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A FISIOLOGIA DO VEGETARIANISMO1

Apresentarei a vocês, principalmente, os aspectos científicos da questão. Primeiro, falarei do equívoco sob o qual nós, vegetarianos, nos encontramos. Há apenas dois dias, tomei um jornal popular no qual os vegetarianos eram descritos como “pobres criaturas insanas que desafiam a natureza”. Outro escritor falou de nós, no Times, como “pobres fracos”. Não penso que essa expressão seja exatamente aplicável a nós ou à…

Apresentarei a vocês, principalmente, os aspectos científicos da questão. Primeiro, falarei do equívoco sob o qual nós, vegetarianos, nos encontramos. Há apenas dois dias, tomei um jornal popular no qual os vegetarianos eram descritos como “pobres criaturas insanas que desafiam a natureza”. Outro escritor falou de nós, no Times, como “pobres fracos”. Não penso que essa expressão seja exatamente aplicável a nós ou à nossa história, seja passada, presente ou futura, como vegetarianos.

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1 Extraído do relatório da conferência proferida por Anna Kingsford em 12 de janeiro de 1885, no Exeter Hall, em Londres, ao término da International Health Exhibition, sob os auspícios da Manchester Vegetarian Society. Trata-se de uma entre várias conferências que, na ocasião, foram apresentadas por destacados vegetarianos; foi retirada do relatório da reunião do Exeter Hall publicado pela referida sociedade (ver Prefácio Biográfico, p. 52 anterior).

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Como há muita incompreensão a respeito, permitam-me apontar alguns fatos sobre o vegetarianismo sob o ponto de vista científico. Alguns têm a ideia de que enviaríamos os homens a pastar como Nabucodonosor. Parece que nunca ouviram falar da classe de animais chamada “frugívora”. Nunca devem ter lido Thomas Henry Huxley, nem as obras dos grandes anatomistas e fisiologistas. Nunca acompanharam os argumentos da doutrina da evolução. Não direi se sou evolucionista ou não. Sobre um ponto, porém, não há dúvida alguma: se estudarmos a anatomia do homem, veremos que ela é exatamente a mesma dos grandes macacos; ambos são, anatômica e fisiologicamente, iguais.

Isso talvez fira um pouco o nosso orgulho — pensar que pertencemos apenas à família dos macacos — mas não estou falando de suas qualidades morais. Se entrarmos em uma sala de dissecação e virmos um macaco sobre uma mesa e um ser humano sobre outra, teremos grande dificuldade em perceber a diferença entre eles, especialmente se a pele tiver sido removida. Os dentes do homem são precisamente os mesmos que os do macaco. Ouvimos muito, de pessoas que não entendem o assunto, sobre os dentes caninos. Dizem que são dentes para rasgar carne. Não são nada disso. Os dentes cuspidados do macaco servem para defesa e para quebrar nozes, e certamente não para comer bifes ou costeletas.

Um homem adulto tem trinta e dois dentes, se os possuir todos, incluindo os dentes do siso. Há macacos do Velho Mundo e do Novo Mundo; os do Velho Mundo também têm trinta e dois dentes. Os dentes do macaco são exatamente iguais aos do homem, tanto na forma quanto no modo de crescimento. Alguém dirá que o macaco é carnívoro? Se visitarem nossos grandes museus ou zoológicos, aqui ou no exterior, verão que a alimentação dos macacos consiste em maçãs, pão e coisas semelhantes. Os tratadores reconhecem perfeitamente que o macaco não é um animal carnívoro.

Não quero deter-me demasiado nessa questão anatômica, mas poderia demonstrar que, na formação da boca, do estômago e do canal intestinal, o homem é exatamente igual ao macaco. Entre os grandes autores de anatomia e fisiologia, não há divergência de opinião. Assim, a alimentação do homem é determinada pela ciência — e a ciência é algo difícil de contestar. O homem foi formado para comer os frutos da terra, e não carne. Se ele se adaptou a comer carne, foi pelo hábito, não pela natureza.

Quanto ao aspecto econômico da questão, dizem-nos que os vegetarianos não podem ser fortes; que é impossível ter força sem comer carne. Vejamos a questão cientificamente. Os alimentos necessários ao corpo podem ser divididos em duas grandes classes — nitrogenados e carbonáceos. Se fizermos experiências com o homem, veremos que essas duas classes correspondem a duas funções essenciais na economia do corpo humano. O alimento nitrogenado forma os músculos e os tecidos; o carbonáceo fornece calor e força.

Calcula-se que a quantidade necessária dessas substâncias — segundo as proporções do Dr. Pavy, do Dr. Edward Smith e de outros — seja de quatro a cinco onças diárias de matéria nitrogenada, e de quinze a vinte e duas onças de matéria carbonácea. Os carbonos se dividem em dois grupos: hidrocarbonetos e carboidratos — nomes difíceis. Os hidrocarbonetos são todos os óleos e gorduras; os carboidratos são todos os amidos e açúcares. Segundo o Dr. Playfair, os amidos e açúcares são necessários na proporção de dezessete a dezoito onças por dia.

Com uma única exceção, todos esses elementos são obtidos do reino vegetal. É necessário que absorvamos certa quantidade de açúcar; e não há açúcar, exceto no leite, fora do reino vegetal.

Examinaremos rapidamente o valor aproximado desses alimentos e veremos quanto mais rico é o reino vegetal. Ouvimos dizer: “Se você quer formar músculos e tecidos, deve recorrer ao reino animal. Se quer ser forte, deve consumir a matéria nitrogenada contida na carne.” Ora, a carne de porco e o presunto contêm 8%, a carne magra de boi e de carneiro 18% de matéria nitrogenada; assim, as carnes contêm de 8 a 18%. Se obtivermos nosso nitrogênio do reino vegetal, ele será muito mais barato. Obtemos de 25 a 30% de matéria nitrogenada nas lentilhas, ervilhas, feijões e todos os tipos de cereais.

Quanto aos alimentos carbonáceos, obtemos tudo de que necessitamos do reino vegetal. E os óleos também são muito mais puros quando obtidos do reino vegetal do que do animal. Isso é evidente até para a compreensão mais simples, e não me detenho nesse ponto. Além disso, os animais estão sujeitos a muitas doenças. Todas as doenças verminosas provêm do consumo de alimentos de origem animal, e os pobres recebem os piores tipos de carne; isto é, são obrigados a consumir vísceras, pulmões e fígado, justamente as partes onde os germes de doenças abundam. Esses germes não podem ser vistos a olho nu, mas, uma vez introduzidos no organismo humano, desenvolvem-se lenta e seguramente. No canal intestinal pode haver um pequeno ponto, quase invisível mesmo ao microscópio, que pode crescer até tornar-se um verme de quatro ou cinco pés de comprimento.

E essa não é a única doença animal. Há também a chamada “doença pérola”, uma forma de tuberculose, bem conhecida dos açougueiros. Ouvimos recentemente que de 80 a 90% da carne vendida estava doente. Temos, inclusive, a autoridade do Dr. Alfred Carpenter, falando no Congresso Médico de 1881; assim, podemos admitir como verdadeiro, embora pareça quase incrível, que de 80 a 90% da carne de açougue seja imprópria para consumo. Reduzindo esse número, ainda podemos dizer que de 60 a 70% está doente — o que já é alarmante.

Diferentemente disso, o reino vegetal está completamente livre dessas doenças verminosas. É claro que pode haver vegetais deteriorados, mas eles são facilmente identificáveis e não os consumimos. A carne, porém, engana-nos; pode parecer perfeita, mas conter os germes de doença já mencionados.

Quanto a um dos “fortes” argumentos de nossos opositores, dizem que, se não matássemos os animais, nossos campos e quintais ficariam cheios de gado. É curioso que as pessoas não percebam o que isso significa. Não é evidente que criamos animais justamente para abatê-los? Dizem que, se não destruirmos bois e outros animais, teremos ovelhas e vacas pelas ruas. Seríamos invadidos por elas! Veríamos rapidamente o que aconteceria se todos fossem vegetarianos. O fato é que a terra que deveria pertencer ao povo é destinada aos animais.

Na Inglaterra, precisamos que os trabalhadores tenham suas próprias terras. Queremos que essa terra seja cultivada como um jardim, e não deixada para ovelhas pastarem ou para cervos correrem livremente. Queremos impedir que as pessoas sejam obrigadas a emigrar, como ocorre atualmente. Muitos dos melhores e mais capazes não encontram trabalho e atravessam os mares, deixando para trás um excesso de mulheres, sofrimento e miséria. Queremos devolver a terra ao povo, para que vivam de forma econômica e feliz, e possam envelhecer em seus próprios lares.

Em outros países, especialmente na França, não há casas de trabalho. As pessoas vivem de maneira econômica para manter suas famílias unidas, reunindo-se em torno de um mesmo lar, ao contrário da Inglaterra, onde os idosos são enviados a instituições e os jovens partem em busca de sustento.

Se adotássemos o vegetarianismo, muitas ocupações degradantes desapareceriam, e as pessoas poderiam viver melhor com produtos vegetais. É lamentável que os pobres acreditem que apenas a carne é alimento. Um amigo meu distribuía sopa vegetal, mas, ao descobrirem que não havia caldo de carne, recusaram-na. Essa ideia é comum — e os médicos têm responsabilidade nisso, ao recomendarem constantemente carne e vinho como necessidade.

Minha própria experiência foi curar uma tuberculose consumindo apenas alimentos vegetais. Disseram-me que não viveria seis meses e recomendaram carne crua e vinho do Porto. Fui para o campo, alimentei-me de mingau e frutas — e estou aqui hoje.

Quanto à questão do couro, encontrei quem fizesse botas sem couro, e uso-as agora. Até subi montanhas na Suíça com elas. Quando houver demanda, esses produtos estarão disponíveis.

Há muito mais a dizer sobre a história do vegetarianismo. Grandes nomes estiveram ligados a ele: Gautama Buddha, Pitágoras, Sêneca, Percy Bysshe Shelley, Plutarco, entre muitos outros. Isso não parece indicar “fraqueza”.

Fisicamente, também, o gorila — vegetariano — é um dos animais mais fortes. E o trabalho mais pesado do mundo é realizado por animais herbívoros que constroem e cultivam ao nosso lado. Portanto, rejeitamos a ideia de fraqueza. Intelectual e moralmente, também demonstramos força.

Nossa meta é elevar-nos, não descer ao nível dos predadores. Nosso lema é: “Para cima e adiante!” Devemos viver com simplicidade e pureza, reduzindo nossas necessidades e seguindo os ensinamentos dos grandes mestres. Como ensinou Pitágoras: “Aprende a amar o que é correto, e o hábito o tornará agradável.”

Encerrando, cito estes versos de Oliver Goldsmith:

“Não condeno ao abate
Os rebanhos livres no vale;
Ensinado pelo Poder que de mim se compadece,
Aprendo a compadecer-me deles.

Mas das encostas da montanha
Trago um banquete inocente;
Uma provisão de frutos e grãos,
E água da fonte.”

Autoria preservada do acervo

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