Regiões livres de transgênicos em visita no Brasil
Luc Vankrunkelsven Mal acabei de chegar ao Brasil e já me encontro, em Curitiba, no meio de uma delegação de europeus. O que está acontecendo? Há um paralelo entre o que acontece na ‘região’ Paraná, Brasil, e o que se passa em uma região como a Bretanha, França. O governador Roberto Requião queria que seu estado fosse declarado ‘área livre de transgênicos’, mas foi impedido pelo governo federal e pelo STF. Não seria…
Luc Vankrunkelsven
Mal acabei de chegar ao Brasil e já me encontro, em Curitiba, no meio de uma delegação de europeus. O que está acontecendo?
Há um paralelo entre o que acontece na ‘região’ Paraná, Brasil, e o que se passa em uma região como a Bretanha, França. O governador Roberto Requião queria que seu estado fosse declarado ‘área livre de transgênicos’, mas foi impedido pelo governo federal e pelo STF. Não seria de sua competência impedir o avanço dos OGMs e o poder da Monsanto.
A Bretanha declarou sua região a primeira área livre de transgênicos na União Européia. A iniciativa francesa foi contagiante: em pouco tempo surgiu uma rede com 35 regiões européias que se declararam área livre de transgênicos (1). Realmente, uma verdadeira declaração de guerra contra os ditames da Comissão Européia. É por isso que, há poucas semanas, o Tribunal Europeu em Luxemburgo ordenou que uma região na Áustria recuasse, assim como ocorreu com o governo estadual do Paraná.
Resistência regional em ambos os lados do oceano
Está claro que os políticos dessas regiões não se deixam intimidar. Liderados pela vice-presidente da Bretanha, Pascale Loget, aterrissaram aqui 35 representantes de 11 das 35 regiões, vindos da França, Espanha, Itália e Grécia. Durante a viagem, a agroindústria tentou atraí-los para seu lado, mas Fetraf conseguiu – de maneira sublime – apresentar sua alternativa.
Ao chegar, fomos recebidos com a devida deferência na sede da Federação das Indústrias do Paraná. É evidente que lá predomina a história de sucesso das crescentes possibilidades de exportação do Brasil. A visão holística e a prática da agricultura familiar soam mais ou menos como blasfêmias dentro de uma igreja.
Na Assembléia Legislativa do Paraná, a situação é outra, pois lá há vários políticos cujas bases são formadas por agricultores familiares. O presidente da casa de leis recebe-nos com cerimônia num salão chique. Em seguida, num semicírculo, desenvolve-se um debate interessante. Um parlamentar (de ascendência japonesa) discorre sobre o padrão de consumo no Japão. Os japoneses importam 7 milhões de toneladas de soja, dos quais 4 milhões de toneladas convencional (não-transgênica). Cerca de 1 milhão de toneladas destina-se ao consumo humano e deve ser orgânica. Além disso, o Japão – é claro – que esta soja seja livre de transgênicos com um teor de proteínas mais elevado. O Paraná ainda não dispõe dessa variedade de soja, mas o deputado vê nisso possibilidades para reforçar os laços com sua nova pátria. A Embrapa pretende, agora, desenvolver uma variedade de soja com teor de proteínas mais elevado.
No salão, uma parlamentar grega toma a palavra. Ela afirma que, na União Européia, a Grécia pode se tornar o país onde os transgênicos sejam mais intensamente rejeitados. Isso pode gerar grandes tensões, já que recentemente a grande imprensa noticiou que na vizinha Romênia há um enorme caos em torno da soja. Como uma das nações da Europa onde é possível cultivar soja, a Monsanto conseguiu ocupar o país. Foi um ex-funcionário da multinacional quem deu o alerta. Todo o país está contaminado com soja transgênica e o governo não é capaz de garantir se uma carga de soja é livre de transgênicos ou não. De imediato, esta situação compromete as chances da Romênia de se tornar membro da União Européia. Afinal, UE significa a tão aclamada ‘co-existência’.
O sistema deve mudar de curso
Durante o intervalo, a vice-presidente da Bretanha vem conversar comigo. Por causa dos dizeres na camiseta que uso – “boeken op bosvriendelijk papier” [livros em papel de florestas sustentáveis] ‑, ela pensa que eu trabalho para o Greenpeace. Ela começa a falar sobre o excelente trabalho do Greenpeace-Bélgica: pecuária de leite com ração livre de transgênicos. Ela me conta que agora, na Bretanha, também há muitos produtores que substituem seu milho pela combinação gramíneas-trevo. E completa afirmando que, por enquanto, a dificuldade continua sendo desenvolver alternativas para aves e suínos, mas que isto é extremamente necessário. É que a Bretanha abriga 50% de todas as aves e suínos na França por causa da proximidade dos portos que recebem a matéria-prima barata para ração animal.
Ela confidencia: “Todo o sistema precisa ser derrubado, com o retorno de ciclos mais regionais. Mas, como neste momento a posição do governador Requião está enfraquecida em sua luta contra os transgênicos, não vou propor na frente das câmeras de televisão a redução de nossa importação de soja. Em curto prazo isso traria problemas, tanto para os agricultores brasileiros quanto para os da Bretanha. Em longo prazo, porém, precisamos retornar a uma agricultura menos intensiva e produzir nossas próprias proteínas. Neste momento devemos bater na tecla da soja não-transgênica, para garantir a autonomia de agricultores e agricultoras.”
A mulher, a gralha, a floresta choram dentro mim
Que o ‘sistema’ está falhando, é novamente bem ilustrado nestes dias – mas será que nós percebemos? Muitas imagens me vêm à mente.
- Na semana passada, foi constatado um foco de febre aftosa no Mato Grosso do Sul. Imediatamente, muitas possibilidades de exportação da carne bovina se fecharam. Todos estão alarmados, até mesmo o presidente Lula que, na Rússia, tenta defender os interesses do setor pecuário do Brasil junto ao presidente Putin.
- A região amazônica está nos noticiários diariamente, pois os rios estão secos. Barcos não conseguem navegar e as pessoas estão sem alimentos e água. O aquecimento das águas do Oceano Atlântico é apontado como uma das causas mas, certamente, o avanço do desmatamento contribui para a redução da chuva nesta região – que normalmente é muito úmida. Isto é noticiado diariamente na televisão, mas será que enxergamos a relação entre a dívida externa brasileira e os interesses dos exportadores, de um lado, e o nosso próprio padrão de consumo, do outro? A Floresta Amazônica está sendo derrubada e queimada por causa de madeira, carne e soja. Todos ficam indignados e, em seguida, continuam com suas rotinas. O mesmo ocorreu nas décadas de 1960 e 1970, no sul do Brasil, mas naquela época ninguém protestou. Agora os pastos já estão formados e ninguém se questiona acerca do elevado consumo de carne em seu próprio meio. Onde, há 40 anos, a Mata de Araucária proporcionava biodiversidade, agora domina o gado para produção de carne a baixo preço.
[foto 4]
Carne: afinal, trata-se de florestas, muitas florestas
- Nesta manhã, Marina Silva, a ministra do Meio Ambiente, apareceu no telejornal. Ela enfatizou a determinação deste governo de finalmente fazer algo a respeito crescimento anual do desmatamento. Enquanto os europeus participavam de um jantar oferecido pelo governador Requião, nós saímos para jantar com um grupo de brasileiros. Serviram-nos enormes pedaços de carne que fariam o consumidor médio europeu perder o fôlego. Não tenho coragem de fazer um comentário. Seria considerado – novamente – o eterno moralista. Afinal, é parte da cultura gaúcha comer carne, muita carne. Mesmo assim... gado precisa de terra, muita terra. Afinal, isso representa floresta, muitas floresta. Não faz diferença se ela foi derrubada há 40 anos, ou no século XVI, ou no século XIX, ou em 2005.
- Entrementes, enquanto espero pelo grupo no parlamento, passo o tempo lendo Aarde-Werk-Brief [Boletim do grupo Trabalho pela Terra] (2). Sempre encontro artigos marcantes sobre ‘a situação em nosso planeta’. Impressionou-me o relatório envolvente da semana de reflexão realizada durante o verão, Dierenbevrijding: een groen thema? [Libertação dos animais: um tema verde?]. Será que florestas, animais, água, terra e ar são temas ‘verdes’? Ou será que já estamos prestes a nos afogar na água e na estiagem, na abundância e na escassez?
- No salão do presidente da Assembléia Legislativa há um enorme quadro do pintor Lange de Morretes, ‘Alma da Floresta’. Tocou-me profundamente: um pinheiro derrubado, com uma mulher nua, arrasada, chorando sobre o tronco. Ela parece prestes a ter sua cabeça decepada. O pinheiro e a gralha-azul são os símbolos do Paraná. Ambos correm o risco de extinção.
Desolada, a mulher chora sobre tronco sem vida. A alma da floresta sangra. A mulher, a floresta, a gralha choram dentro de mim.
[foto 5]
A mulher, a floresta, a gralha choram dentro de mim.
Qual é a atitude que devo tomar no próximo churrasco?
Curitiba, 18 de outubro de 2005.
(1) Visite: <http://www.gmo-free-regions.org>. Em janeiro de 2005, as regiões reuniram-se pela primeira vez em Berlim. O ‘Manifesto de Berlim’, assinado por milhares de instâncias na Europa, é um dos resultados. Nos dias 14 e 15 de janeiro de 2006 será realizada, nesta mesma cidade, a segunda Europese Conferentie GGO-vrije regio’s, Biodiversiteit en Plattelandsontwikkeling [Conferência européia sobre Regiões Livres de Transgênicos, Biodiversidade e Desenvolvimento Rural].
(2) Aardewerk vzw, Prattenborgplein 35, 3270 Scherpenheuvel-Zichem [Bélgica]; telefone: 013/33.55.74; n jeanneke.vandeven@worldonline.be ; <http://www.aardewerk.be>.