Cozinha da Thina – A chef que levou o vegetarianismo puro à gastronomia - Prefácio de Marly Winckler
Thina Izidoro é sinônimo de boa comida. Tradição macrobiótica. Pioneira, Thina aventurou-se por novas veredas culinárias. Abriu um dos primeiros restaurantes veganos do Rio de Janeiro onde, até hoje, trata bem, muito bem, seus inúmeros comensais, com comidinhas caprichadas, saborosas e aromáticas. Sempre levando também em conta o aspecto saúde, pois Thina é nutricionista e não pode descuidar disso. Cozinha da Thina –…
Thina Izidoro é sinônimo de boa comida. Tradição macrobiótica. Pioneira, Thina aventurou-se por novas veredas culinárias. Abriu um dos primeiros restaurantes veganos do Rio de Janeiro onde, até hoje, trata bem, muito bem, seus inúmeros comensais, com comidinhas caprichadas, saborosas e aromáticas. Sempre levando também em conta o aspecto saúde, pois Thina é nutricionista e não pode descuidar disso.

Agora registra em livro a experiência de anos ao redor das panelas, dos livros e da prática do consultório. Ganham os leitores que recebem o melhor de todo esse esforço.
Mas por que vegano? É muito simples: tem muitas vantagens e nenhuma contra-indicação. Talvez como nunca antes na história da humanidade, vivemos tempos repletos de desafios. Um destes grandes desafios a ser equacionado pela humanidade tem a ver com o lugar central que a carne passou a ocupar no prato de milhões e milhões de seres humanos, sobretudo nas sociedades ocidentais. Uma das consequências disso é que cerca de 70 bilhões de animais terrestres são implacavelmente abatidos a cada ano para suprir essa demanda por carne e outros produtos de origem animal. Estes animais são, em geral, criados em condições pavorosas, deixando para trás um rastro de impactos que ameaçam a própria sobrevivência de nossa Terra.
Por causa dessa ganância por carne a flora e a fauna são agressivamente destruídas no processo – ao passo que as duas precisam uma da outra para sobreviver e nós, seres humanos, precisamos de ambas. Apenas um exemplo: nossa maravilhosa e única floresta amazônica – que o mundo todo quer preservar – está sendo destruída a passos largos principalmente para criar gado e cultivar soja (por sua vez para alimentar animais para virar carne). 20% da floresta amazônica estão já devastadas e a pecuária é responsável por 80% das áreas abertas na região amazônica, de acordo com o governo brasileiro. De acordo com a FAO a pecuária está entre as três principais causas de todo problema ambiental significativo, incluindo a degradação da terra, as mudanças climáticas, a poluição do ar, a escassez e a contaminação da água e a perda de biodiversidade.
A dieta centrada na carne é também responsável em grande medida pelo que a Dra. Margaret Chan, diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) denominou o “fim da medicina moderna”, causada pela resistência aos antibióticos. “Coisas comuns como uma garganta inflamada ou um joelho ralado de uma criança podem mais uma vez matar”, diz ela. Por que isto está acontecendo? A razão principal apontada pela Dra. Chan é o pesado uso de antibióticos na pecuária. Nos Estados Unidos tão somente 80% de todos os antibióticos usados vão para os animais de criação, não para seres humanos. No Brasil o mesmo acontece. Por outro lado, a maioria das doenças que matam hoje, poderiam, em grande medida, ser prevenidas com a adoção de uma alimentação centrada em vegetais. Uma dieta centrada em vegetais pode prevenir doenças crônicas e degenerativas, tais como doenças cardiovasculares, hipertensão, obesidade, alguns tipos de câncer e diabetes. Porque pode prover tantos benefícios, dietas veganas são apoiadas pela Associação Dietética Americana (ADA) e outras instituições de renome como o Instituto Americano do Câncer, a Associação Americana do Coração (AHA), a Food and Drug Administration (FDA), a Universidade de Loma Linda, o Departamento Americano de Agricultura (USDA) e a Clínica Mayo entre outras.
Segundo a Associação Dietética Americana, o vegetariano tem 31% a menos de cardiopatias, 50% a menos de diabetes, vários cânceres a menos, sendo 88% a menos de câncer de intestino grosso e 54% a menos de câncer de próstata, só para citar alguns. Nenhuma autoridade de posse destes dados deveria se furtar a reconhecer a importância disso e passar a promover como política pública dietas centradas em vegetais.
Inúmeras crueldades são cometidas nas granjas modernas de animais. O sofrimento nos abatedouros não é o único aspecto a considerar, podemos ter em nossa mente imagens idílicas de fazendas onde os animais vivem uma vida feliz com sua prole. No entanto, o agrobusiness desde há muito tornou isso coisa do passado. Hoje os animais usados para comida são confinados e submetidos a tratamento cruel. Praticamente 100% dos porcos e frangos são aprisionados em condições terríveis durante toda a sua curta vida. O gado e as criaturas marinhas cada vez mais seguem pelo mesmo caminho. Bezerros, pintinhos e porquinhos são separados da mãe com poucos dias e colocados em condições cruéis e artificiais gerando estresse e enfermidades, que são combatidas como medidas ainda mais crueis: debicagem, corte do rabo, dos dentes e da genitália – tudo sem anestesia. Somente deixam esta condição para ir de encontro à morte, quando são depenados, esfolados, escaldados e esquartejados, na maior parte das vezes, ainda vivos.
Felizmente notam-se sinais de que o vegetarianismo está se tornando cada vez mais uma opção para milhares de pessoas. Apesar dos muitos desafios em promover-se o vegetarianismo, há luz no fim do túnel. 8% dos brasileiros se declararam vegetarianos em pesquisa do Ibope por dois anos consecutivos (2011 e 2012). As escolas municipais de São Paulo oferecem hoje a cada quinze dias um prato vegano e há planos de expansão. O Conselho Regional de Nutrição de São Paulo e Mato Grosso do Sul (CRN-3) reconhecem por meio de parecer que “dietas vegetarianas, quando atendem às necessidades nutricionais individuais, podem promover o crescimento, desenvolvimento e manutenção adequados e podem ser adotadas em qualquer ciclo de vida. Sinais dos tempos. O vegetarianismo é possível. E desejável.Sejamos a voz daqueles que não têm voz. Façamos o nosso dever de defender aqueles que não têm como se defender, nossos companheiros de jornada nessa Terra, os pequeninos e maravilhosos animais.