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O VEGETARISMO
Cenáculo Logo que li uma breve noticia sobre o assumpto que faz o objecto da importantissima these, sustentada perante a Academia de Medicina do Rio de Janeiro, pelo Sr. Dr. Saldanha Sobrinho, não pude furtar-me ao prazer, não pude sopitar o enthusiasmo, de mistura com uma natural curiosidade, e pressuroso procurei obter um exemplar de tão precioso trabalho. Eu, apenas de outiva, mui vagamente, sabia que existia o…

Logo que li uma breve noticia sobre o assumpto que faz o objecto da importantissima these, sustentada perante a Academia de Medicina do Rio de Janeiro, pelo Sr. Dr. Saldanha Sobrinho, não pude furtar-me ao prazer, não pude sopitar o enthusiasmo, de mistura com uma natural curiosidade, e pressuroso procurei obter um exemplar de tão precioso trabalho.
Eu, apenas de outiva, mui vagamente, sabia que existia o systema chamado vegetarismo, hoje uma verdadeira seita que conta innumeros proselytos; uma vez apenas, depois, passei a vista sobre uns excerptos, que, por acaso, vieram-me ás mãos, a respeito dessa nova ideia, que muito deve preocupar a attenção, não só dos hygienistas, como de todos que seriamente se interessam por si proprios e pelo bem da Humanidade. Sim, porque o vegetarismo, encarado pelo lado economico, moral, physiologico ou pathologico, é digno de ser estudado. Quando digo nova ideia, não pretendo desconhecer que ella tem suas raizes em tempos idos, e sim porque só hodiernamente está sendo abraçada e discutida. E quantas ideias, que parecem novas, já foram por nossos antepassados postas em pratica! A civilisação tem insensivelmente desviado o homem de seo alvo primitivo: pouco a pouco o espirito, dominando a materia, nem por isso deixa de olhar, de vez em quando, para o passado. Parece que se é attrahido para alli por alguns germens de salutares emprehendimentos que ficaram atrophiados ou estacionarios. Como dizia eu, fiquei tomado de sincero jubilo ao saber que um meo muito estimado conterraneo foi o primeiro a esposar, para objecto de sua esplendida these de doutorando — o vegetarismo, assumpto que parecerá a muita gente, quem sabe? uma utopia, uma concepção paradoxal ou esquipatica. Mas que tem isto? Como ha tempos disse um projecto Professor Academico, parodiando Eugenio Veron, o delicado burilador do pensamento esthetico: — não têm sido infructiferas as diversas conjurações do espirito humano, para que a sciencia occupe, no mundo, o logar a que tem direito. A rotina e os prejuizos, mantidos no circulo de ferro traçado pelo clero e pelos reis, determinaram, por cerca de um seculo, a marcha progressiva do genero humano!.... Foi muito essa moratoria cheia de sombras, de erros e de perseguições sanguinolentas, para que se podesse operar a evolução das ideias, isto é, — o reconhecimento da importancia e utilidade das descobertas anteriores, no ponto de vista dos beneficios que delles deveriam resultar para a humanidade.... De mais, estudar uma cousa para provar que ella não é real, é mais logico, mais digno do que lançal-a ao ridiculo ou rejeital-a sem havel-a estudado. E assim pensou, e assim procedeu o illustrado Dr. Saldanha Sobrinho. Elle, com louvavel franqueza e apreciavel modestia, declarou que, não sendo em absoluto adepto do “Vegetarismo”, limitava-se a fazer um estudo critico sobre o assumpto que escolheo para sua dissertação academica. Mas fêl-o tão proficientemente, tão minuciosamente, que de seo notavel trabalho emana abundante manancial de luzes, abrindo franco adito para um terreno ainda muito desconhecido. Elaborou, quiçá sem pretender, um verdadeiro Tratado sobre o Vegetarismo, que deve ser lido por todos. Não é meo intuito, longe disto, vir trazer para aqui minha humilissima opinião sobre uma questão, verdadeiramente um problema, attinente á hygiene dietectica: falta-me de todo, para isso, qualquer subsidio scientifico, e nem, ao menos, tenho nesse sentido a experiencia propria. A quem gastou cerca de vinte e oito annos — justamente nessa phase da vida em que o vigor da edade e o enthusiasmo pela leitura instructiva, são factores indispensaveis para a acquisição de cabedal de erudição; — a quem só teve, por elucubração constante, o manusear da enervante, arida e assáz diffusa legislação de Fazenda — que competencia, digo, poderá assistir para se immiscuir em cousas que sahem fóra da esphera de seos escassos conhecimentos? É, pois, simplesmente a expansão dos sentimentos já externados, que me move a escrever estas poucas e rudes linhas sobre tão momentoso assumpto, valendo-me, para isso, unicamente de alheios e competentes juizos que vêm em apoio da feliz inspiração que teve o distincto paranaense, Dr. Saldanha Sobrinho. Em Pythagoras, em Luiz Cornaro, citados pelo illustre facultativo, já vemos a encarnação da sobriedade e temperança. Aquelle primeiro dizia que a abstinencia da carne facilita as operações intellectuaes, pois que é certo que uma alma, como suffocada na materia grassenta e no sangue, não póde elançar-se ás ideias elevadas. O outro, o celebre Veneziano, conseguio restabelecer sua saude e attingir a edade de cerca de 100 annos, alimentando-se apenas com 12 onças de solido, humedecido com 13 de liquidos. Dizia, em 1836, o Dr. Virey, membro da Camara dos Deputados: — Voyez, en effet, combien sont grossiers et bruteaux ces épais Vitellius qui s’implissent de viandes; leur cervelle est encroûtée ou ensevelie sous une lourde stupidité; comme les idiots voraces ils ne font que se remplir et dormir, puis engendrer à la manière des brutes; car la gourmandise a tué plus d’hommes que l’épée — plus gula quàm gladius. Diz-se tambem que Valescus de Tarento prohibia aos gottosos o uso da carne, e com esta pratica dietectica conseguia os melhores resultados. O Dr. J. M. Bourdon, referindo-se á exagerada variedade da mesa em que predominam os acepipes ou alimentos de origem animal, disse com muito espirito: «Le glaive a tué moins d’hommes que l’intemperance!» e, reproduzindo as palavras de Addison: «Lorsque je vois ces tables à la mode, couvertes de toutes les riches productions du monde entier, je m’imagine voir la goutte, l’hydropisie, la fièvre, l’apoplexie, escortées de plusieurs autres maux terribles, embuscade sous chaque mets délicieux……» Mas, para que citações aqui, quando a esplendida exposição do Dr. Saldanha Sobrinho abunda nos mais ponderosos e avigorados raciocinios? Peço a todos que a leiam de boa vontade e sem ideia preconcebida. E os leitores, então se decidirão ou pelo Vegetarismoou pela continuação do Zoophagismo. Entretanto, ao concluir, peço venia para offerecer á apreciação dos gourmets e dos intransigentes sectarios de Lucullo, alguns dos muitos casos apresentados pelo Dr. Ed. Raoux, como resultados da observancia do regimen vegetariano: — «O professor Whitecock diz que o Dr. Chyne, que vivia em Londres ha mais de cem annos, curou-se de uma obesidade extraordinaria renunciando o uso da carne, na edade de 40 annos, alimentando-se com leite, pão sem levedura, vegetaes e agua pura, reduzindo deste modo seo corpo, de 448 libras a 140, e conservando-se são por espaço de mais de 30 annos, por meio deste regimen. Tendo voltado á carne e notando que se sentia mal, continuou definitivamente na sua alimentação vegetariana». — «O Dr. Gregory, de Edimburgo, lembrava constantemente, em suas conferencias, o notavel caso do illustre historiador Ferguson, victima diversas vezes de cegueira passageira, depois de atacado de apoplexia e paralysia, na edade de 60 annos. Por conselho de seo amigo, Dr. Blake, tornou-se pythagoriciano rigoroso e sarou; livre de novos ataques, ficou forte e musculoso, vindo a morrer na idade de 93 annos, isto é, mais de 30 annos depois de seo primeiro ataque de apoplexia». — «O Dr. Rocobotham refere que um menino de 3 annos, coberto de ulceras, dos pés á cabeça, havia 18 mezes, quasi cego e abandonado, depois de diversos tratamentos, por oito medicos que o declararam incuravel, ficou completamente curado por um regimen vegetal de 4 mezes (de Setembro de 1841 a 1º de Janeiro de 1842)……» Muitos outros casos desta ordem são citados pelo Dr. Ed. Raoux, que conclue com esta emphatica apostrophe: «Carnivoros elegantes, gordos e nedios, que tendes cuidado dos que escaparam do cemiterio, tende mais cuidado de não preceder-lhes na ultima estação da viagem terrestre. Porque os pythagoricianos, de apparencia a mais miseravel, teem algumas vezes uma longevidade latente que causa singular espanto!…..» Queira me desculpar o meo illustre conterraneo, Dr. Saldanha Sobrinho, se, embora levado, é verdade, unicamente por um justo sentimento de apreço pela sua pessoa, fui ter a uma seára alheia, em que, por certo, á falta de orientação, eu ficaria emmaranhado, se tivesse a afouteza de internar-me nella…. ALFREDO MUNHOZ Coritiba, Junho de 95.