‘Schaambrokje’
Luc Vankrunkelsven Schaambrokje é intraduzível para o português. Schaamte (= vergonha) e schaamlapje (= tanga) podem ser traduzidas. A tanga lembra Adão que, de repente, percebeu que estava nu, depois de agir como se fosse ‘Deus’. Ele não conseguiu deixar ‘a árvore do bem e do mal’ e ‘a árvore da vida’ em paz. Podemos aprender algo deste mito, agora que atacamos massivamente a enorme biodiversidade de vidas? Enquanto…
Luc Vankrunkelsven
Schaambrokje é intraduzível para o português. Schaamte (= vergonha) e schaamlapje (= tanga) podem ser traduzidas. A tanga lembra Adão que, de repente, percebeu que estava nu, depois de agir como se fosse ‘Deus’. Ele não conseguiu deixar ‘a árvore do bem e do mal’ e ‘a árvore da vida’ em paz. Podemos aprender algo deste mito, agora que atacamos massivamente a enorme biodiversidade de vidas? Enquanto imperadores da criação, não estamos todos nus e a grande mentira não está clara? A folha de qual planta é suficiente para cobrir nossa nudez e vergonha?
Recepção
Felizmente há no Brasil, na Europa, em todo o mundo, milhões de pessoas e grupos que trabalham na recuperação. É como numa recepção, para a qual foram convidados os militantes, os reformadores, aqueles que trabalham em silêncio e os realizadores. Aqueles que se converteram. Os convidados preparam juntos a comida: petiscos de cada região, conforme a especialidade de cada um. Biodiversidade entre nós. Todos aproveitam o encontro e enriquecimento. Até que resta o último pedaço: o schaambrokje. Quem tem coragem de pegar o último pedaço?
É assim que me sinto ao concluir este livro sobre alternativas. Qual grupo, qual forma de recuperação vou oferecer por último? Os pedaços disponíveis no prato, reunidos por mim ao longo de um ano e meio, é tão limitada; há muito mais para contar....
Há as limitações da região. Eu circulo principalmente no Sul do Brasil e na Europa – principalmente em Flandres. E há os limites da posição de onde parte meu olhar: Fetraf-Sul/CUT, um sindicato inovador da agricultura familiar. É de lá que olho, fascinado, à minha volta. Inclusive além da Fetraf, pois o mundo é muito maior. Como uma esponja que tudo absorve, é assim que me sinto. Uma esponja que filtra, é claro, mas espero que ofereça água fresca de vez em quando, nessa recepção mundial de renovação e alternativas à destruição planetária. Para sobreviver, pois, na verdade, trata-se de uma ‘contra-recepção’. Contra a recepção dos deuses Monsanto, Cargill, Syngenta, Basf, Pioneer, OMC, políticas agrícolas da UE e EUA. Deuses que exigem a completa liberalização do mercado mundial, para favorecer seus monopólios mundiais que impõem ‘liberdade’. Por exemplo: que você só tenha a liberdade de escolher entre as sementes transgênicas de Syngenta ou Monsanto. O ‘Guarapuava’, o lobo bravo (1) está mais que desejoso de comer o último pedaço da agricultura familiar.
Será que vamos conseguir? Ou será que estes relatos, nossos estudos, nossas mobilizações, nossas recepções serão medidas que, no final, darão em nada? Vamos acabar com um prato vazio e uma Terra saqueada, inabitável e quente?
Anchieta
Para encerrar, estive neste fim de semana numa grande ‘recepção’: a Festa Nacional das Sementes Crioulas, em Anchieta (SC). Cerca de 30 mil pessoas, de todas as regiões. O que teve início, em 2000, como uma festa regional transformou-se, rapidamente, numa festa nacional. O ‘Instituto de agrobiodiversidade e desenvolvimento socioambiental Porerekan’ (2) é a principal força inspiradora por trás do evento. Como o movimento internacional Via Campesina ajuda a puxar a ‘carroça’, o encontro também possui uma forte dimensão internacional, com participantes e estandes de outros países. O evento é parte da campanha ‘Sementes – patrimônio do povo a serviço da humanidade’.
A cidade de Anchieta sofreu grande transformação devido a esta festa bienal. A agrobiodiversidade de sementes teve um enorme aumento em sete anos. Em 2000, eram cinco famílias que cultivavam 17 variedades de milho. Atualmente, são 200 famílias envolvidas na guarda e multiplicação de sementes crioulas: 32 variedades de milho, 5 de feijão, 2 de milho pipoca, 5 de adubo verde, trigo, arroz, centeio, verduras, abóbora, morango, melão, amendoim, mandioca, batata… Raças antigas de animais domésticos também: catetos, galinhas, pombas, cavalos, mulas e burros, ovelhas, gansos, patos, vacas, etc.
E Anchieta é o último pedaço na grande recepção de ‘Aurora no campo’? Não, vamos tornar a encher os pratos. Há tantos outros grupos, organizações, sindicatos, movimentos no Centro-Oeste do Brasil, no Sudeste, no Nordeste, no Norte, na Região Amazônica. Na Europa ocorre tanto mais do que o pouco que eu consegui relatar nestas crônicas.
[Foto 64]
Sementes crioulas: autonomia do agricultor familiar, Anchieta (SC).
É por isso que encerro este livro com a indicação de um pequeno número de sites. Uma lista aberta. Os brasileiros completarão sua lista e os europeus a deles. Também assim os asiáticos, os africanos, os norte-americanos... E vamos estabelecer links à vontade. Aí ninguém ficará envergonhado por ser o último a sobrar. Nós somos muitos. Como grãos germinando na luz da aurora. Você ainda não enxergou?
Anchieta, 22 de abril de 2007.
(1) ‘Soja e o lobo bravo’, mais atual que nunca? Leia: a crônica de mesmo nome no livro Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano. Curitiba: Gráfica Editora Popular/Cefuria, 2006.
(2) Instituto de agrobiodiversidade e desenvolvimento socioambiental Porerekan. A palavra ‘porerekan’ tem origem na língua da etnia kamaiurá, do Xingu, e significa: a nossa cultura, o nosso saber, a relação do homem com o mundo. Se você quiser entrar em contato com o Instituto Porerekan, envie um e-mail para Adriano Canci, n adrianocanci@yahoo.com.br.
<http://www.ipep.org.br>.
<http://www.aspta.org.br>.
<http://www.ecovida.org.br>.
<http://www.assesoar.org.br>.
<http://www.apaco.org.br>.
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<http://www.frutosdocerrado.com.br>.
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<http://www.jornaldomeioambiente.com.br>.