Nós, os animais - Paulo Paniago
Romancista reconhecido, J.M. Coetzee é convidado para palestras sobre ética, resolve escrever a respeito do tratamento que seres humanos dispensam aos animais e levanta discussões gravesPaulo Paniago Da equipe do Correio A Vida dos Animais De J.M. Coetzee. Companhia das Letras, 148 páginas. Introdução e organização de Amy Gutmann. Tradução de José Rubens Siqueira. R$ 19,50. Melhor dizer logo: não existe, entre os…
Romancista reconhecido, J.M. Coetzee é convidado para palestras sobre ética, resolve escrever a respeito do tratamento que seres humanos dispensam aos animais e levanta discussões graves
Paulo Paniago
Da equipe do Correio
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| A Vida dos Animais |
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| De J.M. Coetzee. Companhia das Letras, 148 páginas. Introdução e organização de Amy Gutmann. Tradução de José Rubens Siqueira. R$ 19,50. |
Melhor dizer logo: não existe, entre os escritores contemporâneos, alguém que mereça mais respeito do que o sul-africano J.M. Coetzee. Ele é tudo de bom: conciso, inteligência afiada, capacidade narrativa, desenvolvimento, verve. E consegue a façanha de receber prêmios importantes mas manter um distanciamento devido do mundo das vaidades artísticas. Motivo pelo qual, talvez, é tão pouco conhecido no Brasil.
Cinco dos livros foram traduzidos. O excelente romance Desonra, entre eles. Um sexto título veio se somar. É A Vida dos Animais. Talvez Coetzee vá continuar desconhecido por aqui, embora tenha ganho dois Booker Prize (o mais prestigiado prêmio literário inglês), façanha repetida apenas pelo australiano Peter Carey. Isso para dizer: é um escritor a quem se deveria prestar atenção. Não pelos prêmios, pela qualidade da prosa. (Em última instância, qualidade que provoca prêmios.)
Convidado pela Universidade de Princeton para pronunciar as Tanner Lectures, em 1997-8, ele deveria proferir duas palestras sobre um tema ético. Escolheu: a relação dos humanos com animais. Em vez de dizer diretamente o que pensa, criou narrativa em forma de romance. Nela, uma escritora reconhecida, Elizabeth Costello, é convidada a ir a uma universidade proferir palestras e escolhe falar — isso mesmo, a respeito da relação entre humanos e animais. A isso segue-se um debate, também reproduzido no livro, com especialistas em diversos assuntos: história das religiões, literatura, bioética, estudos de primatas.
A primeira das questões, então, é a respeito de como qualificar o livro, ensaio ou romance. O preferível é vê-lo como um híbrido. A professora Marjorie Garber, de Princeton, fala em romance acadêmico. Inclusive lista vários títulos desse, digamos, gênero. Coetzee até se aproxima, mas não é o caso.
Impossível reproduzir todos os argumentos de Coetzee/Costello em um pequeno texto. Isso fica ainda mais claro quando se lê as réplicas dos debatedores ao final do livro: professores que são convidados para contrapor ou reforçar com maior propriedade as idéias levantadas. Nenhum deles chega ao ponto central da força que tem o texto coetzeeano. Quem mais chega perto é a primatologista Barbara Smuts, mas por uma via acessória, ao relatar a relação que tem com babuínos e com a cadela Safi.
Na palestra, o centro nervoso do livro, Elizabeth descasca idéias áridas. Usa a velha comparação entre nazismo e açougues, mas retira dela novas conseqüências (honestamente: uma inversão de parâmetros), além de provocar imensas reações: um professor judeu recusa-se a participar de um jantar em que ela é a convidada de honra e depois lhe manda uma carta polemizando. Sobre a indústria da carne, ela diz: ‘‘Estamos cercados por uma empresa de degradação, crueldade e morte que rivaliza com qualquer coisa que o Terceiro Reich tenha sido capaz de fazer, que na verdade supera o que ele fez, porque em nosso caso trata-se de uma empresa interminável, que se auto-reproduz, trazendo incessantemente ao mundo coelhos, ratos, aves e gado com o propósito de matá-los’’. Por sermos racionais, somos ainda piores por agir do modo como agimos com os animais.
Costello coloca animais em pé de igualdade com humanos, e despreza ambientalistas, que partem do princípio de que humanos são superiores, e tratar bem animais é por condescendência. A idéia é ousada, e ela consegue explorar bem nas duas conferências, Os Filósofos e os Animais e Os Poetas e os Animais.
Dedo na ferida |
Trecho A pergunta a ser feita não deveria ser: temos algo em comum — razão, autoconsciência, alma — com os outros animais? (E o corolário que se segue é que, se não tivermos, estamos autorizados a tratá-los como quisermos, aprisionando-os, matando-os, desrespeitando seus cadáveres.) Volto ao campo de extermínio. O horror específico dos campos, o horror que nos convence de que aquilo que aconteceu ali foi um crime contra a humanidade, não reside no fato de que a despeito de os matadores partilharem com suas vítimas a condição de humanos, eles as terem tratado como piolhos. Isso é abstrato demais. O horror está no fato de os matadores terem recusado a se imaginar no lugar de suas vítimas, assim como todo mundo. Disseram: ‘São eles naqueles vagões de gado passando’. Não disseram: ‘Devem ser os mortos que estão sendo queimados hoje, pesteando o ar e caindo em forma de cinza em cima dos meus repolhos’. Não disseram: ‘Como seria se eu estivesse queimando?’. Não disseram: ‘Estou queimando, estou me transformando em cinzas’. |
DESONRA
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Fonte: Correio Braziliense

