De Halloween ao Natal
Continuo a cismar. Diante de mim flutuam as imagens da inevitável TV. Eu me sentei de costas – de propósito – para este ‘deusa’ intrusiva, mas não adiantou: imediatamente ligaram um segundo aparelho bem na minha frente. Eu deveria e iria assistir à TV, querendo ou não. Este é o costume. Cultura brasileira. Cultura norte-americana. O saborear da refeição é ameaçado por uma novela. Ao lado da ‘divindade’, uma mulher…
Continuo a cismar. Diante de mim flutuam as imagens da inevitável TV. Eu me sentei de costas – de propósito – para este ‘deusa’ intrusiva, mas não adiantou: imediatamente ligaram um segundo aparelho bem na minha frente. Eu deveria e iria assistir à TV, querendo ou não. Este é o costume. Cultura brasileira. Cultura norte-americana. O saborear da refeição é ameaçado por uma novela. Ao lado da ‘divindade’, uma mulher pendura os enfeites de Natal: ramos de pinus (que não são nativos daqui), neve (que não cai aqui), bolas de Natal (que provavelmente são importadas). No mosteiro, ainda falamos do advento, da expectativa, que teve início no domingo. No comércio, a expectativa é completamente outra: expectativa de vendas. Vender o máximo possível para as festas de fim de ano. Valores como paz, justiça, solidariedade e compartilhar não interessam a esta indústria de festas.
[foto 14]
Cultura de consumo americana – européia. Neve a 30o Celsius
Na verdade, a mulher que pendura os enfeites já está atrasada. No início de novembro, logo após Halloween, o Papai Noel (3) já pode ser visto na TV alegrando as crianças. É verdade, apesar de todas as tradições importadas da Europa, aqui não se comemora o dia de São Nicolau (6 de dezembro). Aqui, após o Halloween, passa-se direto para o Papai Noel, com sua roupa vermelha, que concorre com o branco menino Jesus ‘no país com as 134 variantes negro-pardas’. Será que é por isso que, no ano passado, quando estive na casa de formação diocesana (ou seja, com o bispo católico), em Londrina, eu já via o pequenino Jesus deitado na manjedoura, no presépio, duas semanas antes do Natal? E nem sombra de uma guirlanda de advento. Isto seria impensável até na Grote Markt[1] de Bruxelas!
Mas é preciso dizer: em sua grande maioria, os brasileiros são pessoas muito religiosas e devotas. Apesar da oferta insistente de bens, eles conseguem vivenciar este período de modo intenso, sentimental e em oração. Mesmo que não haja nenhuma guirlanda de advento à vista, as velas, a oração e a ida à igreja estão presentes. E em massa! Isto pode servir de exemplo à Senhora Europa.
Os dias que antecedem o Natal são uma loucura total: nas ruas de comércio de Curitiba ecoa ‘Noite de Paz, Noite de Amor’ (4). Neve e blusas de lã deveriam reforçar o espírito natalino, mas aqui é pleno verão! Será que ninguém consegue imaginar símbolos mais significativos, que estejam relacionados com a realidade deste povo? Algo relacionado com as raízes e tradições dos povos nativos? Ou com a religiosidade africana?
O Brasil pode ser uma mistura de povos, culturas e tradições… mas está claro que uma delas é dominante. A corrente mais forte é a cultura de consumo americana-européia. Você é o que você come e bebe. Você é as roupas que veste. O carro, o 4x4 que você dirige é um prolongamento da sua identidade.
Você não possui um carro, você é seu carro.
Mesmo assim… Será que a fixação em ‘Jesus’, a reza fervorosa é uma tentativa de fuga deste mundo de deuses de purpurina e superficialidade? Um apoio seguro. ‘Ele é o único em que nós, brasileiros, podemos confiar. Por Ele faço tudo’, alguém me disse uma vez, em relação à homenagem de Corpus Christi. Nesta ocasião, as ruas são enfeitadas para a passagem do Pão Sagrado que, envolto em prata ou ouro, é conduzido pelos padres.
[1] Grote Markt – Grande Mercado, praça reservada, antigamente, para realização das grandes feiras.
Krunkel[1], você deve se restringir à agricultura e aos alimentos. O ‘velho mundo’ ocupou em massa o ‘novo mundo’. Ainda hoje eu vi uma empresa na rodoviária de Goiânia com o nome original ‘Novo Mundo’. Original? Que nada, aqui você tropeça nas empresas que fazem alusão à terra ‘nova’, conquistada. No mapa, é fácil encontrar cidades cujo nome inclui ‘conquista’ ou ‘vitória’. Ou ‘novo’: Novo Hamburgo, Nova Trento, Nova Iorque, …
Na Europa, tínhamos muito povo e pouca terra. Por isso, principalmente depois da segunda metade do século XIX, ocupamos as terras do Novo Mundo. E não só lá. A península Europa também foi ativa na Ásia, África e Austrália. Mas, por ora, vamos tratar somente do ‘novo mundo’ da América Latina.
Com as pessoas, vieram os valores e os bens, as sementes, as vacas e os cavalos. No início, todos eram tratados com muita simpatia. Afinal, eram pessoas pobres da Itália, Alemanha, Polônia, Ucrânia, entre outras nações, que vieram para cá buscando melhorar de vida. Por isso muitas propriedades receberam nomes sonoros, como: ‘Chácara da esperança’. Então, a esperança existe! Advento?
Gradativamente, os produtos coloniais foram ofuscados pelos produtos de marca. Produtos com marcas mundialmente conhecidas. A pizza caseira transformou-se na rede Pizza Hut. Carne moída virou McDonald’s. Bohemia tornou-se Inbev. E sementes crioulas foram substituídas por sementes transgênicas, da Monsanto e de seus acionistas norte-americanos. O cavalo pela colheitadeira; o gado com dupla aptidão pelo gado leiteiro. A vaca holandesa.
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[1] Abreviação do sobrenome do autor, Vankrunkelsven.
Faço estas reflexões enquanto como minha pizza e tomo minha cerveja, feitas de trigo e de cevada. Cereais que não deveriam estar aqui. Na maioria dos estados do Brasil é impensável cultivar trigo. Não dá. O clima é ou muito quente, ou muito úmido, ou muito seco. Somente nos três estados mais ao sul e em Mato Grosso do Sul – exatamente nos locais onde se concentra a maioria dos descendentes de europeus – é possível cultivar trigo e cevada. Como se fosse um sistema de rotação de culturas com a soja. Paraná na liderança. Devido ao inesperado aumento na produção – um reflexo do aumento na produção de soja –, em 2003, o Paraná foi obrigado a tentar exportar trigo pela primeira vez em sua história. Mas o maior volume de trigo vem dos Estados Unidos da América, Europa e Argentina.
Numa das crônicas anteriores, o professor Kinupp tratava do imperialismo gastronômico-alimentar: “Em média, apenas cem espécies vegetais são ingeridas de um universo de 17 mil que estão à nossa disposição.”
Trigo é um excelente exemplo disso. Os povos da região do Mediterrâneo conhecem este cereal há milhares de anos e o levavam em suas expedições de conquista. O pão doce do Norte substitui, agora, o alimento predominantemente ácido do Sul. Isto não desperta muita atenção no Brasil, graças aos doces onipresentes – herança dos colonizadores portugueses –, mas na África subsaariana isto é mais do que evidente.
Em relação a isto, nunca esquecerei o profundo clamor do padre camaronês e teólogo da libertação Jean-Marc Ela. Em um de seus textos, o tom básico é sua afirmativa (um tanto dura): “Trigo é o cereal do opressor. Um produto de dumping que expulsa nossos próprios produtos agrícolas e culturas. Como é que podemos celebrar a eucaristia com este cereal da opressão?!” [Para ler meu resumo, veja nota de roda-pé 5] Apesar desta tese, ele recebeu posteriormente o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Católica de Leuven [Bélgica].
Fiquemos, por um momento, no espírito de advento e natalino: não é marcante que o código da Igreja Católica Romana exija que o vinho seja feito com uvas e a hóstia com trigo? Dois produtos da região mediterrânea, onde surgiu a tradição judaico-cristã que, em seguida, dominou e domina o mundo, via Roma. Até no alimento e na bebida. Até o corpo e os membros. Até a alma das pessoas.
Nem se cogita utilizar vinho de palma e broa de milho. Ou pão de mandioca e vinho de arroz.
Ou será que a globalização total é a solução? A globalização que faz com que no Nordeste semi-árido do Brasil sejam cultivadas uvas para servir nas ceias natalinas dos europeus. Uvas e soja do agronegócio internacional, pelas quais agora se crê ser necessário canalizar e esvaziar o rio São Francisco.
Foi revigorante encontrar, em Goiás, a beneditina belga, Ione Buyst. Ela está construindo uma liturgia e escrevendo um livro a partir da realidade da vida do povo mais simples e para eles. Ela e sua equipe estão realizando um trabalho maravilhoso, entre outros, com os sem-teto, em São Paulo, mas também fazem atividades de capacitação nas universidades.
Eu só me pergunto se ainda é possível formular esta ‘questão do imperialismo do pão e do vinho’ no Brasil. Esta nova nação miscigenada não é parte do ‘velho mundo’ com a dominância e evidência dos valores mediterrâneos? Eu acho que, não por acaso, o clamor mais veemente parte da África subsaariana.
&nbs p;Na Bahia, estão sendo desenvolvidos projetos do governo que visam produzir de pão de mandioca. Originalmente, a mandioca é um alimento básico da população tradicional e, ainda hoje, de grande parte da população mais simples. O Brasil é a cornucópia da abundância, entre outros, de muitas espécies de frutas.
No ano passado, numa pousada em São Luis, MA, eu vi uma pintura extraordinária da ‘Última Ceia’. A imaginação inesperada, divina de um pintor me emocionou. Um ‘herege’, é claro, mas – ainda assim –interessante como ponto de reflexão. Sobre a mesa não havia pão e vinho e sim travessas com a grande riqueza das frutas conhecidas por aqui. A figura central compartilhava as frutas com seus amigos. Um pássaro assentava-se sobre o ombro de João e observava à cena. Simplesmente paradisíaco. Simples. Paradisíaco.
[foto 15]
A última Ceia com abacaxi e outras frutas
No ônibus, no caminho entre Curitiba e Guarapuava,
29 de novembro de 2005.
(1) A Editora Averbode editou, recentemente, um livro de um beneditino de Goiás, Marcelo Barros: ‘De spiritualiteit van water’ [A espiritualidade da água], Averbode, 2005; ‘Dom Hélder Câmara. Verzaak niet aan de profetie.’ [em português: Dom Helder, Profeta para os nossos dias, Goiás: Ed. Rede da Paz, 2006. Telefone: (62) 3371 1856. E-mail: < n editora@rededapaz.com.br >].
(2) Assentamento: terras loteadas no âmbito da reforma agrária brasileira. MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, movimento que exerce pressão constante sobre o governo para que este, finalmente, realize a reforma agrária. Onde a presença do MST é menor, é a Fetraf-Brasil (Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar) que se mobiliza fortemente pela reforma agrária.
(3) Na Idade Média, a lenda de São Nicolau arraigou-se de forma extraordinária na Europa, particularmente na Itália, Alemanha e Holanda. Principalmente na Holanda sua figura adquiriu notável destaque, a ponto de tornar-se padroeiro dos marinheiros holandeses e da cidade de Amsterdã. Quando os holandeses colonizaram Nova Amsterdã (a atual ilha de Manhattan, em Nova Iorque), construíram uma imagem de São Nicolau e fizeram o possível para manter seu culto e suas tradições no Novo Mundo. A devoção dos imigrantes holandeses por São Nicolau era tão profunda, e ao mesmo tempo, tão pitoresca que, em 1809, o escritor norte-americano Washington Irving (1783-1859) escreveu uma sátira com o título Knickerbocker’s History of New York [A história de Nova York segundo Knickerbocker]. Irving despojou São Nicolau de seus atributos episcopais e o batizou ‘padroeiro de Nova York’. Por causa disso, e também por causa de um poema (A visit from St. Nicholas [Uma visita de São Nicolau]) do professor de teologia C. Moore, em 1822, sua popularidade explodiu e o 6 de dezembro passou a ser o dia da festa do Santa Claus norte-americano. C. C. Moore baseou-se na figura criada por Irving, porém tornou-a mais concreta. Seu São Nicolau apresenta todas as características típicas de Santa Claus.
Em 1863, um imigrante alemão, Thomas Nast, desenhou pela primeira vez o Papai Noel para a revista Harper’s Weekly. Entre 1873 e 1940, ele se tornou um personagem popular da revista infantil St. Nicholas [São Nicolau]. Na segunda metade do século XIX, a secularização de sua imagem continuou e ele se tornou, para as crianças norte-americanas, um símbolo cultural da paz, solidariedade e prosperidade. O auge da utilização de Papai Noel para fins comerciais ocorreu em 1931, quando a Coca-Cola mudou a sua cor. Suas vestes de cor marrom (lembrando um gnomo), segundo Thomas Nast, foram transformadas em vermelho-e-branco, as duas cores oficiais da Coca-Cola. Na campanha publicitária natalina da Coca-Cola, o Papai Noel aparece num centro comercial onde ele, com benevolência, ouve os desejos das crianças. (Rodriguez, Pepe. Mitos y ritos de la Natal: origen y significado de las celebraciones navideñas. Barcelona, 1997).
(4) Recentemente tem surgido resistência a esta loucura natalina. Visite, entre outros, <http://www.xmasresistance.org> e <http://www.adbusters.org/metas/eco/bnd/>.
(5) ELA, J.-M. Zwart is anders. Pleidooi voor een Afrikaanse kerk [Negro é diferente. Em defesa de uma igreja africana], 's Hertogenbosch, Bijeen-publicatie 34, (sem ano, originalmente publicado em francês: Le cri de l’homme africain. Questions aux chrétiens et aux Eglises d’Afrique. Paris: Harmattan, 1980). Nesse livro (em holandês): o artigo De Eucharistie, teken van heil of onafhankelijkheid? [Eucaristia: símbolo de salvação ou independência?], p. 13-22 (em especial, p.16-19). A citação acima é meu resumo de sua afirmativa.