Antibióticos na criação de aves e suínos: Avisos que vêm de longe
No tempo em que ocupou a Secretaria Nacional do Meio Ambiente, o professor José Lutzenberger elegeu como um dos moinhos a serem enfrentados em suas cruzadas as granjas de criação intensiva de aves e suínos - que ele chamava de "campos de concentração e extermínio de animais", por causa dos sofrimentos impostos a seus ocupantes, em razão da superpopulação. Além disso, seriam unidades antieconômicas e insustentáveis…
No tempo em que ocupou a Secretaria Nacional do Meio Ambiente, o professor José Lutzenberger elegeu como um dos moinhos a serem enfrentados em suas cruzadas as granjas de criação intensiva de aves e suínos - que ele chamava de "campos de concentração e extermínio de animais", por causa dos sofrimentos impostos a seus ocupantes, em razão da superpopulação. Além disso, seriam unidades antieconômicas e insustentáveis, porque consomem mais unidades energéticas do que produzem. Um frango, por exemplo, precisa de dois quilos de ração para menos de um quilo líquido (fora ossos, vísceras, penas, patas) de carne produzida, e ainda sem contar outros consumos de energia na cadeia de produção e comercialização.
Na época, o professor Lutzenberger ficou falando quase sozinho. Hoje, começa a encontrar aliados com que não sonharia.
Nestes tempos em que o terrorismo biológico e a ameaça de novas pandemias planetárias - por causa de novos vírus e bactérias super-resistentes - surgem com freqüência cada vez maior na comunicação, vem do Comitê Especial de Investigação em Ciência e Tecnologia da Câmara dos Lordes, da Grã-Bretanha, o mais recente e grave alerta. A resistência aos antibióticos está-se espalhando rapidamente por toda a parte, diz o relatório do comitê.
Algumas partes mais pobres do mundo já estão mergulhadas numa nova era pré-antibióticos. Os primeiros anos do próximo século poderão ser um tempo em que novas bactérias resistentes surjam muito antes de que se possa ter drogas capazes de enfrentá-las.
"Esta foi uma experiência alarmante", escreveram os membros do comitê que investigou esse tema, ao enumerar as causas do problema: a prescrição excessiva de antibióticos pelos médicos; o uso de antibióticos nas granjas de aves e suínos; a redução de verbas do Serviço Nacional de Saúde, "transformando os hospitais em depósitos de bactérias resistentes a antibióticos".
Entre as recomendações do comitê está a de que o uso de antibióticos em granjas seja controlado. No mínimo, deveria ser impedido o uso em animais dos mesmos antibióticos aplicados em seres humanos, para que não se desenvolvam naqueles variedades de bactérias super-resistentes, que depois não se possam controlar nas pessoas. A médio prazo, o uso em granjas deveria ser proibido, tal como já ocorre na Suécia. Um dos argumentos em favor dessa posição está nas pesquisas que mostraram que o número de amostras de Staphylococcus aureus resistentes a antibióticos passou, em cinco anos, de 1,5% para mais de 20% dos casos analisados.
O temor maior dos cientistas é o desenvolvimento de bactérias que tenham criado mecanismos capazes de expulsar de seu organismo qualquer tipo de antibiótico.
Técnicos do Ministério da Agricultura britânico, ouvidos pelos jornalistas, disseram acreditar que, a médio prazo, a pressão se intensificará a ponto de levar à proibição desses medicamentos em granjas. Já estão em andamento pesquisas para descobrir como as bactérias e os vírus se transmitem dos animais para a cadeia de alimentos. Uma delas faz soar um alarme para os países latino-americanos exportadores de carnes, entre eles o Brasil. Ela sugere que a Escherichia coli 0157 pode ter sido levada para a Grã-Bretanha nos produtos importados desses países, principalmente da Argentina e do Chile. A Escherichia coli 0157 provoca problemas renais graves. E na Argentina já se verificou que a incidência desses problemas em crianças está muito acima da média mundial.
Outra ameaça está numa variedade de Pseudomonas aeruginosa, identificada pelo Serviço Público de Saúde da Grã-Bretanha, resistente até mesmo à última geração de antibióticos. Ela tem provocado graves infecções pulmonares em pessoas com baixa resistência imunológica e septicemia em pacientes sob tratamento de leucemia.
O cientista Tim O'Brien, que lidera um movimento mundial pela redução dos sofrimentos de animais confinados em granjas, emite outro alerta: a combinação de alta temperatura com falta de higiene e superpopulação nesses confinamentos pode ser muito perigosa.
Quanto maior a superpopulação, maior a proliferação de bactérias: as granjas transformam-se em "incubadoras de bactérias", dizem os estudos. As mais freqüentes são a salmonela e a campylobacter, muito comuns em aviários.
Nessa área, a notícia mais alarmante nos últimos tempos - segundo os cientistas britânicos - chegou do Tadjiquistão, onde foram diagnosticados casos de febre tifóide resistentes a todos os antibióticos. Esses mesmos cientistas prevêem que nos primeiros anos do próximo século surgirão muitos outros microorganismos resistentes. E vários sistemas nacionais de saúde estarão absolutamente despreparados para a emergência. Na Inglaterra, por exemplo, o relatório da Câmara dos Lordes lembra que a redução de custos promovida levou à redução dos níveis de higiene, à superpopulação nas enfermarias, à extinção das câmaras de isolamento de pacientes portadores de doenças contagiosas graves. E tudo isso tem contribuído fortemente para disseminar as infecções hospitalares.
Para complicar mais, começam a surgir evidências de que vírus podem passar de animais a seres humanos que recebem seus órgãos em transplantes.
No momento em que - por causa de problemas ambientais e sanitários - boa parte da produção de carne de suínos e aves se transfere da Europa para outros países, entre eles o Brasil, seria prudente que esse tipo de preocupação permeasse nossas políticas econômicas e sanitárias. Para que amanhã não haja colapsos "inesperados".
Já deveríamos estar muito mais preocupados com as questões ambientais envolvidas nesse tipo de atividade, que também se desloca - exatamente por causa delas - do Sul para o Centro-Oeste, onde as regras de licenciamento são muito menos rigorosas. Na Europa e nos Estados sulinos já são bem conhecidas as conseqüências da deposição sem tratamento de dejetos de aves e suínos no solo e nos rios. A bacia hidrográfica do oeste catarinense pode ser um exemplo de cenário gerado pela falta de regras adequadas.
Não precisamos esperar que aos problemas ambientais - que podem ser evitados - se somem os sanitários. Custos não podem ser a única preocupação.
Na Grã-Bretanha, o comitê de cientistas que preparou o relatório para a Câmara dos Lordes concluiu-o com duas palavras: "Estamos avisados." De quantas precisaremos?
Washington Novaes
Jornal O Estado de S. Paulo, Sexta-feira, 5 de junho de 1998