Artigos

Produção de energia em escala humana

A Creral é uma cooperativa de eletrificação rural. Ela possui duas pequenas represas para geração de energia elétrica. Descentralizada e com controle na base, o que não se pode afirmar das grandes represas de Electrabel, no Brasil, ou das centrais de energia nuclear Doel e Tihange, na Bélgica. Esta mesma cooperativa está iniciando, atualmente, uma pequena usina de cana-de-açúcar numa comunidade com 17 agricultores…

 

A Creral é uma cooperativa de eletrificação rural. Ela possui duas pequenas represas para geração de energia elétrica. Descentralizada e com controle na base, o que não se pode afirmar das grandes represas de Electrabel, no Brasil, ou das centrais de energia nuclear Doel e Tihange, na Bélgica. Esta mesma cooperativa está iniciando, atualmente, uma pequena usina de cana-de-açúcar numa comunidade com 17 agricultores menos favorecidos, numa localidade isolada de Sananduva. Os agricultores entregarão sua cana-de-açúcar para a produção de etanol e cachaça. O etanol é para consumo próprio dos agricultores e associados da cooperativa de Erechim. Outras 12 comunidades rurais processam sua cana-de-açúcar até obter um produto intermediário; este é refinado na usina. Eu tenho muitos questionamentos em relação à produção de etanol e biodiesel, mas neste caso o projeto-piloto parece fazer sentido. A mim, lembra o pioneiro Jan Van Humbeeck, em Flandres [Bélgica]. Ele não tem uma usina, mas extrai óleo de colza em sua propriedade. O óleo é utilizado em diversos motores. As proteínas da torta vão para seus porcos. No Brasil, a produção de etanol já está – há mais de 30 anos – nas mãos dos grandes usineiros. No caso que acabamos de relatar, não se trata de monocultura e, sim, de pequenas áreas de cana em cada propriedade. Produção de combustível para consumo próprio e de ração para o gado. Este último pode trazer consigo uma industrialização da criação de gado de leite, o que me causa alguma preocupação. O que é interessante, sim, é que a cooperativa é apoiada também pelos agricultores. Nem o óleo de colza, na Europa, nem o etanol da cana-de-açúcar representam a solução para o problema energético mundial. A produção de combustível para o parque automotivo mundial exigiria, pelo menos, seis planetas Terra. Mas, aqui nos morros, a produção de etanol representa uma diversificação bem-vinda e uma renda extra para agricultores menos favorecidos numa região muito isolada.

 

[Foto 63]

Soja orgânica ainda existe.

 

Amanhã ainda terei que fazer uma palestra para o ‘Consórcio da Juventude’, o irmão mais novo de Terra Solidária. Neste fim de semana, novamente pude vivenciar pessoalmente quão importantes são esses processos de formação. Muitos dos processos de transformação que pudemos visitar nestes dias brotaram do primeiro ciclo de Terra Solidária, no período de 1999 a 2001. Essa formação intensa também revelou muitas lideranças rurais em todo o Sul do Brasil. Os pequenos saíram dos morros e não vão mais deixar que os diminuam.

 

Sananduva, 15 de abril de 2007.

Autoria preservada do acervo

SitioVeg