Contaminação da dependência extrema
A resposta de Rony é, para mim, uma lição sobre ouvir e interpretar. O ser humano possui a tendência de ouvir algo que pode fortalecer seu próprio ponto de vista. Obviamente, eu havia compreendido Rony de maneira diferente, a partir de minha própria visão sobre ‘contaminação’. Para mim, há um problema, sim, na introdução descuidada de genes, a começar com os ‘genes humanos’ que – a partir do ano de 1500 – invadiram…
A resposta de Rony é, para mim, uma lição sobre ouvir e interpretar. O ser humano possui a tendência de ouvir algo que pode fortalecer seu próprio ponto de vista. Obviamente, eu havia compreendido Rony de maneira diferente, a partir de minha própria visão sobre ‘contaminação’. Para mim, há um problema, sim, na introdução descuidada de genes, a começar com os ‘genes humanos’ que – a partir do ano de 1500 – invadiram este continente. Os povos indígenas que o digam. Eles foram dizimados aos milhões – entre outros fatores, devido ao contato com a varíola dos europeus. Não quero ser um fascista, que defende a raça pura. Eu tenho admiração pelo povo que resultou da intensa miscigenação de ‘índios’, africanos, europeus, japoneses, chineses. Mesmo assim… Nem tudo pode ser considerado extraordinariamente positivo, mas isto merece outra crônica. E o que pensar do que nós mesmos passamos na Europa há dois mil anos? O que restou da cultura celta, exceto alguns resquícios na Bretanha, Irlanda, Gales, as ilhas Hébridas (logo acima da Escócia)? Stonehenge não é um testemunho impressionante de uma cultura ‘atropelada’?
[foto 3 bis]
Extrema dependência dos gigantes da indústria química
Mas vamos ficar, neste momento, com a danada da soja. Efetivamente, o problema é o sistema de produção destrutivo, mas – para mim – a soja Roundup Ready em si também é um problema. Na Argentina, Brasil e, desde há pouco tempo, também no Paraguai e Bolívia, significa 100% de dependência de uma única empresa: Monsanto. Dependência de uma mesma empresa que produz a substância química (Roundup) e a semente, ‘feita sob medida’ para o produto-maravilha Roundup. Pesquisas recentes nos revelam que as dez maiores empresas de sementes controlam 50% do mercado mundial. Em relação ao mercado de sementes transgênicas, a mesma Monsanto controla 88% do mercado mundial. E parece que o debate sobre o ‘gene terminator’ (1) está sendo retomado, a partir do Canadá. Graças a uma mobilização global conseguimos, no final da década de 1990, impedir que a Monsanto continuasse desenvolvendo a ‘introdução da morte no poder de germinação de nosso planeta’. Aparentemente, as multinacionais não aceitaram bem esta proibição. Isto requer um alerta renovado de todos aqueles que se preocupam com a (agro)biodiversidade do planeta.
Roundup contém glifosato. A última palavra ainda não foi dada sobre o efeito destruidor deste produto na vida da água e do solo. E ainda nem falei da migração de genes. Há outros que entendem mais deste assunto do que eu.
Rony é um renomado pesquisador e melhorista de variedades de banana, a serviço da população rural na Ásia, América e África (2). Às vezes, ele utiliza em seu trabalho métodos de engenharia genética. Ele faz isto com convicção e uma consciência tranqüila. Eu acho que é normal que a posição a partir da qual se trabalha contribua para determinar sua forma de pensar. O ‘local de trabalho’ de Rony que, a partir de Leuven, atua em todos os continentes é diferente da minha, trabalhando em ambos os lados do oceano. Estamos, ambos, ‘envolvidos’ no trabalho, mas envolvimento não quer dizer que as pessoas compartilham as mesmas idéias. A partir do envolvimento é possível, até, estarmos em posições diametralmente opostas.
Vamos manter o debate aberto. Pode ser?
Guarapuava, 28 de outubro de 2005.
(1) <http://www.banterminator.org> (em inglês).
(2) <http://www.biw.kuleuve n.be/dtp/tro/home.htm> (em inglês e holandês).