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Gandhi seria vegano hoje?

de Marly Winckler – presidente da International Vegetarian Union (IVU) Em 1888, aos 19 anos, Mohandas Karamchand Gandhi partiu para Londres a fim de estudar Direito. Pouco antes, durante o ensino médio, ele fez amizade com um muçulmano alguns anos mais velho, que, ao contrário de Gandhi, era alto e tinha uma compleição atlética. Gandhi começou a comer carne sob sua influência, com a ideia de se tornar fisicamente…

de Marly Winckler – presidente da International Vegetarian Union (IVU)

Em 1888, aos 19 anos, Mohandas Karamchand Gandhi partiu para Londres a fim de estudar Direito. Pouco antes, durante o ensino médio, ele fez amizade com um muçulmano alguns anos mais velho, que, ao contrário de Gandhi, era alto e tinha uma compleição atlética. Gandhi começou a comer carne sob sua influência, com a ideia de se tornar fisicamente mais forte, já que era magro e também um pouco medroso: temia ladrões, fantasmas e cobras. Seu amigo o encorajou a comer carne dizendo que ele seria mais corajoso. Teria argumentado que "a dieta vegetariana enfraqueceu os hindus, enquanto uma dieta carnívora deu aos britânicos a força para dominar a Índia". Essa ideia começou a rondar a cabeça de Gandhi, que começou a consumir carne escondido.

Mas Gandhi não se sentia bem em comer carne. Ele pertencia a uma família hindu Vaishnava, que não comia carne nem ovos; eles eram lacto-vegetarianos. Um dia, depois de comer carne de cabra, ele sonhou que o animal estava sangrando dentro de seu estômago, o que o fez acordar cheio de remorso e culpa. Mas ele logo se lembrou que comer carne o tornaria forte e seguiu em frente. Sempre que ele comia essas refeições com seu amigo, ele não jantava em casa, o que gerava alguma desconfiança em sua mãe, que começou a fazer-lhe perguntas. Gandhi inventava diferentes desculpas, mas isso também o deixava se sentindo culpado. Todo esse processo levou cerca de um ano e ele não havia feito mais do que meia dúzia de refeições com carne quando parou completamente. 1

Antes de partir para a Inglaterra, sua mãe o fez prometer não comer carne. Em Londres, o jovem Mohandas estava encontrando dificuldade para comer, porque além de não comer carne e ovos, o tipo de alimento que ele encontrou era muito diferente do que ele estava acostumado. Ele andava muito para encontrar um lugar onde pudesse fazer suas refeições. Em uma dessas caminhadas, ele se deparou com um restaurante vegetariano na Rua Farringdon, o Restaurante Central. O estabelecimento também vendia livros e revistas e lá ele comprou uma cópia de A Plea for Vegetarianism (Um Apelo ao Vegetarianismo), de Henry Salt, cuja leitura o convenceu a se tornar vegetariano por escolha, e não apenas por causa de uma exigência religiosa. Ele logo se juntou à London Vegetarian Society (LVS),  que recentemente havia se tornado independente da Sociedade Vegetariana, com sede em Manchester. Ele atuou em seu comitê executivo e escreveu artigos para sua revista, The Vegetarian.

London Vegetarian Society
London Vegetarian Society

Em outubro de 1889, membros da LVS fundaram a Federal Vegetarian Union (União Vegetariana Federal – VFU), com o objetivo de reunir sociedades vegetarianas de todo o mundo. Alguns deles haviam participado do primeiro Congresso Internacional Vegetariano no mês anterior, em Colônia, Alemanha, e se ofereceram para sediar o próximo Congresso em Londres, no ano seguinte (1890). 

Em maio de 1891, a LVS nomeou Gandhi como seu delegado para a reunião da União Vegetariana Federal em Portsmouth, Inglaterra. Nesta reunião, ele conheceu Henry Salt, cujo livro tinha sido tão importante em sua vida dois anos antes. Em junho daquele ano, após se formar, Gandhi retornou à Índia para começar sua carreira como advogado. No sábado antes de deixar a Inglaterra, ele organizou um jantar de despedida para os amigos vegetarianos, onde expressou a esperança de que um futuro Congresso da União Vegetariana Federal fosse realizado na Índia.

Plea
A Plea for Vegetarianism de Henry Salt

Entre 1894 e 1903, Gandhi continuou a enviar artigos para The Vegetarian, agora da África do Sul, para onde havia se mudado. No país africano, ele começou a colocar em prática os princípios da não-violência e resistência passiva, defendidos por  Leon Tolstoy  (outro vegetariano), e que ele provavelmente leu pela primeira vez quando foram publicados no The Vegetarian, em dezembro de 1889.No início do século XX, a União Federal Vegetariana de Londres chegou ao fim, mas pouco depois, em 1908, a União Vegetariana Internacional (IVU) foi fundada, com uma perspectiva mais global. A nova organização foi lançada no 1º Congresso Mundial Vegetariano em Dresden, Alemanha. A Sociedade Vegetariana de Londres tornou-se um membro proeminente da IVU e, em 1926, sediou o  6º Congresso Vegetariano Mundial em sua antiga casa - a Memorial Hall na Farringdon Street.

Em 1931, Gandhi retornou a Londres para falar com o governo britânico sobre a independência da Índia. Aproveitando sua presença no país, a Sociedade Vegetariana de Londres organizou uma reunião especial, onde ele se dirigiu aos seus membros. Ao lado dele estava seu velho amigo e mentor, Henry Salt. Na conferência dada na ocasião ("The moral basis of vegetarianism” (A base moral do vegetarianismo), que daria nome ao livreto que seria lançado anos depois), Gandhi compartilhou algumas ideias sobre seus princípios relacionados à alimentação. Durante este período, e por mais 26 anos, todos os Congressos Vegetarianos Mundiais da IVU continuariam a ser realizados na Europa. 

Fundação da IVU - Dresden 1908

O desejo de Gandhi, expresso em 1891, de que um Congresso fosse realizado na Índia, não se concretizou durante sua vida, interrompida pelo seu assassinado em janeiro de 1948. No entanto, no início da década de 1950, um grupo de indianos iniciou esforços para alcançar esse objetivo – e, finalmente, em dezembro de 1957, realizaram o 15º Congresso Mundial da IVU, o primeiro fora da Europa, em Bombaim, Deli, Calcutá e Madras – um acontecimento de grande repercussão no país, com a participação dos principais estadistas indianos, incluindo o presidente Rajendra Prasad,  o primeiro-ministro Jawaharal Nehru e pelo menos cinco ministros de Estado. 

Rukmini Devi - presidente do Comitê de Recepção

Gandhi, é claro, foi lembrado no evento. Nas palavras de Rukmini Devi Arundale, presidente do comitê de recepção do Congresso e vice-presidente da União Vegetariana Internacional (IVU) por 31 anos: "Se Gandhi ainda estivesse vivo, ele teria 88 anos – e certamente teria sido o convidado de honra no Congresso. "Espero que, como resultado deste Congresso, o próprio Governo esteja convencido da necessidade de promover a dieta vegetariana, pelo menos do ponto de vista nutricional e econômico, senão por razões humanitárias, embora eu acredite que o Governo de um povo que chama Gandhiji de Pai da Nação deveria estar feliz em governar à luz lançada por seus princípios. Dois dos nossos maiores líderes, a Dra. Annie Besant, que era minha própria Guru, e Gandhiji, eram da opinião de que eles preferiam não viver do que matar um animal, pássaro ou peixe por comida."2

Gandhi e Henry Salt à sua direita, num encontro da London Vegetarian Society - 20 de novembro de 1931

Mahatma Gandhi adotou muitos de seus valores e princípios das escrituras indianas antigas, como os Vedas e os Upanishads. Esses códigos morais – incluindo a verdade, o celibato, a não-violência (ahimsa) e a não-possessividade - neti, neti  (isso não, isso não), como preconiza o método da negação de análise védico – tornaram-se os princípios mais caros a Ghandhi e moldaram seu ativismo, sua política e filosofia por toda a vida. A comida também era uma questão de princípio para ele e ele acreditava que as pessoas deveriam comer com moderação e jejuar ocasionalmente. Ao contrário de outros ativistas vegetarianos de sua época, como Herbert Shelton, Gandhi acreditava que as motivações e consequências morais do vegetarianismo deveriam ser enfatizadas, não seus benefícios físicos. Gandhi dizia que as pessoas que interromperam suas dietas vegetarianas eram geralmente aquelas que se tornaram vegetarianas por razões de saúde ou porque estavam sofrendo de alguma doença. Ou seja, quando a saúde era restaurada, eles voltavam à dieta nociva. Assim, concluiu que, para se manter vegetariano, deve haver uma base moral. Ainda na Inglaterra, Gandhi começou a questionar o consumo de leite, acreditando que é nosso dever moral não viver de outros animais. Ele parou de consumir leite de vaca e búfala, apesar de consumir leite de cabra, que mais tarde chamou de "a tragédia de sua vida". O trecho a seguir, retirado do livreto The Moral Basis of Vegetarianism (A Base Moral do Vegetarianismo), uma coleção de escritos de Gandhi sobre o tema é ilustrativo de seu pensamento: 

"Sempre fui a favor da dieta vegetariana pura. Mas a experiência me ensinou que, para nos manter perfeitamente em forma, a dieta vegetariana deve incluir leite e produtos lácteos, como coalhada, manteiga, ghee etc. Este é um afastamento significativo da minha ideia original. Excluí leite da minha dieta por seis anos. Naquela época, eu não senti nada de mal por isso. Mas em 1917, como resultado da minha própria ignorância, fui acometido por uma grave disenteria. Fui reduzido a um esqueleto, mas me recusava teimosamente a beber leite ou coalhada. Mas eu não conseguia manter meu corpo e ter força o suficiente para sair da cama. Eu tinha jurado não tomar leite. Um amigo médico sugeriu que ao fazer o voto eu poderia ter tido em mente apenas leite de vaca e búfala; por que o voto deveria me impedir de beber leite de cabra? Minha esposa o apoiou e eu cedi. Para dizer a verdade, para quem deixou de beber leite, embora na época de fazer o voto apenas o de vaca e búfala estavam em minha mente, leite deveria ser tabu. Todos os leites animais têm praticamente a mesma composição, embora a proporção de componentes varie em cada caso. Por isso posso dizer que mantive apenas a letra, e não o espírito, do voto. De qualquer forma, o leite de cabra foi trazido imediatamente e eu bebi. Pareceu me trazer uma vida nova. Levantei-me rapidamente e logo pude sair da cama. Por causa de várias experiências semelhantes, fui forçado a admitir a necessidade de adicionar leite à rigorosa dieta vegetariana. Mas estou convencido de que, no vasto reino vegetal, deve haver algum tipo que, embora forneça as substâncias necessárias que derivamos do leite e da carne, esteja livre de suas desvantagens, éticas e outras". 

Souvenir do 15oIVU World Vegetarian Congress - Índia - 1957

Talvez Gandhi tenha se rendido aqui a um "wishful thinking", ou seja, no fundo, talvez, ele desejasse beber leite.

A mente tem seus "truques" para nos fazer acreditar naquilo que talvez seja um desejo. O renomado médico nutrólogo, Dr. Eric Slywitch, especialista em dietas vegetarianas, comenta este depoimento de Gandhi do ponto de vista nutricional, atendendo um pedido nosso:

“Frente aos conhecimentos médicos e nutricionais atuais, é perfeitamente viável manter uma alimentação vegetariana com a ausência de leite e derivados. A condição de diarreia pede a abstenção do uso de leite, pois a enzima lactase, que digere o carboidrato do leite (lactose) tem sua produção diminuída pelo intestino quando há qualquer processo inflamatório, seja infeccioso ou não. Diarreia e leite são combinações proscritas na nutrição atual.

Do ponto de vista nutricional, os dois nutrientes que poderíamos nos atentar na dieta de Gandhi com a exclusão dos laticínios seriam o cálcio e a vitamina B12. Nenhum desses dois, quando deficientes, ocasionam quadros de diarreia. Não há um diagnóstico nutricional que possa ser associado à melhora do quadro intestinal com a retomada do uso dos lácteos. Na condição médica atual, a investigação e tratamento da diarreia seria diferente e seguramente não seria necessário o uso de leite novamente”.5

Quanto ao aspecto ético, vale lembrar que no tempo de Gandhi, os animais, especialmente a vaca e a cabra, que, no caso, eram os animais que produziam o leite que ele consumia, eram criados de uma forma muito diferente da atual.

De fato, devido à forma como, por exemplo, as vacas são tratadas atualmente, o leite não pode figurar na lista de alimentos que não implicam sofrimento ou dano a um ser vivo – se é que um dia pôde – sendo contrário, portanto, ao princípio de ahimsa  que Gandhi preconizava. Muito pelo contrário, as vacas são talvez os seres que mais sofrem ao longo de sua vida no sistema de criação e exploração atual, sendo submetidas a tratamento cruel: confinamento, separação do bezerro (que via de regra é morto pouco depois de nascer por não ter valor econômico), inseminação artificial, sobrecarga de antibióticos, manipulação genética, alimentação artificial e ordenha incessante por máquinas de sucção que causam inflamação dolorosa no tecido mamário (mastite) etc. Depois de alguns anos, quando poderiam viver por longo tempo, são levadas para o matadouro, muitas vezes sendo deixadas dias sem água e comida, sem contar todo o estresse a que são submetidas no transporte e no manejo rude. No matadouro, as vacas são atordoadas com uma pistola que dispara um êmbolo retrátil que lhes causa sérios danos cerebrais e, se tiverem sorte, perda de consciência. Em seguida, são içadas por uma das patas traseiras e degoladas enquanto ainda estão vivas, de modo que o sangue seja expelido para fora do corpo. Às vezes, as vacas ainda estão conscientes quando são degoladas. 

Ahimsa é a abstenção de todo e qualquer tipo de violência. Não significa apenas não matar, mas não infligir voluntariamente qualquer dano, sofrimento ou dor a qualquer ser vivo, por palavras, pensamentos ou ações. Significa o mais alto grau de inofensividade. Não causar violência ou dano a nenhum ser vivo é parte integrante de  Ahimsa.Alimentar-se de uma forma que não cause violência ou dano a nenhum ser vivo é um dos requisitos deste princípio central da filosofia e da vida de Gandhi. 

A alimentação vegetariana estrita, ou seja, sem nenhum ingrediente de origem animal, é parte fundamental e integral de um mundo sem violência, saudável, sustentável e que respeita todas as formas de vida. Este era o mundo que o Mahatma Gandhi buscava. 

É difícil afirmar com alguma certeza, mas quero crer que hoje, com o agravamento dos impactos ambientais e com as descobertas da ciência favoráveis à dieta vegetariana estrita, e, sobretudo, em virtude da realidade em que os animais vivem, confinados em fazendas industriais, sendo criados e abatidos em condições execráveis, Gandhi seria um vegetariano estrito, por escolha consciente, um vegano.

Referências

1. M. Mehta, Man & Mahatma, Pustak Mahal, 2013, p. 16.

2. Gandhi and International Vegetarianism, International Vegetarian Union (IVU) website. 

3. Margaret Puskar-Pasewicz (editor), Cultural Encyclopedia of Vegetarianism, Greenwood, 2010, p. 114.

4. M. K. Gandhi, The Moral Basis of Vegetarianism, Ahmedabad, 1959, p. 2-3.

5. Mahatma Gandhi, Sobre o vegetarianismo, Editora Bazar do Tempo. Amazon

Autoria preservada do acervo

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