Preocupação seletiva
Será que não estou preocupado com o esgotamento dos combustíveis fósseis? É claro que sim, mas eu só quero fazer alguns questionamentos acerca das soluções que estão sendo impostas com tanta violência. Eu não sou a favor de alternativas? É claro que sou a favor, mas será que não podemos questionar o mérito de cada alternativa? Podemos saber por que o desenvolvimento de motores a hidrogênio, por exemplo, ficou lá para…
Será que não estou preocupado com o esgotamento dos combustíveis fósseis?
É claro que sim, mas eu só quero fazer alguns questionamentos acerca das soluções que estão sendo impostas com tanta violência.
Eu não sou a favor de alternativas?
É claro que sou a favor, mas será que não podemos questionar o mérito de cada alternativa? Podemos saber por que o desenvolvimento de motores a hidrogênio, por exemplo, ficou lá para trás, enquanto o biodiesel, de repente, se tornou ‘a’ solução para os problemas da agricultura e do aquecimento?
Será que eu sou contra acordos internacionais?
Não, em absoluto, desde que estes acordos não sejam somente ‘papo furado’ dos políticos que, no fim das contas, só estão em busca de novos mercados para suas próprias indústrias ao invés de efetivamente solucionar o problema fundamental. Será que neste mercado livre internacional do direito de poluir não podem ser feitos questionamentos sérios?
Será que, então, sou contra a redução das emissões de CO2 e a favor do aquecimento do planeta?
Não, mas será que não é uma opção muito limitada para barrar o aquecimento global? É de conhecimento geral que o gás metano aquece 23 vezes mais do que o CO2. Além disso, ainda há o hemióxido de nitrogênio (N2O), derivado do esterco líquido e sólido. Entretanto, percebo que não são tomadas medidas em relação a isso. São principalmente os ruminantes que emitem este gás para a atmosfera, numa quantidade que não deve ser subestimada. Em termos de emissão de metano, uma cabeça de gado tem um potencial poluidor equivalente a um veículo de passeio pequeno. Adeus Kyoto?!
Um veículo de passeio pequeno ainda pode ser abastecido com etanol ou, no futuro, quem sabe, ele terá um motor a hidrogênio. Mas o que vamos fazer em relação à crescente pressão ecológica do aumento no consumo de carne? Equipar cada boi com um balão coletor (5)?
Ou será que não podemos falar (ainda?) dessa vaca sagrada?
Em termos planetários, o boi e o carro têm em comum uma ocupação de terra extraordinariamente grande e ambos contribuírem para o aquecimento global.
Bocaiúva do Sul, 25 de março de 2006.
(1) Veja no Wervelkrant [Jornal de Wervel] ‘Het Ruimtelijk Structuurplan Vlaanderen. Blijft duurzame landbouw in de kou?’ [‘O Plano Estrutural Espacial de Flandres. A agricultura sustentável continua de fora?’], Wervel, 1997.
(2) O desmatamento na região tropical (que continua sendo a principal fonte da nossa madeira) libera uma quantidade relativamente grande de gás carbônico, porque praticamente todo o carbono está na vegetação e muito pouco no solo. A perda de florestas naturais, no mundo, contribui anualmente para a emissão de carbono mais do que o setor de transportes! Veja outros artigos sobre este assunto no site <http://www.wervel.be>, tema agroforestry [sistemas agroflorestais].
(3) < /span>Devido à reforma da política européia para agricultura (a reforma de McSharry, em 1992), de repente tornou-se extremamente interessante plantar milho. Pastagens centenárias foram convertidas em plantações de milho. Leia: ‘Het McSharryplan en het GATT-voorakkoord, gekaderd in de doelstellingen, achtergronden en evolutie van het EG-landbouwbeleid’ [O planto McSharry e o acordo preliminar do GATT, no âmbito dos objetivos, histórico e evolução da política agrícola da Comunidade Européia], Wervel, 1993.
(4) A lei determina que 20% da floresta original devem ser preservados. Na Amazônia este percentual é de 80%. Leia sobre a colônia alemã no artigo sobre soja da revista MO*-magazine, de maio de 2005. O livro ‘Brazilië: spiegel van Europa? Op zoek naar eigen spirituele bronnen.’ [Brasil: espelho da Europa? Em busca de fontes espirituais próprias] (Luc Vankrunkelsven, Dabar-Luyten, 2000) também contém uma contribuição sobre este tema.
(5) O último Censo Agropecuário foi realizado em 1995. Em 2006, as estimativas do rebanho de gado bovino, no Brasil, variavam de 164,5 milhões a 204,5 milhões de cabeças, dependendo da maneira de cálculo, ou seja, uma diferença de 40 milhões! De qualquer forma, o Brasil possui o maior rebanho de gado bovino do mundo. Algumas fontes limitam a estimativa a 180 milhões: um boi para cada brasileiro, como em Flandres e na Holanda – há alguns anos – também se estimava um porco para cada habitante. Deste rebanho, 80% é destinado à produção de carne e 20% à produção de leite. Entre 2000 e 2005, as exportações brasileiras de carne de gado aumentaram mais de 300%, precisamente de 314 mil toneladas para 1,3 milhão de toneladas. Com isso, o Brasil ultrapassou a Austrália que, até recentemente, era o maior exportador.