Dorothy Stang, OMC e carne
Luc Vankrunkelsven Notícias contraditórias sobre a região amazônica chegam aqui a toda hora: justiça está sendo feita; o plantel de gado e o preço da carne continuam aumentando, apesar da febre aftosa; sem-terras recebem terras na floresta. Pela primeira vez em muitos anos, houve redução no desmatamento da floresta e o problema da escravidão será enfrentado.Anteontem, de madrugada, foram condenados os dois assassinos…
Luc Vankrunkelsven
Notícias contraditórias sobre a região amazônica chegam aqui a toda hora: justiça está sendo feita; o plantel de gado e o preço da carne continuam aumentando, apesar da febre aftosa; sem-terras recebem terras na floresta. Pela primeira vez em muitos anos, houve redução no desmatamento da floresta e o problema da escravidão será enfrentado.
Anteontem, de madrugada, foram condenados os dois assassinos da religiosa norte-americana e brasileira Dorothy Stang (1). Rayfran das Neves Sales, que fez o disparo, recebeu 27 anos de reclusão. Clodoaldo Carlos Batista recebeu 17 anos. Os supostos mandantes, os ricos grileiros, por enquanto, continuam atrás das grades. Para eles, ainda não há um processo em vista e eles ainda não foram condenados. Até agora é uma grande vitória para as mais de mil pessoas que acamparam durante dias do lado de fora do tribunal. Eles puderam acompanhar o andamento do julgamento por meio de alto-falantes. No estado do Pará impera, há décadas, a ausência da justiça e a lei do mais forte. Ou seja, dos fazendeiros (2) e grileiros, com seus pistoleiros que ameaçam e até matam o povo mais simples. Naturalmente, quando a pessoa assassinada é uma figura conhecida, a comoção é grande. O julgamento foi acompanhado pela mídia internacional e deverá ser encerrado com alguma punição. Já o grande número de pessoas anônimas, que levam suas vidas assustadas e com medo, estes podem esquecer a justiça.
Açúcar, álcool e café
Enquanto aqui o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, há meses reclama da crise na agricultura (‘O pior dos mundos’), o faturamento da exportação de produtos agrícolas brasileiros nunca foi tão elevado.
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O sangue de Dorothy lavou a terra. Justiça!
[Cartaz numa escola em São Luis]
Os bancos também obtêm lucros históricos. Por muito menos o Rabobank se arriscaria instalar no Brasil. Embora desde meados de 2004 estejamos observando um esfriamento na euforia da soja (preços mundiais em queda, estiagem, dólar elevado na hora do plantio e na aquisição de sementes-adubos-agrotóxicos, dólar baixo na hora da colheita), ainda há muitos que comemoraram. Nos primeiros 11 meses de 2005, as exportações somaram 39,936 bilhões de dólares, 900 milhões a mais do que no ano anterior. Principalmente açúcar e álcool (juntos, 51,8% a mais do que no ano anterior), além do café (46% a mais), estão indo muito bem. Açúcar e álcool estão relacionados com a iminente liberalização do mercado mundial para este produto e com o fato de a Europa desejar que seus motoristas utilizem combustíveis ‘verdes’. Ou seja, com o álcool produzido nos ‘desertos’ de cana-de-açúcar. Isso sem falar das novas formas de escravidão dos cortadores de cana. A crise mundial do café dos últimos anos parece ter sido esquecida.O Brasil é líder, tanto na exportação de café quanto de açúcar-álcool. A exportação de soja diminuiu 8,1%, enquanto a exportação de carne aumentou mais 14%. A de carne bovina diminuiu 7,6%, por causa da febre aftosa, constatada aqui no dia 10 de outubro de 2005. Desde então 52 países fecharam suas fronteiras para a carne e outros produtos brasileiros. Estranhamente, o preço da carne bovina não diminuiu e, sim, aumentou em 19,4%. Por causa desse aumento de preço, a redução de 22% no volume de exportações foi, parcialmente, compensada.
Carne bovina
A região amazônica foi a que apresentou maior aumento nas exportações de carne de gado. Esta imensa ‘terra de ninguém’ onde, ao que parece, é possível desmatar, assassinar e queimar anonimamente. A região onde Dorothy Stang – e, com ela, tantos outros – perderam a vida. Ainda em 1991, na Amazônia, não havia gado suficiente nem para alimentar a população local. Com a expansão da criação de gado na região, o Brasil aumentou suas exportações de carne de 500 milhões de dólares (em 1995) para 1,5 bilhões (em 2003). Cerca de 80% deste aumento tem origem na região amazônica. Sem querer ser moralista, posso afirmar com tranqüilidade que comer carne de gado brasileiro numa lanchonete de uma rede norte-americana é um ato político distinto do que, por exemplo, há 20 anos. Alguns anos depois, a soja sucede o gado e os grandes pecuaristas são ‘obrigados’ a continuar a queimada da floresta.
Em outras regiões, também ‘vale a pena’. O nível de água do Pantanal – a maior reserva de aves do mundo, com uma superfície equivalente à de Portugal – está baixando a olhos vistos por causa da expansão da cultura da soja. Além disso, nessa região, tanto a população mais pobre quanto os fazendeiros trabalham juntos num desmatamento alarmante. Os mais pobres desmatam e produzem carvão; os pecuaristas querem mais pasto, pois o preço da carne está muito interessante. Cerca de 18% da vegetação original já se foi e as previsões são de qu e, nos próximos anos, o ritmo será ainda mais acelerado. Estima-se que no estado do Mato Grosso do Sul existam cinco mil carvoarias que desmatam ilegalmente para produzir carvão. “No entanto, as únicas coisas que tenho são a camisa e a calça no corpo”, diz José Xavier de Andrade, 54 anos. É óbvio que os mais pobres estão sendo usados para fazer o trabalho sujo, para permitir que a carne fique à vontade. Um pobre é obrigado a atirar no outro pobre. Pistoleiros, carvoeiros (2) e agricultores sem terra lutam entre si, mas têm uma coisa em comum: eles estão desesperados e são pobres.
Sem-terra
Enquanto isso, o MST reclama que a reforma agrária está num beco sem saída. Não são só os fazendeiros e os grileiros que sabem que as terras da região amazônica são as mais baratas. Uma vez que a prioridade, aparentemente, é pagar os juros da dívida do governo, há poucos recursos para pagar a desapropriação de terras dos latifundiários. A meta do governo era, até o final de dezembro, assentar 115 mil famílias de agricultores sem terra. No dia 23 de novembro de 2005, 72.300 famílias haviam, efetivamente, recebido um pedaço de terra, das quais 53% em lotes situados nos nove estados da região amazônica. Porém, esta região é onde o MST possui a menor quantidade de bases e os sem-terra do movimento não estão sendo atendidos. O movimento critica, com justiça, que a distribuição de terras do governo não é reforma agrária, pois não altera o quadro de extrema concentração de terras do país: 1% da população possui 45% de todas as terras agrícolas. O governo escolheu o caminho mais fácil e barato, enviando as famílias para o meio da floresta, onde não há infra-estrutura, nem energia elétrica, água potável, etc. Das 72.300 famílias atendidas, em 2005, 46% foram assentadas em terras públicas.
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Pantanal: a maior reserva de aves do mundo
O MST promete, no ano eleitoral de 2006, fazer cobranças permanentes ao presidente Lula. O movimento conta, atualmente, com 120 mil famílias em acampamentos e exige do governo que todas sejam assentadas.
OMC
Estamos na antevéspera da grande conferência da OMC, em Hong Kong (13 a 18 de dezembro de 2005). O ministro Rodrigues estará presente e fará discurso pela abertura dos mercados mundiais. Milhares de ativistas de todo o mundo também se deslocaram para a China. Entre outros, uma chamativa delegação com cerca de mil agricultores coreanos grita que não é possível continuar assim. Após 15 mil anos de agricultura – o fundamento da cultura coreana – não se passa uma semana sem que um agricultor desesperado atente contra sua própria vida. Eles sabem por que querem dar um basta nessa OMC.
Será que a intenção desse ‘livre comércio mundial’ é fazer com que famílias sejam assentadas, em liberdade, na região amazônica para em seguida serem atropeladas pelo gado? Só porque os consumidores russos e o mercado mundial de carnes assim o desejam? Eu vejo aqui, num jornal brasileiro, ao lado dos orgulhosos números da exportação brasileira, uma foto de ativistas, com seu gado, diante da Comissão Européia.
Será que a intenção é que agricultores, gado, suínos, aves pratiquem uma concorrência mundial até a morte? Morte!
A verdadeira agricultura familiar trabalha a terra com amor e cria os animais com cuidado, seja na América, na África, Europa, Ásia ou Austrália.
Guarapuava, 11 de dezembro de 2005.
Postscriptum
- 1994-1995 foi o pico do desmatamento da floresta amazônica: 29.100 km2, entre outros, devido aos grandes incêndios na região; nos anos seguintes, ficou em torno de 18 mil km2. A partir de 2001, começou a crescer: 2001-2002: 23.100 km2; 2002-2003: 24.600 km2; 2003-2004: 27.200 km2. E o que é que a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, anunciou com alegria na segunda-feira, dia 5 de dezembro de 2005? Sim, retornamos aos níveis da década de 1990. Em 2004-2005: 18.900 km2! 31% inferior ao registrado no auge, em 2003-2004. Luz no fim do túnel?
- O presidente Lula e o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, lançaram na terça-feira medidas para combater o trabalho escravo. Os ‘escravos’ libertados serão incluídos no Bolsa Família, e 180 fazendeiros que os exploravam, não receberão mais financiamento. Esta terça-feira coincide com o início da Conferência Ministerial da OMC, em Hong Kong. Coincidência? Luz no fim do túnel?
- Em Hong Kong trabalha uma equipe de filmagens da Global Society. No âmbito de um projeto da União Européia (tendo parceiros como Vredeseilanden [Ilhas de Paz], Oxfam-Solidariedade, CSA [Coalizão para Estratégias Alimentares] e Wervel, da Bélgica; RAD [Rede para Agricultura Sustentável], da França; Acord – ONG que realiza trabalho solidário na África –, da Grã-Bretanha; CPE [Confederação Européia da Agricultura Familiar], a cúpula agrícola crítica da Europa), Dirk Barrez realiza um filme sobre a onda de liberalização na agricultura; suas vítimas espalhadas pelo mundo mas, também, as alternativas criativas das organizações de agricultores. Nas atividades paralelas à conferência da OMC, ele acompanha três lideranças rurais: um do Senegal, um da França e um do Brasil. Quem representa o Brasil é Altemir Tortelli, secretário-geral da Fetraf-Sul/CUT. Com este projeto, pretendemos traduzir o filme em diversos idiomas e fazer com que seja transmitido no maior número possível de emissoras de TV, na Europa e no Brasil. O DVD, em português, pode ser adquirido na Fetraf e, em holandês, espanhol, francês e inglês, no Wervel < n info@wervel.be >. Luz no fim do túnel?
(1) Leia, também a crônica ‘Soja, aves, suínos e outras carnes’ no livro ‘Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano’ (Curitiba: Editora Gráfica Popular/Cefuria, 2006). Recentemente foi criado um site em homenagem a Dorothy Stang e a causa que ela defendia: <http://www.comitedorothy.cjb.net> ou <http://geocities.yahoo.com.br/comite_dorothy2>.
(2) Fazendeiros: latifundiários. Grileiros: aqueles que, de maneira ilegal, se apropriam e tomam posse de terras públicas; Pistoleiros: geralmente pessoas pobres que, com uma ‘pistola’, são empregadas para atirar nos sem-terra ou nos assentados dos projetos de agrossilvicultura sustentável. Carvoeiros: geralmente pessoas pobres que praticam desmatamento para produzir carvão O carvão é destinado às siderúrgicas de Minas Gerais, mas grande parte dele também é utilizado para… churrasco.