O ‘salvador’ e seus muitos salvadores
Pois bem, estamos aqui, na Bolívia, com representantes de organizações de agricultores familiares da Argentina, Paraguai, Uruguai, Brasil e Bolívia. Um seminário internacional sobre soja na propriedade familiar. Logo de cara o argentino é obrigado a reconhecer que na Argentina não há agricultores familiares cultivando soja. São todos grandes fazendeiros. O mesmo fenômeno ocorre, atualmente, no Maranhão. Também o…
Pois bem, estamos aqui, na Bolívia, com representantes de organizações de agricultores familiares da Argentina, Paraguai, Uruguai, Brasil e Bolívia. Um seminário internacional sobre soja na propriedade familiar. Logo de cara o argentino é obrigado a reconhecer que na Argentina não há agricultores familiares cultivando soja. São todos grandes fazendeiros. O mesmo fenômeno ocorre, atualmente, no Maranhão. Também o Cerrado e sua população (caboclos) são esmagados pelo rolo-compressor dos que eles chamam de ‘gaúchos’. De fato, são os ‘missionários da soja’ vindos do Sul que, desde a década de 1980, arribam em sua maravilhosa região e desregula(ra)m toda a sociedade local, disfarçados de salvadores carregados de desenvolvimento.
Mesmo não plantando soja, os camponeses e agricultores familiares são, atualmente, perseguidos pelos ditames da soja. No Sul do Brasil, a soja ainda é incluída no sistema de rotação de culturas da agricultura familiar, ainda que naquela região também tenham existido centenas de milhares de vítimas, na década de 1980. Arruinados, os agricultores partiram para as favelas ou fugiram para o norte, para Rondônia e outros estados. Em busca de felicidade, desmatamento, terras e soja. Em busca de salvação.
Os convidados da década de 1980, na Bolívia, não só desmataram, diligentemente, a região de Santa Cruz. Em seguida eles foram realmente trabalhar nos canaviais. Gradativamente eles começaram a plantar soja em suas propriedades. Por isso, o seminário é realizado em dois locais: no primeiro dia, no interior, em San Pedro; o dia seguinte, na própria Santa Cruz.
Num microônibus, percorremos a imensa planície. É interessante observar que o asfalto acaba onde terminam os canaviais e grandes lavouras de soja. A partir daí, a viagem torna-se um rally no barro e areia. Ao lado da estrada, vemos casinhas de madeira típicas de ‘colonos-índios’. Espanto-me ao ver que as casas são feitas com grossas e maciças tábuas de madeira de lei. Elas me fazem lembrar a vila polonesa, em Curitiba: as casas sólidas dos primeiros imigrantes do século XIX. Mas as aparências enganam. Estas casas, certamente, não são tradicionais e, sim, um testemunho do que ocorreu aqui na década de 1980, ou seja, o desmatamento da floresta tropical. No futuro, as casas certamente terão outra aparência, simplesmente porque não se encontra mais madeira. Com agradecimentos ao Banco Mundial. Enquanto isso, viajamos por uma floresta de painéis com anúncios, as boas-vindas da indústria fornecedora de insumos químicos. Inclusive do polvo Cargill e outros concupiscentes atacadistas de soja. Aparentemente, os agricultores ainda conseguem cultivar sem adubos químicos, o que lhes dá alguma folga financeira para utilizar mais agrotóxicos. A indústria entendeu isso muito bem. Jamais vi tamanho festival de auto-elogios. É realmente um alívio quando, no meio da floresta de painéis, também observamos a placa de Probioma. Estas tratam de informações raras sobre controle orgânico de doenças. Probioma (1), o organizador deste seminário internacional, sabe que é uma batalha perdida; mesmo assim, eles persistem bravamente.
[Foto 53]
O asfalto acaba onde terminam as propriedades dos grandes fazendeiros.