Você tem fome de quê?

Débora Dimes – Revista Vida Simples

Alimentação saudável é muito mais do que tabelas de calorias e combate aos radicais livres: se comermos direito, podemos salvar o mundo

Alimentação é uma necessidade básica impregnada de matizes culturais: toca as vísceras, as crenças e os desejos. Existe até uma antropologia da nutrição que estuda a evolução do homem através de seus alimentos. Excêntricos, vamos além das opções que a natureza oferece: plantamos, tornamos perene o sazonal, cozinhamos com fogo, antecipamos a maturação de animais e vegetais, criamos híbridos, recriamos artificialmente o natural. Ao fim a ao cabo, transformamos todo o ciclo da cadeia alimentar e, ao que parece, isso não está dando muito certo. 

Para gerar a abundância atual é preciso ter lavouras e fazendas fartas o ano inteiro. Assim, o meio ambiente é explorado ao máximo, o solo é erodido, mananciais de água são poluídos e exauridos. E, como sabemos, nas sociedades modernas o consumo de comida é resultado de poder aquisitivo: alguns padecem do excesso, outros sofrem com a absoluta escassez. Somos o que comemos – ou o que deixamos de comer. Segundo a rganização para a Alimentação e Agricultura (FAO), há, no mundo, 840 milhões de pessoas com deficiência de nutrição, muitas passando fome mesmo.

A contrapartida são as "doenças da riqueza", como diabetes, problemas cardíacos e câncer, entre outras produzidas pelo consumo de açúcar e gorduras saturadas acima das reais necessidades do organismo.

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Tudo bem, ser vegetariano ou não é uma questão pessoal – mas apenas até certo ponto. Porque não há como alienar da maneira como todo tipo de carne é produzido hoje. Boa parte dos disparates da distribuição de comida no mundo podem ser entendidos
quando observamos as indústrias bovina, avícula e suína.

A produção de cada quilo de carne de gado consome 7 quilos de grãos, usados na alimentação do animal – gràos que poderiam alimentar muito mais pessoas e não apenas aquelas que podem pagar pela carne – 38% da colheita mundial de grãos é destinada aos rebanhos. Um hectare usado para criação de animais produz um décimo da energia ou proteína que o mesmo hectare forneceria se nele fosse plantado soja ou trigo. E cada vez mais água é usada na criação de animais e não em plantações para o consumo humano.

As práticas para aumentar a produtividade de rebanhos por meio do estímulo ao crescimento e da maior rotatividade nos locais de criação começaram nos anos 60. Veio o uso em larga escala de hormônios e de grandes doses de antibióticos como prevenção contra as doenças que se alastram rapidamente quando um grande rebanho é absurdamente confinado. Tempo e espaço custam dinheiro.

O resultado: o gado que antes levava três anos para crescer e engodar, agora está ponto para o abate em 18 meses. Da mesma forma, galetos que antes levavam 12 semanas para atingir o peso de mercado, hoje estão no ponto em seis semanas. A vaca em cativeiro, que antes produzia 4000 litros de leite por ano, hoje dá 10000litros, dez vezes acima do que sua natureza permitiria se criada em liberdade. O ritmo das galinhas poedeiras foi alterado para que elas produzam, cada qual, 300 ovos por ano, quando o normal seria algumas dezenas. (…..)

Para renderem bastante, os animais sofrem todo tipo de maus tratos: são mutilados para que não se machuquem nos espaços apertados (pintinhos, por exemplo, podem ter os bicos cortados para não ferirem uns aos outros no estresse do confinamento), vivem em parcas condições de higiene e são alimentadas com rações inadequadas para o seu aparelho digestivo.

Seus instintos naturais são desconsiderados. Isso sem contar os males que passaram a nos ameaçar (a doença da vaca-louca, a salmonella ou a contaminação por e. Coli), os resíduos de remédio que ingerimos ao comer essas carnes, e as consequências ambientais, da qual o desmatamento para a abertura de pastos é a mais evidente.

Um estudo apresentado durante o IV Seminário Nordestino de Pecuária (Pecnordeste 2000) aponta que cada 1000 frangos abatidos por dia resultam na poluição de 4000 metros cúbicos de água com restos, sangue, vísceras, carcaças e bactérias (e a carga é pesada, uma vez que o Brasil é o segundo maior produtor e exportador mundial da ave). O mesmo acontece com os suínos: temos 30 milhões de cabeças e, assim, milhares de toneladas de dejetos sem tratamento são lançados em rios (o Ministério do Meio Ambiente destinou, no ano passado, verba de 19 bilhões de dólares para ser investida ao longo de três anos em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, os maiores produtores nacionais de porcos – que ajudam a manter o país na sextaposição do ranking mundial). Problemas de poluição por esterco, carcaças e vísceras também atingem a produção de gado (aqui, o Brasil tem o maior rebanho comercial do mundo: 172 milhões de cabeças).

O consumo de peixes também gera problemas. Os oceanos fornecem 123 milhões de toneladas de peixes e crustáceos por ano, dos quais apenas 66 milhões são consumidos pelo homem. O restante, ou é descartado e morto (animais que caem na rede e não tem valor comercial, como golfinhos, tartarugas e moluscos) ou é usado como ração na alimentação de outros bichos.

Alguns peixes são grandes carnívoros, como o salmão. Para produzir 1 quilo de salmão em viveiros, são necessários de 2 a 5 quilos de sardinhas e anchovas na ração. Peixes também vivem confinados para aumentar a produtividade e são entupidos de antibióticos. Viveiros de camarão, por exemplo, aumentam a salinidade do solo circunvizinho e da água dos mananciais, destruindo manguezais.

Evidentemente, há muitas pessoas interessadas em acabar com esses enganos. Como John Robbins, filho único do fubdador da marca de sorvetes Baskin Robbins, presente em mais de 30 países, com 45000 lojas.

Nos anos 70, esse jovem milionário não só foi morar em uma cabana no campo, como descartou radicalmente a robusta herança da família. Tornou-se vegan e, depois, um autor de grande sucesso. Passou a pregar contra a indústria de laticínios, base da fortuna dos Robbins, e contra a produção animal.

Seu primeiro livro "Dieta para uma nova América", de 1987, best-seller até hoje, abordou em pesquisa minuciosa a dieta vegetariana, as doenças provocadas pela alimentação moderna e o tratamento cruel de animais. Ele arregimentou artistas e apresentadores de TV, que, em rede nacional, declararam seu repúdio ao hamburguer (como fez a consagrada Oprah Wimphrey, para constrangimento de alguns de seus anunciantes).

Os trangênicos podem mesmo fazer mal?

Em seu último livro, "A revolução dos alimentos" (ainda sem tradução por aqui), Robbins segue com a pesquisa detalhada e o tom panfletário contra a indústria de carne, mas vai à carga também contra os fabricantes de organismos geneticamente modificados. Sua principal tese – a mesma defendida por alguns governos e instituições internacionais – é que ainda não houve testes suficientes que comprovem a segurança do cultivo desses alimentos para o ser humano e o meio ambiente.

Faz sentido. As sementes que agora dominam as lavouras da engenharia genética são o milho e a soja da variedade Roundup Ready, cuja principal virtude é a imunidade a doses maciças de aspersão com o herbicida Roundup Ready (além da toxidade do processo, essa ligação intrigante: semente e herbicida são fabricados pela mesma empresa). Não há garantia também de que, pela polinização entre espécies, as próprias ervas daninhas são se tornem imunes ao herbicida e comecem a desequilibrar o ecossistema.

E a incoerência maior: segundo Robbins, "a produção desses grãos continua a ser majoritariamente destinada à alimentação de animais"- o que nos leva de volta à questão das indústria bovina, avícula e suínam com o agravante de que se trata de umaração da qual nào se conhece bem os efeitos.

A solução para os problemas ambientais, sociais e fisiológicos resultantes do desequilíbrio alimentar de hoje, segundo John Robins e milhares de outros pesquisadores e especialistas está numa conscientização semelhante à que tem o comedor agrícola: a conexão com a terra. "A raiz etimológica da palavra humildade é a mesma de húmus", explica Robbins. "Nossa humildade significa voltar a reverenciar a terra, nos conectar com o planeta e suas criaturas." Para ele, isso se dá por intermédio da agricultura orgânica.

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A consciência alimentar pode nos levar aos céus

Mas, ainda que muitos de nós continuemos gostando de carne, teremos dado um grande passo se evitarmos o consumo de comidas processadas, refinadas e adulteradas, que levam à alienação do mundo natural.

Está claro que a continuidade do ritmo de produção de hoje é uma perspectiva pouco democrática (não atende a todos) e nada promissora. Já a alimentação consciente pode ser instrumento para um futuro mais saudável, compassivo e sustentável. (……)

A consciência alimentar pode ainda levar a uma prática sútil, espiritual: viver o presente sem negligenciar necessidades, nem exceder-se en desejos. Afinal, a nutrição não passa só pela boca. Ela nos impregna inteiramente com os frutos dos tempos e dos céus.

 

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