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Mudança no próprio estilo de vida versus ação política?

Hoje, dia 8 de março de 2006, foi atingido o coração do ‘capitalismo e do patriarcado’. Esta mensagem se destaca no comunicado à imprensa da Via Campesina. A história deverá mostrar se isto promoveu progresso, ou não, na causa da reforma agrária, de um outro modelo agrícola e da agricultura familiar. Quando a manifestação foi questionada pelos jornalistas, João Pedro Stedile, do MST, respondeu laconicamente…

 

Hoje, dia 8 de março de 2006, foi atingido o coração do ‘capitalismo e do patriarcado’. Esta mensagem se destaca no comunicado à imprensa da Via Campesina. A história deverá mostrar se isto promoveu progresso, ou não, na causa da reforma agrária, de um outro modelo agrícola e da agricultura familiar. Quando a manifestação foi questionada pelos jornalistas, João Pedro Stedile, do MST, respondeu laconicamente: “Eucaliptos não enchem a barriga de ninguém. Nós devemos dar os parabéns às mulheres, pois tiveram a coragem de – com esta manifestação – chamar a atenção da sociedade para este problema.” Eu reparo, na Folha de S. Paulo, que o senador Eduardo Suplicy – em uma Carta Aberta a Stedile – faz questionamentos. Ele fala de Martin Luther e do sucesso do movimento pelos direitos civis nos EUA, sobre Gandhi e sobre a grande simpatia da população brasileira por manifestações criativas.

 

Enquanto isso papel é desperdiçado como nunca. A cada doce ou salgado que se compra, cada caipirinha que você toma, você recebe em excesso de guardanapos. No banheiro, os pedaços de papel higiênico têm o dobro do comprimento do que na Europa. Por quê? O papel não pode ser jogado no vaso e deve ser descartado na lixeira ao lado. É óbvio que é lixo, mas sempre faz com que eu novamente me confronte com o Brasil como o país campeão em desperdício, não obstante todas as conferências internacionais sobre reforma agrária, biodiversidade, teologia da libertação. Naturalmente a celulose é utilizada para produção de papel e destinada, principalmente, para o mercado mundial. A ‘pegada ecológica’ média na Europa, por enquanto, ainda é maior do que a brasileira (porque a maioria da população não tem acesso ao paraíso do consumo), mas isso quer dizer que o desperdício neste país ‘que emana leite e mel’ não pode ser apontado?

Felizmente há em Porto Alegre 16 mil catadores, pessoas que vivem da reciclagem. Reciclagem do lixo produzido pela classe média e pelos ricos. Todas as noites, lá estão eles, revirando os sacos de lixo e lixeiras, procurando matérias-primas. Felizmente? A mim sempre parece tão contrário à dignidade humana quando vejo as classes sociais menos favorecidas fazendo seu trabalho silencioso.

Enquanto isso, sempre entro novamente numa cultura que deixa as torneiras abertas. Descargas de banheiros que estão sempre vazando e não são consertadas. Vazamentos nas ruas que só são consertados vários dias mais tarde. Centenas de milhares de litros de água se perdem diariamente desta maneira. É como se houvesse reflorestamentos de eucaliptos chupadores de água no banheiro! Os reflorestamentos de eucaliptos podem ser um desastre ambiental e social, mas pelo menos produzem fibras. As descargas de banheiros sempre vazando não levam a nada. Somente geram prejuízo ecológico e econômico. Mas, aparentemente, isto não é visto e, muito menos, se estabelece uma ligação entre uma coisa e outra (7).

 

Crônica intermediária

 

Na próxima semana, será realizado o Fórum Mundial da Água, no México. Trata-se de uma iniciativa das Nações Unidas, mas com atuação fortemente influenciada pela ideologia do Banco Mundial.

Em razão deste evento, novamente surgem na imprensa dados não muito animadores:

* 1,1 bilhão de pessoas não têm acesso a água potável;

* 2,5 bilhões de pessoas não têm acesso a instalações sanitárias;

* em 1950, cada pessoa tinha à sua disposição 17 mil m3 de água; em 2006, este volume é de 7 mil m3.

O Brasil pode ter abundância de terras, água, florestas, biodiversidade, carne, peixe… mas o cenário mundial é bem diferente.

 

No dia 22 de março comemora-se o Dia Mundial da Água. Será que o Brasil vai receber alguma atenção neste dia?

O problema é que, em função dos números acima, os promotores do Fórum Mundial da Água reivindicam com ainda mais ênfase a privatização da água potável.

Neste momento, 80% de toda a água mineral já está nas mãos de quatro empresas: Nestlé, Danone, Pepsi-Cola e Coca-Cola.

Mas... estes números a imprensa não divulga com tanta facilidade.

 

Enquanto isso a cara iluminação elétrica tem que concorrer com o sol gratuito. Cara? Existe, com todo direito, um ‘Movimento dos Atingidos por Barragens’. Agricultores e povos tradicionais, lutando por seus direitos, suas terras. O território brasileiro é gigantesco e abundante em rios. Desde a década de 1950, a opção preferencial é pela geração de energia hidrelétrica. Energia ‘limpa’, tal como hoje é propagandeada a energia ‘verde’ do etanol da cana-de-açúcar, do biodiesel dos desertos de monoculturas de soja ou outras fontes. Limpa, arrumada e barata, mas o custo social e ecológico não é computado e repassado. Foi assim que, em 1985, se construiu Itaipu, a maior hidrelétrica do mundo em geração de energia, que inundou 1350 km2 de terras. Os agricultores foram expulsos. Os guarani já estão, há mais de 20 anos, amontoados numa pequena área.

Devido ao estilo de vida de desperdícios diários, serão necessárias muitas ‘itaipus’ nos próximos anos. Porém, o milagre da multiplicação de hidrelétricas está encontrando resistência política. A empresa franco-belga Tractebel é, entre outras, um dos alvos. A resistência é digna de louvor, mas quem é que vai – finalmente – fazer a ligação entre o próprio estilo de vida e a grande resistência? Ou será que aí você se torna o chato-mor, o estrangeiro que não entende nada, que fica o tempo todo desligando as luzes e tentando consertas a descarga? É o belga pão-duro que não consegue entender por que o chuveiro deve ficar tanto tempo despejando água sobre o corpo suado? O chuveiro elétrico brasileiro que consome uma enorme quantidade de energia elétrica…

O que sempre me causa espanto é que as organizações e seus membros que defendem a sustentabilidade, agricultura sustentável, reforma agrária, etc., no dia-a-dia do escritório e no estilo de vida doméstico não estão atentos à redução de consumo. Os sem-posses também desejam – lá no fundo – ‘possuir e consumir’. E esta não é uma atitude básica, que todos nós compartilhamos de uma ou outra maneira? Isto também é assim na Europa, mas – na minha percepção – é ainda mais forte no país da abundância que se chama Brasil. Será que ‘mudança no estilo de vida’ e ‘trabalho político’ estão mesmo fadados a ficar em ilhas distintas? Duas ilhas que não têm relação uma com a outra? Será que a questão estará resolvida se dividirmos a terra e todos os seus recursos igualmente e, em seguida, democratizarmos a grande pegada ecológica daqueles que hoje já são consumidores?

Autoria preservada do acervo

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