Uma livraria de sonho

Fernanda Zaffari

No meio dos Campos de Cima da Serra tem uma livraria. E que livraria.

Desde março, a avenida central de São Francisco de Paula ganhou uma livraria que representa muito mais do que uma loja para uma cidade de pouco mais de 20 mil habitantes. O prédio tornou-se atração turística, galeria de exposições, salão de eventos e centro cultural. No futuro, ainda será mais. Há uma casa de chá para ser aberta e um projeto de cinema e teatro para o terreno ao lado. Tudo obra de uma só pessoa: Luciana Olga Soares, 63 anos.

A pergunta é: o que passa pela cabeça de uma professora aposentada de História para fazer tamanho investimento (são 2 mil metros quadrados) com remotas chances de um retorno financeiro à altura?

– Fazer história.

Sonha com o futuro a nova empreendedora cultural do interior do Rio Grande do Sul. Luciana idealizou o projeto e bancou-o sozinha. Herdeira de grandes pecuaristas, não é casada e não tem filhos. Desde que se aposentou (era professora em Porto Alegre, onde nasceu, e também em São Chico), abriu uma pequena livraria. O gosto pela leitura foi também herança do pai, dono de uma biblioteca de 500 volumes.

– Um dia me dei conta de que ou a gente crescia ou a gente fechava. Afinal, a Cultura (grupo nacional de livrarias) está aí.

Na cidade, a 112 quilômetros de Porto Alegre, ela optou pela expansão, fazendo sua própria Cultura, seu Multipalco. Há quatro anos, comprou o terreno e rabiscou o projeto, inicialmente pensado para ocupar 400 metros quadrados. Durante a construção, a parede poderia estar pronta, mas, se não fosse do agrado de Luciana, ia tudo abaixo.

Há de tudo nas prateleiras, inclusive os escritores russos, sua preferência. A sessão de Bíblias ocupa quatro estantes com exemplares em todas as línguas, até tupi-guarani.

– São Chico já foi um lugar de luxo, famílias que tinham dinheiro imitavam a aristocracia rural européia. Havia saraus e concertos – relembra Luciana. – Isso deixou um rastro. Eu poderia estar viajando pelo mundo. Mas para quê? Para chegar em qualquer lugar e ver uma pessoa tomando Coca-Cola?

Personalidade original, longe de qualquer padrão, muito menos o da aristocracia rural gaúcha, Luciana não é de compreensão imediata. O que a torna ainda mais especial. Na cidade, ela sabe e brinca a respeito, chegam a chamá-la de louca devido à livraria e sua dedicação aos animais. Luciana não come carne, por isso ainda não abriu a casa de chá. Quer um fornecedor que só venda comidas saudáveis. Mora na casa da fazenda, a 18 quilômetros do centro, com os 23 cachorros vira-latas que recolheu das ruas. Não tem rádio e não tem televisão. Inclusive, ressente-se da invenção:

– Éramos muito mais felizes sem. Quando meus pais eram vivos, líamos, dançávamos, brincávamos e conversávamos. Fiquei traumatizada com a chegada da TV.

A preocupação é tamanha com os animais que a seção infantil da livraria não vende obras nas quais eles sejam retratados presos. Luciana já arrendou grande parte do campo da família e estuda um projeto para o que restou. Não quer mais criar gado. A jaqueta de couro que usa é antiga. Não compra mais nada que seja de pele de animal. Na livraria, a água é reaproveitada e parte da energia é solar.

Mais detalhes: os funcionários, todos da comunidade, assim como os trabalhadores que ergueram o prédio, possuem dois uniformes – o diário e o social. A casa tem piso aquecido e banheiros confortáveis. O banheiro das crianças, com pia e vaso para a altura dos pequenos. Há namoradeiras para quem quiser ler, e CDs à venda. No pátio, ela montou uma sala de eventos – réplica do primeiro banco comercial da cidade, decorada com imensas fotos da antiga São Francisco.

Para conhecedores dessas peculiaridades, talvez o nome da livraria não precise justificativa: Livraria Miragem.

Fonte: Zero Hora

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