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Força na ´peruca´

01/01/2006 Adriana Castelo Branco Cabelos intocados, dieta vegetariana, pacifismo como lema: cada vez mais numerosa, a tribo rastafári chama a atenção no RioELES USAM DREADLOCKS, vestem roupas com as cores da bandeira da Jamaica, não bebem, não comem carne, rezam muito e divulgam seu lema de vida, o pacifismo, através do reggae. Os seguidores do rastafarianismo, que sempre se fizeram notar por causa da imagem de…

01/01/2006

Adriana Castelo Branco

Cabelos intocados, dieta vegetariana, pacifismo como lema: cada vez mais numerosa, a tribo rastafári chama a atenção no Rio

ELES USAM DREADLOCKS,
vestem roupas com as cores da bandeira da Jamaica, não bebem, não comem carne, rezam muito e divulgam seu lema de vida, o pacifismo, através do reggae. Os seguidores do rastafarianismo, que sempre se fizeram notar por causa da imagem de doidões — para completar, eles ainda fazem apologia da maconha — nunca chamaram tanto a atenção. Cada vez mais numerosos e organizados, eles agora divulgam sua filosofia em universidades (por meio de concorridas oficinas) e promovem shows, principalmente na Fundição Progresso, que virou ponto de encontro dessa turma que cultua ídolos como Bob Marley e Peter Tosh. Grande parte dos adeptos mora em Niterói — onde nasce uma banda de reggae por mês e foi inaugurada em setembro a loja ReggaeNation — e em Sana (Casimiro de Abreu, RJ), localidade do Centro Cultural Rasta Brasil — Jamaica Camping, que abriga uma comunidade de cem pessoas, com direito a igreja e palco para shows.

— O rastafári é mais que uma religião, é um modo de vida ligado às raízes da natureza. Por isso não cortamos o cabelo nem a barba, não ingerimos refrigerantes, comidas industrializadas ou remédios e temos mais saúde e equilíbrio — explica Hélio Bentes, vocalista da banda de reggae Ponto de Equilíbrio.

Para entender a cultura rastafári é preciso voltar no tempo. O movimento nasceu na Jamaica nos anos 1930 em protesto pelas péssimas condições de trabalho dos operários negros. Capitaneado pelo sindicalista Marcus Garvey, o rastafarianismo ganhou força com a coroação do imperador da Etiópia Ras Tafari Makonnem, intitulado Haile Selassie I, que se transformou no líder espiritual das comunidades negras. Através do reggae e do ritual Nyahbingui, que mistura tambores e cânticos, o movimento se expandiu para o mundo.

— Os rastafáris consomem cannabis durante as cerimônias para alcançar o sagrado. Ela é chamada de ganja e conta a mitologia que cresceu sobre o túmulo do Rei Salomão — explica o antropólogo Lucas Kastrup Rehen, que faz mestrado na Uerj e investiga as religiões alternativas.

A filosofia rastafári instiga a curiosidade de estudantes universitários. Maurício Fonseca e Fábio Simões, músicos da banda de reggae Aliança, passaram a realizar oficinas de Nyahbingui na Uerj e nas Faculdades Integradas Hélio Alonso. Além de falarem sobre as origens da cultura e os hábitos dos seguidores, eles tocam tambores — fabricados por eles próprios — e explicam a importância da leitura da Kebra Negasta, a bíblia rastafári.

Movimento tem oito mil adeptos na cidade

O guitarrista Ras André reúne amigos uma vez por semana em sua casa, em Niterói, para estudar a Kebra Negasta e tocar tambores, em cerimônias que chegam a durar quatro horas. Quando dá, o grupo faz o ritual na Serra da Tiririca.

— É muito interessante o estudo da cultura. No rastafári temos o Deus Jah, para quem cantamos, e a Kebra Negasta, que tem passagens do antigo testamento e a história dos reis etíopes — diz Ras André.

O historiador José Ribamar Vieira Soares, percussionista da banda Bob Marley Cover, é outro apaixonado pela cultura. No fim de seu curso na UFRJ, em 2001, defendeu a tese “Religião ou conceito rastafári no Rio de Janeiro”:

— Aqui no Rio há pelo menos oito mil adeptos que levam o rastafarianismo a sério.

Sem cortar seus dreadlocks há 15 anos, Maranhão, como é conhecido, é tão fiel aos princípios rastas que já começou a ensiná-los a seu filho de 3 anos, Gabriel, que também usa dreads. Mas, ao contrário dos rastafáris mais radicais, que simplesmente deixam de pentear e aparar o cabelo (os fios acabam se juntando), Maranhão cuida de suas madeixas com cera de abelha e argila no salão afro Dai, na Lapa.

Pensando nessa tribo, o empresário Pierre Zaka abriu há três meses em Niterói a loja ReggaeNation, que vende roupas com imagens do imperador Selassie, bandeiras da Jamaica e faixas para dreadlocks. Outro que aposta no crescimento da turma rastafári é o produtor Péricles Mecenas, que em novembro trouxe o grupo de reggae Steel Pulse para a Fundição Progresso.

— Em 2006 vamos celebrar lá os 25 anos da morte de Bob Marley e trazer Zig Marley para o Rio. Não vai faltar público — arrisca Mecenas.

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