‘Capital’ ambígua
O que significa isso, o título de ‘capital da agricultura familiar’? Quando caminho do alojamento para o escritório de Fetraf, passo por um terminal de ônibus. Os ônibus param, descarregam pessoas e pegam uma nova carga. Os letreiros que indicam as rotas são reveladores: por seis vezes lê-se ‘Sadia’ e três vezes ‘Aurora’. Ou seja, tansporte para os muitos funcionários que trabalham nestes abatedouros e indústrias de…
O que significa isso, o título de ‘capital da agricultura familiar’?
Quando caminho do alojamento para o escritório de Fetraf, passo por um terminal de ônibus. Os ônibus param, descarregam pessoas e pegam uma nova carga. Os letreiros que indicam as rotas são reveladores: por seis vezes lê-se ‘Sadia’ e três vezes ‘Aurora’. Ou seja, tansporte para os muitos funcionários que trabalham nestes abatedouros e indústrias de processamento. Muita carne ainda passará pelas esteiras antes que uma agroindústria familiar, como a do ‘Grupo Bergamin’ (que não processa carne), receba um letreiro de ônibus com seu nome. Tais iniciativas são novas no meio rural e geralmente inacessíveis com transporte público. Um ônibus para ‘Sadia’ é mais lógico, do mesmo modo que era mais lógico que o metrô Anderlecht-Bruxelas [Bélgica] fosse prolongado, afinal, para o novo hipermercado de móveis e decorações Ikea e não para o grande colégio São Nicolau, que fazia esta reivindicação há anos.
[Foto 49]
Ônibus para Sadia & Cia. Para a agroindústria familiar não.
Chego ao escritório: um telefonema entusiasmado de Marly Winckler. Ela coordena o movimento vegetariano no Brasil. De acordo com Marly, trata-se de um movimento em franca expansão. Ela trabalha e mora na idílica capital do estado de Santa Catarina: Florianópolis. Ela é natural de – isso mesmo – Chapecó. Sua família ainda mora lá, mas ela não gosta mais de visitar a cidade, a capital da carne, com tantos abatedouros. Tobias Leenaert, de EVA (Ethisch Vegetarisch Alternatief [Alternativa Ética Vegetariana na Bélgica]) (2), falou para ela do livro sobre soja. Ela está muito entusiasmada com a edição do livro em português, pois finalmente o escândalo de que a maior parte da produção de soja vai parar nos cochos dos animais é revelado. Marly também tem denunciado este fato há muito tempo. Com seu movimento, eles pretendem utilizar o livro para denunciar a insanidade deste sistema. Desenrola-se uma longa conversa. Segundo ela, a soja tornou-se muito importante na dieta dos vegetarianos porque os norte-americanos fomentaram isso. Na verdade, não há necessidade de tanta soja no modo de vida vegetariano. Independentemente se a atual onda de soja e tofu foi imposta pelos EUA ou se tem origem na culinária oriental, também é importante que os vegetarianos saibam o que acontece na região amazônica, quais são os impactos sociais e ecológicos da monocultura da soja em grande escala e que mais de 70% de toda soja produzida é destinada a ração animal. Isto não elimina o fato de a soja para consumo humano ser uma dica interessante (3). Afinal, os chineses já nos dão este exemplo há mais de dois mil anos (4).