Veganismo vem ganhando adeptos

Domingo, hora do almoço. Eis o momento mais popular nas churrascarias. E como brasileiro adora carne. Entre porções de frango, porco e boi, o consumo per capita nacional ultrapassa 75 quilos por ano. De tão habituados a esse estilo de vida, nem dá para imaginar como seria abrir mão dessas delícias, certo? Pois saiba que a cada ano aumenta o número de pessoas que apostam no prazer longe da carne. Segundo pesquisa do Instituto Ipsos, 28% dos brasileiros “têm procurado comer menos carne”. É o segundo maior índice mundial, próximo ao canadense e maior que o britânico. Fica atrás apenas do registrado nos Estados Unidos, onde os hambúrgueres são uma das maiores fontes de doenças cardiovasculares e sentimento de culpa.

“Diabetes, hipertensão e colesterol são doenças que marcam a contemporaneidade. Deixar de consumir alimentos de origem animal e seus derivados auxilia em primeiro lugar na redução da ingestão de gorduras saturadas e colesterol, o que previne doenças como a obesidade e problemas cardíacos”, defende Yuko Ono, mestre em Ciências da Nutrição pela Loma Linda University, e professora de nutrição da UFPA.

Além de cuidado com a própria saúde, há outras razões que motivam tanta gente a mudar o que coloca no prato. Desde os 16 anos, a psicóloga Shaula Collyer abriu mão do bom e velho bife, adotando uma dieta de mariscos. Hoje, aos 32 anos, vegetariana há nove, radicalizou mais ainda seu modo de vida e aboliu o consumo de qualquer produto derivado de animais. “Tomei essa decisão depois de ler o livro ‘Animais, nossos irmãos’. Pela primeira vez ouvi dizer que não precisamos de nenhum tipo de carne para viver com saúde plena, que é desnecessário explorar, confinar, torturar e assassinar animais. Até então, eu nem pensava a respeito, pois parecia algo ‘inevitável, necessário à sobrevivência humana, a lei da natureza’, e tantas outras bobagens convenientes que aprendemos desde a infância”, diz.

AO EXTREMO

Essa filosofia de vida se chama veganismo, uma espécie de evolução do vegetarianismo. No Brasil, a maior comunidade do Orkut sobre o assunto reúne mais de 18 mil adeptos. Os veganos, além de não comerem carne, rejeitam qualquer produto que explore animais. Nada de couro, mel, penas, lã, seda, peles, ou cosméticos que usaram bichos em testes. “Comprar animais, nunca. Adotamos. Não há porque comprar um amigo, já que há tantos animais saudáveis que são assassinados diariamente pelo Centro de Zoonoses porque não há espaço para abrigá-los”, diz Collyer. “Não vamos a rodeios, vaquejadas, rinhas, touradas, circos com animais ou zoológicos”, completa Flávio Oliveira, 35 anos, bancário, vegano desde 2009, e participante do grupo Vegetarianos em Movimento, VEM.

Atualmente, o VEM, sediado em Belém, reúne 10 membros. Ativista, o grupo se dedica a promover eventos de conscientização sobre os males da exploração de animais. Além de atividades aos domingos, na Praça da República, colaboram com entidades de defesa de animais. “Entendo que posso sobreviver neste mundo sem ter que explorar, matar ou torturar outros animais, seja por necessidade ou prazer. O homem não tem o direito de rebaixar nenhum ser vivo e nem se sentir superior a nenhum deles”, sintetiza Rodrigo Briveira.

Além do respeito à vida animal, aspectos ambientais reforçam o discurso vegano. A lógica é matemática. “Para produzir cada quilo de soja, são necessários em média 2 mil litros de água. Por outro lado, para produzir cada quilo de carne bovina são necessários cerca de 43 mil litros de água”, contabiliza Sérgio Greif, biólogo da Unicamp e co-autor do livro “A Verdadeira Face da Experimentação Animal” e autor de “Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação”.

“A fome só existe porque cerca de 25% dos grãos cultivados no mundo são utilizados na alimentação do gado”, defende. “Pensar criticamente sobre nossa postura como consumidores é fundamental”.

Adotar o veganismo requer um bocado de informação. A mudança alimentar não deve ser feita de forma abrupta, mas tirar a carne do cardápio não representa qualquer dano à saúde.

“Recomenda-se uma mudança gradativa sob a orientação do nutricionista, introduzindo alimentos substitutos aos poucos. Se a mudança for feita de forma correta, realizando combinação de alimentos de origem vegetal que resulte no consumo de proteína completa, associado ao consumo de alimentos de outros grupos que fazem parte de uma dieta vegetariana, deixar de comer carne não acarretará em nenhum prejuízo para o funcionamento do corpo” diz a nutricionista Yuko Ono.

Há ainda quem argumente que o consumo de carne foi um passo fundamental na evolução da espécie humana, e que, portanto, eliminá-la da dieta seria um equívoco. “Atualmente, quando se analisa a constituição anatômica e fisiológica do sistema digestivo humano, em especial a dentição e a anatomia do intestino grosso, percebe-se que a alimentação cárnea não é a mais adequada para nós. O consumo da carne tem causado para a humanidade, no decorrer dos séculos, o aumento da incidência de doenças crônicas como obesidade, hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, doenças renais, câncer”.

Manter uma dieta vegana já parece não ser nenhum bicho de sete cabeças. A popularização do estilo de vida resultou no surgimento de um número cada vez maior de restaurantes e livros de receita verde. “Em Belém, há restaurantes como o Mãe Natureza, Govinda e Cantina Oásis”, enumera a nutricionista. Quanto ao receio de o custo do consumo de alimentos integrais e orgânicos pesar no orçamento, Yuko esclarece que o barato, em se tratando de saúde, pode sair caro.

“Em relação ao preço dos alimentos mais saudáveis, como por exemplo, os alimentos integrais, frutas, hortaliças, leguminosas, castanhas e nozes, são mais altos, de fato. Porém, se for analisar por um outro ângulo ou a longo prazo, pode se tornar mais econômico, pois uma alimentação saudável aliada a outros hábitos saudáveis previne uma série de doenças e dá um ganho enorme na qualidade de vida, evitando gastos médicos e principalmente com remédios, que em geral são ainda mais caros”. (Diário do Pará)

Fonte: Diário do Pará

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