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Café colonial

Ao contrário do que ocorre na Bélgica, as palavras ‘Deus’ e ‘Jesus’ são onipresentes, assim como a palavra ‘colonial’. Quarta-feira, nas proximidades da comunidade guarani, eu vi a palavra até num ônibus escolar. Um ônibus amarelo, com ‘escolar’ e ‘colonial’. Ensino como parte da cultura colonial? Ensino como dominação colonial dos espíritos, ainda que, há alguns anos, esteja sendo desenvolvida uma iniciativa…

Ao contrário do que ocorre na Bélgica, as palavras ‘Deus’ e ‘Jesus’ são onipresentes, assim como a palavra ‘colonial’. Quarta-feira, nas proximidades da comunidade guarani, eu vi a palavra até num ônibus escolar. Um ônibus amarelo, com ‘escolar’ e ‘colonial’. Ensino como parte da cultura colonial? Ensino como dominação colonial dos espíritos, ainda que, há alguns anos, esteja sendo desenvolvida uma iniciativa louvável de implantar o ensino bi-cultural, português-guarani.

‘Café colonial’ é anunciado em muitos restaurantes. O novo folder de ‘Caminhos da Agricultura Familiar’[1] – uma ação inovadora de Fetraf, em Marcelino Ramos (RS) – traduz seu significado de maneira marcante. Um dos locais indicados na rota turística para conhecer a agricultura familiar tem o promissor nome: ‘Café colonial da Tia Lili’: “Panificação e café colonial, onde são oferecidos mais de 100 produtos característicos de um café colonial acompanhados de chá, café com leite e sucos. Tortas, bolos, bolachas, pães, compotas, vários tipos de embutidos, queijos, frutas. Receitas passadas de geração em geração, que preservam o sabor da colônia e de uma mesa farta. O ambiente aconchegante com lareira, a decoração tradicional e a hospitalidade da família Lazarin são um convite para ficar e aproveitar as delícias da mesa.”

Confesse: não é possível ter algo contra! Foi por isso que nós, integrantes de Wervel, fizemos nossa refeição lá com prazer, durante nossa viagem de intercâmbio, em março de 2005. Enquanto eu também puder descrever os bastidores da história, compartilho com prazer esta mesa com café colonial. E vou entender a palavra ‘colonial’ simplesmente como sinônimo de ‘agricultor e liberdade’. Afinal, também em nossa língua nós ainda conhecemos colônias quando se trata de atividade agrícola: é só pensar nas Veenkolonies (colônias de extração de turfa) na Holanda, ou nas antigas ‘landloperskolonie [colônias de andarilhos]’, em Wortel, ou a colônia infantil, em Averbode. O fenômeno de abrigar pacientes psiquiátricos nas fazendas, em Geel (um precursor distante das atuais fazendas que oferecem laborterapia), também era chamado de ‘colônia’. A Bélgica realizou sua última tentativa de colonização em Lommel, em 1850 (8). Foi uma tentativa extrema para combater da escassez de alimentos da época. A mesma escassez de alimentos que, em meados do século XIX, fez com que muitos europeus se mudassem para as Américas para… ‘colonizar’ a região (9). Nós simplesmente transferimos nossas terras.

 

Talvez ainda chegue uma época em que agricultores e ‘índios’ convivam em paz. Na alegria e na tristeza. E veja: aqui e ali isto já é realidade. Para minha grande satisfação, encontro por esses dias em meu trabalho de estudos um impulso para mudança. Associados ao novo termo ‘Soberania alimentar’ (10), destacam-se claramente enumerados ‘agricultores familiares e pequenos produtores, pastores, trabalhadores sem terra, pescadores tradicionais e povos indígenas’. Trata-se de todos eles juntos. Em linguagem religiosa: ‘Um novo céu e uma nova terra’. Aqui e agora.

Um ‘Café mundial’.

 

Chapecó, 18 de novembro de 2006.

 

PS.: A vizinha em frente a nosso apartamento já pendurou uma guirlanda com enfeites de Natal na porta. Pelo jeito, a colonização foi bem sucedida. É como se ela fora à feira de produtos natalinos em Keulen. O Natal como ponto culminante de um ano inteiro de importação e dominação cultural. Da Europa e da América do Norte. Nessa ordem.

 

(1)   ‘Foz do Iguaçu’ é o ponto em que o Rio Iguaçu deságua no Rio Paraná; ‘Dendermonde’, ou ‘Foz do Dender’, é o ponto em que o Rio Dender deságua no rio Schelde.

(2)   ‘Itaipu’, uma palavra de origem tupi-guarani, é formada por itá ‑ pedra + ‘y ‑ rio + pu ‑ barulho, ruído, ou seja, barulho do rio das pedras[2], também interpretado como ‘pedra que canta’. Outro autor dá uma explicação diferente: Itaipu: itá – pedra + ypú – fonte¸ ou seja, água que sai do meio das pedras[3]. A água ocupa o lugar central em sua história e espiritualidade, tanto que, na entrada de sua casa oração, eles têm um altar com água.

(3)   Guarapuava: lobo bravo.

(4)   Colônia é derivada do latim colonus e significa agricultor e, portanto, ‘liberdade’. Literalmente, colonizar significa ‘praticar agricultura’. Posteriormente, a palavra foi utilizada para designar militares livres e que recebiam terras nas regiões conquistadas. A peculiaridade é que estes militares mantinham seus direitos de libertos. Mais tarde, tornaram-se não-livres. (Conforme Colonus: Originalmente livre/liberto, que – a partir do século IV – tornaram-se vinculados à terra por herança). Colonus: plural Coloni, agricultor do final do Império Romano e europeu. Os colonos eram escolhidos entre pequenos agricultores livres empobrecidos, escravos parcialmente emancipados e bárbaros enviados como trabalhadores rurais dos proprietários de terras. Pelas terras que arrendavam, eles pagavam com dinheiro, produtos ou serviços. Pode ser que alguns tenham se tornado colonos para receber proteção… (Fone Encyclopedia Brittanica).

      Para finalizar:

Idioma

Palavra

 

 

Francês

Agrarien

 

 

Frísio

Bouboer

 

 

Húngaro

Földmûves

 

 

Italiano

Agricoltore

 

 

Latim

Colonus

 

 

Português

Agricultor

 

 

Sueco

Jordbrukare

 

 

E também: Colonos: local de nascimento de Sófocles (Grécia)

(5)   Desde a publicação do controverso artigo de Lynn White, na revista Science, 1967, surgiu um intenso debate entre os assim chamados antropocentristas (o homem é o centro) e os ecocentristas (o ecossistema é o centro). Gradativamente somaram-se a estes os zoocentristas (que defendem os direitos dos animais a partir da percepção de que também sentem dor).

(6)   Em 2007, a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica, no Brasil, tem como foco a ameaça à região amazônica e aos povos indígenas que lá vivem. Enquanto muitas vias crucis na Sexta-Feira Santa possuem um cunho ecológico, é divulgado o segundo relatório sobre o aquecimento global. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (em inglês, Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC; veja <http://www.ipcc.ch>) prevê que a Floresta Amazônica será a mais atingida pelo aquecimento global, entre 2°C e 3°C por volta de 2050. De acordo com o modelo do Hadley Centre, a Floresta Amazônica desaparecerá por volta de 2080. A maior parte da região estaria transformada em um Cerrado.

(7)   Sollenspieker: uma espécie de posto de pedágio da Idade Média. Devia-se pagar pedágio para atravessar o rio Elba. Veja <http://www.zollenspieker-faehrhaus.de/umgebung.htm>.

(8)   Na Bélgica, a última tentativa de colonização ocorreu em 1850, em Lommel. São poucos os que conhecem esta história. Por isso, a prefeitura de Lommel decidiu, há alguns anos, comprar uma das fazendas estatais na Koloniestraat [Rua da Colônia] e restaurá-la. Uma exposição conta a história por trás da Colônia Lommel.

 

Vamos voltar um pouco no tempo: 1850 – as indústrias têxteis, que até pouco tempo viviam seu apogeu em Flandres Oriental e Ocidental, definharam. Flandres estava superpovoada e a frustração da safra de batatas trouxe grande pobreza e fome. “O governo pensou que poderia solucionar o problema da fome explorando as terras pouco férteis da região de Kempen”, conta Veerle Leysen, do Museu Kempenland, em Lommel. Foi construída, em de Kempen, uma rede de canais para facilitar o transporte entre as cidades e o campo.

“Em Lommel, a principal função do canal era criar um sistema de canais para os campos irrigados, permitindo a exploração dos solos arenosos da região”, continua Leysen. As pessoas partiam do princípio de que com água se consegue capim e que, com capim, é possível alimentar o gado e que este produzirá esterco para a agricultura.

O governo selecionou trabalhadores dedicados de Antuérpia, Flandres Oriental e Ocidental enviando-os para de Kempen para o projeto ‘colônia agrícola’. “Foram demarcados 20 sítios, dez em cada lado do canal, onde hoje se localiza a Rua da Colônia. Também construíram uma igreja, uma casa pastoral e uma escola”, explica Veerle. “Os agricultores receberam praticamente nada. Cada sítio correspondia a cinco hectares de terra, dos quais um hectare irrigado, um hectare de terra arada e adubada, com a metade semeada com centeio. Além disso, cada sítio recebeu um pouco de esterco.”

O governo queria demonstrar que o projeto poderia ser bem-sucedido sem investimentos e esperava que empreendedores privados seguissem o exemplo. “Com tão poucos recursos, os agricultores não conseguiam se sustentar. Portanto, eles resolveram auxiliar na construção do canal e sobreviviam trabalhando como bóias-frias nos campos irrigados. Não levou dez anos para que o projeto se revelasse um fracasso. E isto significou também o fim do último projeto de colonização na Bélgica.” Os sítios foram vendidos, principalmente para moradores da própria região e assim surgiu o vilarejo Colônia Lommel. Veja: <http://www.vilt.be/nieuwsarchief/detail.phtml?id=10878>.

(9)   Cada um dos migrantes dos muitos fluxos que, desde o final do século XIX, vieram para o Brasil recebia uma ‘colônia’. Por isso, o agricultor também é chamado de ‘colono’. Uma colônia equivale a 10 alqueires, ou seja, quase 25 hectares (24,2 ha). Atualmente, porém, há muitos agricultores com 12 hectares ou menos. Em São Paulo localiza-se o interessante ‘Museu do Imigrante’. De maneira vívida é invocada a história das centenas de milhares de migrantes que, a partir do século XIX, vieram para este país, principalmente para o Sudeste e o Sul. Devido à proibição internacional do comércio de escravos, em 1850, e o fim da escravidão no Brasil, em 1888, havia necessidade premente de mais mão-de-obra. A partir do final do século XVIII, o consumo de café tornou-se moda na Europa. Isto provocou um intenso fluxo de imigrantes italianos pobres – e também alemães, poloneses e outros europeus – para o Brasil, que continuou durante boa parte do século XX. No início do século XX, a cafeicultura e os imigrantes fizeram com que São Paulo se transformasse numa cidade com milhões de habitantes. Toda essa migração coincidiu com a grande escassez de alimentos na Europa (veja a nota seguinte).

(10)                      Veja: <http://www.foodsovereignty.org>.



[1] <http://www.rotadaagriculturafamiliar.com.br/>.

[2] Fonte: Curso breve de tupi antigo em dez lições. Micro-curso escrito por Eduardo Navarro <http://www.filologia.org.br/viicnlf/anais/caderno03-02.html>.

[3] Fonte: Estudo Lingüístico Histórico. J. Moura Lima. Veja: <http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=29050&cat=Artigos&vinda=S>.

Autoria preservada do acervo

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