Nossos animais querem mudanças no cardápio! Alternativas na Europa.
Luc Vankrunkelsven Desde sua fundação, em 1990, Wervel cresceu muito. Continua sendo, principalmente, um movimento de voluntários, com agricultores de diversos movimentos ligados à agricultura, pessoas do movimento ambiental, movimentos dos países em desenvolvimento, de consumidores. De vez em quando, conforme o tema, participam algumas pessoas de movimentos pela paz, movimento de mulheres, do movimento sindical…
Luc Vankrunkelsven
Desde sua fundação, em 1990, Wervel cresceu muito. Continua sendo, principalmente, um movimento de voluntários, com agricultores de diversos movimentos ligados à agricultura, pessoas do movimento ambiental, movimentos dos países em desenvolvimento, de consumidores. De vez em quando, conforme o tema, participam algumas pessoas de movimentos pela paz, movimento de mulheres, do movimento sindical, etc. Gradativamente, foram se somando mais projetos e, desde 2006, somos reconhecidos pelo Ministério da Cultura como um ‘movimento’. Graças a este último reconhecimento, pudemos contratar Katrien Van Oost para dar apoio aos grupos de base e outras atividades. Com as doações de muitos simpatizantes e graças a alguns projetos, Patrick De Ceuster e Frederik Claerbout já trabalham há vários anos conosco. Em virtude do projeto ‘sistemas agroflorestais’, Jeroen Watté pode vir fortalecer a equipe em outubro de 2006. Frederik e eu praticamente nos especializamos na história mundial da soja, embora Frederik – enquanto filho de agricultores – tenha uma carteira de conhecimentos muito mais diversificada. Patrick é nosso homem com faro para planejamento a longo prazo e para as extremamente necessárias alternativas na agricultura – as alternativas que são o tema central deste livro. É por isso que passo, com prazer, a palavra a Patrick De Ceuster para o que segue:
“Semana passada foi apresentado, na Holanda, o manifesto ‘Agricultores com Futuro’. Exatos 106.975 cidadãos holandeses reivindicam que o governo holandês dê um basta nas importações massivas de soja. Por meio de um imposto da ordem de 0,85 centavo por quilo de carne, do qual a carne sem soja é isenta, eles esperam contribuir para um futuro melhor para os brasileiros que moram na região da Floresta Amazônica – e também para os agricultores holandeses! Somente desta maneira, é possível assegurar o bem-estar animal, o meio ambiente e o futuro das propriedades agrícolas, segundo as ONGs Nederlandse Milieudefensie [Defesa Ambiental Holandesa] e JongerenMilieuActief [Movimento de Jovens pelo Meio Ambiente].
Rumo a uma ração balanceada
A ração animal também pode ser produzida em Flandres. Foi assim durante séculos. É claro que houve uma ou outra mudança, e não foi só a compulsão da carne belga de sair viajando para países vizinhos e além. A anatomia dos animais também mudou muito, principalmente do gado bovino. A vaca holandesa de hoje produz tanto leite que a ração é indispensável. A raça Blanc-Blue-Belge evoluiu junto com a importação de soja: seu rúmen (bucho) ficou menor e agora consome ração mais rica em proteínas do que outras raças bovinas.
Além disso, Flandres é densamente povoada e não sobra muita terra para cultivar. Mesmo assim, Wervel tem a certeza de que com uma agricultura mais eficiente nós conseguiremos construir um elevado grau de autonomia alimentar com práticas justas e responsáveis e alimentos locais saudáveis.
[Foto 61]
Cânhamo no sítio De Ploeg. Atualmente, junto com gramíneas-trevo, um substituto de soja na alimentação de gado de leite.
Assim nós nos deparamos, regularmente, com belas iniciativas. Tomemos, por exemplo, o sítio Olmenhof. Hendrik Van Crombrugghe entrou em contato com Wervel para incluir seu abatedouro artesanal na relação de pontos de venda de carne sem soja. Num primeiro momento, não entendi. De acordo com o site do açougue, eles criam a raça Blanc-Blue-Belge… Mas Hendrik está trabalhando num cruzamento de Blanc-Blue-Belge com a Blonde d’Aquitaine para criar uma raça com a famosa qualidade da Blanc-Blue-Belge, mas que possa ser alimentada com ração sem soja. Neste caso, torta de colza é a principal fonte de proteínas.
Eficiência também implica em deslocar a ênfase da pecuária para verduras, grãos e nozes. As alternativas para a ração animal deverão ser, tanto para o homem quanto para os animais, nutritivas, de fácil digestão e, principalmente, saborosas! Para se acostumar ao cardápio do futuro, um aperitivo:
Cardápio: Quiche de tremoço
Salada de folhas de camelina e grãos cozidos
Sorvete de baunilha com genebra (aguardente) de cânhamo e mel de colza.
A Nederlandse Milieudefensie também defende a redução do número de animais por propriedade. “A pecuária holandesa deverá mudar de produção em quantidade para produção de qualidade. Devido ao tamanho e à escala, o papel central está reservado para a propriedade familiar.”
Propriedade familiar
Para a propriedade familiar, é vantajoso que algumas culturas alternativas sejam multifuncionais.
Por exemplo, a colza pode fornecer, simultaneamente, a ração animal e o biocombustível para a propriedade. Além disso, a colza não alimenta somente porcos e vacas, mas também minhocas. As folhas e raízes de colza parecem ser o alimento ideal para minhocas. Estas, por sua vez, proporcionam um solo saudável que aumenta o rendimento da próxima cultura. Além disso, quem tiver a sorte de ter solo siltoso em sua propriedade poderá obter facilmente de 50 a 100 quilos de mel desta espécie com florada de longa duração.
Uma mesma lavoura de cânhamo fornece, simultaneamente, sementes e fibras interessantes, uma palha muito promissora para a construção e para ser usada como forração nos estábulos. Por meio de um processo simples, as sementes podem ser esmagadas na propriedade. O resultado é um óleo comestível de elevado valor. A torta residual pode substituir a soja. Atualmente está sendo realizada uma pesquisa sobre ração para gado de leite em Flandres. Nos EUA, pesquisas recentes com ração mostraram que o gado de corte alimentado com cânhamo necessitava de menos ração e sua digestão era melhor. Ao contrário da Cannabis utilizada na Suíça, aqui estamos falando de variedades naturais, com baixo teor de THC[1], as únicas que são permitidas na Bélgica.
Mais um passo em direção à agroecologia são os consórcios. O de gramíneas-trevo é, talvez, o mais conhecido. A mudança para gramíneas-trevo não é óbvia para todos os pecuaristas de leite. É que este sistema exige uma forma de alimentação e de manejo dos animais totalmente novos.
Outras possibilidades de consórcio são a cevada-ervilha ou a camelina-ervilha. Principalmente a Camelina sativa parece ser muito adequada para consórcios. Por exemplo, a soja poderia ser cultivada em nossa região num consórcio com… camelina.
No cultivo do tremoço, um consórcio com cártamo (Carthamus tintctorius) poderia ser a solução para um manejo mais ecológico de plantas indesejáveis do que os agrotóxicos utilizados hoje.
Um quadro-resumo de algumas alternativas promissoras:
|
| Setor | Vantagem ambiental em Flandres | Produção | Consumo humano | Número de produtores | Multifuncionalidade |
| Gramíneas-trevo | Pecuária de leite | ++ | +++ | - | +++ | - |
| Tremoço | Todos | - | +++ | ++ | ++ | + |
| Colza | Todos | + (*) | ++ | ++ | ++ | ++ |
| Cânhamo | Todos | +++ | + | +++ | + | +++ |
| Camelina | Todos (**) | ++ | + | ++ | - | ++++ |
(*) Desde que seja semeada a colza de inverno, com uma densidade de semeadura elevada e que não seja necessário utilizar herbicidas.
(**) Atualmente não é permitido.
Esta relação está longe de ser exaustiva. Uma pesquisa da Universidade de Wageningen (Holanda) também propõe quinoa e fava. Outros sugerem que o amaranto e tupinambo (ou girassol batateiro) também podem ser interessantes. Ou ainda o látiro (Lathyrus tuberosus), que encontramos durante nossa viagem à Bretanha (França).
____________
[1] Tetraidrocanabinol – substância psicoativa da maconha.
Trabalho pioneiro nem sempre é evidente
Wervel divulga estas alternativas junto aos agricultores por meio de filmes e fichas de cultivo. Para isso, consulta redes e parceiros. Os principais obstáculos que dificultam essa divulgação são a falta de experiências no cultivo e no uso como alimento das variedades mais recentes, mas também há alguns gargalos jurídicos.
Por exemplo, na diretriz européia 1999/29/EG, referente a substâncias e produtos indesejáveis em ração animal, nós encontramos camelina entre dioxina e arsênico! Espécie perigosa, alguém diria. Entretanto, em nossos países vizinhos o óleo é vendido como óleo comestível e, nos países escandinavos, a semente entra na composição do müsli (uma espécie de granola). Os mais céticos entre nossos leitores ainda podem obter o óleo de camelina na sede de Wervel.
Outra boa sugestão é um fim de semana no hotel da colza. Segue o endereço:
Hof ter Vrijlegem
Boven Vrijlegem 41, 1730 Asse-Mollem 02 452 85 45.
<http://www.hoftervrijlegem.be>
“Por 80 euros o quarto, você ainda tem direito a um café-da-manhã com ovo caipira frito no óleo de colza!”
Dê uma surfada (virtual) por um mundo sem soja:
Com a palavra, alguns pioneiros, em Flandres:
<http://www.wervel.be/downloads/sojahetkanzonder.mov>.
Alguns pioneiros na Bretanha:
<http://www.wervel.be/downloads/bretagne2006.wmv>.
Experiências de consórcio, na Alemanha:
<http://www.mischanbau.de>.
‘Basta de carne errada’, diz a Holanda:
<http://www.milieudefensie.nl/landbouw/publicaties/rapporten/boeren-met-toekomst-burgerinitiatief-milieudefensie-jma.pdf>.
Sobre o gado de corte alimentado com cânhamo, nos EUA: <http://nutiva.com/about/media/2004_05_13.php>.
Bruxelas, 7 de abril de 2007.
(1) Leia acerca das experiências com gramíneas-trevo do sítio De Ploeg, em Herselt, no livro ‘Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano.’ Curitiba: Editora Gráfica Popular/Cefuria, 2006.