O rebanho dos “bois piratas” - 4
O governo anuncia que vai caçar o gado criado em áreas de desmatamento ilegal na Amazônia. É apenas um dos desafios para conciliar a pecuária com a floresta José Antonio Lima, Juliana Arini e Mariana Sanches No dia da posse, Minc ganhou um desses acessórios do estilista Carlos Tufvesson, um dos preferidos das celebridades do eixo Rio–São Paulo. Com estampas que reproduzem o Cristo Redentor e a Mata Atlântica, o…
No dia da posse, Minc ganhou um desses acessórios do estilista Carlos Tufvesson, um dos preferidos das celebridades do eixo Rio–São Paulo. Com estampas que reproduzem o Cristo Redentor e a Mata Atlântica, o colete é ainda mais chamativo que o estilo usual do ministro. “As estampas dessa coleção são uma homenagem ao Rio”, diz Tufvesson. “Fiz questão de criar. Ele é um cara muito bacana.” Tufvesson é um militante da causa gay, que tem o apoio do ministro.
Minc, apelidado de “Carlos Mídia” por seus desafetos, tem sido notícia diária desde que virou ministro. Antes da posse, comprou briga com o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, um dos maiores plantadores de soja do país e importante liderança política da base de sustentação do governo. “Se deixar, ele planta soja até nos Andes”, afirmou Minc, ainda em Paris, logo que aceitou o posto. Maggi soltou uma nota negando o óbvio, que tenha terras lá. O bate-boca promete.
Com seus cabelos compridos, Minc não pode ser acusado de ferir o protocolo. É raro vê-lo de terno, mas está sempre de gravata quando a ocasião requer, ainda que, às vezes, elas fujam ao padrão. Ele prefere as customizadas, com estampas impressionistas ou mensagens oportunas. “Brasília é o reino dos estranhos. Tem político de chinelo, cabeludo, barba enorme. Ele é quase um conservador e está no lugar certo. Já pensou se fosse ministro da Fazenda?”, diz o publicitário carioca Lula Vieira.
| Isabel Clemente |
Minc e parte de sua coleção de coletes. O estilo chamativo é sua marca há 30 anos
“Vamos leiloar esse gado”
ÉPOCA – Boa tarde, ministro.
Carlos Minc – Sono io (“Sou eu”, em italiano).
ÉPOCA – Como é a questão do boi pirata? O senhor anunciou que vai começar a caçar os bois na Amazônia que estão em áreas de desmatamento ilegal. Como isso vai acontecer?
Minc – Na Amazônia tem 60 milhões de cabeças de gado...
ÉPOCA – São 76 milhões...
Minc – Sei lá, um monte de milhões de cabeças de gado. Mas, quando eu falo de boi pirata, estou me referindo às 331 propriedades que foram embargadas. Algumas pessoas até estão questionando por que prender o boi, e não o dono do boi? O que eu estou propondo é que todas as novas operações vão ser acompanhadas por peritos. Isso é para evitar que a impunidade ambiental continue. Em relação a nossos boizinhos, bem, eu também não posso ir lá e prender o boi. O que vai acontecer é que o fiscal vai lá, autua, depois multa, embarga o boi. E, se o crime ambiental continua, o boi vai apreendido.
ÉPOCA – Existe fiscal para tudo isso?
Minc – Calma, eu não vou apreender todos os bois da Amazônia. O problema é o discurso do contra. Vamos focar nas 331 propriedades que já estão embargadas. Não deve ter mais que milhares de bois nessas fazendas. Sei lá quantos. Algumas devem ter 30 mil cabeças.
ÉPOCA – Se essa for a média das propriedades, vão ser quase 3 milhões de bois.
Minc – Não importa. O que eu quero dizer é que esse é um trabalho que quero fazer com a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Vamos leiloar esse gado. Isso vai acabar virando recurso para o Fome Zero.
ÉPOCA – Como resolver a bagunça fundiária da Amazônia?
Minc – Vamos lançar uma linha de crédito de R$ 8 milhões para os proprietários que querem legalizar suas áreas. Esse recurso também poderá ser usado para recuperação das terras degradadas. Também lançamos outra medida, que é dar um preço mínimo para os produtos florestais. Isso nunca aconteceu. O produtor de babaçu, cupuaçu e castanha nunca teve a mesma garantia que aquele que planta arroz. Todo mundo acha muito romântico e bonitinho o extrativismo. A gente fica aqui no centro-sul falando: “Ah, o extrativismo”. Mas essas pessoas sempre ficam num miserê de dar dó. Isso tudo entrou em uma medida provisória assinada pelo presidente. Foram três coisinhas sensacionais que a gente meteu lá.
ÉPOCA – Qual foi a terceira?
Minc – A terceira não tem a ver com esse nosso assunto. Ela permite que, para tomar crédito, o fazendeiro também possa dar como garantia as áreas florestadas. Antes só podia usar uma terra nua. A parte florestada era considerada improdutiva. Isso valoriza a floresta em pé. Agora eu já falei demais. Um grande abraço.
Juliana Arini
Fonte: Revista Época