Vegetarianos famosos e suas receitas favoritas

Introdução ao livro "Vegetarianos famosos e suas Receitas Favoritas de Rynn Berry

É uma falácia acreditar que o hábito de comer carne em quantidade sempre esteve entre nós. Ao contrário, só recentemente alguns membros seletos da aristocracia ou elite endinheirada conseguiu arcar com os altos custos que implica matar animais para se alimentar. As famílias abonadas da próspera Holanda do século dezoito não podiam comprar carne mais de uma vez por semana. Até mesmo na França de meados do século dezenove, a pátria da haute cuisine, as classes baixas raramente comiam carne mais de uma vez por semana.

O mesmo acontecia em toda a Europa, como observou J.C. Furnas no livro The Americans:

As classes altas do norte da Europa pós-medieval, particularmente na Inglaterra, dispunham de uma boa quantidade de carne e peixe. Mas as classes baixas inglesas viviam basicamente de mingau de aveia e, ocasionalmente, leite; os escoceses e os irlandeses de batatas e leite.(1)

Tampouco a dieta da Europa medieval ou antigüidade clássica, era a orgia de comilança de carne que se imagina. De acordo com o Professor Robert Lopez em The Commercial Revolution of the Middle Ages, 950-1350:

Não é preciso dizer que o que estava disponível para o senhor não necessariamente estava disponível para o servo. Um fato é certo: na forma de pão, mingau ou papa, os cereais eram a base da alimentação humana, praticamente em toda parte, tanto na idade média quanto na antigüidade clássica, tanto assim que em latim baixo e alguns vernáculos tudo o mais é chamado de companaticum, “acompanhamento de pão”.(2)

Contudo, no século vinte, a aplicação de técnicas de produção de massa ao abate de animais colocou a carne ao alcance do trabalhador comum. Se a linha de montagem da fábrica de automóveis tornou possível ao trabalhador comum comprar um carro, a linha de montagem do açougue tornou-lhe possível comer carne em todas as refeições e viver, ou pelo menos comer, como um lorde.

O século vinte tem sido apregoado como “o século do Homem Comum”, mas o Homem Comum é o primeiro a se ofender quando alguém se refere a ele como “comum”. Na verdade, o Homem Comum reza secretamente na capela da Aristocracia e fica profundamente ofendido se alguém o confunde com um membro das classes altas. No vestir, no falar e acima de tudo na dieta, o Homem Comum se espelha nas classes altas.

Durante séculos as classes altas da sociedade ocidental fizeram o ato de comer carne parecer glamouroso e comme il faut. Segundo Thorstein Veblen, são as classes altas que ditam a moda no comer e nas boas maneiras. O gosto das classes altas no comer e no vestir encontra uma maneira de se infiltrar nas classes baixas da escala social.(3) Veblen chamou a tendência daqueles que se encontram em baixo na escala social de adotar os gostos das classes altas de “competição pecuniária” ou “consumo conspícuo”. Na teoria de Veblen, os caprichos culinários e relativos à costura das classes altas assumem a força de um imperativo moral que ganham momentum e inevitabilidade na medida em que se infiltram através da escala social.(3) Resistir a estas forças exige enorme coragem e força de caráter.

O que é notável acerca das pessoas em Vegetarianos Famosos e Suas Receitas Favoritas é que todas elas possuem esta coragem em alto grau. Não é coincidência que Imortais do calibre de Leonardo da Vinci, Shaw e Shelley não cedessem às forças contrárias ao vegetarianismo da sociedade de seus dias para praticarem este regime alimentar. Eram homens de caráter que não temiam desafiar os ditames da classe dirigente, mesmo que isso significasse atrair para si sua terrível cólera. Até certo ponto isto é verdadeiro com relação a todas as pessoas deste livro. Ao optarem por se tornar vegetarianas, deliberadamente destoaram da classe dirigente consumidora de carne. Enquanto a elite se empanturrava de carne, estes homens e mulheres extraordinários fizeram um esforço consciente para absterem-se de alimentos que por toda parte eram sinônimo de status e prestígio. (Mesmo no tempo de Leonardo, seu vegetarianismo era algo tão excêntrico que o tornou tão renomado por sua dieta sem carne quanto por ter pintado “A Última Ceia”). (5) De fato, sua disposição de zombar da sabedoria convencional e andar por si mesmos como artistas e pensadores reflete-se em sua escolha de uma dieta não ortodoxa.

Hoje em dia ser vegetarianismo requer um pouco menos de coragem. Sobretudo porque o clima moral e econômico é mais favorável do que na Moscou de Tolstoy, na Florença de Leonardo, na Boston de Alcott e Graham ou na Londres de Shelley, Salt e Shaw. Eles estavam cercados pelos detentores do poder, carnívoros socialmente proeminentes, que os olhavam de revés. Isto, contudo, não é dito para fazer pouco dos vegetarianos Contemporâneos deste livro. Não menos do que Tolstoy, Shaw ou Leonardo, a escolha de sua dieta revela resistência mental e uma fibra moral que sem dúvida contribuiu para seu sucesso. Mesmo o mais recente dos Contemporâneos a se converter o fez em uma época em que se tornar vegetariano significava nadar contra uma forte corrente de ceticismo e desaprovação. Se ultimamente a decisão de se tornar vegetariano perdeu metade de seu terror, isto se deve em grande parte ao exemplo dado pelos Contemporâneos Famosos.

A fama não é um fim em si mesmo e seria errado supervalorizá-la, e as pessoas neste livro foram selecionadas devido à sua fama porque na ‘mass mediacracia’ do ocidente o celebrado e o famoso se tornaram a atual aristocracia. (E como diz Veblen, as tendências no consumo de bens em uma sociedade são amplamente determinadas pelas classes dirigentes). São estas criaturas da mass media, que agora lançam o estilo da dieta, roupa e decoro—assim como faziam os guerreiros aristocratas da Europa feudal antes de serem desbancados por uma nova realeza de eruditos da TV, astros do rock, estrelas do cinema, jornalistas de primeira ordem, escritores populares e atletas heróis. 

Desperdício evidente, nos diz Veblen, é a maneira como o guerreiro aristocrata do passado demonstrava sua superioridade social.(6) Assim, desde que nada (menos que o canibalismo) poderia ser mais evidentemente um desperdício do que o abate de um veado por um naco de carne, ou matar um urso selvagem por um pedaço de bacon — pedaços escolhidos de carne se tornaram símbolos de status. Mas, tudo isso mudou quando o aristocrata guerreiro foi desbancado pela ‘mass mediacracia’ nos países ocidentais. A nova realeza de estrelas de cinema e estrelas da media que ela criou, deveu seu sucesso a artes mais civilizadas que a guerra e a caça. Gradualmente o uso de troféus animais como símbolo de sucesso social começa a perder seu brilho. Com o tempo, sem dúvida na medida em que mais e mais pessoas ingressaram no vegetarianismo, a necessidade de assegurar o status social ostentando tais símbolos bárbaros segue o mesmo caminho que a carne.

Antes de prosseguirmos, é preciso definir o que é vegetarianismo. A palavra “vegetariano” é, na verdade, um neologismo que foi cunhado na Inglaterra em 1847. Não deriva da palavra “vegetal” como poderíamos supor, mas do latim vegetus, que significa “vigoroso, vivo”. Há gradações e graus de vegetarianismo, mas para os propósitos desse livro, o vegetariano é definido como aquele que se abstém de carne de animais — seja ela de peixe, frango ou quadrúpedes em geral. À luz disso, comedores de peixe, frango ou moluscos são enfaticamente não-vegetarianos. 

Até onde sei, todos nesse livro são lacto-vegetarianos (que usam leite e lacticínios mas se abstêm de carne), ou vegans (que se recusam a consumir animais ou seus derivados tais como leite, queijo, iogurte, ovos etc.) Antes de 1847, os vegetarianos eram conhecidos como “pitagóricos”. De fato, a primeira esposa de Percy Shelley, Harriet Westbrooke, em uma carta para a Srta. Hitchmer, em 14 de março de 1872, escreveu: “Paramos de comer carne e adotamos o sistema pitagórico . . . estamos adorando e pensamos que é a melhor coisa do mundo”.

Os vegetarianos famosos desse livro classificam-se (não muito rigidamente) em três categorias — Imortais, Visionários e Contemporâneos. Os Imortais são notáveis por terem feito contribuições duradouras à vida cultural da raça, que serão lembradas enquanto durar a humanidade. São artistas, pensadores, escritores, estadistas e líderes espirituais em primeiro lugar e vegetarianos em segundo. Contudo, o vegetarianismo era uma característica essencial de suas vidas e eles defenderam seus princípios vegetarianos até o fim. Mas, de modo geral, os Imortais tenderam a ser menos auto-conscientes de seu vegetarianismo do que os Visionários. 

Enquanto os Visionários eram dados a refletir e teorizar sobre o vegetarianismo, os Imortais não ligavam a mínima para nutrição e eram vegetarianos porque achavam a idéia de comer carne repugnante. Desde que carregavam em suas costas o manto de Pitágoras tão casualmente como se tivessem nascido com ele, os Imortais nos oferecem uma antevisão de como se parecerão as gerações futuras, que praticarão seu vegetarianismo espontânea e instintivamente como se fosse impensável fazer de outro modo.

Por outro lado, os Visionários são notáveis por seus esforços para melhorar o homem reformando sua dieta. São os propagandistas e teóricos do vegetarianismo. Implícita em seus escritos e suas ações está a crença de que o homem é infinitamente aperfeiçoável e que ele pode chegar perto da perfeição purificando sua dieta. Um mundo melhor, uma Idade de Ouro, pode ser alcançada na terra através da reforma da dieta. Para isso, uma grande número de Visionários tentou descobrir o substituto perfeito da carne. E, nos substitutos da carne que eles criaram tais como tofu, sucrilhos, tempê, pão graham, manteiga de amendoim, missô ou carne de glúten, bem podemos argumentar que conseguiram. Os Visionários que não buscaram descobrir o substituto perfeito para a carne, como Esmé Wynne-Tyson, Bronson Alcott e Henry Salt, energicamente promoveram sua visão de uma utopia vegetariana.

O terceiro grupo, os Contemporâneos famosos, têm um charme especial para nós, porque diferentemente dos Imortais ou da maioria dos Visionários, são nossos contemporâneos — companheiros temporais na viagem para seja onde for na qual todos estamos embarcados. Eles respiram o mesmo ar, palmilham a mesma terra e comem os mesmos frutos da terra que nós. Mas, para parafrasear F. Scott Fitzgerald, são diferentes de você e de mim porque são famosos. Eles alcançaram fama tirando partido dos meios de comunicação de massa do século vinte — o rádio, o disco, a TV, a revista, o jornal moderno, o mercado de massa de livros, os filmes etc. Desde que, como mencionamos anteriormente, não há uma classe dirigente hereditária no ocidente hoje, os “Famosos” constituem a nova aristocracia de criadores de comportamento, que estão mudando a tendência da exploração dos animais para um etos mais vegetariano. Se a teoria de Veblen da competição pecuniária (7) está correta, a crescente tendência do vegetarianismo deve ser atribuída à influência de vegetarianos contemporâneos famosos como os perfilados nesse livro.

Agora uma palavra sobre os métodos que usei para chegar às receitas dos vinte e oito vegetarianismo do livro. No caso dos Contemporâneos, os métodos são completamente óbvios. Escrevi para cada um dos Contemporâneos e tive sorte porque 99% deles responderam entusiasticamente ao meu pedido de suas receitas favoritas. 
Contudo, com relação aos outros vegetarianos deste livro — os Imortais e muitos dos Visionários — tive que usar de muito sitzfleisch e grande engenhosidade para encontrar suas receitas. Sitzfleisch é o calo na bunda que o pesquisador desenvolve sentando em bibliotecas e procurando em tomos poeirentos. Nesse processo, a sorte é um fator que não deve ser muito desprezado. Ela teve um papel enorme em muitas de minhas pesquisas.

Por exemplo, considero como um golpe da sorte particularmente feliz ter conseguido as receitas favoritas de Henry Salt — mesmo que ele tenha falecido em 1939. Acontece que sua viúva — Catherine Salt, agora em seus noventa anos, estava viva e passando bem, vivendo em Surrey. Através do bom desempenho do testamenteiro literário de Salt, Jon Wynne-Tyson, consegui obter uma lista dos pratos favoritos de Salt através de Catherine Salt — de quem não há maior autoridade.

A sorte também me sorriu em meus esforços de descobrir as receitas favoritas de George Bernard Shaw. Depois que sua esposa Charlotte faleceu em 1943, ele contratou Alice Laden para ser sua governanta e cozinheira. Até a morte de Shaw, em 1950, a Srta. Laden ficou encarregada de preparar todas suas refeições vegetarianas. Em 1972, cerca de vinte e dois anos depois de sua morte, a Srta. Laden colaborou com o biógrafo de Shaw, R. J. Minney, para produzir George Bernard Shaw Vegetarian Cookbook (8) — uma coleção dos pratos favoritos de Shaw que a Srta. Laden costumava fazer-lhe. Com a permissão do editor extraí várias delas para este livro.

Não menos sorte tive quando chegou a vez de encontrar as receitas favoritas de Leonardo da Vinci. A história de como cheguei às receitas favoritas de Leonardo merece ser contada por inteiro. Certa manhã fui despertado por um telefonema de meu pai perguntando se eu tinha visto o Times daquela manhã, porque tinha um artigo sobre o vegetarianismo de Leonardo. O artigo intitulava-se “Era Leonardo Vegetariano? Leia e Saberá”(9); entretanto, a matéria falava principalmente de Leonard Beck, que havia sido especialista em coleções na divisão de livros raros da Biblioteca do Congresso por quarenta anos. A coleção de 4.000 volumes de livros de receitas exercia um especial fascínio sobre o Senhor Beck, que acreditava que livros de receitas são uma fonte inestimável de história social que foi grosseiramente desconsiderada pelos historiadores. Ele até mesmo escreveu um livro para ajudar a corrigir esse erro. Chamado The Two Loaf Givers, ele discorre acerca da coleção de livros de receitas da biblioteca. O livro mais antigo na coleção de receitas intitula-se De Honesta Voluptate (“Sobre o Epicurianismo Virtuoso”). Considerado pelos eruditos o primeiro livro de receitas moderno (10), De Honesta Voluptate foi escrito em 1475, por Bartolomeo Platina (1421-1481), um italiano ilustrado, humanitário e acadêmico, mais conhecido por seu Vitae Pontificum (Vidas dos Papas). Uma boa cópia da edição de 1487 do livro de receitas de Platina foi encontrada na biblioteca de Leonardo depois de sua morte. Sobre o livro de receitas de Platina o Sr. Beck é citado no artigo do Times dizendo: “Leonardo da Vinci não comia carne. Era vegetariano. Se você quiser saber o que ele comia, este é o livro”.

Mais adiante, o Sr. Beck escreveu que Leonardo possuía uma edição de 1487 de Platina em sua biblioteca. O Livro VII daquela cópia respondia às questões quanto aos pratos vegetarianos com os quais Leonardo se ‘alimentava e se tornou tão grande’. Infelizmente a referência de Leonardo às receitas vegetarianas de Platina nos manuscritos Windsor não permite ter certeza se ele se referia aos acréscimos de Platina ou aos originados com Martino”.(11) 

O capítulo sete do livro de receitas de Platino contém as receitas vegetarianas favoritas de Leonardo; portanto, escrevi ao Sr. Beck pedindo-lhe para me enviar fotocópias destas receitas. As receitas chegaram, e estavam todas em latim medieval. Para traduzi-las tive que recorrer ao latim da faculdade porque, até onde pude perceber, Platina nunca as traduziu para o inglês. Felizmente, mantive meu latim colocando-o em prática lendo poesia em latim todas as semanas. Minhas traduções dos pratos de Leonardo aparecem nas páginas de receitas que se seguem ao seu perfil biográfico.

Tive outro lance de sorte quando soube que Abigail May Alcott (esposa de Bronson e mãe de Louisa May) guardou um livro de receitas que continha algumas de suas receitas favoritas. Neste livro de receitas (era na verdade um caderno de anotações), Abigail colou recortes de jornal, anotou receitas de remédios caseiros e uma coleção de receitas vegetarianas. Este bloco de anotações estava escondido em um sótão da casa da família de Alcott em Walpole, New Hampshire, até ser descoberto em 1852. Mas, não foi senão cerca de 125 anos mais tarde que o pequeno livro de Abigail foi colocado diante do público em uma edição particular. Editado por Nancy Kohl e publicado pela Associação Louisa May Alcott, tem o título Abigail May Alcott’s Receipts and Simple Remedies (12). O livro de receitas original de Abigail encontra-se agora em exibição na Orchard House em Concord, Massachusetts, que foi a casa da família Alcott em Concord. Usei o “livro de receitas” de Abigail como fonte para as quatro receitas que aparecem após a descrição biográfica de Bronson Alcott.

A sorte estava do meu lado novamente quando chegou a vez de encontrar os pratos favoritos de John Harvey Kellog. Embora o Dr. Kellog tenha sido perito na cozinha e tenha escrito um livro de receitas que se tornou bestseller  quando ele recém saiu da faculdade de medicina, ele deixou a maior parte da tarefa de cozinhar para sua esposa Ella, que também era dietista no Battle Creek Sanatarium. Tive a sorte de me deparar com um livro de receitas (13) que a Sra. Kellog compilou em 1904. Ela escreveu seu livro de receitas em grande parte para promover as invenções de seu marido — cornflakes, café de cereal, flocos de trigo, manteiga de amendoim e de nozes, bife de glúten e leite de soja, para enumerar algumas. Escolhi as duas receitas de seu livro que mais combinam com as invenções de comida de Kellog.

Contudo, quando retrocedemos ao tempo anterior a Kellog, Shaw ou Alcott (Leonardo sendo uma singular exceção), livros e listas de receitas são difíceis de encontrar. Nenhum material do gênero nos chegou da empregada de Plutarco ou de Buda; nem receita alguma veio à luz proveniente da viúva de Percy Shelley. Consequentemente, tive de usar de muita engenhosidade e do já mencionado sitzfleisch para encontrar pratos favoritos para os vegetarianos famosos anteriores a Kellog (usando 1852, o ano do nascimento do Dr. John Harvey Kellog, como uma espécie de marcador de tempo). Não obstante, tive muita sorte a esse respeito também, pois em cada caso minhas incursões na literatura biográfica renderam referências para os pratos favoritos ou costumeiros de cada um dos Imortais em questão. 

Por exemplo, na vida de Tolstoy, seus dois grandes biógrafos, Simmons (14) e Troyat (15) referem-se explicitamente a seus pratos vegetarianos favoritos. Portanto, usei minha imaginação e meus dotes culinários (e peço perdão por me vangloriar disso) para tentar recriar estes pratos. Embora Tolstoy tivesse sido um corajoso soldado, pensador e escritor, não era criativo no comer. Dia após dia ele costumava comer os mesmos pratos — borscht vegetariano, soupe printanière e macarrão. Adaptei estes pratos para a cozinha moderna e dei-lhes um toque poético, como poderão ver. Adotei essencialmente o mesmo método com todos os Imortais, com exceção de Shaw e Leonardo. Usei os resultados de minhas pesquisas, minha intuição e receitas comparativas — antigas e modernas — para reconstruir os pratos. Quando sentia que elas exigiam, não hesitei em usar ingredientes modernos e fazer substituições anacrônicas. Em outras palavras, usei uma espécie de licença culinária poética para tornar estas receitas tão palatáveis quanto possível ao gosto moderno. Para esta liberdade clamei pela indulgência de Demétria, a Deusa da Gastronomia.

Todas as fontes biográficas para as receitas que foram atribuídas aos Imortais e aos Visionários pré-Kellog foram devidamente registradas nas notas de pé de página. A despeito do aparato erudito, as receitas não são floreios pedantes, e tencionam ser saboreadas e desfrutadas. O objetivo é mostrar que o vegetarianismo não é apenas uma causa moral, mas também um deleite para os sentidos. Afinal, é infinitamente mais gostoso e satisfatório comer pratos vegetarianos inofensivos do que nacos de carne, não importa o quão artificialmente condimentados e temperados possam ser; e espero que esse livro de certa forma demonstre isto.

A idéia de reconstruir pratos que foram os favoritos de pessoas famosas não é original minha. Shirley Grigson usou o mesmo recurso em seu livro Food With the Famous (16). Neste livro a Sra. Grigson recria os pratos favoritos de alguns europeus famosos dos séculos 17, 18 e 19, baseada em referências a pratos favoritos em seus escritos. 
Outro livro cujo método e abordagem é similar ao meu é o de M. F. K. Fisher (17). Revisando toda a literatura mundial procedente, Fisher selecionou referências a festas e jantares de trabalhos que vão da Bíblia à Gargântua e Pantagruel de Rabelais, das Viagens de Marco Polo aos Sete Pilares de Sabedoria de T.E. Lawrence e O Farol de Virginia Wolf. Here Let Us Feast é um excelente trabalho original tanto que se tornou um clássico literário bem como culinário desde sua primeira publicação em 1946.  Here Let Us Feast

Embora Here Let Us Feast possa ser classificado como um livro de receitas literário, Fisher não traduz qualquer passagem que citou nas receitas. Isso ficou para Linda Wolfe fazer em seu engenhoso livro de receitas The Literary Gourmet (18) que, embora não reconheça, parece ter um grande débito para com Here Let Us Feast. Como o livro de Fisher, este apresenta uma coletânea de passagens culinárias da literatura clássica, com a diferença que Wolfe as traduziu em receitas práticas. Do livro The Literary Gourmet de Linda Wolfe e de Dinner With Tom Jones de Lorna Sass (19) tirei a idéia de selecionar receitas de livros de receitas do período em que viveram os Imortais para dar mais autenticidade aos pratos que recriei a partir de referências textuais.

Mais próximo em espírito (e técnica) do meu livro é Dining With Marcel Proust À La Recherche du Temps Perdu (Em Busca do Tempo Perdido) (21).  (20) de Shirley King. Uma profissional completa na arte da cozinha que tinha um amor dedicado a Proust que durou toda sua vida, a Sra. King uniu sua habilidade na cozinha à sua imaginação para recriar os pratos a respeito dos quais Proust se entusiasma em sua pouco velada autobiografia

É interessante observar que as memórias de Proust se manifestam quando ele come um pedaço de Madeleine que ele mergulha em uma infusão de flores de limão e água quente. O fato de comer esta tortinha desperta-lhe associações e memórias com as quais os vários volumes de sua novela autobiográfica são planejados. O fato de Proust ter comido a madeleinemadeleine a grande proeza de memória proustiana poderia ter sido impensável. De certo modo os pratos que atribuí aos vegetarianos famosos, conquanto prazerosos como alimento quaborsch a la Tolstoy irá materializá-lo — mas os pratos adicionam um sabor aos perfis biográficos que de outro modo lhe faltariam.  mostra o quão intimamente comida e memória estão interligadas. Sem que ele comesse aquele decisivo pedaço de alimento, servem também para evocar a memória de vegetarianos famosos que as favoreceram a la Proust. Isto não quer dizer que abocanhar um pedaço de torta de ervilha ou beber leite de amêndoa irá evocar Leonardo, ou que tomar uma colher de

Rynn Berry

Vegetarianos Famosos e Suas Receitas Favoritas retrata vegetarianos famosos da Índia, do Japão, da China e do antigo Oriente Próximo, da Renascença e da Europa moderna, bem como da Grécia Clássica e de Roma. Em razão de os vegetarianos desse livro advirem de tão variado backgroud  étnico e cultural, muitos dos ingredientes dos pratos que lhes eram favoritos podem não ser familiares ao leitor. Para auxiliá-lo anexei um glossário no final do livro que oferece definições resumidas dos temperos e gêneros mais exóticos.

NOTAS 

1. J.C.Furnas, The Americans (New York: Putnam, 1967), p. 175. 
2. Robert S. Lopez, The Commercial Revolution of the Middle Ages, 950-1350 (Cambridge: Cambridge University Press, 1982), p. 37. 
3. Thorstein Veblen, The Theory of the Leisure Class (New York: New American Library, 1953), pp. 70, 138. 
4. Ibid, p. 163. 
5. K.R. Eissler, Leonardo da Vinci: Psychoanalytic Notes on the Enigma 
6. Veblen, Theory of the Leisure Class, pp. 131-64. 
7. Ibid, pp. 163. 
8. Alice Laden and R.J.Minney, The George Bernard Shaw Vegetarian Cookbook 
9. Barbara Gamarekian, “Leonardo Was A Vegetarian? Read On”, The New York Times, (February 25, 1972). 
10. Leonard N. Beck, “Praise is Due Bartolomeo Platina: A Note on the Librarian-Author of the First Cookbook”, Quarterly Journal of the Library of Congress (July, 1975), pp. 238-253.  11. Beck, A Note on the Author of the First Cookbook, p. 242. 
12. Abigail May Alcott, Abigail May Alcott’s Receipts and Simple Remedies, ed. Nancy Kohl (Concord: Nancy L. Kohl and The Louisa May Alcott Memorial Foundation, 1980). 
13. Ella Kellogg, Healthful Cookery (Battle Creek: 1904). 
14. Ernest J. Simmons, Leo Tolstoy (Boston: Little Brown, 1946). 
15. Henry Troyat, Tolstoy (New York: Dobleday, 1967). 
16. Shirley Grigson, Food With the Famous (New York: Atheneum, 1980). 
17. M. F. K. Fisher, Here Let Us Feast (New York: The Viking Press, 1946). 
18. Linda Wolfe, The Literary Gourmet (New York: Harmony Books, 1985). 
19. Lorna Sass, Dinner With Tom Jones  (New York: Metropolitan Museum of Art, 1977). 
20. Shirley King, Dinning With Marcel Proust (London: Thames and Hudson, 1979). 
21. Marcel Proust, Remembrance of Things Past, trans. C.K. Scott-Moncrieff (London: Chatto and Windus, 1955-6), I, pp. 58-62.  (London: Hogarth Press, 1962), pp. 70, 38. (New York: Taplinger, 1972).

Tradução: Marly Winckler

                  Rio de Janeiro, 1995
 

       

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