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SOCIEDADE VEGETARIANA BRASILEIRA: tópicos sobre eugenia, moral e higiene por meio da trajetória de Francisco Jaguaribe (1917-1923)

MARIA GABRIELA BERNARDINO Casa de Oswaldo Cruz (FIOCRUZ/RJ) https://orcid.org/0000-0002-3599-8902LEONARDO DALLACQUA DE CARVALHOUniversidade Estadual do Maranhão (UEMA) DOI: https://doi.org/10.18817/ot.v21i37.981 Palavras-chave: Eugenia. , Francisco Jaguaribe. , Sociedade Vegetariana Brasileira. Resumo A pesquisa apresenta a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) durante a segunda década do século XX. Dois pontos, em…

DOI: 

https://doi.org/10.18817/ot.v21i37.981

Palavras-chave: 

Eugenia. , Francisco Jaguaribe. , Sociedade Vegetariana Brasileira. 

Resumo

A pesquisa apresenta a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) durante a segunda década do século XX. Dois pontos, em especial, são privilegiados na análise das fontes: o primeiro é relativo ao envolvimento do cartógrafo Francisco Jaguaribe de Mattos na sociedade. O segundo versa como os discursos de higiene e antialcoolismo estiverem presentes nas preocupações da SVB em vista de um ideal de moralidade e nação. O desdobramento dessa última discussão nos levou ao encontro das propostas eugenistas abordadas nos textos da SVB. Assim, buscamos responder qual era o teor e a finalidade desse discurso eugênico para as suas propostas em torno do vegetarianismo. O resultado da pesquisa aponta a maneira como Jaguaribe e a SVB articularam uma proposta de reformismo nacional apoiada na eugenia.

A relação de Francisco Jaguaribe e a Sociedade Vegetariana Brasileira

A discussão que envolve este artigo é desdobramento da tese recentemente publicada a respeito da trajetória do principal cartógrafo da Comissão Rondon, Francisco Jaguaribe de Mattos (1881-1974). Durante a feitura do trabalho, devido à impossibilidade de analisar com mais vigor todos os pontos de sua trajetória, algumas questões pedem um olhar mais individualizado. Desse modo, a proposta desta abordagemé analisar a relação entre o cartógrafo Francisco Jaguaribe e a Sociedade Vegetariana Brasileira, fundada ainda nas primeiras décadas da República. Com base nasfontes selecionadas buscamos explorar discussões contextuais como higiene, moral e eugenia, que estavam na ordem do dia dessa sociedade. De saída, embora este texto trate de temas inéditos a respeito da Sociedade Vegetariana Brasileira e da participação de Francisco Jaguaribe, consideramos este artigo um texto introdutório que pode servir de base para pesquisas mais ampliadas sobre o assunto.

A historiografia portuguesa também tem demonstrado interesse no passado de movimentos em prol do vegetarianismo, seja por meio de uma exposição na Universidade do Porto(Pereira, 2019)ou através dos recentes trabalhos publicados pela pesquisadora Isabel Braga (Universidade de Lisboa). Em ambos os casos as iniciativas estão relacionadas à análise da Sociedade Vegetariana de Portugal e seus respectivos membros. A razão pela qual os estudos lusitanos sobre o tema se tornam ainda mais interessantes é pelo fato de as sociedades brasileira e portuguesa serem contemporâneas e, como veremos, dialogarem entre si.

Nesse sentido, algumas questões podem ser colocadas: as razões que teriam levado Jaguaribe ao vegetarianismo, o que foi a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) e em que medida o cartógrafo esteve envolvido com a associação. É possível que as três respostas sejam fundidas ao se entender o funcionamento da SVB.

Francisco Jaguaribe Gomes de Mattosera membro de uma tradicional família cearense, do tronco Alencar2e neto do Visconde de Jaguaribe; optou em seguir para o Rio de Janeiro, onde matriculou-se na Escola Militar e trilhou carreira no exército brasileiro, dedicando 42 anos de sua vida à cartografia da conhecida Comissão Rondon, na qualfoi responsável pelaconfecção de uma carta para o estado de Mato Grosso(1952)(Bernardino, 2017).

Pouco se sabe sobre a Sociedade Vegetariana Brasileira fundada na Primeira República. Nem mesmo a atual SVB3, criada em 2003, sabia da existência de uma associação de vegetarianos no Brasil tão antiga. Ao pesquisar trabalhos acadêmicos ou não especializados, as únicas referências encontradas sobre a tal sociedade foram os informes nas páginas dos jornais da época, alémde uma menção no artigo da pesquisadora Isabel Braga (2018). Deve-se considerar que, embora existisse a Sociedade Vegetariana Brasileira com sede no Rio de Janeiro, então capital da República, também coexistiam sociedades vegetarianas autônomas em outros estados do Brasil, replicando o caráter federativo da época. Uma delas, inclusive, aparece em 1913, quando o impresso periódico O Paíznoticia que,em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, será fundada uma sociedade vegetariana,a qual, de início, contaria com um número razoável de membros4. Portanto, a contribuição deste artigo é mapear as iniciativas que tiveram a participação de Francisco Jaguaribe e não, necessariamente, realizar um estudo de fôlego sobre o vegetarianismo da época. Contudo, apoiadonas fontes pesquisadas, é possível alcançar uma análise acerca do tema.

As pesquisas nos periódicos começaram emdezembro de 1916, quando a Sociedade Naturalista Brasileira passou a se chamar Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB)5e acabaram em 1923 por dois motivos: não foram mais noticiadas realizações da SVB,e Francisco Jaguaribe partiu para uma temporada de alguns anos em Paris. Em 1916, também encontramos a divulgação e a circulação da Revista Naturista,que era publicada em São Paulo e contava com a colaboração de brasileiros e portugueses. Assim dizia O Paiz:“Constitui assim, pois, uma agradável e útil leitura para todos os que se interessarem com o assunto desse gênero”6.

No início, Jaguaribe ocupava o lugar de primeiro secretário da SVB. As reuniões semanais ocorriam em sede provisória localizada na Rua Sete de Setembro, 183 –sobrado,

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2Francisco Jaguaribe era primo do escritor José de Alencar, autor-chave do romantismo brasileiro.

3Para mais informações sobre a atual Sociedade Vegetariana Brasileira acesse o site da instituição. Disponível em: https://www.svb.org.br/Acesso em: 19 set. 2019.

4RIO Grande do Sul. O Paiz, Rio de Janeiro, ano 29, n. 10.627, 11 nov. 1913. p. 8.

5A Noite, Rio de Janeiro, ano 7, n. 1.798, 19 dez. 1916.p. 5.

6O Paiz, Rio de Janeiro, ano33, n. 11.747, 5 dez. 1916.p. 4.

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Centro –Rio de Janeiro. Era bastante comum a visita de conferencistas que propagavam os benefícios do vegetarianismo, entre outros temas, como será desdobrado adiante. É relevante destacar que Jaguaribe era extremamente presente e, dificilmente, alguma notícia sobre a SVB não possui o seu nome relacionado, mesmo como primeiro secretário. Prova do seu caráter representativo na SVB está na presidência da sociedade ocupada por Francisco Jaguaribe durante 1918, 1919 e 1923. Ainda sobre a direção da sociedade, foi possível mapear, por meio das notícias dediferentesjornaisacerca das eleições, a composição de seus membros nos anos de 1917, 1918, 1919 e 1923, conforme exposto na tabela abaixo:

Tabela 1 – Membros da Sociedade Vegetariana Brasileira em 1917, 1918, 1919 e 1923

Cargo1917191819191923
PresidenteDr. Gustavo ArmbrustFrancisco JaguaribeFrancisco JaguaribeFrancisco Jaguaribe
Vice-PresidenteDr. César da FonsecaDr. João VolmerCícero Bernardino dos SantosPedro Cardoso Filho
1º SecretárioFrancisco JaguaribeCândido Gomes CraveiroAcácio de LannesAffonso Costa
2º SecretárioJohn RebeBento de OliveiraAntonio Flora NogueiraErnani Abreu
TesoureiroCrimilde Leite de AguiarCrimilde Leite de AguiarCrimilde Leite de AguiarMiguel Corbella
BibliotecárioAntonio Flora NogueiraAcácio de LannesJoaquim SallesNoas A. Aguiar
Conselho FiscalDr. Augusto Mathiesen,
Antônio Aranha Meira
de Vasconcellos e Acácio
de Lannes
Dr. Gustavo Armbrust,
Cícero Bernardino dos
Santos e Antonio A.
Rodrigues Quintães
Dr. João Volmer,
Dr Gustavo Armbrust e
Cândido Gomes Craveiro
Dr. Carneiro Leão,
Julio de Oliveira e
Baptista da Gama
Fonte:Tabela montada pelos autores.

Em 1917, sob a presidência do médico paulista Dr. Gustavo Armbrust (1879-1953), foi inaugurado o curso de conferências. Nessa altura, a sede havia se deslocado para a Rua Primeiro de Março, 15 –Centro, Rio de Janeiro (edifício da Sociedade Nacional de Agricultura). A relação de conferencistas e seus respectivos temas revela os pilares defendidos pelos vegetarianos desse período. Por isso, é essencial mapearalgumas das palestras que foram proferidas, assim como os seusconferencistas.

Na primeira reunião logo após ser definida a mesa diretora, ainda em 1917, ficou estabelecida a necessidade de se alugar um armazém para oferecer a preços médios frutos em pontos estratégicos da cidade. Entre os alimentos deveria ser privilegiado o pão integral7.

Em 1920, a SVB recebeu o médico-naturista português Amílcar de Sousa (1876-1940). Segundo a notícia de sua chegada à cidade, Amílcar era bastante conhecido no Brasil devido à sua obra de propaganda vegetarista. Braga defende que, seguramente, Amílcar de Sousa foi o maior entusiasta do vegetarianismo português durante a primeira metade do século XX (BRAGA, 2018, p. 660). Além de tudo, o “apóstolo verde”8foi diretor da revista portuguesa O Vegetarianismo(1909-1935) e autor de diversos livros sobre o assunto, como por exemplo: O Naturismo, A Saúde pelo Naturismo, A cura da prisão de ventre, A redenção, O naturismo em vinte lições, Banhos de Sole Arte de Viver. Essa última obra também foi editada no Brasil pela Sociedade Vegetariana Brasileira e teve o seu prefácio feito por Francisco Jaguaribe. Infelizmente, não foi possível ter acesso ao livro. No entanto, ao realizar contato com a pesquisadora Isabel Braga, que possui a versão portuguesa da publicação, constatamos que não havia o prefácio de Jaguaribe. Amílcar de Sousa passou pouco mais de um mês no Rio de Janeiro e fez três conferências organizadas pela SVB.

No caso de publicações brasileiras, localizamos dois números (novembro e dezembro de 1924) da publicação O Bem –Órgão de Propaganda Naturistana Biblioteca Nacional. O periódico contava com a direção de Crimilde Leite Aguiar,que,por anos,desempenhou a função de tesoureiro na SVB, além de ser proprietário do restaurante “A Vegetariana”. Jaguaribe apareceu entre os colaboradores da revista e como presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira. O Bem se baseava principalmente em publicar receitas vegetarianas e relatar os benefícios de frutas e legumes. Ao final de cada página, havia uma frase radical como: “Os corpos sobrecarregados pela carne são esmagados pela doença”, ou,ainda, “O dinheiro dá alimento, mas não dá saúde, com ele se obtém o remédio e as comidas complicadas que abreviam a morte”.

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7 SOCIEDADE Vegetariana Brasileira. O Paiz, Rio de Janeiro, ano 33, n. 11.790, 5 dez. 1917.p. 4.

8Forma pela qual Amílcar se intitulava e a professora Isabel Braga(2018)utilizou no título de sua obra: Das origens do vegetarianismo em Portugal: Amílcar de Sousa (1876-1940), o “apóstolo verde”.

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Figura 1 - Capa e contracapa da revista O naturismo

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Fonte: Pereira (2019).

Figura 2 - Capa da Revista O Bem e uma página interna com a menção de Francisco Jaguaribe entre os colaboradores

Fonte: O Bem (1924)9.

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9 O Bem, Rio de Janeiro, ano 1, n. 2, dez. 1924. Fundação Biblioteca Nacional.

A revista também se encarregou de homenagear Francisco Jaguaribe e a sua dedicação ao vegetarianismo no Brasil, na ocasião em que cartógrafo saiu do país para viver em Paris, no final de 1924:

[...] Para aqueles que acompanham com interesse a evolução das doutrinas naturistas entre nós, o nome do Capitão Jaguaribe é dos mais familiares, pois desde moço dedicou todas as energias de seu temperamento e primícias de seu privilegiado talento na propaganda sistemática e inteligente das ideias e doutrinas de que se constituiu quase um apóstolo.Presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira nunca poupou esforços ou sacrifícios para seu engrandecimento e progresso e sua administração fecunda tem sido o reflexo de seu espírito energético e combativo.Com nossos saudosos adeuses apresentamos a S. S. Exma. consorte os nossos votos de boa viagem e os sinceros desejos que a comissão que vai agora desempenhar seja coroada de mais feliz êxito.Na ausência do Sr. Capitão Jaguaribe de Mattos assumirá a presidência da Sociedade Vegetariana Brasileira o Sr. Pedro A. Cardoso Filho, vice-presidente da mesma10.

A despedida publicada nas páginas de O Bem é mais uma indicação sobre a dimensão do envolvimento entre Francisco Jaguaribe e o vegetarianismo no Brasil durante a Primeira República.

Alcoolismo e higiene na Sociedade Vegetariana Brasileira

O conceituado médico fisioterapeuta Dr. Domingos Jaguaribe (1848-1926), tio do então presidente da associação, Francisco Jaguaribe, também palestrou no salão nobre do Jornal do Comérciosobre o tema “Contra o flagelo alcoólico –higiene preventiva e repressiva psicoterápica”. Entre outras credenciais, o médico havia participado da fundação da Liga Antialcoólica (1904), além de ter fundado e dirigido o Instituto Psicofisiológico (1905) em São Paulo (Viana; Zanetti; Papalli, 2014, p. 1.350).

À época, o alcoolismo se tornou uma das peças centrais no discurso remodelador da nacionalidade brasileira.O começo do século XX foi decisivo para a institucionalização da psiquiatria no Brasil. Fernando Santos e Ana Carolina Verani (2010, p. 402) ressaltam a convicção dos médicos e psiquiatras de que a bebida alcoólica produziria sintomas semelhantes àqueles apresentados por alienados mentais, de modo que o efeito poderia ser transitório ou permanente, a dependerdas desordens psíquicas. Ainda para os autores, os especialistas acreditavam que o álcool era responsável porintoxicação, causando doenças mentaise agravandodoenças existentes. Predisposições ao alcoolismo ampliavamas

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10 O Bem, Rio de Janeiro, ano 1, n. 2, dez. 1924.Fundação Biblioteca Nacional.

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possibilidades dos perigos do consumo na sociedade, especialmente com o avanço dos estudos de hereditariedade e degenerescência.A produção de degenerados em razão da ingestão do álcool, seja ele destilado ou fermentado, era pensada como um risco individual e coletivo–individual pois poderia gerar sujeitos irrecuperáveis, como o caso do serial-killer Febronio Índio do Brasil, cujo pai foi considerado um alcoolista(Carvalho; Souza, 2016); coletivo, uma vez que,sem o devido cerceamento, o aspecto reprodutivo da nacionalidade estaria comprometido pela degeneração. Assim, o álcool se tornava uma doençadosocial. À luz da modernidade, o problema alcoólico se enraizava nas questões e nos conflitos sociais, como liberdade, trabalho e capitalismo, ou mesmo em projetos de reformulação da população por meio do controle hereditário e reprodutivo.

Movimentos como o do saneamento brasileiro, liderado por Belisário Penna(1922), eram leituras de país que buscavam ações transformadoras e integracionistas de Brasil. Sociedades e Ligas –como a Liga Pró-Saneamento do Brasil, Liga Contra a Tuberculose, Liga Brasileira de Higiene Mental, Liga Antialcoólica –reuniam intelectuais dispostos à revisão do país em busca de um diagnóstico para aquilo que consideravam os seus principais problemas para alcançar o statusde civilização, ao modelo europeu. Como explica Lúcia Lippi Oliveira, a primeira Guerra Mundial trouxe novas interpretações para o sentido do nacionalismo, pois amar a pátria apenas considerando a sua imponência natural, racial ou territorial não era suficiente. Agora, havia a necessidade de pensar programas de luta e organização de movimentos que deveriam agir na salvação do país (Oliveira, 1990, p. 145).

No agrupamento de Penna(1922), por exemplo, doenças, alimentação, analfabetismo e alcoolismo assumiram protagonismos para a condição de país atrasado. Por sua vez, o consumo de álcool seria um flagelo que degeneraria permanentemente o corpo do indivíduo, por meio da hereditariedade e da reprodução, bem como os costumes, a moral e o trabalho. Vejamos o que diz o saneador mineiro:

Porque não se compreende, Snrs., que depois de cientificamente provado ser o álcool um tóxico dos mais perigosos e de consequências as mais funestas para o indivíduo, para a família, para a sociedade, para a raça e para a espécie; depois evidenciado que ele não possui uma única virtude; que ele não é alimento nem agente terapêutico; e ainda mais que é exclusivamente um veneno diabólico, em qualquer dose e sob qualquer forma, não se compreende, Snrs., que se possa ter como esse espírito mau qualquer contemplação, a menos que já estivéssemos de tal modo dominados pelo gênio da degeneração, de tal forma fascinados pelo demônio da humanidade, que não nos restassem mais energias para reagirmos e o expelirmos definitivamente do nosso convívio (Penna, 1922, p. 60).

A preocupação de Belisário Penna (1922) em relação ao alcoolismo, entre outras, estava na hipótese de que a bebida poderia possuir algum tipo de valor nutricional, a ponto de representar uma recomendação alimentar. Penna(1922)não apenas rechaça a ideia da sua virtude como alimento como elenca os problemas de ordem moral e social que o consumo acarretaria para a nacionalidade. Nesse sentido, discussões que envolvem o valor nutricional dos alimentos e os problemas do alcoolismo eram destaque na organização de algumas dessas ligas de salvação nacional. Como consequência, tais movimentos indicavam a necessidade de reformas pela mão do Estado, propostas de ações centralizadas, especialmente no âmbito da saúde pública (Lima; Hochman, 1996; Carvalho, 2019).

Para mapear com maior precisão a movimentação antialcoólica na década de 1920, devemos lembrar a atuação da Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM). Fundada em 1923 pelo médico gaúcho Gustavo Riedel, a LBHM se destacou, entre outras, pela circulação de um periódico em1925 intitulado de Archivos Brasileiros de Higiene Mental. Como contaJosé Roberto Franco Reis (1994, p. 73), no final daquela década, as “Semanas antialcoólicas”, organizadas anualmente, representaramuma bandeira da LBHM,recebendo o apoio de parte da elite nacional. O dilema alcoólico nãoera considerado um problema apenas no Brasil. Na América Latina, em países,como a Colômbia, a luta antialcoólica foi da educação à repressão, e teve na chicha –uma bebida tradicional fermentada –um dos seus principais focos de ação. No estudo de Carlos Ernesto Noguera (2004, p. 116), a elite colombiana entendia,nas primeiras décadas do século XX,que o alcoolismo era um dos principais obstáculos para o país rumar ao progresso.

Diferentes setores da sociedade condenavam o uso da bebida alcoólica. Isso compete também à SVB. Na discussão do Dr. Domingos Jaguaribe sobre o flagelo alcoólico, o médico apresentou casos clínicos e demonstrou práticas sobre o emprego da hipnose como meio terapêutico11. A palestra foi bastante anunciada e repercutida, uma vez que o alcoolismo era extremamente malvisto pelos vegetarianos da época. Foi até mesmo divulgada uma proposta de “tratamento” aos interessados em curar a doença a fim de serem apresentados na conferência de Domingos Jaguaribe:

Curando os ébrios naturalmente: Comunica-nos a secretaria da Sociedade Vegetariana Brasileira que devendo o Dr. Domingos Jaguaribe realizar em breve uma conferência de combate ao alcoolismo, na qual pretende apresentar pessoas curadas pelo método da hipnose, recebe em sua clínica gratuitamente, ébrios consuetudinários, que queiram se libertar do terrível mal. As pessoas interessadas se poderão entender com o 1º. Secretário, Sr. Acácio de Lannes, à Rua do Rosário, 9612.

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11 A Noite, Rio de Janeiro, ano 10, n. 3.060, 18 jun. 1920.p.1.

12 O Imparcial, Rio de Janeiro, ano 10, n. 1.509, 7 jun. 1920.p.3.

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Embora os dois conferencistas tenham participado de palestras no âmbito da Sociedade Vegetariana Brasileira no ano de 1920, sob a presidência de Francisco Jaguaribe, ambos levantavam tais bandeiras há mais de uma década. Aliás, o assunto relativo aos males ao álcool tem um passado histórico que antecede o século XX.

No trato com a documentação foi possível encontrar duas cartas de Amílcar de Sousa destinadas a Domingos Jaguaribe na Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional. As correspondências eram de 1913 e 1914. No primeiro escrito13, Amílcar de Sousa inicia a sua carta parabenizando o livro de Domingos Jaguaribe, intitulado O veneno moderno: causas da degeneração social (1913). Ademais, segue elogiando o médico:

Vossa Excelência é um apóstolo... A propaganda contra o álcool é tenaz, oportuna, persistente e digna. Vossa Excelência honra o seu país, como um dos sábios mais trabalhadores, permita--me que lhe envie um abraço de fraternal amizade...14

Após a enxurrada de elogios ao médico brasileiro, Sousa relatou os benefícios da dieta naturista e da ginástica rítmica respiratória, colocando-se como exemplo central. O “apóstolo verde” encerrou relatando que curou mais de cem doentes de lepra e tuberculose por meio do Naturismo. Mais uma vez, a questão de saúde e higiene aparece como resposta de natureza alimentar.

Em sua segunda carta, Sousa agradece a correspondência do médico brasileiro, assim como o envio do livro As Bases da Moral (1914). Amílcar de Sousa promete escrever merecidas referências sobre a obra de Domingos Jaguaribe em sua revista O Vegetariano15. Outro ponto interessante citado no documento diz respeito ao “intercâmbio de relações morais” e à vontade de que o médico expressa em viver nos trópicos:

Estou firmemente seguro que Vossa Excelência levará os meus desígnios e os acolherá com afeto [...] Quem me dera poder sair livremente deste país. Não sou meu. Tenho o dever de estar ao pé da família. Mas aí ou em qualquer local da Zona Tropical é que eu deveria viver e ensinar o Naturismo. Pode ser que um dia vá lhe dar um abraço. Creio que qualquer que seja a doença se cura tornando o sangue puro, vivendo ao ar e ao sol sem vestuário, no clima próprio16.

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13 SOUSA, Amílcar de. Carta a Domingos Nogueira Jaguaribe Filho. Porto, 16 dez. 1913. Manuscritos –Fundação Biblioteca Nacional.

14 SOUSA, Amílcar de. Carta a Domingos Nogueira Jaguaribe Filho. Porto, 16 dez. 1913. Manuscritos –Fundação Biblioteca Nacional.

15 SOUSA, Amílcar de. Carta a Domingos Nogueira Jaguaribe Filho. Portugal, 11 fev. 1914. Manuscritos –Fundação Biblioteca Nacional.

16 SOUSA, Amílcar de. Carta a Domingos Nogueira Jaguaribe Filho. Portugal, 11 fev. 1914. Manuscritos –Fundação Biblioteca Nacional.

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Tendo em vista a troca de correspondências, ideologias, valores e livros, conforme exposto, é possível afirmar que o intercâmbio vegetariano entre Brasil e Portugal começou há pelo menos sete anos antes da chegada de Amílcar de Sousa em terras brasileiras.

Figura 3 - Domingos José Jaguaribe Filho

Fonte: Domingos(2014).

Figura 4 - Capa do livro As Bases da Moral (1913)

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Fonte: As Bases (2010).

Conseguimos mapear por meio de diferentes periódicos as conferências realizadas pela Sociedade Vegetariana Brasileira, com os seus respectivos títulos, datas e palestrantes. A montagem da tabela foi um dos grandes esforços da investigação, direcionando-nos a perceber tanto o tom radical de seus discursos quanto as suas posições analisados por meio desses eventos. Um exemplo foi a presença do professor Dom Esteves de Dulin, em palestra intitulada “Vinte argumentos em favor do vegetarianismo”, realizada em 21 de janeiro de 1921, na Sede da União dos Empregados do Comércio com auditório lotado, comprova tal premissa:17

O orador, começando, provou como a prática do vegetarianismo influi no prolongamento da vida, uma vez que essa prática seja perfeita, para o que depende boa mastigação dos alimentos, assim como mostrou que a alimentação vegetal influi na beleza e no aspecto dos indivíduos. Diz o orador que os carnívoros, com o costume de matar os animais para a sua alimentação, chegam a ponto de considerar fato natural a matança dos seus semelhantes e nesse ponto chega à conclusão de que, quando a generalidade dos homens for vegetariana, será consideravelmente menor a proporção de crimes na humanidade18.

Tabela 2 - Conferências realizadas na Sociedade Vegetariana Brasileira

ConferencistaConferênciaLocal/data
Dr. Oscar de SouzaO VegetarianismoSalão Nobre da União dos Empregados do
Comércio, 22 de outubro de 1917.
Dr. Plácido BarbosaO pãoSalão Nobre da União dos Empregados
do Comércio, 22 de outubro de 1917.
Cícero Bernardino dos SantosNaturismo prático e práticas naturistasSalão Nobre da Biblioteca Nacional,
03 de novembro de 1919.
Dr. Amílcar de SouzaA Doutrina NaturistaSede da SVB, 04 de abril de 1920.
Dr. Amílcar de SouzaA cura pela NaturezaSalão Nobre do Jornal do Comércio,
14 de abril de 1920.
Dr. Amílcar de SouzaA regeneração humanaSalão Nobre da Biblioteca Nacional,
20 de abril de 1920
Dr. Domingos JaguaribeContra o flagelo alcoólico-higiene preventiva e repressiva psicoterápicaSalão Nobre do Jornal do Comércio,
14 de abril de 1920.
Jean Esteves DulinEsboço do Naturismo IntegralSede da SVB, 09 de outubro de 1920.
Jean Esteves DulinVinte argumentos a favor do VegetarianismoSalão Nobre da União dos Empregados do
Comércio, 18 de janeiro de 1921.
Jean Esteves DulinSaúde e enfermidade à luz do critério naturistaSede da SVB, 04 de março de 1921.
Jean Esteves DulinO Brasil é um vasto hospital. Por quê?Sede da SVB, 29 de abril de 1921.
Pedro Cardoso FilhoEvolução histórica brasileiraSede da SVB, 28 de abril de 1922.

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17Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, ano 31, n. 22, 22 jan. 1921.

18Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, ano 31, n. 22, 22 jan. 1921.

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Além das conferências, a Sociedade Vegetariana Brasileira também atuava propagando o vegetarianismo em determinados eventos. Um caso interessante ocorreu em 1918, sob a presidência de Francisco Jaguaribe, em relação aos preparativos da 4ª Exposição Nacional do Milho, que ocorreria entre os dias 10 e 15 de agosto daquele ano nos terrenos do antigo Convento da Ajuda (atual Praça da Cinelândia). Necessitando de auxílio para o festejo, a Sociedade Nacional de Agricultura, por meio de seu vice-presidente, Dr. Miguel Calmon du Pin e Almeida (1879-1935), procurou a SVB em busca de ajuda para a exposição. Prontamente, Francisco Jaguaribe respondeu:

Exmo. Sr. Dr. Miguel de Calmon du Pin e Almeida, temos a honra de comunicar a V. Ex. em resposta ao atencioso ofício dessa operosa agremiação, que a Sociedade Vegetariana Brasileira , tomando no devido empenho o apelo que lhe fez sua distinta coirmã e considerando os elevados propósitos de propagandacom que se vai efetuar a Exposição Nacional do Milho, prontifica-se a prestar todo auxílio a seu alcance , já solicitando o apoio individual de todos os vegetarianos para esse útil empreendimento, já aceitando o encargo do fazer funcionar o restaurante durante o tempo que durar a exposição, conforme V. Ex. sugere.

Para esse fim, temos a honra de apresentar a V. Ex. o Sr. Crimildo Leite de Aguiar, tesoureiro desta sociedade e sua senhora Anna Ramos de Aguiar, que mantem uma pensão vegetariana à Rua da Alfandega, 120, onde, na prática diuturna da confecção de pratos do milho, em concorrência com outros cerais e legumes, adquiriram habilidade necessária para assegurar a eficiência da futura prova pública em sujeito

Igualmente apresentamos a V. Ex. o Sr. Acácio de Lannes, bibliotecário desta sociedade, e distinto negociante de frutase atualmente com casa de plantas medicinaisà Rua Buenos Aires, 234, que servindo-se igualmente de sua experiência profissional, pode prestar direto apoio à causa que pleiteamos.

Todas essas pessoas, auxiliadas por outros consócios, se prestarão, gratuitamente, ao desempenho do programa que V. Ex. nos traçou.

Tratando-se de uma exposição festiva, a qual se incorporam produtos do porco, uma restrição cabe solicitar à diretoria da Sociedade Nacional de Agricultura (e talvez aqui a enumeremos pleonasticamente): a do que, no pavilhão porventura destinado à Sociedade Vegetariana Brasileira possamos – fiéis ao nosso programa–vedar a entrada de bebidas alcoólicas e produtos que importe ter havido sacrifício da vida de animais.

Com o milho e o auxílio subsidiário de outros cereais, legumes, frutos, mostraremos que se pode fazer uma refeição a um tempo sóbria, sadia e saborosa.

Agradecendo ainda a gentileza e atenção que V. Ex. nos dispensou, servimo-nos da oportunidade para apresentar a V. Ex. os protestos de estima e distinta consideração.

Francisco Jaguaribe Gomes de Mattos, presidente19.

Ainda que extensa, consideramos importante transcrever a resposta de Jaguaribe a Miguel Calmon, não apenas por causa da exposição do argumento, mas porque o discurso vai além, uma vez que aponta os princípios da Sociedade Vegetariana Brasileira. Dessa vez, não por outros interlocutores, mas pelo seu próprio presidente: Francisco Jaguaribe Gomes de Mattos.

Figura 5 - Almoço oferecido pela Sociedade Vegetariana Brasileira aos membros da Comissão Executiva Exposição do Milho e aos representantes da Imprensa. Francisco Jaguaribe ocupa o lugar central em mesa do restaurante A Vegetariana /agosto de 1918

Fonte: O Bem(1924)20.

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19 O Paiz, Rio de Janeiro, ano 34, n. 12.352, 5 ago. 1918.p.9. Grifos nossos.

20 O Bem, Rio de Janeiro, ano 1, n. 2, dez. 1924.

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Além da menção de Jaguaribe sobre sacrifícios de animais, a Sociedade Vegetariana Brasileira também se articulou para impedir a realização de touradas durante os festejos da Exposição do Centenário da Independência do Brasil. Mais uma vez, mostrou-se simpática à causa de proteção animal21.

Notas do discurso eugênico na Sociedade Vegetariana

À época em que a Sociedade Vegetaria Brasileira nasceu, outro importante grupo demarcaria território nos discursos de viabilidade da nação brasileira. Trata-se do movimento eugênico brasileiro, cujo nome mais expressivo foi o do médico e farmacêutico paulista Renato Ferraz Kehl. Em 1917, a convite da Associação Cristã de Moços, realizou a conferência intitulada de “Eugenia”, passo inicial para uma ampla campanha de eugenia no Brasil que seria mantida por décadas (Souza,2006, p. 32). Aliás, a eugenia nunca deixou de fazer parte da orientação intelectual de Renato Kehl, de modo que permaneceu em seus escritos até o final da sua vida. Portanto, não é exagero dizer que sua campanha eugênica durou por volta de meio século (Carvalho; Souza, 2017).

A eugenia criada pelo cientista inglês Francis Galton, na metade final do século XIX, esteve longe de ser apenas um projeto draconiano que culminou no triste Holocausto Nazista. A intenção de Galton, em diálogo com as informações disponíveis sobre hereditariedade da ciência de sua época, era a possibilidade de aperfeiçoar o talento humano. A orientação para as combinações hereditárias preconizadas por Galton, embora também trabalhasse com critérios de hierarquização racial, não alimentava extermínios humanos. Contudo, a eugenia é um conceito volátil posicionado em um contexto em que a ideia de “raças humanas” era inconclusa. Assim, a eugenia poderia atender aos mais diversos projetos nacionais de seleção humana, desejos de uma determinada elite, poder econômico, preconceitos variados ou qualquer outro elemento em que ela pudesse ser justificada. A eugenia jamais foi um conceito fechado e, por essa razão, sua aplicação dependia dos seus intérpretes e das influências que possuíam em suas sociedades. Nem mesmo a eugenia brasileira pode ser classificada como um único modelo. A sua existência no país sofreu alterações, debates e possibilidades de aplicação.

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21 O Jornal, Rio de Janeiro, ano 6, n. 998, 20 abr. 1922. p.3.

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A naturalidade com que a eugenia era discutida está inserida em um processo histórico da própria modernidade. Ela não deve ser lida como uma teoria científica marginalizada, fruto de desconexões com as ciências ou relegada a explicações irracionais, sem critérios, anticientíficas ou antimodernidade. Como nos diz o filósofo Zygmunt Bauman (1999, p. 37-38) a respeito dos cientistas que adotavam práticas de controles de reprodução humana, “[...] eram guiados por uma compreensão adequada e incontestada do papel e da missão da ciência –e por um sentimento de dever face à visão da boa sociedade, uma sociedade sadia, ordeira”. Conclui-se assim que a eugenia era nada menos do que uma ferramenta fruto do espírito da modernidade e da confiança no progresso científico (Bauman, 1999, p. 38).

Doravante, a campanha eugênica ganhou o mundo e se adaptou a cada cenário nacional e suas particulares inquietações a respeito da sua idealização de país. No Brasil, com Renato Kehl, a eugenia se juntou a outros movimentos científicos da modernidade,como o saneamento e a psiquiatria. Com o movimento sanitarista, por exemplo, liderado pelo médico mineiro Belisário Penna(1922), a eugenia foi convocada como uma ferramenta “preventiva” para os “venenos raciais”, ou seja, álcool, sífilis, toxicomanias, entre outras (Carvalho, 2019). Prevenção era uma bandeira dos sanitaristas para exigir por parte do Estado medidas de saúde pública como uma proposta reformista de Brasil. Não por acaso, no âmbito da hereditariedade, a eugenia endossou a necessidade de cuidar do indivíduo e da coletividade mesmo antes da sua concepção. Desse modo, enquanto a higiene preveniria e afastaria a causa dos problemas, a eugenia, por sua vez, conduziria a seleção dos seres humanos entre os mais bem-dotados.

Nessecontexto de inserção da eugenia no Brasil, outros grupos dialogaram com suas propostas. Um deles, que nos interessa neste texto, concerne às discussões de eugenia no interior da Sociedade Vegetariana Brasileira. Com base nos palestrantes e suas contribuições observamos que a preservação da saúde física e mental por meio da ingestão de vegetais era o maior pilar que os vegetarianos do início do século XX defendiam para uma vida saudável. A sociedade funcionava, principalmente, como uma instituição divulgadora dos seus ideais. No mais, dois periódicos no ano de 1921 afirmaram explicitamente a ligação entre a Sociedade Vegetariana Brasileira e a Eugenia:

Em sua nova sede social, situada à Rua de São Pedro, 71, a ser dentro em breve inaugurada solenemente, reuniu-se ontem a diretoria desta sociedade propagadora da regeneração física e moral do homem, pela prática das doutrinas eugênicas e naturistas. Às 20 horas, verificada a presença de todos os diretores e grande número de associados, o presidente Capitão Jaguaribe de Mattos, deu por aberto os trabalhos [...]22.

Convocada extraordinariamente para ontem, realizou-se em sua sede social, à rua de São Pedro, 71, sobrado, uma reunião.

Foram abertos os trabalhos pelo Sr. Dr. Capitão Francisco Jaguaribe de Mattos.

A ata da sessão anterior foi lida e aprovada sem emendas. No expediente foram aprovadas as novas propostas de sócio dos Srs. Joaquim do Couto E Deccio Richard Ferreira, sendo lida ainda uma importante comunicação do confrade, Sr. A. de Lannes, do Rio Grande do Sul.

Passando-se a ordem do dia, o presidente emite uma série de considerações acerca do programa e fundação da futura Empresa do Hotel Naturista, a ser inaugurado antes do Centenário.

Pelo diretor tesoureiro, Sr. Faria Pereira e professor Esteves Dullin foi anunciado aos presentes a breve inauguração nesta capital do Centro de Eugenia e naturopata, “Pró-Vida”, com cuja notícia alvissareira todos se congratularam por significar a realização de um marco em favor da causa do Naturismo.
Pelo tesoureiro Faria Pereira foi ainda lido um extrato do grande número de encomendas do livro “Arte de Viver”, do Dr. Amílcar de Sousa, de edição desta sociedade, assim como o trabalho do professor Dullin, intitulado “Síntese Naturista”.

Após a discussão de várias outras questões de ordem administrativa interna, foram encerrados os trabalhos23.

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22 O Jornal, Rio de Janeiro, ano 3, n. 795, 26 ago. 1921.p.6.

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No primeiro fragmento consta que a SVB se autoidentificava como “propagadora da regeneração física e moral do homem, pela prática das doutrinas eugênicas e naturistas”. No sentido eugênico, isso significa adotar o discurso nacionalista de regeneração do país, no qual determinadas práticas poderiam consertar os indivíduos tanto no seu organismo, quanto na sua conduta moral. Ainda, eugenia e saneamento, que andavam juntas no início da década de 1920, eram propostas em que a boa alimentação, o combate aos venenos raciais e os fatores disgênicos,como o alcoolismo,estavam em suas prerrogativas. Todo o cuidado eugênico preconizavao alerta com o corpo, sendo uma alimentação saudável o oposto da intoxicação do corpo.

A má alimentação preocupava os eugenistas. O próprio Renato Kehl chegou a propor a criação deuma disciplina específica nas faculdades de medicina e nas escolas normais denominada de “Ciência da alimentação”. Não eram raros os textos publicados ao longo da sua trajetória,que versavam sobre os problemas do açúcar, quantidade de água para ingestão diária, tipos de alimentos que causariam obesidade, alimentação infantil, entre outras preocupações. Mencionava ainda que o organismo necessitava diariamente da ingestão de frutas, verduras e leite. No entanto, não significa que a eugenia concordava com uma vida vegetariana. Kehl dizia que uma boa alimentação necessita de “bom senso” e “[...] sem os exageros de uma abstenção completa de carne ou o uso exclusivo de vegetais” (Kehl, 1930).

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23 A Noite, Rio de Janeiro, ano 11, n. 3.526, 1 out. 1921.

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É possível encontrar fontes a respeito da posição de Kehl sobre o vegetarianismo ainda nos primeiros anos da década de 1920. Em texto intitulado de “Alimentos”, publicado na Revista Hygiene Popular, comentava: “Sou do parecer que as nossas refeições estão erradas e deviam constar de maior quantidade de alimentos vegetais, em natureza, como frutas e legumes crus”. E, mais uma vez, negava um viés vegetariano na sua conclusão: “Não suponha o leitor, com o que ficou dito, que sou exclusivista, vegetariano propagandista e praticante... Não; entendo apenas que devemos ser menos artificiais” (Kehl, 1923?)24.

Esse argumentoera um dos pontos que aproximava a eugenia e a SVB, uma vez que a preocupação com o corpo condicionava a uma melhor alimentação. Nesse espaço de debate, os vegetarianos da sociedade atuavam para qualificar a sua proposta alimentar como ideal para atingir objetivos eugênicos da nação. Se a eugenia eraa ciência que aproxima o indivíduo do seu futuro aperfeiçoado, o vegetarianismo seria um dos instrumentos para essa finalidade baseadona alimentação. Tal entendimento parece ser a conexão entre vegetarianismo e eugenia por parte da SVB. Desse modo, a própria sociedade se colocava como baluarte de um futuro civilizado para os brasileiros no que tange a hereditariedade e a ordem moral.

Nesse sentido, a relação da Sociedade Vegetariana Brasileira com a eugenia era conectada ao espírito da modernidade que pairava na ciência eugênica em diferentes setores intelectuais. Assim como Francisco Jaguaribe fora um dos intelectuais seduzidos pela discussão eugênica brasileira, outros,como Roquette-Pinto, Monteiro Lobato, Belisário Penna, Oliveira Vianna, Carlos Chagas, Miguel Couto, igualmente pensaram as suas teses em algum momento. Não significa que todos eram eugenistas confessos, mas que a experiência da eugenia enquanto ciência tinha viabilidade no interior das discussões científicas daquele contexto. Esta parece ser uma característica comum aos intelectuais contemporâneos do cartógrafo.

Na alusão que faz à metáfora do Estado Jardineiro para discutir a relação entre eugenia e sociedade, Bauman, mencionando o espírito da modernidade que acompanhava essa imagem, diz que “O louvor aos dentes do ancinho e às podadeiras não foi cantado apenas por sonhadores intelectuais e autonomeados porta-vozes da ciência. Ele permeou a sociedade moderna e permaneceu provavelmente o aspecto mais saliente de seu espírito coletivo” (Bauman, 1999, p. 44). Nesse sentido, esse caso específico na trajetória de Jaguaribe está diretamente relacionado ao que Giovani Levi classificaria como Biografia Modal, isto é, quando as crenças de um indivíduo estão alinhadas com certas tendências do debate público e social (Levi, 2006, p. 175).

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24 O provável ano da publicação é 1923 em referência às outras no mesmo catálogo de fontes. A fonte em questão não está datada. Ela faz parte do Fundo Renato Kehl, na Casa de Oswaldo Cruz/COC –Rio de Janeiro

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De modo geral, a Sociedade Vegetariana Brasileira, do ponto de vista desta pesquisa, não pode ser classificada como uma sociedade eugênica, mas que, de fato, dialogou em alguns momentos com os seus preceitos por considerar, assim como outros movimentos, uma teoria alinhadaà modernidade. Somado aisso, é importante grifar que, por meio das informações disponíveis, parece ter sido a primeira forma organizada de reunir vegetarianos no Brasil, além de assumir um papel expressivona causa contrária aos sacrifícios animais.Apropósito, segundo Ostos (2021, p.54), os naturistas, integrantes da sociedade, teriam uma visão idealizada da natureza por serem homens urbanos da classe média. Nesse sentido, é possível afirmar que não era o caso de Jaguaribe, pois o cartógrafo estava diretamente ligado às questões ambientais, pois era um membro da Comissão Rondon. O seu trabalho era o de mapear regiões tidas por afastadas em quetelégrafos estavam sendo instalados, rios caudalosos sendo encontrados e estudados, além de animais e plantas sendo catalogados

Considerações finais

A Sociedade Vegetariana Brasileira representou mais um capítulo em torno de organizações no final da década de 1910 que realizaram uma leitura de país considerando a ideia de reformismo social. Areforma estaria, entre outras, por meio da alimentação vegetariana. A rigor, o cuidado alimentar em volta do vegetarianismo conduziria os corpos para uma “regeneração física e moral do homem”, como assinalavam. Não se tratava, portanto, apenas do que era saudável para o consumo, mas de que maneira o que era ingerido não prejudicaria os indivíduos e a nação. O debateem torno do alcoolismo, o seu caráter disgênico e prejudicial, oferece o tom de uma série de discussões nacionais dentro de espaços como o movimento eugenista, o movimento sanitarista e a Liga Brasileira de Higiene Mental, por exemplo.

No tocante ao discurso eugênico da Sociedade Vegetariana Brasileira, a ideia de corpo saudável e de hábitos alimentares estaria adequada aos preceitos tanto da SVB como aos do plural movimento eugenista brasileiro. A mobilização de um discurso eugênico no interior da SVB representa, como argumentouVanderlei Sebastião de Souza,que “[...] o termo ‘eugenia’ aparecia sempre como símbolo de modernidade cultural, assimilada como um conhecimento científico que expressava muito do que havia de mais ‘atualizado’ na ciência moderna” (Souza, 2006, p. 19). Em nossa interpretação, portanto, o discurso eugênico da SVB também legitimava a sociedade e sua força de ação em prol do país. Nessa perspectiva: “Falar sobre a eugenia significava automaticamente pensar em evolução, progresso e civilização, termos que constituíam o imaginário nacionalista das elites brasileiras” (SOUZA, 2006, p. 19). Ademais, podemos sintetizar a questão da intelectualidade ao redor das propostas eugênicas segundo otexto The Path of Eugenics in Brazil: Dilemmas of Miscegenation, de autoria de Gilberto Hochman, Nísia Trindade Lima, e Marcos Chor Maio (2010, p. 495)

Como em outros lugares, a eugenia brasileira reuniu uma ampla gama de profissionais –médicos, jornalistas, antropólogos, biólogos, educadores e advogados –e envolveu uma série de respostas diferentes e às vezes contraditórias aos desafios locais da identidade nacional. A eugenia foi uma espécie de língua franca nos círculos científicos e intelectuais brasileiros e latino-americanos nas décadas de 1920 e 1930; nunca foi um movimento político e intelectual homogêneo com uma agenda organizada e consensual. Ao contrário, justamente pela fluidez de seu significado e sua quase onipresença no debate científico, a eugenia, como a ideia de raça, poderia ser compartilhada por muitos como um ideal geral para ‘melhorar as populações’25.

Até o momento, em relação a Francisco Jaguaribe, essa foi a única incursão do cartógrafo em agremiações com caráter eugenista. No entanto, como analisado, diante da sua biografia, tivemos a oportunidade de oferecer os primeiros passos a fim de descortinar a Sociedade Vegetariana Brasileira e as suas relações com a eugenia e os discursos de nacionalidade em voga na primeira metade do século XX.

Referências

Documentos

a) Periódicos

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A Noite, Rio de Janeiro, ano 10, n. 3.060, 18 jun. 1920.

A Noite, Rio de Janeiro, ano 11, n. 3.526, 1 out. 1921.

Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, ano 31, n. 22, 22 jan. 1921.

O Bem, Rio de Janeiro, ano 1, n. 2, dez. 1924. Fundação Biblioteca Nacional.

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25 Tradução dos autores.

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O Imparcial, Rio de Janeiro, ano 10, n. 1.509, 7 jun. 1920.

O Jornal, Rio de Janeiro, ano 3, n. 795, 26 ago. 1921.

O Jornal, Rio de Janeiro, ano 6, n. 998, 20 abr. 1922.

O Paiz, Rio de Janeiro, ano 33, n. 11.747, 5 dez. 1916.

O Paiz, Rio de Janeiro, ano 34, n. 12.352, 5 ago. 1918.

RIO Grande do Sul. O PAIZ, Rio de Janeiro,ano 29, n. 10.627, 11 nov. 1913.

SOCIEDADE Vegetariana Brasileira.O PAIZ, Rio de Janeiro, ano 33, n. 11.790, 5 dez. 1917.

b) Manuscritos

SOUSA, Amílcar de. Carta a Domingos Nogueira Jaguaribe Filho. Porto, 16 dez.1913. Manuscritos –Fundação Biblioteca Nacional.

SOUSA, Amílcar de. Carta a Domingos Nogueira Jaguaribe Filho. Portugal, 11 fev. 1914. Manuscritos –Fundação Biblioteca Nacional.

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Fonte: SOCIEDADE VEGETARIANA BRASILEIRA:tópicos sobre eugenia, moral e higiene por meioda trajetória de Francisco Jaguaribe (1917-1923)12Outros Tempos, vol. 21, n. 37, 2024, p. 10-32. ISSN: 1808-8031Francisco Jaguaribe Gomes de Mattosera membro de uma tradicional família cearense, do tronco Alencar2e neto do Visconde de Jaguaribe; optou em seguir para o Rio de Janeiro, onde matriculou-se na Escola Militar e trilhou carreira no exército brasileiro, dedicando 42 anos de sua vida à cartografia da conhecida Comissão Rondon, na qualfoi responsável pelaconfecção de uma carta para o estado de Mato Grosso(1952)(Bernardino, 2017).Pouco se sabe sobre a Sociedade Vegetariana Brasileira fundada na Primeira República. Nem mesmo a atual SVB3, criada em 2003, sabia da existência de uma associação de vegetarianos no Brasil tão antiga. Ao pesquisar trabalhos acadêmicos ou não especializados, as únicas referências encontradas sobre a tal sociedade foram os informes nas páginas dos jornais da época, alémde uma menção no artigo da pesquisadora Isabel Braga (2018). Deve-se considerar que, embora existisse a Sociedade Vegetariana Brasileira com sede no Rio de Janeiro, então capital da República, também coexistiam sociedades vegetarianas autônomas em outros estados do Brasil, replicando o caráter federativo da época. Uma delas, inclusive, aparece em 1913, quando o impresso periódico O Paíznoticia que,em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, será fundada uma sociedade vegetariana,a qual, de início, contaria com um número razoável de membros4. Portanto, a contribuição deste artigo é mapear as iniciativas que tiveram a participação de Francisco Jaguaribe e não, necessariamente, realizar um estudo de fôlego sobre o vegetarianismo da época. Contudo, apoiadonas fontes pesquisadas, é possível alcançar uma análise acerca do tema.As pesquisas nos periódicos começaram emdezembro de 1916, quando a Sociedade Naturalista Brasileira passou a se chamar Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB)5e acabaram em 1923 por dois motivos: não foram mais noticiadas realizações da SVB,e Francisco Jaguaribe partiu para uma temporada de alguns anos em Paris. Em 1916, também encontramos a divulgação e a circulação da Revista Naturista,que era publicada em São Paulo e contava com a colaboração de brasileiros e portugueses. Assim dizia O Paiz:“Constitui assim, pois, uma agradável e útil leitura para todos os que se interessarem com o assunto desse gênero”6.No início, Jaguaribe ocupava o lugar de primeiro secretário da SVB. As reuniões semanais ocorriam em sede provisória localizada na Rua Sete de Setembro, 183 –sobrado, 2Francisco Jaguaribe era primo do escritor José de Alencar, autor-chave do romantismo brasileiro.3Para mais informações sobre a atual Sociedade Vegetariana Brasileira acesse o site da instituição. Disponível em: https://www.svb.org.br/Acesso em: 19 set. 2019.4RIO Grande do Sul. O Paiz, Rio de Janeiro, ano 29, n. 10.627, 11 nov. 1913. p. 8.5A Noite, Rio de Janeiro, ano 7, n. 1.798, 19 dez. 1916.p. 5.6O Paiz, Rio de Janeiro, ano33, n. 11.747, 5 dez. 1916.p. 4.

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