Sexta-Feira Santa com o MST
Luc Vankrunkelsven Estamos num grupo de oito flamengos e um jornalista holandês viajando pelo Brasil. Os participantes chamam-na de uma ‘viagem espiritual’, mas não só porque vamos passar a ‘Semana Santa’ em um mosteiro beneditino, na cidade de Goiás. No Brasil, a ‘espiritualidade’ não está trancada nos mosteiros. Toda a sociedade vibra e crepita de inspiração. Também visitamos diversos projetos, desde os guarani, em…
Luc Vankrunkelsven
Estamos num grupo de oito flamengos e um jornalista holandês viajando pelo Brasil. Os participantes chamam-na de uma ‘viagem espiritual’, mas não só porque vamos passar a ‘Semana Santa’ em um mosteiro beneditino, na cidade de Goiás. No Brasil, a ‘espiritualidade’ não está trancada nos mosteiros. Toda a sociedade vibra e crepita de inspiração. Também visitamos diversos projetos, desde os guarani, em Foz do Iguaçu, a pastoral carcerária, em Salvador, até o movimento voltado para moradores de rua, em São Paulo. O projeto ‘Cor da Rua’ colore a massa de pedras cinzentas desta cidade com milhões de habitantes e o ‘lixo-luxo’ revela-nos a criatividade dos excluídos ao transformar o lixo dos ricos em ‘luxo’. Objetos bonitos. Ou seja, viver reciclando, com uma dimensão social e comunitária. Lá na Europa nós ainda podemos aprender muito sobre isso.
Teologia da Terra e da água
Um dos dias mais inspiradores foi a ‘Sexta-Feira Santa com os sem-terra, vinculados ao MST’. ‘Sexta-Feira Santa’, uma das maiores festas no Brasil. Tudo pára; é comparável à segunda-feira de Páscoa na Bélgica.
[Foto 42]
Os barracos do pré-assentamento
O dia do MST teve início já no mosteiro. Dom Tomás Balduíno, bispo emérito da cidade de Goiás e amigo da casa, realiza uma conferência após a missa matutina. Ele coloca a ação contra os eucaliptos, da Via Campesina, na linha profética de Jesus de Nazaré, que expulsou os comerciantes do templo. É que, até pouco tempo atrás, Dom Tomás era presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e ardoroso defensor dos sem-terra e pequenos agricultores. Na época, ele mesmo foi ‘contagiado’ pelos beneditinos. Eles não só construíram um mosteiro ecumênico, onde paz e ecologia são os pontos centrais, mas eles sempre tiveram, também, forte envolvimento nos conflitos agrários. A partir de seu trabalho de assessoria junto à CPT-nacional, o monge Marcelo Barros escreveu sua principal obra: ‘Teologia da Terra’. Em 2003, surgiu a obra-gêmea: ‘O espírito vem pelas águas’ (1).
Devido a seu trabalho conjunto (do bispo e dos beneditinos), Goiás é a diocese com maior número de assentamentos. O atual sucessor de Dom Tomás é o belga germanófono Dom Rixen (2).
Solidariedade de uma sala de visitas para outra
Os dominicanos também estão fortemente engajados na causa dos sem-terra. Um deles é nosso guia e conduz o grupo, num microônibus, para o pré-assentamento ‘Dom Tomás Balduíno’. Novamente Dom Tomás? Sim, em reconhecimento a seu trabalho, o pré-assentamento foi ‘batizado’ com seu nome. Como um ‘anjo da guarda’ ele está presente de maneira sutil.
‘Pré’-assentamento? Sim, é uma transição entre o acampamento e o assentamento. Os rostos dos acampados mostram marcas de sofrimento, mas transmitem esperança. Será que esta terra será deles, após seis anos de privações?
As famílias nos recepcionam no ‘centro comunitário’. Tal como as próprias moradias, é uma construção feita com alguns palanques e a já legendária lona preta. Graças à tocante série de fotos de Sebastião Salgado, a realidade de sua luta é conhecida no mundo todo desde a década de 1990. Um pôster com a foto dos barracos de lona preta está presente em muitas salas de visita de famílias flamengas.
A ‘sala de visita’ onde nos encontramos agora – este lugar de encontro na periferia da cidade de Goiás – é muito mais primitiva e provisória, mas sempre consegue estabelecer uma ligação entre as prósperas salas de visita da Europa Ocidental e o drama das famílias de sem-terra. Sua força e fé na mudança sempre conseguem emocionar novamente o complacente flamengo.
Seis anos de vigília e espera
Roberto de Souza Batista, da ‘Associação Dom Tomás Balduíno’, em Goiás, toma a palavra. Ao final do dia, nos entregam papeizinhos, para mantermos contato. E para mandar fotos. Num desses cartões de visitas artesanais, com caligrafia firme está escrito ‘Roberto de …’. Um papelzinho com alma e história, muito diferente dos muitos cartões de visitas que recebo diariamente no mundo das ONGs ou em conferências internacionais.
Roberto, com um boné do MST: “Há ; seis anos, começamos nossa luta por terras. Houve uma seqüência de desistências, reduzindo o grupo de centenas de pessoas às 62 famílias que somos agora. É normal que nem todas as famílias agüentem esta vida dura. Nós mesmos, muitas vezes, quase perdemos as esperanças, mas agora, finalmente, temos perspectiva de conseguir nosso assentamento. Só falta resolver detalhes burocráticos e isto pode levar muito tempo no Brasil. Estamos orgulhosos de – após todos estes anos – termos conseguido nossa terra por meio de negociações, sem nunca termos lançado mão de violência.”
[Foto 43]
Sexta-Feira Santa com os sem-terra
Alguém pergunta: “Você está usando um boné do MST. Este é um das centenas de acampamentos do MST em todo o país?” Roberto: “Nós devemos muito ao MST. Durante muito tempo, fizemos parte do MST, mas agora seguimos nosso próprio caminho, ainda que mantenhamos boas relações com o movimento mais amplo.”
Eu não quero ver
Na linha das três palavras de ordem do MST, ‘ocupar-produzir-organizar’, somos guiados pelo acampamento. Somos testemunhas da excelente organização, das produções comunitárias e individuais, do forte talento de organização de pessoas pobres que – juntos – lutam por justiça e uma vida melhor. Ficamos sabendo como é organizado o ensino para as crianças. O cuidado com a educação e capacitação está totalmente em sintonia com o empenho do MST por um sistema de ensino adaptado, no qual a realidade e a luta dos excluídos são os pontos centrais. O movimento dos sem-terra é um ponto de referência internacional, graças às centenas de escolas que criou, bem como a capacitação que é oferecida até o nível universitário.
Durante a visita, lembro de uma turista alemã. Ela me disse que ia ao Rio de Janeiro. Contei a ela sobre os aspectos menos atraentes da cidade: as favelas, a miséria…, mas também sobre a resistência, que os turistas (quase) nunca vêm. Após um breve silêncio, ela respondeu rispidamente: “I don’t want to see it! [Eu não quero ver isso!]” Foi minha vez de ficar em silêncio e atordoado. Se você não quer ver a pobreza neste imenso país, nesta ‘Belíndia’ (3), então você também nunca será tocado pela fé e pela força das pessoas que, juntos, querem mudá-lo.
Artesanato e flores dão cor à vida
O grupo é dividido em dois. Algumas famílias nos recebem regiamente para o almoço. Fotos são trocadas, corações compartilhados. Novas fotos são tiradas e serão enviadas (4).
Durante um curto passeio à tarde, nos deparamos com outras formas de criatividade. O barraco de uma senhora que mora sozinha está enfeitado com flores. Do lado de fora, mudas de cafeeiro que serão plantadas logo que possível no futuro assentamento. Ela faz uma demonstração de como ‘moer café sem energia elétrica’. Mas ela impressiona principalmente por seu artesanato. Alguns de nós compramos os tapetes como lembrança deste evento memorável. Um novo cartão de visitas é manuscrito: ‘Artesanato de Gasparina do Assentamento Dom Tomás Balduíno’.
Uma cruz no meio das ervas (daninhas?) da esperança
Às 15 horas nos reunimos novamente na ‘sala de visitas’. Com dois pedaços de madeira, as crianças fazem uma cruz. Os tapetes comprados de Gasparina são colocados sobre a mesa. A pedido das crianças, cada pessoa procura na natureza um símbolo para colocar junto à cruz e sobre os tapetes. Numa série de ouvidos flamengos, ecoam as palavras: “Se não vos tornardes como uma dessas criancinhas…” Quem quiser, pode fazer uma oração em seu próprio idioma. É um momento de forte união num dia em que milhões de pessoas reverenciam cruzes de prata e ouro nas igrejas ao redor do mundo.
[Foto 43bis]
Sexta-Feira Santa com os sem-terra
No pré-assentamento Dom Tomás Balduíno a cruz não precisa ser folheada de ouro. É a realidade do dia-a-dia dessas famílias. Um símbolo de privações e morte, mas – principalmente – de revolta e ressurreição.
Sempre há um ensinamento novo para europeus nos momentos de mística dos movimentos sociais no Brasil. Principalmente no meio rural, estes são fortes momentos de confraternização.
Será que é porque na natureza e na agricultura ainda podem ser encontrados símbolos da vida?
Goiás, 14 de abril de 2006.
(1) ‘O espírito vem pelas águas’. Também traduzido para o holandês e publicado por Altiora-Averbode, 2005: ‘Spiritualiteit van het water’.
(2) Leia em Tertio [uma revista semanal cristã], de 31 de maio de 2006: ‘Dom Eugênio Rixen, bispo belga germanófono no Brasil. Zonder gebed wordt de strijd verbeten en gewelddadig [Sem oração, a luta se torna amarga e violenta].’
(3) Na literatura, o Brasil às vezes é chamado Belíndia[1]: Bélgica e Índia reunidas em um país, um país com algumas pessoas extremamente ricas e muitas extremamente pobres. Outra expressão utilizada é ‘brasilianização da economia mundial’, como sinônimo de globalização, com uma minoria de vencedores e uma maioria de perdedores.
(4) Um dos participantes tirou mais de mil fotos da viagem. As fotos mais bonitas de crianças foram utilizadas num calendário de solidariedade para 2007. A venda rendeu 870 euros (cerca de R$ 2300). Durante a Vigília Pascal de 2007, as pessoas ficam sabendo que este recurso está a caminho, bem no momento em que deixaram o pré-assentamento e estão organizando seu assentamento, com casas de alvenaria e lotes distribuídos. Com o dinheiro eles compram galinhas caipiras. Galinhas caipiras que irão com eles, no início de uma nova vida. Será que existe mesmo algo como Pascha? A marcha do Egito para uma terra prometida. Da morte para a vida. Fotos ou calendários ainda pode ser encomendados em: < n annemarie.de.smet@skynet.be >.
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[1] Belíndia – Em 1974, Edmar Bacha cunhou essa expressão para definir o que seria a distribuição de renda no Brasil. Fonte: <http://www.economiabr.net/colunas/henriques/belindia.html>.