta pergunta sobre contaminação. Primeiro, e principalmente, porque há uma insinuação de poluição – o que não é o caso. Mas, se é para criar caso sobre a dispersão de genes na natureza, isto deve ser analisado em perspectiva. A soja é uma cultura tradicional na China. Simplesmente pegar e introduzir em massa esta espécie em um outro continente pode ser, considerando o fato em si, a grande contaminação. Porém, com isso ninguém tem problemas, nem eu. O verdadeiro problema está na agricultura empresarial, à qual todos estão subordinados. Trata-se, portanto, de um sistema agrícola muito suscetível a críticas, e não da soja transgênica em si.

[foto 3]

Roundup: onipresente nas feiras agrícolas brasileiras

Contaminação da dependência extrema

A resposta de Rony é, para mim, uma lição sobre ouvir e interpretar. O ser humano possui a tendência de ouvir algo que pode fortalecer seu próprio ponto de vista. Obviamente, eu havia compreendido Rony de maneira diferente, a partir de minha própria visão sobre ‘contaminação’. Para mim, há um problema, sim, na introdução descuidada de genes, a começar com os ‘genes humanos’ que – a partir do ano de 1500 – invadiram este continente. Os povos indígenas que o digam. Eles foram dizimados aos milhões – entre outros fatores, devido ao contato com a varíola dos europeus. Não quero ser um fascista, que defende a raça pura. Eu tenho admiração pelo povo que resultou da intensa miscigenação de ‘índios’, africanos, europeus, japoneses, chineses. Mesmo assim… Nem tudo pode ser considerado extraordinariamente positivo, mas isto merece outra crônica. E o que pensar do que nós mesmos passamos na Europa há dois mil anos? O que restou da cultura celta, exceto alguns resquícios na Bretanha, Irlanda, Gales, as ilhas Hébridas (logo acima da Escócia)? Stonehenge não é um testemunho impressionante de uma cultura ‘atropelada’?

 

[foto 3 bis]

Extrema dependência dos gigantes da indústria química

 

Mas vamos ficar, neste momento, com a danada da soja. Efetivamente, o problema é o sistema de produção destrutivo, mas – para mim – a soja Roundup Ready em si também é um problema. Na Argentina, Brasil e, desde há pouco tempo, também no Paraguai e Bolívia, significa 100% de dependência de uma única empresa: Monsanto. Dependência de uma mesma empresa que produz a substância química (Roundup) e a semente, ‘feita sob medida’ para o produto-maravilha Roundup. Pesquisas recentes nos revelam que as dez maiores empresas de sementes controlam 50% do mercado mundial. Em relação ao mercado de sementes transgênicas, a mesma Monsanto controla 88% do mercado mundial. E parece que o debate sobre o ‘gene terminator’ (1) está sendo retomado, a partir do Canadá. Graças a uma mobilização global conseguimos, no final da década de 1990, impedir que a Monsanto continuasse desenvolvendo a ‘introdução da morte no poder de germinação de nosso planeta’. Aparentemente, as multinacionais não aceitaram bem esta proibição. Isto requer um alerta renovado de todos aqueles que se preocupam com a (agro)biodiversidade do planeta.

Roundup contém glifosato. A última palavra ainda não foi dada sobre o efeito destruidor deste produto na vida da água e do solo. E ainda nem falei da migração de genes. Há outros que entendem mais deste assunto do que eu.

 

Rony é um renomado pesquisador e melhorista de variedades de banana, a serviço da população rural na Ásia, América e África (2). Às vezes, ele utiliza em seu trabalho métodos de engenharia genética. Ele faz isto com convicção e uma consciência tranqüila. Eu acho que é normal que a posição a partir da qual se trabalha contribua para determinar sua forma de pensar. O ‘local de trabalho’ de Rony que, a partir de Leuven, atua em todos os continentes é diferente da minha, trabalhando em ambos os lados do oceano. Estamos, ambos, ‘envolvidos’ no trabalho, mas envolvimento não quer dizer que as pessoas compartilham as mesmas idéias. A partir do envolvimento é possível, até, estarmos em posições diametralmente opostas.

 

Vamos manter o debate aberto. Pode ser?

 

Guarapuava, 28 de outubro de 2005.

 

(1)   <http://www.banterminator.org> (em inglês).

(2)   <http://www.biw.kuleuven.be/dtp/tro/home.htm> (em inglês e holandês).

Autoria preservada do acervo

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