Você nasceu para voar

Sempre viajo para o Brasil como uma página em branco. Literalmente. Sem planos para escrever. Mas sempre o resultado é o contrário. Assim que ponho os pés em terra firme, em São Paulo, a inspiração começa a fluir. Eu vejo, sinto, ouço, cheiro. Desta vez, ocorreu ainda mais cedo: na calçada da TGV, em Bruxelas, em direção a Paris. 

A perspectiva da águia e da galinha 

A última vez que estive no Brasil foi em maio de 2007. Desta vez, vim para o lançamento do livro ”Aurora no campo. Soja diferente”, versão em português de ”Dageraad over de akkers. Soja anders”. Não pude vir antes, uma vez que a tradução e a impressão exigiram algum tempo. Além disso, no mosteiro de Averbode (Bélgica), realizamos nos últimos dias a reunião de trabalho anual de ISG (sigla, em holandês, para “Incesto e Violência Sexual”). O tema decorre do livro intrigante de Leonardo Boff: ”A águia e a galinha – Uma metáfora da condição humana”. Uma defesa de uma tensão saudável entre a ”vida terrena” – como galinha – e ”alçar voo”/voar como uma águia. É bem verdade que a águia da história nasceu para voar, mas como foi criada entre as galinhas, não aprendeu a alçar voo. Graças à confiança de um amante da natureza, ele conseguiu descobrir para qual objetivo nasceu: voar. 

Da agricultura para a construção civil 

Embarco na estação Bruxelas-Sul, com duas mulheres de Goiânia (capital de Goiás) e um jovem da mesma região. Chama a atenção de todos o número crescente de brasileiros na Bélgica, principalmente em Bruxelas. Além disso, eu já observei, tempos atrás, que muitos ”ilegais” são oriundos da região de Goiânia, ou seja, do Centro-Oeste do Brasil. A região de expansão dos canaviais e usinas de álcool, empreendimentos frequentemente direcionados por capital europeu ou estadunidense. Parece que são principalmente os brasileiros dos estados de Goiás e de Minas Gerais que partem para o exterior, em busca da felicidade. 

José Oliveira desvenda um pouco a razão da invasão de brasileiros. Ele já trabalhou na lavoura – na agricultura patronal, é claro. “Não dá”, suspira ele. Não pagam bem. Então ele foi trabalhar na construção civil e soube que, na Europa, é possível ganhar um bom dinheiro.

E como isso funciona?

Com um visto simples e um cartão bancário, um turista pode ficar três meses na Europa, assim como eu viajo oficialmente como “turista” no Brasil. José conseguiu ir para Bruxelas com um convite manuscrito de um belga (não pode mais ser fax, devido ao maior rigor das regras), selado e com carimbo da prefeitura. Ele deve demonstrar que possui dinheiro suficiente para uns dez dias, ou seja, 80 euros x 10 = 800 euros. Ele conseguiu trabalho imediatamente, pois a Europa está cheia de ”firmas” com documentos e trabalhadores ilegais – existe um amplo comércio de documentos falsos. Muitos brasileiros se dedicam a essa atividade em tempo integral e vivem disso. Parece que é particularmente fácil conseguir documentos de Portugal. Em Bruxelas, há muitas “firmas portuguesas”, baseadas em nomes e documentos falsos. No caso dele, ele trabalhou 15 dias para uma dessas supostas firmas portuguesas, tendo como subempreiteiro um patrão brasileiro. Este brasileiro (ilegal) contratou brasileiros (ilegais). O português não pagou o brasileiro; o brasileiro, por sua vez, não pagou os pedreiros brasileiros. Eles sabem que não podem recorrer à justiça, já que estão no país em condição irregular. Ou seja, José trabalhou 15 dias de graça. As duas mulheres acenam a cabeça concordando. Elas reconhecem a história. Pelo jeito, essas situações ocorrem com muita frequência. Na verdade, é uma variante do que ocorre com muitos trabalhadores no Brasil: com boias-frias e aqueles que trabalham em condições semelhantes à escravidão. 

José se cansou, mas ainda ficou uns dias com o irmão, que tem uma mulher e um filho belgas. O irmão possui documentação oficial. A partir do momento em que uma mulher e/ou filho belga entra(m) na história, é muito mais fácil regularizar a situação. Para um solteiro como José, é quase impossível! Morenas jovens e bonitas ainda têm uma ”chance” na Maiorca espanhola. Cerca de 80% das prostitutas de luxo seriam de origem brasileira. Elas são selecionadas e avaliadas por traficantes de seres humanos, que organizam o impiedoso comércio entre o Brasil e a Europa. 

“Nós somos portugueses” 

A história desconcertante de José me faz lembrar o que ocorreu há alguns dias num estaleiro, em Bruxelas. Ouço um grupo falando “brasileiro”. Puxo conversa e pergunto se eles são brasileiros. “Não senhor, nós somos portugueses.” Leio o temor em seus olhos. Eles torcem para que eu não saiba distinguir o português do ”brasileiro”. Será que a situação deles é melhor? Será que eles recebem o pagamento? De acordo com José, eles podem conseguir até nove ou dez euros por hora – sem registro, é claro. Nos últimos anos, eles estão tomando o lugar dos pedreiros poloneses, porque trabalham mais tempo e melhor: de 10 a 12 horas por dia. Ele afirma que os brasileiros também são mais práticos na execução. Os poloneses, por suas vez, são melhores nos acabamentos.

Se forem descobertos, eles não são punidos na Bélgica; são simplesmente colocados num avião, às custas do estado belga. Nos seus passaportes é colocado um carimbo informando que eles foram deportados. Não tem problema: eles compram um novo passaporte no Brasil e começam tudo de novo. 

E as firmas? Estas geralmente existem por dois anos e meio. Quando começa a ficar claro que não recolhem impostos, elas fogem. Em direção ao Brasil. Não é  possível processá-las porque foram utilizados documentos falsos.

Será que só  os brasileiros é que são tão criativos? Tão corruptos? Não, grandes empresas belgas também contratam trabalhadores brasileiros em massa. Sem registro, sem direitos.

Enquanto os homens são empregados e explorados “na construção”, as mulheres ficam em segurança “atrás das paredes”, fazendo trabalho doméstico, nas casas das madames belgas. Não há sindicatos para defendê-los, porque oficialmente não existem. Eles trabalham nas entranhas da sociedade belga. Nossa economia se aproveita deles. As instâncias judiciais e políticas desviam o olhar. 

Globalização da galinha 

A globalização se manifesta de mil e uma formas, das mais nobres às mais perversas. Enquanto isso, cometo um grave pecado ambiental: a pegada ecológica de um voo internacional não é pequena. Quanto tempo mais posso continuar fazendo isso? 

Leio na revista da TAM: ”Você nasceu para voar”. Trata-se de uma propaganda para um cartão bancário ligado à companhia aérea TAM. A cada compra você acumula pontos. Pontos para voar…

Será que os brasileiros pobres também nasceram para levantar voo? Como uma águia? Ou eles são abatidos como galinhas na esteira do frigorífico?

Carne de frango: desde 1995, é a carne mais globalizada que existe. Cada parte do frango é aproveitada e espalhada para os quatro cantos de nosso planeta. Não como uma águia, mas como “coxa e sobrecoxa”, para o Senegal. Pés e cabeças para a China. O coração, o fígado, tudo tem algum destino no planeta. Os pintainhos de um dia são entregues por encomenda internacional por duas multinacionais, uma alemã e uma norte-americana. Metade dos voos de carga da Lufthansa seria para pintainhos de um dia e ovos galados. A ração animal também vem de outro continente. Principalmente a soja: do Brasil, Argentina, Paraguai, Bolívia, dos Estados Unidos. ”Soja”, ou seja, outra metáfora para globalização! 

O peito de frango fica na Europa. É porque o consumidor europeu quer os melhores cortes…

Com agradecimentos à  OMC, a Organização Mundial do Comércio, que em 1995 estabeleceu as regras de comércio internacional. 

Luc Vankrunkelsven, 19 de fevereiro de 2008.

No voo Paris-São Paulo. 

Postscriptum:

  • No início de março, há um grande alvoroço no Brasil. Está ocorrendo um incidente diplomático com a Espanha. O controle da entrada de brasileiros nos aeroportos da Espanha tornou-se mais rigoroso. Muitos são recusados, mesmo tendo sua documentação em ordem. Seria uma reação exagerada de um estado que começou a perceber que é realmente grande o número de brasileiros que circulam pelas ruas falando ao celular? E falando em ”brasileiro”! “Não, nós somos portugueses.” Ou: “Não, nós somos angolanos.”
  • Em meados de março, é a Bélgica que está alvoroçada. Parece que 80% dos voos de repatriação pagos pelo governo belga são destinados a brasileiros. 
    Aparentemente, os ”portugueses” e os “angolanos” conhecem muito bem as cidades brasileiras. Que pena para mim: eu não conheço nenhuma cidade em Portugal. Muito menos em Angola.
  • Em julho de 2008 descobre-se que, na verdade, não são 80% dos voos; mesmo assim, os brasileiros constituem o grupo mais numeroso daqueles que utilizam os programas humanitários que ajudam pessoas em busca de asilo e não obtiveram sucesso ao retornar para seus países. Essa tendência se destaca em Portugal, na Irlanda e na Bélgica. Em 2007, 805 brasileiros fizeram uso, na Bélgica, do programa de repatriação: eles recebem uma passagem aérea e um prêmio de 250 euros. Naquele ano, 2593 pessoas em busca de asilo fizeram uso do programa. Os brasileiros formam, de longe, o grupo mais numeroso que utiliza o programa, embora sua participação no número de pessoas em busca de asilo seja bem menor.
  • Além disso, sua participação continua crescendo. Dos 285 estrangeiros que, em abril de 2008, retornaram voluntariamente para seu país de origem, 101 – ou seja, mais de 35% – eram do Brasil.
  • Enquanto dou a redação final a este texto, recebo um manifesto assinado por várias personalidades latino-americanas. A questão permanece atual:

    No Ciudad, terça-feira, 22 de julho de 2008 (ALC) – O bispo e poeta Pedro Casaldáliga, do Brasil; o Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel; a líder das Mães da Praça de Maio, Hebe Bonafini, da Argentina; o subcomandante Marcos, do México; o professor Noam Chomsky, dos Estados Unidos; e o presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, são alguns dos nomes que assinaram manifesto contra a lei que pune imigrantes na Comunidade Econômica Europeia.

    “A Europa deveria pedir perdão ao mundo, ou pelo menos agradecer-lhe, ao invés de impor por lei a perseguição e o castigo aos trabalhadores migrantes, que ali chegam expulsos pela fome e pelas guerras que os donos do mundo lhes impõem, em seus países de origem”, diz o texto.

    O manifesto, que circula na internet, assinala que a Europa não seria a Europa sem a mão-de-obra barata vinda de fora, sem as riquezas que o mundo inteiro deu a ela, sem o genocídio praticado contra os povos indígenas nas Américas e a escravidão imposta aos filhos da África.

    Essa nova lei europeia, ditada pela crise econômica, “castiga como crime o livre movimento das pessoas”, que é um direito consagrado há anos por legislação internacional. Os trabalhadores estrangeiros sempre são os “bodes expiatórios” e culpados das crises “de um sistema que os usa enquanto necessita e logo os despeja na lata do lixo”.

    O manifesto conta com assinaturas de artistas, jornalistas, escritores, professores, sociólogos, antropólogos, advogados e historiadores da Argentina, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Cuba, Equador, Estados Unidos, Haiti, México, Nicarágua, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.

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