Vamos ter de fazer todas as contas – Washington Novaes

Há poucas semanas, num evento sobre o Dia da Água, alguém se espantou com a informação de que produzir um quilo de carne bovina exige, ao longo de todo o ciclo de vida do boi, cerca de 15 mil litros de água. E que, se uma pessoa consome 200 gramas desse tipo de carne por dia, estará consumindo 3 mil litros de água. A eles devem ser somados os demais usos domésticos – chuveiro, sanitários, cozinha, etc. -, mais a água consumida na produção de energia elétrica para a casa, mais o consumo fora, no trabalho, nas construções, nos deslocamentos, em tudo. E não será exagero chegar ao consumo total de 4 mil litros diários por pessoa. A pessoa que se espantara perguntou então quanto uma pessoa consumiria ao longo de sua vida, se vivesse 70 anos. Seriam 4 mil multiplicados por 365 dias ou 1,44 milhão de litros por ano, e 100,8 milhões de litros em 70 anos, a média de vida brasileira.

Deveríamos, todos, acostumar a fazer contas como essas, num tempo em que se fala cada vez mais de crise da água, mudanças climáticas, insustentabilidade dos padrões de produção e consumo, além da capacidade de reposição da biosfera terrestre. E também para que nos habituemos a atribuir a quem gera – e não a toda a sociedade – os pesados custos que afetam recursos e serviços naturais. Será indispensável.

Essas contas podem variar muito segundo a fonte. O relatório Water for people, water for life 2002, da ONU, por exemplo, diz que, para suprir o consumo mínimo recomendável de 2.800 calorias diárias, cada pessoa precisará de mil metros cúbicos anuais de água, ou 1 milhão de litros (sem considerar, é claro, os demais usos). Por isso, 6,5 bilhões de pessoas no mundo precisariam de 6,5 trilhões de metros cúbicos de água. Ou 6,5 quatrilhões de litros por ano, só para sustentar o consumo de alimentos.

Talvez se diga que o Brasil é privilegiado em recursos hídricos, com sua disponibilidade de 48,3 mil metros cúbicos anuais de águas superficiais por habitante, fora as águas subterrâneas, que acrescentariam mais um terço disso. É verdade. A vazão média no território brasileiro chega a 180 mil metros cúbicos por segundo e a disponibilidade por habitante é 19 vezes superior à média mundial. Acontece, porém, que mais de 70% da disponibilidade brasileira está na região amazônica, que tem menos de 5% da população. E, segundo a Agência Nacional de Águas, todas as bacias hidrográficas, da Bahia ao extremo sul, estão em situação crítica, por causa de poluição, assoreamento ou conflitos entre usuários.

Portanto, é preciso ter cautela em todas as áreas. E uma das que mais exigem isso é exatamente a da produção de carnes. Em 2005, o abate de bovinos no País cresceu 7,8% e chegou a 30,2 milhões de cabeças; o de suínos, a 25,5 milhões de cabeças; o de aves, a 3,9 bilhões de animais (Agência Estado, 31/3). É possível fazer algumas contas: 30,2 milhões de bois, com peso médio de 250 quilos, somarão 7,55 bilhões de quilos; se apenas metade desse peso for considerado de carnes, serão 3,77 bilhões de quilos; que, multiplicados, cada um, por 15 mil litros de água, somarão 56,22 trilhões de litros necessários nos dois e meio ou três anos para os bois chegarem ao abate. No mínimo, 19 trilhões de litros por ano. Muita água. Fora a necessária para o peso restante de cada boi, não transformado em carne.

Estará disponível? Pode-se voltar à situação das bacias hidrográficas e considerar apenas o que nelas é despejado de esgotos sem tratamento. Cinqüenta e quatro por cento dos esgotos domésticos no Brasil são coletados, dizem as estatísticas. Isso significa esgotos de 100 milhões de pessoas, aproximadamente. À média de 200 litros diários por pessoa, serão 20 bilhões de litros de esgotos, dos quais apenas 20% passam por estações de tratamento. Dezesseis bilhões de litros são despejados “in natura” a cada dia nos rios e córregos. Mas os 4 bilhões de litros que passam pelas estações recebem apenas tratamento primário, que só retira 50% da carga orgânica. Os 50% restantes também vão para os rios, de onde sai a água para todos os usos. E se prevê que, na melhor das hipóteses, só em 2020 o déficit na coleta e no tratamento estará afastado, se forem investidos, a valores de hoje, R$ 188,4 bilhões, ou 0,45% do produto interno bruto (PIB) a cada ano. Por ora, estamos muito longe disso.

Também é preciso lembrar que, no consumo total de água, o setor doméstico responde por menos de 30%, enquanto à indústria cabem 18%. Mas o consumo humano continua crescendo, porque – como já se escreveu aqui – 110 milhões de pessoas se somaram à população urbana em 60 anos, metade das quais nas 23 regiões metropolitanas. Hoje, mais de 15% dos domicílios já são abastecidos unicamente por água de aqüíferos subterrâneos, diz o GeoBrasil, editado recentemente pela Agência Nacional de Águas, Ministério do Meio Ambiente e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Em certas áreas (Paulínia, São Paulo, por exemplo), muito proximamente será preciso recorrer ao reúso de água de esgotos tratada – como adverte estudo do professor Enéas Salatti. Não haverá outra opção.

Com a expansão das culturas voltadas para a exportação de carnes, com o avanço das culturas de cana (etanol e açúcar), com a demanda crescente por grãos, com o consumo progressivo nas cidades, não é difícil prever que o consumo total crescerá, que os conflitos pelo uso tenderão a se multiplicar, que a poluição provavelmente se agravará – a menos que se consiga avançar muito no gerenciamento por bacias hidrográficas e na cobrança por todos os usos. Além dos programas de conservação e redução do desperdício.

É preciso continuar fazendo contas. E dar conseqüência a elas.

Washington Novaes é jornalista. E-mail: wlrnovaes@uol.com.br

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