Crise do boi ameaça subsídios na Europa
Fábio Eduardo Murakawa - Folha de São Paulo - AgroFolha - 03/04/01ALIMENTOS Aumenta a pressão dos consumidores sobre a política protecionista, que gera gastos de US$ 125 bilhões por ano As epidemias que têm dizimado o gado europeu estão colocando em xeque a política agrícola da Europa. Formulada na década de 50, essa política destina mais de US$ 125 bilhões por ano em subsídios diretos ao campo e à exportação de…
Fábio Eduardo Murakawa - Folha de São Paulo - AgroFolha - 03/04/01
ALIMENTOSAumenta a pressão dos consumidores sobre a política protecionista, que gera gastos de US$ 125 bilhões por ano
As epidemias que têm dizimado o gado europeu estão colocando em xeque a política agrícola da Europa. Formulada na década de 50, essa política destina mais de US$ 125 bilhões por ano em subsídios diretos ao campo e à exportação de alimentos.
"Assustadas, as pessoas na Europa estão questionando se vale a pena seus governos destinarem tanto dinheiro à agricultura, uma vez que essa política não está resolvendo um problema fundamental que é a qualidade e a segurança dos produtos", diz Marcos Sawaya Jank, professor da Esalq/ USP e da Universidade Georgetown, em Washington (EUA).
Para ele, o primeiro indício de que o consumidor passará a ser o foco da política agrícola européia daqui em diante foi a nomeação de Renate Künast para o Ministério da Agricultura da Alemanha, em janeiro deste ano.
"O Partido Verde, da ministra alemã, dá mais importância ao consumidor do que ao mercado."
Em recentes declarações, Künast tem se mostrado contrária ao atual modelo de concessão de subsídios aos agricultores.
"A Alemanha perdeu o apetite", disse a ministra no início de março, referindo-se ao trauma causado pela vaca louca e pela febre aftosa. "É preciso ter como meta a qualidade, não a quantidade."
Em editorial defendendo uma reforma administrativa no governo britânico, o jornal "The Independent" também deixou transparecer sua insatisfação com relação aos subsídios agrícolas.
Segundo o jornal, o Departamento de Indústria e Comércio deveria passar a englobar também o Ministério da Agricultura.
"É difícil entender por que a indústria agrícola merece seu próprio gabinete, exceto para distribuir subsídios que, em sua maioria, não deveriam existir."
Se o gabinete ainda não foi reformulado, a epidemia de febre aftosa já começa a ter reflexos na política britânica.
O alastramento da doença levou o primeiro-ministro Tony Blair a adiar as eleições, inicialmente marcadas para o dia 3 de maio. Elas devem acontecer em junho.
Métodos questionados
Para o pesquisador Luiz Antonio Pinazza, da Fundação Getúlio Vargas, os métodos de agricultura industrial, com produção em larga escala a baixos custos, serão muito questionados no futuro.
Segundo ele, esse modelo de agricultura deu uma boa resposta à escassez de alimentos.
"Nunca houve tanta disponibilidade de comida. Mas outros elementos vão entrar em pauta. Na Europa do pós-guerra, segurança alimentar significava produzir alimentos em quantidade suficiente. Hoje, quer dizer produzi-los com qualidade. A política agrícola acompanhará essa mudança", afirma Pinazza.
Para Marcos Sawaya Jank, a Política Agrícola Comum (PAC) da Europa entrará também na pauta das discussões da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Essa política, explica, dificulta o acesso de produtos agrícolas ao continente, além de minar a competitividade dos alimentos produzidos em outros países.
Guerra
A guerra contra os subsídios concedidos pela Europa já se estende há mais de duas décadas nos foros internacionais, como a OMC (Organização Mundial do Comércio) e seus antecessores.
As queixas partem de países como o Brasil, cujos produtos agrícolas têm grande importância em sua balança comercial.
Diferentemente de nações mais ricas, como os EUA, esses países não têm como conceder subsídios à altura e tornar, assim, seus produtos agrícolas competitivos.
E, se por um lado lucram os agricultores europeus, há em contrapartida um efeito maléfico gerado pelo protecionismo.
"Cientes de que não teriam a concorrência externa, os produtores relaxaram na qualidade e na segurança dos alimentos", diz.
Um exemplo disso é o uso descontrolado de rações à base de vísceras de ovelhas como alimento para o rebanho bovino.
Ao que tudo indica, o mal da vaca louca provém do consumo pelos bovinos dessas rações feitas a partir de ovelhas contaminadas com o "scrapie", versão da doença em ovinos.
Fonte: http://www.uol.com.br/fsp/agrofolh/fa0304200102.htm