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Andanças pelo mundo vegetariano e teosófico

de Marly Winckler O contato com o ideário teosófico despertou em mim o vegetarianismo. Era o início da década de 1980. Já havia morado em Londres por cerca de dois anos, e visitado mais de vinte países europeus, sem nada perceber lá relacionado ao vegetarianismo. Antes de ir para a Europa, tomei conhecimento de Helena Blavatsky. Comprei alguns livros, entre os quais a tradução de Fernando Pessoa de A Voz do Silêncio.…

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de Marly Winckler

O contato com o ideário teosófico despertou em mim o vegetarianismo. Era o início da década de 1980. Já havia morado em Londres por cerca de dois anos, e visitado mais de vinte países europeus, sem nada perceber lá relacionado ao vegetarianismo. Antes de ir para a Europa, tomei conhecimento de Helena Blavatsky. Comprei alguns livros, entre os quais a tradução de Fernando Pessoa de A Voz do Silêncio. Mas só viria a me aprofundar no tema mais tarde, quando voltei ao Brasil. Essas leituras fizeram muito sentido e passei a devorar tudo o que encontrava pela frente.

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Aquarela Adyar de condessa Wachtmeister
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Vegetarianismo - Elementos para uma Conversa Sobre

Fui para a Índia em 1989 para participar da 113a Convenção Internacional da Sociedade Teosófica, cuja sede é em Adyar, na cidade de Madras, hoje Chennai. Morei alguns meses em Adyar e depois viajei extensivamente pelo país e pelo Nepal. Nunca esqueço a surpresa de ver em um voo doméstico saindo de Bombay, que a comida vegetariana era padrão. Quem quisesse carne era que tinha de encomendar. Que luxo. Em Adyar morei algum tempo no Leadbeater Chambers, depois no Bhojanasala, no mesmo quarto ocupado anteriormente pela educadora italiana Maria Montessori - e, finalmente, numa Beach House, em meio a muitos animais. A Índia nessa época era ainda bem fechada para o Ocidente, nem coca-cola havia. Conheci alguns "expoentes" em Adyar, como a presidente da Sociedade, Radha Burnier, o autor Rohit Mehta, a Pupul Jayakar, "czarina da cultura" da Índia, a querida Norma Shastri, o Vic Hao Chin das Filipinas e outros.
Em 1992, escrevi Vegetarianismo – Elementos para uma Conversa Sobre, que, como o nome diz, pretendia compilar elementos que justificassem o vegetarianismo. O livrinho começou a circular e, para responder as perguntas que me faziam, tive que estudar mais sobre o assunto.

Soube então, pela revista The Vegetarian Times, que haveria um Congresso Mundial Vegetariano na Holanda. Lá fui eu. Foi quando soube da existência de veganos! Era um grupo barulhento, reclamando porque havia um estande vendendo queijo. Este congresso da Holanda (em The Hague, 1994) foi organizado pela União Vegetariana Internacional (IVU), da qual eu viria, em 1999, a me tornar coordenadora para a América Latina, e, em 2011, presidente, cargo que ocupo até hoje. Este foi o último evento da IVU onde se permitiu venda e consumo de produtos de origem animal.

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31 Congresso Vegetariano Mundial da IVU - The Hague

Neste congresso conheci muitos “famosos” do movimento, como Peter Singer - mais tarde tive a honra de traduzir para o português seu principal livro, Libertação Animal; e  a Helen Nearing, a mãe do "movimento de volta à terra", que propunha uma vida no campo mais simples e com mais propósito. Seu livro Living the Good Life (Vivendo a Boa Vida) inspirou muitos jovens a seguirem o princípio da sustentabilidade e o vegetarianismo. Após o Congresso, encontrei Helen na biblioteca da Sociedade Teosófica, em The Hague (Haia), e perguntei se ela tinha vínculo com a Sociedade. Ela foi até uma prateleira, pegou Os Anos do Despertar, uma biografia do Krishnamurti, me mostrou uma foto e disse "essa sou eu". Helen foi a ‘namoradinha’ do Krishnamurti, durante encontro na Austrália, sob coordenação do Leadbeater. Mundo pequeno. Helen Knothe era filha de teosofistas e vegetariana nata. 

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Libertação Animal - Peter Singer

Soube também, neste Congresso, que haveria um Festival Vegano, no ano seguinte, em San Diego, Califórnia. Lá fui eu. E voltei vegana. Morava então no Rio de Janeiro e não conhecia nenhum vegano e nenhum lugar que servisse opções veganas. Minha primeira impressão no evento da Holanda ao tomar conhecimento de que estavam reclamando de queijo (depois soube que era de todo e qualquer produto de origem animal) foi de que seria um exagero. Mas logo me dei conta de que não é exagero algum: carne, ovos e laticínios fazem parte de uma mesma equação: exploração animal e todas as mazelas advindas disso, que são inúmeras e chocantes.

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SítioVEG

Na Califórnia conheci a Internet. Determinada a utilizar esta ferramenta nova para divulgar o vegetarianismo e ajudar pessoas que, como eu, encontravam dificuldades no dia a dia, criei o Sítio Vegetariano, que viria a ser a primeira página sobre vegetarianismo em português do mundo. E abri, no Yahoo, duas listas de discussão: a veg-brasil e a veg-latina. Estas listas também foram pioneiras, tanto em língua portuguesa como espanhola. Começaram a aparecer vegetarianos e simpatizantes de todas as partes! O clima era muito bom, de auxílio mútuo e descobertas. Ainda não havia a "polícia vegana".

Sou socióloga, mas após a viagem à Índia, adotei a profissão de tradutora, para ter mais liberdade de ir e vir. Comecei com livros da Editora Teosófica. Traduzi cerca de 13 livros para esta editora, no total de mais de 70. E, em 1999, comecei a traduzir os Collected Writings (Escritos Compilados) de H. P. Blavatsky. 

Mais de vinte anos depois, eis que o primeiro volume impresso da coleção é lançado em Lisboa. Devo muito ao J.M. Anacleto que acreditou no projeto e colocou sua equipe e experiência de editor e livreiro para que a obra enfim viesse à luz. 

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Escritos Compilados de H.P.Blavatsky - Volume VIII

Nas palavras do compilador da obra, Boris de Zirkoff, parente de Blavatsky, os escritos de H. P. Blavatsky “constituem em sua totalidade um dos mais impressionantes produtos da mente humana criativa. Considerando sua inigualável erudição, sua natureza profética e sua profundidade espiritual, devem ser classificados, por amigos e inimigos igualmente, entre os inexplicáveis fenômenos da época". 

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Escritos Compilados de Helena P. Blavatsky

São 15 Volumes, 14 de Artigos (com cerca de 500/800 páginas cada) e um Índice Remissivo, perfazendo um total de cerca de 10 mil páginas.

Os artigos compilados podem ser estimados em aproximadamente mil, escritos originalmente em inglês, francês, russo e italiano. Foram 25 anos de pesquisa para reunir estes artigos.

Boris de Zirkoff começou a compilar os escritos de Blavatsky em 1924. Entre 1950 e 1981, ele conseguiu publicar os primeiros 12 volumes (levou 31 anos). Entre o início do trabalho de Boris, em 1924, até a publicação de toda a Série, em 1991 (cem anos depois da morte de H.P.B.), passaram-se 67 anos. Isto dá uma ideia da magnitude da obra.

Confesso que senti um certo alívio quando fiz essas contas, pois estava angustiada de levar tanto tempo traduzindo a obra e não a ver publicada. 

Em 2002, participei do Congresso da IVU, na Escócia, onde apresentei a proposta de organizar um Congresso Vegetariano latino-Americano. O Congresso seguinte da IVU seria em Cingapura, mas por conta do colapso econômico e do surto de gripe aviária, o local foi cancelado. Então, o Conselho da IVU me perguntou se eu o organizaria. Lá fui eu. Não poderia perder esta oportunidade. 

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Sociedade Vegetariana Brasileira - SVB
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36 Congresso Vegetariano Mundial da IVU

Foi a primeira vez que um congresso da IVU seria organizado sem uma organização vegetariana estabelecida por trás. Eu já vinha fazendo contatos para abrir uma Associação e, com o Congresso em vista, criei a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), em agosto de 2003. O Congresso, realizado em novembro de 2004, foi um grande sucesso, lembrado até hoje como o melhor de todos os tempos em termos de local (Costão do Santinho) e melhor comida (algo muito importante para os veganos). Durante os 7 dias de evento, fornecemos refeições de qualidade, preparadas pelos dois melhores chefs que conhecia. Tudo no evento foi vegano, inclusive um desfile de moda.

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12 Festival Vegano Internacional - Rio - 2009

Em 2006, organizamos em São Paulo, no Memorial da América Latina, o 1º Congresso Vegetariano Brasileiro e Latino-americano. Em 2009, lançamos em São Paulo a campanha Segunda Sem Carne (segunda no mundo a ter apoio governamental). Neste mesmo ano fizemos, no Rio de Janeiro, o 13º Festival Vegano Internacional, na PUC, onde estudei.

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Segunda sem Carne

Em 2011, conseguimos implantar, junto à Secretaria de Educação de São Paulo, o projeto merenda vegana, desde logo o maior programa de alimentação escolar vegana do mundo. São 2 milhões de refeições servidas por dia. E um a cada cinco dias, sem qualquer produto de origem animal. Em 2007 lançamos, junto com a Ecocert, a certificação vegana. A parceria não prosperou, mas, em 2013 o Selo Vegano foi retomado, desta vez com sucesso e diretamente pela SVB.

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Produto Vegano - selo de certificação

Em 2011, conseguimos implantar, junto à Secretaria de Educação de São Paulo, o projeto merenda vegana, desde logo o maior programa de alimentação escolar vegana do mundo. São 2 milhões de refeições servidas por dia. E um a cada cinco dias, sem qualquer produto de origem animal. Em 2007 lançamos, junto com a Ecocert, a certificação vegana. A parceria não prosperou, mas, em 2013 o Selo Vegano foi retomado, desta vez com sucesso e diretamente pela SVB. 

MarlyWinckler
Marly Winckler em Hong Kong

Após 12 anos de muitas lutas e conquistas passei, em 2015, a presidência. Hoje me dedico principalmente à União Vegetariana Internacional (IVU), uma associação de organizações vegetarianas, fundada em 2008. E às traduções, claro.

Por mais que nossa causa tenha se expandido enormemente, thanks God, não dá para baixar a guarda, muito trabalho ainda nos espera. Sigamos em frente! 

Marly Winckler, presidente-fundadora da SVB (2003-2015), presidente da IVU (2011- ), tradutora dos Escritos Compilados de H. P. Blavatsky.

Autoria preservada do acervo

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