Vamos esquecer

 

Tanto o preço do açúcar quanto o da soja e de outras commodities está, agora, vinculado às variações do preço do petróleo. Isto promete ficar interessante. Por enquanto vamos nos calar sobre a emissão de CO2 dos caminhões brasileiros na viagem ao porto –  percorrendo distâncias que chegam, às vezes, a dois – até três – mil quilômetros – e dos navios que cruzam os oceanos mundiais. Ou vamos nos calar sobre as queimadas em 60% da área plantada com cana-de-açúcar, no estado de São Paulo, para facilitar a colheita? Então, vamos esquecer também que apenas nos países do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia) já há 30 milhões de hectares em processo de desertificação.

E, por fim, vamos esquecer que no Maranhão, por exemplo, foram consumidos, em média, 509,38 kg/ha de agrotóxicos e adubos químicos na safra agrícola de 2005/2006. Ou seja, energia – seja ela originária de petróleo ou não. E ainda só nesse estado foram consumidas, nessa mesma safra, 189.385 toneladas de adubos químicos e agrotóxicos.

Na euforia do biodiesel será necessário, principalmente, que aprendamos a esquecer.

 

Exatamente agora está sendo lançado, no Brasil, o livro sobre soja ‘Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano.’ Hesitei muito se, nessa edição em português, devíamos incluir uma carta minha, datada em 7 de fevereiro de 2004, para Altemir Tortelli, Coordenador Geral da Fetraf. Esta carta pessoal tratava de ‘soja e biodiesel’ e, com a publicação, se tornaria uma ‘Carta Aberta’. Inesperadamente, esta epístola de repente se torna politicamente relevante e controversa. Esta semana, o Ministério do Desenvolvimento Agrário encomendou o livro. Justamente eles defendem a inclusão do biodiesel na agricultura familiar. Eles falam de ‘energia social’ e lutam para que a agroindústria – no seu empenho pela construção de fábricas de biodiesel – garanta que 30% do fornecimento de matéria-prima venha da agricultura familiar. Isto é até estabelecido na legislação. Inesperadamente, o capítulo que – nestes tempos acalorados de CO2 – chama mais atenção é esta ponderação crítica sobre a mais nova onda econômica. Os agricultores se reúnem e pegam o livro. Ler livros ainda não faz parte de sua cultura. De todo o Brasil chegam pedidos, dos círculos mais diversos: professores da faculdade de agronomia de Campinas, vegetarianos, de Florianópolis, membros do movimento contra transgênicos, de Belém, sindicalistas de Santa Catarina.

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