Agricultura familiar e tecnologia
Luc Vankrunkelsven Nestes dias, em Guarapuava, está sendo organizado o ‘6o Show Tecnológico do Centro-Oeste do Paraná’. Um ônibus de Curitiba, com o pessoal da Aopa e estudantes de agronomia, encontra um ônibus com agricultores da Fetraf, do sudoeste do Paraná. Chama a atenção, principalmente, o fato de serem jovens os que ocupam os ônibus e alojamentos. Nos dois ônibus, os visitantes usam camisetas parecidas. As…
Luc Vankrunkelsven
Nestes dias, em Guarapuava, está sendo organizado o ‘6o Show Tecnológico do Centro-Oeste do Paraná’. Um ônibus de Curitiba, com o pessoal da Aopa e estudantes de agronomia, encontra um ônibus com agricultores da Fetraf, do sudoeste do Paraná. Chama a atenção, principalmente, o fato de serem jovens os que ocupam os ônibus e alojamentos. Nos dois ônibus, os visitantes usam camisetas parecidas. As organizações de diversas regiões são parceiras de um grande projeto no Paraná: ‘Água Boa’. O texto estampado nas camisetas dos jovens da Fetraf diz: “Proteger a água é proteger a vida na terra”. O show parece ter um conteúdo bem distinto do grande show do agronegócio, em Cascavel. Lá, a agricultura familiar e a agroecologia se perdem no meio da mega-propaganda de Monsanto, Basf, Bayer, Aventis e outros gigantes da indústria química ‘a serviço’ do agronegócio e para promover a assim proclamada ‘vocação exportadora’ do Brasil.
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Proteger a água é proteger a vida na terra.
Respeito
Nosso alojamento é num centro de formação de povos tradicionais. Estes últimos logo levam nossa conversa, no café-da-manhã, à triste história do confronto dos imigrantes europeus com os índios. Alguém conta, com entusiasmo: “No evento paralelo à Conferência da ONU sobre Biodiversidade, há alguns dias, presenciei um ritual marcante. Foi na ‘aldeia dos índios’. Sob o olhar curioso de muitos visitantes ainda em busca de sua própria alma, um homem rezava e ofertava chá à Mãe Terra. Para os índios, este ritual é tão sagrado quanto é uma missa do Papa para os imigrantes brasileiros. Eles têm muito respeito pela Terra! Eles pedem autorização para prepará-la para o plantio. Eles falam com ela com carinho quando vão comer. E nós?”
Uma agricultora completa: “Eu tenho muito respeito por eles. Nós temos muito a aprender com eles, pois nós ‘europeus’ só queremos produzir e ganhar dinheiro. Foi bom que estivessem presentes em grande número no COP8-MOP3. Suas conferências paralelas e rituais foram visitados por muita gente. Eles são para nós uma consciência viva.”
O índio e a agricultura familiar
Outra pessoa entra na conversa: “O modo pelo qual a Monsanto expulsa atualmente os pequenos agricultores é o mesmo tratamento que, nós, imigrantes europeus, demos aos índios. Nossos ancestrais tomaram as melhores terras para a produção de cana-de-açúcar, café e outros produtos coloniais. Os índios foram perseguidos e expulsos para as terras marginais. E isto acontece conosco até hoje, desde a Revolução Verde da década de 1970. Os verdadeiros
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A aldeia dos indígenas no COP8-MOP3
agricultores familiares foram cercados por fazendeiros da cidade. Foi naquele período que surgiram as primeiras supersementes vinculadas aos produtos químicos na forma de pó, que aplicavam nas suas lavouras. Nem se utilizava água. O pó era transportado pelo ar até as chácaras dos pequenos agricultores. A estratégia dos grandes era comprar pequenas propriedades. Aqueles que tentavam permanecer na sua propriedade e com seus animais foram forçados a abandoná-los, por causa do uso dos pós tóxicos. Por fim, suas propriedades também foram tomadas. Além disso, após a euforia da década de 1970 – com seus subsídios e investimentos promissores –, muitos agricultores caíram numa espiral de dívidas no início da década de 1980. Devido à inflação elevada, muitas famílias ficaram tentadas a vender suas terras e sua propriedade. Obtinham muito dinheiro de uma única vez, o que, naquela época, gerava mais renda no banco do que a propriedade jamais poderia gerar! Este período de ‘fartura’, porém, não durou muito tempo: logo eles haviam perdido tanto seu dinheiro quanto seu trabalho e suas terras.”
Eu continuo a reflexão: “Semana passada, Marfil me contou sobre sua infância na região cafeeira no norte do Paraná. Naquela época, as comunidades floresciam com muitas propriedades familiares, assim como havia muitas escolas, lojas, ofícios, bares e igrejas. Não devemos idealizar o passado, mas a economia era saudável, pois o dinheiro continuava a circular na zona rural. Ao longo da década de 1980, as pessoas começaram a vender suas propriedades. Eles partiam para a cidade ou compravam, com o dinheiro apurado com a venda, propriedades muitos maiores no Mato Grosso. Lá, alguns ficaram ricos; outros perderam tudo naquele fim de mundo. Nesse meio tempo, nos municípios prósperos de outrora, hoje só se encon tram algumas poucas grandes propriedades. Os proprietários, fazendeiros, moram nas cidades e o dinheiro também flui naquela direção. Já não existe muito café, pois nas grandes propriedades hoje se cultiva principalmente soja e algodão. As economias locais estão em declínio. Há poucas lojas pequenas. Quase não há mais escolas. Um triste resquício de vida comunitária e muita pobreza. É uma história triste, que nós também conhecemos na Europa. Na região populosa de Flandres isto não é muito aparente, mas na França também há muitas regiões com vilas quase abandonadas, onde só vivem alguns idosos. Afinal, isto é um problema global. Há pouco tempo, li na internet uma matéria sobre agricultores indianos que colocaram duas vilas à venda. Um gesto de desespero, pois sua adorada vida camponesa se tornara insuportável. Não é à toa que há uma epidemia de suicídio entre agricultores naquela região.”
Ainda assim
A história dos últimos 40 anos não é muito animadora para a agricultura familiar. Pode-se chamar de milagre que – apesar das nuvens de veneno, sementes híbridas, transgênicos, dívidas, violência e expulsão – ainda existam tantos agricultores que resistiram. E o que dá mais esperança é o fato de, nestes dias, estarmos reunidos aqui com muitos jovens.
Na universidade em Guarapuava há uma série de palestras. Em seguida, são demonstradas tecnologias adaptadas à pequena propriedade.
O primeiro palestrante utiliza a inesperada expressão ‘tecnologia socialista’. Eu suspeito que para muitos ouvintes isto soou estranho. Aliás, para mim também, principalmente quando se tem em mente que as propriedades comunistas e socialistas eram fazendas de grande escala, industriais, com trabalhadores rurais desvinculados da terra, grandes máquinas, agroquímicos. Esta herança ainda é vista no leste da Alemanha, a antiga República Democrática da Alemanha. É exatamente lá, nestas grandes propriedades, que estão sendo semeadas as primeiras sementes transgênicas na Europa. Também em Cuba a agricultura somente se converteu para a agroecologia após a implosão da União Soviética. E foi por necessidade, porque a importação de petróleo e adubos químicos deixou de existir. O próprio MST, do Brasil, somente voltou seus olhos para agroecologia, sementes próprias, uma agricultura em menor escala e com menos impacto ambiental nos últimos anos, após se firmar na luta socialista. É porque o ‘verde’ não flui automaticamente do ‘vermelho’...
Tecnologia adaptada
Seguem outros três palestrantes; cada um apresenta um estudo sobre a situação e as necessidades da agricultura familiar. Um deles continua a falar daquela assim chamada ‘tecnologia socialista’. Ele afirma, corretamente, que nos últimos 30 anos as máquinas aumentaram cada vez mais em tamanho: verdadeiros tratores e colhedeiras-monstro, no tamanho adequado para propriedades gigantescas, e incluindo, ainda, a ascensão dos aviões para pulverização. “Numa sociedade capitalista, a tecnologia está a serviço daquele que produz com maior ‘eficiência’. Numa democracia, necessitamos de uma desconcentração industrial a serviço do desenvolvimento rural. Desde a década de 1980, os movimentos sociais mostraram que conseguem desenvolver uma força capaz de implementar esta mudança. O socialismo é o fortalecimento da democracia, não mais com armas, e sim com inteligência. ‘Tecnologia socialista’ é a tecnologia da solidariedade.”
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New Holland: tecnologia adaptada?
São palavras antigas que ganham um novo significado? Elas são aplicáveis à agricultura, mas será que também se aplicam à geração de energia? É possível ‘desconcentrar’ imensas usinas hidrelétricas em unidades menores, na escala da população local? Na Europa, durante séculos, contamos com os moinhos movidos pela água e pelo vento. Como ficam os moinhos de água para o século XXI? E moinhos de vento? Em escala humana! Inseridas ecologicamente e socialmente na paisagem. Baterias solares? Baterias de hidrogênio?
A tarde é dedicada ao show. As belas palavras e análises pedem ações e alternativas concretas. As tecnologias adaptadas estão à nossa espera: para apoiar a agricultura familiar, que traz a vida e felicidade à zona rural.
Ver – avaliar – agir.
Estou curioso sobre o que estes jovens aprenderão para aplicar futuramente em suas propriedades.
Turvo, 29 de março de 2006.