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O Vegetariano - Pitágoras

De Carlos Brandt Ao falar-nos da importância de Pitágoras como um dos primeiros apóstolos das ideias vegetarianas, Springer, em sua obra Enkarpa (p. 124), observa que a primeira Sociedade Vegetariana da Europa foi fundada pelo mestre grego em Crotona, cinco séculos antes da nossa era. Essa sociedade foi a fonte cristalina da qual se extraíram as regras da mais pura virtude, seguidas por aquela companhia de sábios…

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De Carlos Brandt

Ao falar-nos da importância de Pitágoras como um dos primeiros apóstolos das ideias vegetarianas, Springer, em sua obra Enkarpa (p. 124), observa que a primeira Sociedade Vegetariana da Europa foi fundada pelo mestre grego em Crotona, cinco séculos antes da nossa era. Essa sociedade foi a fonte cristalina da qual se extraíram as regras da mais pura virtude, seguidas por aquela companhia de sábios gregos que constituem a admiração do mundo. Pois todos eles, sem exceção, eram vegetarianos e respeitavam as leis do legislador Triptólemo, que ordenava a abstenção de todo alimento proveniente da carne ou que a contivesse.

Tal foi a influência de Pitágoras como vegetariano que, desde a Roma antiga até os nossos dias, a dieta vegetariana tem sido chamada de dieta pitagórica. Vimos que os discípulos de Pitágoras usavam como seu emblema uma estrela de cinco pontas (pentalfa), que chamavam de Hígieia. É bom observar que, em grego, a palavra higiene significa ao mesmo tempo saúde física e saúde espiritual, ou o cultivo de ambas em conjunto.

Pitágoras era um homem tão moralmente avançado que nutria a mais profunda convicção de que todas as vidas constituem uma única vida e que, portanto, destruir uma vida — fosse humana, animal ou vegetal — equivalia a destruir parte da própria vida. Vê-se aí claramente a influência dos Vedas. Consequentemente, Pitágoras era incapaz não apenas de matar um animal, por mais insignificante que fosse, mas também de arrancar uma planta, pois estas também possuem vida. Não surpreende, então, que sua alimentação consistisse, como já vimos, em frutas, mel e vegetais. Ele proibia seus discípulos de comer qualquer coisa que estivesse morta.

Dessa forma, o mestre evitava as consequências das vibrações nocivas e, segundo relata Eudoxo (Livro VII) e também Porfírio (De vita Pythagorae), recomendava a seus discípulos abster-se de qualquer relação com matadores, açougueiros e caçadores. O mestre oficiava apenas no templo de Apolo, onde, de acordo com o antigo rito, os sacrifícios eram feitos exclusivamente com trigo, cevada e outros produtos isentos de sangue.

Segundo Jâmblico, Pitágoras proferiu certa vez, em Crotona, uma interessante palestra especialmente dedicada às mulheres, na qual as exortava a vestirem-se de modo simples, a levarem uma vida natural e a não oferecerem aos deuses outros sacrifícios senão frutos e alimentos preparados com as próprias mãos. Acrescentava que matar animais era um mal, pois o abate e a carnificina eram coisas desagradáveis a Deus (Jâmblico, I, 1, 54). Essas palavras estão inteiramente de acordo com o ensinamento do mestre, que consistia na unidade da vida universal e na necessidade de favorecer a lei da conservação da vida. Não é, pois, de se surpreender que o filósofo se opusesse a todo ato tendente à destruição das vidas, de qualquer espécie que fossem. Alimentava-se de produtos vegetais e jamais chegou a comer carne, como atestam Plutarco (App. Lipp., vol. 5, p. 6); Eudoxo (cap. 39); Jâmblico (De vit. pyth., I, 1, 54); Diógenes Laércio (De vit. pyth., XIX); Porfírio (De vit. pyth.); Apolônio de Tiana; Estrabão, entre outros. Diógenes Laércio afirma que Pitágoras era um vegetariano muito rigoroso e que sua casa era conhecida pelo nome de “Templo de Ceres.”

Tão grande era o horror de Pitágoras à própria ideia de comer carne que, segundo Juvenal (Sátiras, XV), ele considerava tal ato como se fosse canibalismo. Como observa H. Ritter (Die Geschichte der Pythagoreischen Philosophie), uma das marcas mais características dos pitagóricos foi sempre a sua aversão ao consumo de carne. Estrabão afirmou que, à semelhança de Sócrates e Diógenes, Pitágoras também era um vegetariano rigoroso (Geographia, XVI, cap. 1). Nos Versos Dóricos, o filósofo declara:
“Abstém-te dos alimentos nocivos, usando apenas aquilo que a razão dita para purificar e libertar tua alma.” (Mullach, Fragmenta Philosophorum Graecorum, Paris, 1860.)

Pitágoras fazia uso da dieta para tornar os homens virtuosos. Este ponto é igualmente atestado por Jâmblico (De vita Pythagorica, p. 15), Porfírio (De vita Pythagorica, pp. 6 e 11) e Diógenes Laércio (op. cit., VIII, 20). Como naturopata, Pitágoras também empregava a música como um de seus tratamentos de cura (Eudoxo, cap. 30).

Amante da verdadeira justiça e movido por compaixão para com todos os seres da Criação igualmente, o filósofo chegou até mesmo a apresentar uma petição aos legisladores, pedindo que fossem promulgadas leis para proteger os animais, mesmo os mais humildes, pois dizia:
“Se os juízes desejam exercer a verdadeira justiça, devem opor-se à continuação das pessoas matarem animais para satisfazer sua insana gula” (Jâmblico, 103).

Na mesma página, Jâmblico prossegue, referindo-se à vida de Pitágoras, e afirma:
“O sábio viveu estritamente de acordo com seus princípios; nunca comeu carne, nem sacrificou animais nos altares. Fez também todo o possível para impedir que as pessoas matassem ou maltratassem animais, pois considerava que as vidas desses seres eram as mesmas que as nossas.”

Apolônio de Tiana declarou certa vez a Thespesion, o ginossófico etíope, o seguinte:
“Descobri que Pitágoras tocava os altares com mãos limpas, pois se considerava puro no que dizia respeito ao consumo de carne. Seu corpo também estava livre de qualquer contato com vestimentas provenientes de animais.” (Baltzer, Apollonius von Tyana, p. 355.)

O mesmo autor relata que, em sua defesa diante do tirano romano, Apolônio declarou o seguinte:
“Jamais sacrifiquei sangue, nem o sacrifico, ainda que fosse exigido no próprio altar. Assim agia Pitágoras; assim seus discípulos; assim os ginossóficos do Egito; assim os sábios da Índia, de quem a sabedoria chegou aos pitagóricos. Tal conduta dos sábios parece ter sido ordenada pelos deuses, pois a eles concederam longa idade, uma vida feliz isenta de doenças, uma sabedoria sempre crescente, a liberdade do jugo dos tiranos e aquela outra liberdade divina: não ter necessidades.” (Baltzer, op. cit., p. 355.)

O coração nobre de Pitágoras nunca deixou de empregar todos os meios possíveis para persuadir as pessoas a não matarem animais nem comerem carne. Frequentemente comprava quantos animais pudesse, apenas para depois libertá-los.

Jâmblico e Porfírio relatam que, certa vez, quando o sábio foi ao cais de Crotona, encontrou ali alguns pescadores que haviam acabado de chegar com sua carga de peixes e, de imediato, comprou-os e devolveu-os à água. Diante de tão estranho ato, uma grande multidão reuniu-se para comentar o ocorrido, e o filósofo aproveitou a ocasião para falar e exortar o povo — especialmente os pescadores e caçadores — a abandonarem seu comércio cruel e imoral. Também lhes falou sobre quão nocivo era o hábito de comer carne, tanto para a saúde física quanto para a saúde espiritual.

Dois mil anos mais tarde encontramos outro vegetariano — filósofo, artista e cientista (Leonardo da Vinci) — comprando no mercado tantas aves quanto pudesse, para depois levá-las consigo às montanhas e libertá-las. Nobre ato do mestre do pincel, que assim demonstrava ser um verdadeiro discípulo de Pitágoras.

A compaixão de Pitágoras para com os animais era tão grande que, segundo Springer (Enkarta, p. 125), o sábio sustentava que nem mesmo os animais ferozes deveriam ser mortos. Nesse ponto, recorda-nos muito o próprio Buda. Jâmblico relata (108) que, com a dieta vegetariana, Pitágoras assegurava que as feras selvagens acabariam por se tornar mansas. Esse fato concorda também com aquela profecia de Isaías, tão criticada por aqueles que não compreendem a evolução biológica.

Segundo Pitágoras, com o tempo, a necessidade obrigará os animais carnívoros a adaptarem-se a uma dieta vegetariana ou, do contrário, terão de perecer. E, à medida que se forem adaptando ao regime vegetariano, as feras carnívoras tornar-se-ão mansas. A profecia citada de Isaías (VI, 6) é a seguinte: “A vaca e o urso pastarão juntos, suas crias se deitarão lado a lado, e o leão comerá palha como o boi.” Assim, essa profecia aparentemente absurda parece, afinal, realizar-se.

Huxley, falando em nome da Ciência moderna, afirma: “A inteligência do homem, que transformou o irmão do lobo em guardião do rebanho, deveria também ser capaz de fazer algo para subjugar os instintos selvagens do homem civilizado.” Não há dúvida de que ao vegetarianismo do futuro está confiada essa tarefa...

Pythagoras on the fresco “The School of Athens” by Raphael Sanzio

Na minha monografia sobre Diógenes já falei do erro que se comete ao ler a história antiga dos sábios sem o espírito crítico e a preparação que tal tarefa exige, pois essa história contém erros frequentes, arbitrariedades e negligências, que em grande parte nos chegaram sem terem passado pela peneira da crítica. Uma das provas que mais claramente demonstra minha afirmação — de que muitas vezes a letra está em completa contradição com o espírito da verdade — é a seguinte: fundado na autoridade de Apolodoro, Plutarco relata que, quando Pitágoras descobriu seu famoso teorema Magister Matheseos, em agradecimento sacrificou um boi no altar de Zeus. Qualquer um, ao ler isso, não poderia deixar de acusar o mestre de incoerência. Mas, na história de Apolônio, encontramos que o pitagórico Empédocles costumava sacrificar aos deuses bois feitos de massa de trigo. O próprio Apolodoro sacrificava não bois, mas bois de massa, conforme afirma em seu tratado (V, 25). Assim, o boi sacrificado pelo mestre devia ter sido de massa de trigo, tal como também sacrificavam seus discípulos; e o que os historiadores, por negligência ou por não darem importância ao fato de que se tratava de trigo e não de carne, relataram como se houvesse ocorrido de fato. A verdade é que Pitágoras jamais sacrificou animais, nem no altar nem de qualquer outra maneira. Assim nos dizem os principais historiadores, como, por exemplo, Jâmblico (I, 1, 5, 25).

Esse costume de sacrificar bois feitos de trigo, que Pitágoras e seus discípulos praticavam, seguramente o aprenderam da Índia, pois também em várias regiões daquele país praticava-se o costume de sacrificar animais feitos de massa de trigo. Esse costume é ali chamado ahimsa.

Nem todos os historiadores tiveram a inteligência de transmitir-nos a essência das coisas; alguns ocuparam-se em compilar dados de qualquer espécie e, sem os examinar, deram assim origem a muitas contradições, como a que acabamos de mencionar. Do mesmo modo, Diógenes Laércio nos conta que Pitágoras foi o primeiro homem a ensinar os atletas a comer carne. Quem, ao chegar a essa passagem, abandonasse o livro de Laércio, não poderia deixar de se espantar com tamanha incoerência em um vegetariano tão rigoroso.

No entanto, alguns filósofos observam, em relação a Laércio: “Mas deve-se entender que esse Pitágoras que ensinava a comer carne não era o filósofo, pois naquela época havia cinco homens notáveis com o nome de Pitágoras… Um deles foi o grande escultor Pitágoras de Régio.” Deve-se também recordar que em Crotona havia um tirano chamado Pitágoras, que naturalmente nada tinha a ver com o nosso sábio.

Fonte: Pitágoras Vegetariani, de Carlos Brandt. Editado por el Magazine Pentalfa.

Autoria preservada do acervo

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